Contendo os três primeiros filmes do diretor Michael Haneke, a trilogia ‘Glacial’ traz ao espectador temas pouco afáveis e de difícil trato social. Haneke traz temas como suicídio, assassinato, incomunicabilidade social, a crueldade do acaso e etc. O austríaco debate com seu espectador sobre estes temas, sem economizar na utilização de um conteúdo extremamente perturbador. A trilogia glacial viria a ser uma amostra do que o diretor traria anos mais tarde em sua filmografia. Baseado nas críticas, faremos uma análise dos três filmes contidos aqui.
  
‘O Sétimo Continente'(Michael Haneke, 1989)

Em seu
primeiro filme(o diretor já havia feito algumas produções para a televisão),
Michael Haneke não poupa esforços para colocar em tela aquilo que o deixa
intrigado. Haneke já disse em entrevistas que a razão de algumas pessoas agirem
ou fazerem determinadas coisas que parecem incompreensíveis para os outros é o
que lhe move. Em ‘O Sétimo Continente’, o diretor utiliza os 104 minutos de
duração do longa para mostrar exatamente isto. Um filme cru, sem concessões,
que, certamente, não é palatável para todos os públicos.

O filme
introduz o espectador a vida de um casal, Anna e Georg Schober, e sua filha
Evi. A família parece viver uma vida tranquila em sua própria monotonia. Georg
e Anna têm empregos confortáveis, vivem em uma vida estável e com dinheiro
suficiente para propiciar a sua filha a melhor vida possível. Haneke parece nos
colocar na vida de mais uma família comum. Entretanto, nem tudo é o que parece.
A vida da família gradualmente vai se degenerando de forma silenciosa. E o
desejo de alterar a forma como vivem, de realizar uma viagem para longe de tudo
a que estão acostumados, passa a ser uma coisa cada vez mais tangível.
A atmosfera
do filme é densa desde o primeiro minuto de exibição. O ritmo proposto pelo
diretor é constante, mas sem se fazer ágil. Cada fragmento do cotidiano da
família é explorado a exaustão. Uma refeição, uma ida ao lava rápido, a vida
escolar, no trabalho. Enfim, seja qual for a situação que os integrantes da
família passem, sempre a câmera os acompanha.
A vida
daquele casal parece acontecer sem que eles estejam cientes disso, onde ambos
parecem alheios a tudo que os cercam, inclusive sua filha. Temos na figura de
Evi a verdadeira vítima da situação. A menina é completamente negligenciada
psicologicamente pelos pais. Em certo momento a menina se finge de cega na
escola porque havia visto que os acometidos daquela patologia ganhavam uma
atenção especial. O grito de socorro da menina obviamente não é escutado pelos
pais, incapazes de escutar seus próprios pensamentos, e o martírio da menina
continua. Talvez a cena mais perturbadora do filme aconteça no lava rápido. Em
meio à lavagem de seu carro, temos Georg e Anna sentados nos bancos da frente
do carro, enquanto Evi se encontra sozinha na parte traseira. Ali os olhares
dos pais são tão distantes, seus rostos tão ausentes de expressão, que a
sensação é que Evi está na verdade sozinha no carro. É exatamente neste momento
que o espectador se dá conta que há algo muito errado acontecendo naquele
ambiente.

A direção do
filme prioriza sempre em mostrar os pequenos detalhes presentes em cada cenário
explorado. Na primeira hora de filme, mal vemos os rostos de nossos
personagens. A câmera faz dos objetos os elementos principais do filme. E isso
não é um mero capricho de Haneke. Veremos nos 20 minutos finais de filme o
porquê da direção focar tanto nos objetos e qual a importância preponderante
destes para o destino daquelas pessoas.
O estilo de
filmagem do diretor austríaco também se faz totalmente visceral. Não teremos
aqui a utilização de uma trilha sonora, os comportamentos dos personagens
jamais vão ser romantizados e, sem dúvida, o fator mais importante do cinema de
Haneke, não teremos explicações para os atos que se seguem. É importante
capturar estes três pontos centrais do cinema do diretor para poder absorver o
filme como um todo.

É importante
fazer uma menção rápida ao roteiro. Aqui, também como habitual de seu cinema,
Haneke não facilitará para o espectador. É preciso estar completamente inserido
na realidade do filme para não perder os detalhes sutis que a história oferece.
Raramente teremos resoluções comuns para determinados conflitos. Sendo
importante salientar também que nas mãos de outro diretor jamais teríamos
sucesso em colocar isto em tela.
O elenco está
discreto no filme. E isso é importante para a construção do que o diretor tem e
mente. Não há espaço para destaques de atuações inseridas ali. Os atores, na
maior parte do filme, não têm diálogos complexos e a câmera jamais deixa que
eles demonstrem com suas feições algum outro sentimento do personagem. Quem
mais tem espaço para, no mínimo, destilar suas expressões em tela é a
personagem de Evi(Leni Tanzer). No entanto, para o
que foi proposto, Birgit Doll(Anna) e Dieter Berner(Georg) exerceram com competência seus personagens.

A parte final
do filme jamais deixa claro o que levou a família a cometer um ato tão extremo.
Porém, seus últimos passos nos dão diretrizes sobre as possíveis causas. O ódio
que eles têm dos objetos que os cercam, principalmente Georg, nos remetem ao
esforço que foi necessário para obter todos aqueles bens. O quanto a vida de
aparências em seu trabalho, com seus amigos e suas famílias destruíram tudo de
bom que existia em suas essências.
Adentrar ao
cotidiano maçante e mortal da família Schober é um caminho sem volta. O filme
não traz em sua cerne o objetivo de revelar as causas da ruína da família. Não,
muito pelo contrário. Aqui Haneke parece nos fazer uma pergunta desesperada,
levantando no espectador mais dúvidas. No entanto, pelo menos temos a certeza
de que a viagem que Georg e Anna tanto planejaram tomou forma. Os Schober
finalmente se mudaram. Uma viagem sem volta para ‘O Sétimo Continente’.
‘O Vídeo de Benny'(Michael Haneke, 1992)

Contendo uma
aura hipnotizante, ‘O Vídeo de Benny’ é um filme que impede seu espectador de
sair de frente da tela. Seu conteúdo perturbador apenas evidencia o quanto seus
realizadores foram felizes em conceber este filme. Exploraremos os âmbitos da
apatia, falta de ajuste social, narcisismo e rompimento com a realidade. Tudo
exposto em seu determinismo mais frio possível.

Adentraremos
ao ambiente nada aconchegante, dizendo no quesito psicológico, da vida de
Benny, um garoto de 14 anos, viciado em televisão e na produção de seus
próprios vídeos amadores. Benny, a priori, aparenta ser um indivíduo normal na
escola que frequenta, tendo relacionamentos comuns com seus colegas. Seus pais
procuram lhe dar sempre o melhor, apesar de estarem um pouco ausentes da rotina
do garoto.

O vício na
televisão que aparentava ser um distúrbio leve, comum na vida de um
adolescente, toma proporções impossíveis de se mensurar quando Benny arranja
uma nova amiga, a leva para sua casa, enquanto seus pais estão ausentes, e a
mata com extrema frieza e crueldade. O filme então ganha forma e trará ao
espectador as implicações do ato e o que aquilo causa no ambiente em que vive.

O filme é
extremamente cruel em todos os seus desdobramentos. São denunciadas ao seu
público os males que a nossa sociedade propicia com seus avanços, seja ele em
qual âmbito for. Benny é uma vítima, talvez inocente, de uma realidade contida
na forma de televisão que banaliza a morte, o convívio social e a violência
como uma forma geral. O garoto não sabe o que determinado ato seu vai causar no
ambiente ao seu redor, todo o vislumbre de realidade nele é dado através da
televisão. Ele acaba rompendo com a realidade do dia a dia, não de uma forma
que o psicótico o faz, mas, sim, como uma quebra forçada, incumbida a ele pelo
ambiente pouco afável de seu quarto, local a que fica recluso.

Diferente de
‘Mulheres Diabólicas’(1995), clássico de Claude Chabrol, onde a personagem de
Sophie La Bonne, interpretada por Sandrine Bonnaire, nutre um relacionamento passivo com a televisão, vendo nela uma forma
de escapar de sua vida espedaçada, aqui Benny é ativo no seu relacionamento com
o objeto. Ele, na forma da gravação de vídeos e o seu manuseio, podendo pausar,
avançar ou retroceder, arruma uma forma de controle e criação de determinado
ambiente, dando ao garoto um status de onisciência àquilo.
Não teremos
na figura de Benny um legítimo psicopata. Não, essa não é a mensagem que o
filme traz ao espectador. O que temos em Benny é um indivíduo alheio a tudo que
o cerca, não sendo capaz de expressar qualquer forma de sentimento. Entretanto,
o modo de como o garoto age após o assassinato traduz uma forma de pedido de
socorro da situação agora inerente ao seu ser. Seu grito silencioso de
desespero jamais é direcionado com arrependimento ao ato que cometeu, mas da
falta de sensações que este lhe trouxera.

Temos também
implícita no filme uma crítica à cultura do narcisismo, impelindo nos
indivíduos, como um todo, uma contemplação de si próprio exacerbada. Conforme a
estrutura psicológica de Benny vai se degenerando, temos um forte vínculo do
garoto com a imagem de seu próprio corpo tatuado nas imagens que faz com sua
câmera.
O modo como o
filme é feito somente aumenta a imersão do espectador àquele mundo
completamente deturpado. A direção de Michael Haneke, também responsável pelo
roteiro, busca sempre dar determinada substância ao que está contando por meio
da exposição constante dos objetos que permeiam os ambientes explorados. Haneke
também escolhe por impactar seu público logo na abertura do filme. Antes de
qualquer tipo de apresentação de créditos ou distribuidoras do filme, somos
apresentados a uma cena real de um abatimento de um porco. Tudo gravado pela
lente da câmera de Benny. A cena é brutal, sem nenhum tipo concessão, dando uma
amostra do que vamos encarar pela frente. A cena com o porco é repetida
diversas vezes durante o filme, ficando tatuado permanentemente em quem as
assiste.

Haneke,
diferente de seu filme anterior, consegue dar espaço e conteúdo para os atores
efetuarem suas atuações. O diretor sempre vai prezar pela exposição dos objetos
da vida daquelas pessoas, mas também escolhe por manter em vários momentos a
câmera fechada nos rostos dos atores, seja para um diálogo comum ou mesmo para
captar suas feições diante dos horrores da câmera de Benny. Porém, o grande
destaque de sua direção é a cena do assassinato. O diretor registra todo o
desenrolar dos acontecimentos por meio das imagens captadas pela câmera do
garoto, nos dando um panorama limitado, mas, ao mesmo tempo, assustador.
 Já entrando
no campo das atuações, teremos como grande destaque Ulrich Mühe, interpretando o pai do garoto. Muhe consegue nos propiciar uma atuação
distante em seu início, refletindo a incapacidade de seu personagem de captar
as mensagens que o ambiente lhe dava. Conforme a trama avança, o ator vai
aumentando a intensidade de sua interpretação, indo da inocência, até o
corrente desespero silencioso nas cenas finais. Arno Frisch protagoniza o filme como Benny. Frisch também nos dá uma atuação
impecável, partindo sempre de uma frieza incorrigível para levar seu personagem.
Compondo o elenco temos como Angela Winkler em uma performance segura como a mãe de Benny. E a grandeza das
atuações é uma marca recorrente dos filmes dirigidos por Michael Haneke, sempre
conseguindo tirar o melhor de seus atores.

Vale destacar
na trama do filme também a inabilidade que acaba regendo o modo como os pais de
Benny conduzem toda a situação. Entraremos em uma série de debates morais sobre
os limites do amor e as liberdades que são dadas ao garoto. Haneke vai
questionar até onde se pode confiar em um ser humano, mesmo que este seja seu
filho, para assuntos de uma complexidade exacerbada. O conflito que os
personagens do filme passam, causam determinada comoção em quem as assiste.
O sempre
pouco palatável cinema de Michael Haneke talvez encontre neste filme uma de
suas obras mais indigestas de toda sua brilhante filmografia. A ambiguidade do
final de ‘O Vídeo de Benny’ traz duas perspectivas diferentes, sendo uma
pessimista e a outra completamente aterradora. Um filme que se aloca no gênero
de drama, mas que facilmente assusta muito mais que a grande maioria do gênero
de horror. E não pelo seu material gráfico, mas por seu conteúdo psicológico
demasiadamente sombrio.

’71 Fragmentos de Uma Cronologia do Acaso'(Michael Haneke, 1994)

Compondo um
quadro do caminho de determinadas pessoas que se cruzam em uma situação
extrema, ’71 Fragmentos de Uma Cronologia do Acaso’ é um filme tão frio quanto
à realidade que nos cerca. Michael Haneke escolhe por elucidar o quão perverso
pode ser o acaso. Além de fazer um paralelo do distanciamento que o ser humano
acaba tendo com os fatos que acontecem a sua volta. E, como o próprio título
sugere, um filme que vai te oferecer pequenos fragmentos da vida de quatro
pessoas condenadas à ruína.

O filme
começa com a mensagem de que em uma determinada data, um jovem adentrou a um banco
e abriu fogo contra os que estavam presentes, matando três pessoas e cometendo
o suicídio logo depois. Após isto, somos convidados a acompanhar a vida de
quatro pessoas sem ligação nenhuma com a outra. Temos um menino imigrante,
lutando para sobreviver ao ambiente hostil que o cerca, uma mulher que nutre
certa desilusão com sua vida e resolve, junto com seu marido, adotar uma
menina, um jovem de 19 anos que vive uma vida comum e um senhor de idade envolto
a uma solidão inexorável. Em meio aos trechos do cotidiano dos personagens,
vamos sendo apresentados a diversas notícias de jornais na televisão relatando
uma rotina de horrores pelo mundo.

A escolha
feita pelo filme é de fazer uma abordagem desconexa na vida dos personagens,
pegando vários pequenos pontos de suas vidas e condensando isso em 100 minutos
de exibição. Vamos ter inúmeras cenas aleatórias dispostas em tela, como um simples
treino de pingue-pongue e a decisão de roubar uma revista infantil. Pontos sem
nenhuma relevância para alguns, mas com extrema importância para compreender a
mensagem que o filme nutre.

É importante
para o filme expor o quanto a vida é formada de pequenos momentos. E como estes
momentos regem e caracterizam a nossa essência. Não teremos aqui uma análise examinando
a composição de cada persona dos personagens. Não. A proposta do filme é
exatamente a de passar apenas um esquete de suas personalidades.

Fica difícil
separar segmentos da produção do filme quando se trata de uma obra de Michael
Haneke. Aqui, como em toda a filmografia do diretor, o filme é completamente
dele. Nenhum detalhe foge aos seus dedos. A direção e roteiro são concebidos
por ele. Seu roteiro tem sempre como objetivo o de não deixar o que é passado
exatamente claro ao espectador. Cabe a este captar o que cada cena e diálogo
têm a oferecer. Sua direção é competente como sempre, conseguindo pelo conteúdo
visceral do que é exposto criar uma atmosfera sombria. O cineasta descarta
completamente o uso de uma trilha sonora para impelir sentimentos em seu
espectador. O que espanta este é a densidade das cenas do filme. O uso do
silêncio dos personagens também é pontuado de maneira genial por Haneke. Em
muitas cenas tudo o que é oferecido ao espectador é o som ambiente.

Teremos mais
uma vez, como é corrente no cinema do austríaco, o elenco sendo colocado sob
uma penumbra. Não há espaço para alguém se destacar no filme, a câmera trabalha
quase que todo o filme longe dos atores, explorando mais uma conversa em grupo
ou o ambiente que cerca os personagens.

Haneke ainda
faz uma sutil provocação ao seu público. Durante todo o filme temos, em meio ao
amontoado de pedaços das vidas dos personagens, o uso incessante de jornais de
televisão dando alguma notícia trágica. A figura da televisão causa um
distanciamento da tragédia em quem a assiste. Imaginamos que aquilo é uma
espécie de mundo paralelo, que aquelas situações nunca vão acontecer conosco. E
é no final do filme que fica claro o porquê daquela insistência em mostrar as
cenas do noticiário. Nos cinco minutos finais de filme ficamos frente às
notícias dadas, entre elas o evento trágico ao qual os personagens foram
submetidos, mostrando o quão alheios estamos ao mundo que nos cerca. Um
processo de desumanização contínuo que só é intensificado com a banalização da
violência. A denúncia do cineasta feita em 1994 vem ganhando contornos
assustadores na nossa realidade atual. A perda da realidade e de nossa essência
acaba sendo um desserviço à espécie humana. Vivemos uma “mutação social”
irreversível.

A experiência
de assistir a este filme pode não ser das melhores. Pode ser aterradora em seus
pontos mais evidentes. Mas, no entanto, necessária. São filmes com esse grau de
intensidade na própria monotonia do cotidiano que fazem com que a sétima arte
seja um modelo ideal para expor alguns pontos complexos da essência do ser
humano. Temos aqui um filme muito próximo de ‘Polytechnique’(2009) na
construção das histórias por trás de um evento de grandes proporções, revelando
a importância de cada indivíduo ali presente. A crueldade com que o acaso tece
seus caminhos e a impossibilidade de desvios já havia sido contada no cinema
com ‘Sorte Cega’(1987), clássico de Krzysztof Kieslowski. Porém, em ’71 Fragmentos de Uma Cronologia do Acaso’,
Haneke aprofunda os temas criados pelo polonês, em 1987, dando uma visão mais
fria dos aspectos abordados.