Iremos explorar, neste Top10, filmes que mostrem as condições que os seres humanos são expostos em um cenário de guerra e até onde esta pode afetar seus comportamentos, fazendo com que estes ajam de maneira deturpada. Foram considerados para esta lista filmes que, independente de sua qualidade, tragam ambientes e indivíduos em suas condições extremas e como isso molda suas personalidades.

 

10º – Underground – Mentiras de Guerra (Emir Kusturica, 1987)

Cheio de simbolismos, usando do tom satírico e sem desprezar a carga dramática, ‘Underground’ consegue ser suave e engraçado mesmo quando escolhe abordar temas complexos. Um estudo sobre o comportamento humano em tempos de exacerbação social, sem, no entanto, perder o aspecto cômico da tragédia.

O filme vai passar pela vida de dois amigos, Marko e Crni, investigando suas atitudes e a implicação destas nas vidas de outras pessoas. A história começa a ser contada no início da eclosão da Segunda Guerra Mundial e vai até a morte dos dois, na década de 1990, sempre tendo como pano de fundo o país que estão inseridos, a finada Iugoslávia.

Marko e Crni se caracterizam como verdadeiros golpistas na cidade em que vivem no começo do filme, aproveitando-se do mercado negro para terem uma vida de confortos inconcebíveis para o resto das pessoas daquele lugar. Extrovertidos e egocêntricos, os dois têm como natureza se meter em confusões diárias, desafiando autoridades locais e arrumando brigas sem propósitos em bares da cidade. A história começa a alçar novos rumos quando Crni se apaixona por uma atriz do teatro local, a exuberante e desajustada Natalija. Inicialmente tendo que disputá-la com um oficial do exército alemão, Crni acaba descobrindo que seu verdadeiro oponente pelo amor da mulher será travado com seu fiel amigo Marko, surgindo neste ponto um triângulo amoroso.

 

Os conflitos gerados pelo triângulo amoroso vão ser preponderantes para o desenvolvimento da história e dos personagens ali inseridos. Crni acaba se tornando um alvo importante do exército alemão e passa a ter que viver escondido em um subterrâneo junto com dezenas de pessoas, sem poder retornar a vida que acontece acima dele. Seu amigo Marko vive normalmente no mundo exterior, acaba casando-se com Natalija e, por este motivo, esconde uma verdade das pessoas que vivem no subterrâneo que iria mudar completamente aquele cenário.

 

É em meio à vida subterrânea daquelas pessoas que o filme constrói seu pilar mais forte. A limitação territorial imposta às pessoas do lugar não impedem que estes criem um laço inexorável entre eles, desenvolvendo uma cultura única ao local. Vem exatamente desta vida subterrânea que surge o título do filme. Fazendo um jogo de palavras, o ‘Underground’ do título se encaixa na tradução literal: subterrâneo. Porém, encaixa-se também no uso cultural da palavra, para designar um estilo de cultura fora do comum. Em ambos os casos, servindo perfeitamente para o cenário presente no filme.
A direção de Emir Kusturica escolhe por dar um tom surreal ao filme em inúmeros momentos, aliviando a dramaticidade presente nas situações retratadas. Seu estilo de filmagem prima pela carga frenética presente em cada cena, utilizando o auxílio da trilha sonora para criar algo único. Kusturica também faz o roteiro, a partir da história de Dusan Kovacevic.
O trio principal do elenco está incrível. Temos Predrag ‘Miki’ Manojlovic(Marko), Lazar Ristovski(Crni) e Mirjana Jokovic(Natalija). Aqui é impossível destacar um dos três, cada performance completa a outra. A química presente quando o triângulo está em cena propicia ao filme momentos mágicos.

 

‘Underground’ é um filme que se enquadra em vários gêneros, utilizando sempre de um tom ambivalente para alavancar sua história. É interessante ver o quanto uma guerra pode mudar os construtos de uma pessoa, alterando completamente sua essência. Não se enganem, o filme é longo, tem 170 minutos e estes demoram a passar. Entretanto, a sensação após o término da jornada empreendida pelos personagens e pelo espectador é especial.
Ponto de Extremos: Veremos como a guerra acaba mudando a forma como a amizade dos amigos é constituída, onde sentimentos como inveja e raiva são aflorados colocando diversas vidas em perigo.

 

9º – Além da Linha Vermelha (Terrence Malick, 1998)

Terrence
Malick cria aqui um filme sensível, por vezes poético, sobre os conflitos
humanos e psicológicos encontrados em uma guerra. Diferente de qualquer outro
filme do gênero, Malick explora também os efeitos naturais do evento. Temos
aqui a natureza como algo vivo, pulsante, durante as quase três horas de
duração do filme. ‘Além da Linha Vermelha’ talvez não seja o melhor filme sobre
guerras já feito, mas é, sem dúvida, o mais visceral presente no gênero.

 

O foco do
filme, inspirado na biografia de James Jones, é revelar a vida, em meio a uma
batalha durante a 2ª guerra mundial, de inúmeros combatentes de determinado
exército. São expostos no longa os conflitos psicológicos encontrados por
estes. Sejam eles quais forem, o brilho da história se encontra em não dar foco
em determinado conflito de determinado personagem. Aqui todos tem importância
igual, desde um soldado confuso sobre seu papel no mundo, até um comandante com
sua vida focada simplesmente na guerra, em vencê-la.

 

Um dos
maiores acertos do filme é alocar de maneira poética o que se passa na cabeça
de cada um inserido naquele combate. Suas dúvidas e posições sobre aquele
evento são colocadas por Malick de maneira genial. Seus posicionamentos são
contados de maneira narrativa no filme, indiferentemente de qual cena esteja
sendo mostrada. As situações contadas são mostradas sem pressa, desenvolvendo o
máximo possível o quadro, seja ele dos seres humanos ou da natureza ali
presente.
A substância
contemplativa do filme somente aprofunda a imersão do espectador em meio ao
ambiente vivido por aqueles homens. Todo aquele verde mostrado e apreciado pelo
filme serve como porta para adentrarmos a vida presente naquele ambiente e que
está por se esvair. A morte é algo natural ali, porém não menos dolorida. O
ambiente parece sucumbir a cada vida desperdiçada pelos conflitos.

 

O filme ainda
nos pergunta de onde vêm tantas motivações para atos incompreensíveis que são
mostrados ali, sem se dar ao trabalho de respondê-la ou ao menos tentar. Malick
adentra ao campo de estudo social para encontrar as razões para que, em
determinados momentos, os seres humanos ajam da forma que agem. Durante grande
parte do longa, o adversário do exército destrinchado por Malick é invisível. A
impressão é que a batalha enfrentada pelos soldados é interna, contra si mesmo.
Diferente de
outros filmes comandados pelo diretor, como ‘A Árvore da Vida’(2011), o
conceito poético intrínseco ao longa não é demasiado. Aqui ele explora a
perfeição toda a poesia do ambiente em questão. Malick decide por fazer a
abordagem do filme de forma parecida que ‘Apocalypse Now’(1979) o faz, dando
foco ao todo, onde o personagem principal vive uma verdadeira jornada
conhecendo diversas pessoas diferentes. O brilho do filme também é acentuado
pela ótima trilha sonora propiciada por Hans Zimmer, servindo como expansão dos
conflitos psicológicos vividos pelos personagens.

 

O elenco
encorpado é outro ponto que alavanca a qualidade do filme. Aqui temos inúmeros
nomes de respeito inclusos no filme, como Sean Penn, Woody Harrelson, Nick
Nolte e Adrien Brody. O comando ficou a encargo de Jim Caviezel. Caviezel,
assim como Charlie Sheen em ‘Platoon’(1986), talvez seja o ponto fraco do
filme. Apesar de bom ator, faltou a Caviezel um pouco mais de intensidade pra
encarnar o papel dado a ele.
‘Além da
Linha Vermelha’ é um belo filme. Diferente de vários outros filmes com temática
parecida, como ‘A Lista de Schindler’(1993), a película decide por não estampar
a maldade no rosto dos adversários. O bem e mal aqui é questionado, sendo que
no ambiente relatado só há o mal. Todos ali são expoentes do que há de pior no
mundo. Não há espaço para salvação ali. O elenco robusto só serve para que
Malick consiga dar determinada substância a todos os personagens estudados
aqui. Um dos melhores filmes do gênero já feitos.
Ponto de Extremos: A simbiose entre natureza e homem não é o suficiente para impedir a destruição das ações instintuais mais básicas presentes no ser humano.

8º – A Raposa do Mar (Dick Powell, 1957)

Procurando
criar um filme tenso sobre alguns dos nuances da 2ª Guerra Mundial, Dick Powell
acaba entregando ao espectador uma aventura movimentada. Mesmo abusando de
inúmeros clichês, ‘A Raposa do Mar’ consegue entreter quem o assiste. Não
teremos algo nem próximo da tensão paranoica empreendida em ‘O Barco – Inferno
no Mar’(1981), mas é sempre interessante ver um filme que procure explorar a
atmosfera claustrofóbica daqueles confinados em um navio no alto mar.

 

A trama vai
contar a jornada de um navio americano, durante a segunda guerra mundial, que
acaba cruzando o caminho de um barco alemão. A partir da constatação do embate
iminente, são traçadas estratégias por ambos os lados para derrotar seu rival.
Embora mostre um pouco das duas visões do combate, o foco será sempre no lado
americano. O filme vai usar seus 98 minutos de duração para nos contar sobre os
desfechos deste conflito.

 

O ritmo
empreendido pelo filme é consistente. Temos desde a vida calma que aqueles
homens levam no mar, como se estivessem em uma espécie de cruzeiro de férias,
até o momento que se dão conta que teriam que travar uma luta real por suas
vidas. Teremos sempre aqui a tentativa de emanar uma tensão unicamente dos
diálogos na maior parte do longa.
Seu roteiro,
escrito por Wendell Mayes e baseado no romance de D.A. Rayner,
consegue entreter seu espectador mesmo não utilizando de uma ação gráfica.
Todos os conflitos gerados no filme surgem de diálogos e acabam em diálogos. Os
medos e desconfianças são todos palpáveis. Conseguimos nos vislumbrar na
situação de cada tripulante do navio que está inserido naquele ambiente.

 

Entretanto,
os problemas ficam evidentes no formato da direção de Dick Powell. Powell
escolhe por dar um clima mais brando ao filme, amenizando o impacto da situação
a qual os personagens estão inseridos. Feito isto, fica quase impossível criar
um suspense tangível como o roteiro direcionava. O filme, como dito acima, é
formado basicamente com diálogos e contém apenas uma grande cena de ação, onde
acontece o combate final. E ela decepciona. O modo como Powell conduz a cena é
péssimo. O espectador acaba ficando desorientado em meio à falta de capacidade
do diretor em fazer a cena. Não podemos nos esquecer da data em que o filme foi
concebido, mas, mesmo naquele período, os efeitos especiais usados são
limitados.
Outro fator
que pesa contra o filme é a sua trilha sonora batida. Aqui sua presença só
serve para tirar a importância das cenas, utilizando composições típicas de
filmes de comédia da época.

 

O comando do
filme foi dado ao ótimo Robert Mitchum. Mitchum consegue dar uma atuação segura
ao filme, destacando-se em cada cena que aparece. O resto do elenco também não
decepciona, entregando ao filme performances competentes.
Mesmo com os
vários erros cometidos na execução deste filme, Dick Powell consegue fazer com
que o filme ofereça a seu público uma aventura que valha a pena ser vista. O
filme também incomoda no uso exacerbado de clichês. Ao final do filme, por
exemplo, teremos uma tradicional lição de piedade e moralidade, destacando o
quão bom é ser americano. ‘A Raposa do Mar’ é um filme que tem diversos
problemas, mas não podemos incluir neles o de ser entediante.
Ponto de Extremos: A sensação de isolamento, junto com a iminência da morte, acaba criando um clima paranoico nos ali inseridos, onde se é questionada até a lealdade e competência de seus colegas.
7º – Amargo Regresso (Hal Ashby, 1978)

 

O bom diretor
Hal Ashby tenta trazer com ‘Amargo Regresso’ um filme emocionante
sobre a dissolução de um triângulo amoroso improvável. Utilizando um elenco de
peso e a sensibilidade presente em sua filmografia, Ashby acaba parando na
superficialidade do roteiro limitado. Um filme regular que acaba valendo a pena
ser assistido mais pela junção de atores clássicos de Hollywood do que por sua
história em si.
O filme vai
conta a história de Sally Hyde, uma
esposa de um capitão do exército americano(Bob Hyde), que, enquanto seu marido está lutando no
Vietnã,  acaba se apaixonando por um
militar veterano ferido em guerra e agora paralítico(Luke Martin). A
trama vai se concentrar na aproximação de Sally e Luke e nas implicações que o
relacionamento dos dois acaba causando quando Bob volta do Vietnã.

 

A forma como
a relação de Sally e Luke é construída é onde o filme começa a tropeçar em suas
próprias resoluções. Sally é uma mulher acostumada com a vida em uma classe
social mais elevada que se vê imersa em um vazio existencial e resolve ser
voluntária em um hospital de veteranos. Luke é um veterano de guerra paralítico
que nutre um ódio pelos contornos que a vida lhe ofereceu. A relação entre os
dois é consumada muito rápida. Todos os conflitos que este romance poderia
causar nos dois são descartados pelo filme.
O roteiro
escolhe por soluções simples e fáceis. Todas as situações adversas enfrentadas
pelos personagens acabam se resolvendo na cena seguinte. A construção de cada
personagem é feita de maneira superficial. Os dramas vividos por eles poderiam
ser explorados de uma maneira bem mais complexa. A impressão é que a
simplicidade da história foi concebida de maneira intencional, para entreter o
espectador sem fazê-lo pensar muito.

 

Na tentativa
de tornar ‘Amargo Regresso’ o mais palatável possível ao público, o diretor dá
a maior sensibilidade possível à história, sempre explorando o máximo possível
o talento dos atores. Aqui é utilizada uma trilha sonora melodramática e uma
cinematografia(trabalho de Haskell Wexler)
lírica.
No elenco
encontramos a parte realmente atrativa do filme. Temos Jane Fonda(Sally
Hyde), Jon Voight(Luke Martin) e
Bruce Dern(Bob Hyde). O talento dos atores é o que rege a atmosfera do
filme. Todos nutrem uma química inerente na presença de seu companheiro de
cena, seja ele qual for. O destaque vai para a performance de Jane Fonda que
consegue trazer determinada substância à sua personagem mesmo com o material
limitado do roteiro em mãos.

 

‘Amargo
Regresso’ é o entretenimento perfeito para aquele dia chuvoso sem nada para
fazer. Entretanto, se o espectador quiser algo mais denso e profundo o filme
não serve como opção. Podemos considerá-lo como uma versão pipoca do filme ‘O
Franco-Atirador’(1978), lançado poucos meses após o longa de Hal Ashby. Apesar
dos erros latentes presentes no filme, a direção esforçada de um bom nome da
indústria e boas atuações de atores consagrados o tornam aceitável.
Ponto de Extremos: A figura da juventude perdida, da raiva contra a ingenuidade, é questionada pelo ex-soldado ferido, afetando sua maneira como este olha para o mundo.

 

 6º – Gen Pés Descalços (Mori Masaki, 1983)

 

Destoando em qualidade das demais animações japonesas mais
conhecidas, ‘Gen Pés Descalços’ é um filme esteticamente limitado, com uma
história amarrada que, utilizando como subtrama o contexto da segunda guerra
mundial e da bomba atômica, mostra a vida de uma família em dissolução.

 

 

A trama vai contar a vida de Gen, um menino como qualquer
outro, no auge de sua infância, que tem um dia a dia tranquilo em Hiroshima com
sua família, apesar das dificuldades financeiras e a falta de comida suficiente
para todos, enquanto cidades vizinhas são bombardeadas por aviões rivais no ano
de 1945. A iminência do ataque até o local que vivem parece não afetar a
família, surgindo em determinado momento até mesmo um questionamento do porquê
de as outras cidades ao redor serem bombardeadas, mas Hiroshima não.

 

 

 

 

O desenvolvimento da história é lento. Cada detalhe colocado
em tela é explorado ao máximo antes de avançar até o próximo tópico. A maior
preocupação do filme é a de mostrar as pequenas coisas ali presentes, como a
gravidez da mãe da família, as brincadeiras de Gen e seu irmão, além do
trabalho do pai. O foco da animação é mostrar ao espectador toda a inocência
presente naquele ambiente e a crueldade do ato de tirar tudo aquilo deles em
virtude de motivações banais. É neste ponto que somos introduzidos a parte da
bomba atômica.

 

 

 

 

O arco da bomba atômica e seus desmembramentos na história
acabam ficando apressados demais no filme, não investigando, talvez de forma
proposital, a situação inexorável que os sobreviventes estão agora inseridos. A
curta duração do longa é outro fator que atrapalha na resolução do arco final.
Apesar das animações comumente serem curtas, 83 minutos é muito pouco tempo
para explorar a história contada aqui.
A qualidade gráfica da animação é inferior ao habitual
japonês, mas devemos diminuir o grau de importância disto já que o filme é de
1983. A direção do filme ficou a encargo de Mori Masaki,
que tem ‘Gen’ como o maior filme em sua curta filmografia como diretor. Já a
trilha sonora segue a qualidade normal, sendo competente em se inserir
notavelmente no longa, porém, em alguns momentos, se fazendo melosa demais.
‘Gen Pés Descalços’ é um filme relevante, apesar de seus
problemas. A ideia de capturar os momentos mais simples a exaustão é o que tem
papel preponderante para tatuar o filme na cabeça de seu espectador. Cada cena
é importante para o filme conseguir dar seu recado, denunciando os horrores que
uma guerra pode causar naqueles que são afetados. Sem dúvida não temos aqui um
filme tão desalentador quanto ‘Túmulo dos Vagalumes’(1988), porém, ‘Gen’ é uma
obra extremamente triste que, apesar de mostrar certa esperança na humanidade,
expõe a falta de respeito com a vida.
Ponto de Extremos: Indivíduos levados ao extremo simplesmente para poder ver o dia de amanhã.
5º – Nascido Para Matar (Stanley Kubrick , 1987)

 

A quarta
contribuição de Stanley Kubrick para o gênero iguala a qualidade dos
anteriores, trazendo sempre um tom sarcástico à estupidez humana. A maneira do
diretor olhar um evento presente em toda a história da humanidade é o que traz
brilho ao filme. Não ausente de erros, o filme sofre com um problema de ritmo
constante. Entretanto, ‘Nascido Para Matar’ é mais um dos bons filmes oriundos
da guerra do Vietnã. Uma obra que mostra o processo de desconstrução do ser
humano.
O filme vai
se dividir em duas partes, sendo a primeira no interior de uma academia
militar, onde recrutas são preparados para posteriormente serem inseridos no
cenário de guerra, e, a segunda, já mostrando alguns destes recrutas e outros
soldados atuando no cenário caótico do Vietnã. São retratados durante os 116
minutos de duração todos os nuances da vida militar daqueles personagens, suas
ideias deturpadas e a inocência letal que os permeia.
Os vinte minutos
iniciais de filme talvez sejam os melhores de toda a película. Temos uma
emblemática cena dos recrutas tendo seus cabelos raspados e na tomada seguinte
um pequeno plano-sequência que nos introduz ao Sgt. Hartman, um homem em chamas
que deixa claro, em poucos instantes, que sua missão, naquele curto período de
tempo que ele teria com os jovens, seria de fazer deles verdadeiras máquinas de
guerra. No período que Hartman faz seu discurso aos jovens, temos uma
infinidade de takes, após o curto plano-sequência, de diferentes ângulos,
sempre dando ao espectador a melhor cena possível.

 

O bom
andamento do filme se segue até o fechamento desta primeira parte. Começamos a
enxergar ali o mal que determinado ambiente faz ao psicológico dos recém-chegados.
Anteriormente visto pelos jovens como uma espécie de acampamento, logo eles
começam a notar a rigidez do local. Alguns aceitam bem aquilo, outros, nem
tanto.
O foco do
filme nesta primeira parte é acompanhar os passos de dois personagens de
maneira mais destacada. Vemos a evolução das suas habilidades para a guerra e a
desconstrução de sua humanidade. Na figura de ‘Joker’ Davis temos
um indivíduo mais seguro de si, tendo a possibilidade não só de sobreviver ao
ambiente adverso da academia, mas também de se destacar positivamente dos
demais. Já representando o oposto de Davis, temos o personagem de ‘Gomer Pyle’ Lawrence. Lawrence é um jovem desajeitado, muito acima do peso e sua falta de
articulação social o deixa exposto às crueldades implícitas ao local.
A segunda
parte do filme acaba perdendo o ritmo proposto pelo arco inicial, relatando o
ambiente inóspito presente no Vietnã. Aqui teremos o desenrolar soturno da
trajetória dos personagens. No entanto, o que assombra de certa forma o
espectador é a naturalidade que eles agem ou tomam ciência do destino sombrio
que os aguarda. Os personagens parecem concordar com aquilo e até desejar de
certa forma. Algo que somente evidencia o quanto o ser humano é influenciável
por campanhas simplórias de guerras.

 

A direção de
Kubrick segue sua linha de excelência, conseguindo dar vivacidade ao filme.
Embora a segunda parte do filme seja muito inferior à primeira, ainda
continuamos completamente imersos àquele ambiente. A conhecida obsessão pela
melhor tomada possível do diretor parece continuar aqui e se fazer quase que
exclusivas ao personagem Hartman.
A trilha
sonora, desta vez comandada por Vivian Kubrick(filha de Stanley), mantém o
padrão de todos os filmes do diretor. O suspense impregnado nas melodias anda
de mãos dadas com a atmosfera proposta pelo diretor.
Já o roteiro,
baseado no romance de Gustav Hasford, é talvez o principal ponto responsável pela notável queda de produção
do filme. A passagem da primeira para a segunda parte fica comprometida em
detrimento do seguimento frágil dos diálogos e situações de seus 10 minutos seguintes,
fazendo o espectador perder um pouco o foco no filme.

 

Na época de seu
lançamento, todos os componentes do elenco ainda não tinham a fama que viriam a
ter nos anos seguintes. Porém, a qualidade de suas interpretações está ótima.
Temos como protagonista Matthew Modine, no papel de ‘Joker’ Davis, Vincent D’Onofrio, como ‘Gomer Pyle’ Lawrence, e R. Lee Ermey, como Sgt. Hartman. Modine está bem, entregando
uma performance constante. Já D’Onofrio recebeu aqui seu primeiro papel de
destaque e ele não decepcionou. Porém, destaca-se, sem dúvida, a interpretação
de R. Lee Ermrey. Apesar da idade avançada, Ermrey tinha atuado em poucos
filmes até ‘Nascido Para Matar’, sendo de certa forma inexperiente para encarar
um personagem tão importante para o filme. Entretanto, ele acaba sendo o ponto
alto do filme interpretando um sargento com contornos sádicos. Podemos também
explicar a queda da segunda parte do filme devido à ausência de D’Onofrio e
Ermrey.
‘Nascido Para
Matar’ é um filme bom, mas que não chega perto de ser um dos melhores do
gênero. Sua proximidade da data de lançamento de outros clássicos explorando o
Vietnã, como ‘Platoon’(1986) e ‘Apocalypse Now’(1979), talvez coloque uma
sombra ao redor do filme. Mas a habilidade de Stanley Kubrick de dar um olhar
diferente em boa parte do filme aos demais do gênero faz com que o longa
consiga determinado destaque.
Ponto de Extremos: A desconstrução de indivíduos já danificados pela própria sociedade, tornando estes verdadeiras máquinas de matar.
4º – No Vale das Sombras (Paul Haggis, 2007)

 

Baseado em
fatos, ‘No Vale das Sombras’ nos surpreende apresentando um thriller calmo,
utilizando-se de um roteiro feito com extrema inspiração e atuações
competentes. O cineasta Paul Haggis acerta o tom e nos brinda com um filmaço. São duas horas de uma
construção precisa da psique de um pai afogando-se em seus próprios conceitos.
Logo no
início do filme, após a apresentação da trama central, temos uma cena
fundamental para adentrar a síntese do personagem principal (protagonizado por
Tommy Lee Jones). Na cena, o personagem inicia uma viagem à procura de
respostas sobre o desaparecimento de seu filho, e acaba se deparando com uma
bandeira de seu país colocada de cabeça para baixo. O pai para seu carro e
orienta de forma calma e contundente um indivíduo, claramente ignorante sobre
os costumes locais. Cena que aparenta ter pouca importância para o filme, mas
eis aqui a chave central para a compreensão do que o personagem vive,  suas crenças e regras morais.

 

A procura do
pai é por esclarecimentos do porque seu filho, um militar que devia estar
voltando do Iraque recentemente, não se apresentou em sua base. Aqui,
diferentemente de Missing(Costa-Gravas), outro grande filme com temática
parecida, o pai sabe, após poucas conversas, que o caso é mais grave do
aparentava a priori.
No decorrer
do filme, vamos nos dando conta, assim como o personagem, do tamanho do fardo
que ele carrega. Temos aqui uma vida construída a partir de valores morais
rígidos. Patriotismo, senso de dever e integridade são construtos básicos do
personagem. A vida militar para ele é uma obrigação. Obrigação esta que ele
passa a seus filhos. Formados a partir destes ensinamentos, o caminho trágico
que ambas as vidas tomam acabam por refletir diretamente o que o pai causou em
seus caminhos. O personagem vive uma espécie de catarse durante a investigação,
dando-se conta no jornada de suas responsabilidades. Somos inundados com o
sofrimento e culpa que ele passa a expressar a cada olhar.

 

A ignorância
do pai se deve ao fato de acreditar que seu filho era um exemplo de moralidade.
No transcorrer da trama ele vai tomando ciência dos horrores que seu filho
viveu no Iraque e o quanto isto o mudou de maneira cruel. Seus atos agora eram
cruéis assim como a vida no Iraque. Somos apresentados a isto por intermédio de
vídeos presentes em um celular recuperado pelo pai.
O elenco aqui
está muito bem. Temos participações de Josh Brolin, Susan Sarandon, Jason
Patric e James Franco compondo seu núcleo. Charlize Theron interpreta uma policial
que se mostra disposta a esclarecer o caso do desaparecimento ao lado do
protagonista. Sua performance aqui é boa, nos apresentando uma mulher com uma
vida familiar complicada e no âmbito profissional limitada a subir em sua
carreira em virtude de casos com as pessoas certas. Entretanto, o destaque aqui
é para a atuação de Tommy Lee Jones. Uma atuação contida, demonstrando uma
sensibilidade ímpar para representar o pai obstinado. A cada cena sua, temos
uma aula de boa interpretação. Limitando-se a olhares, expressões faciais e
palavras calmas ele consegue nos introduzir a vida daquele homem.

 

Os aspectos
técnicos são discretos. Uma direção que tem como sua maior preocupação dar ao
protagonista a liberdade e conforto para guiar a trama, assim como a
fotografia. Já a trilha sonora pontua nos momentos certos seu tom nostálgico e
contemplativo.
‘No Vale das
Sombras’ é um relato fiel da vida de muitos americanos patriotas que se veem
presos a uma ideologia defasada, sem se dar conta do quão venenoso isto pode
ser as suas futuras gerações. O filme seria bom sem a presença de Tommy Lee
Jones como protagonista, porém sua presença aqui torna o longa-metragem único.
Ponto de Extremos: Figuras como moralismo e patriotismo são questionadas pelo filme, mostrando ao espectador o quão mortais simples composições podem ser.

 
3º – Pecados de Guerra (Brian De Palma, 1989)

 

 

Marcando a
estreia de Brian De Palma no gênero de guerra, o longa infelizmente não evoca
os melhores trabalhos do diretor. Um filme extremamente parado, com um cenário
de guerra pouco realista e bons atores trazendo atuações horrorosas. Estes são
apenas alguns dos problemas de ‘Pecados de Guerra’.
A trama vai
contar a história de um pelotão dos Estados Unidos, na guerra do Vietnã, que,
apesar da insistência contrária de alguns elementos, decide ir até um vilarejo
inimigo e sequestrar uma mulher do lugar. As barbaridades que se seguem e os
esforços inúteis de um soldado após isto vão delimitar as consequências do
filme.

 

O filme
permanece interessante até o momento do sequestro, após isto ele se sucede em
uma interminável sequência de cenas infelizes e muito cumpridas. As motivações
dos soldados e seus atos ausentes de sentido soam inverossímeis aos olhos de
seu espectador. As cenas acabam gerando desconforto em quem as assiste, como o
diretor gostaria, pelos motivos errados. O que incomoda não são as barbaridades
cometidas pelos soldados, mas, sim, a mal execução das cenas.
O roteiro do
filme, baseado no livro de Daniel Lang, não é ruim. O assunto abordado é extremamente relevante. A ambição
aqui foi mostrar como o ser humano pode chegar a extremos diante de situações
perturbadoras, como o cenário de uma guerra. A história contada aqui é, de
fato, relevante, mas o foco dado a apenas um cenário acaba deixando o roteiro
um pouco superficial.

 

A direção de
Brian De Palma é péssima. De Palma falha em tentar trazer seu modo de filmagem
habitual para este filme. Seu estilo de filmagem quente, mais focado para o
lado lúdico do cinema pode funcionar a perfeição em filmes como ‘Vestida Para
Matar’ ou ‘Um Tiro na Noite’, onde o realismo não é necessário. Funcionou
também em filmes como ‘Os Intocáveis’ e ‘Scarface’, quando apesar se ser uma
possibilidade, os aspectos viscerais dos roteiros foram suprimidos por uma
direção contemplativa. Porém, aqui, em um filme de guerra, o realismo deve
sempre estar presente. O diretor sabe disto, mas simplesmente não consegue
trazer para a tela. É claro que estamos falando de um diretor extremamente
habilidoso, um dos meus preferidos, mas o que não o torna intocável. A direção
tem alguns aspectos positivos. Determinados ângulos explorados pelo diretor
deixam o espectador extasiado, como a cena do combate inicial, por exemplo.
Porém, estes momentos são raros durante os 113 minutos de filme.

 

Outro ponto
deplorável do filme são as interpretações. Temos aqui um ótimo time à frente do
elenco, como Michael J. Fox, Sean Penn,
John C. Reilly e John Leguizamo. As atuações destes ótimos atores são muito teatrais e forçadas. Os
atores gritam em todas as cenas. Suas expressões faciais são todas extremamente
carregadas durante todo o filme, não há momento de alívio. Sean Penn tem aqui
uma das piores atuações de sua carreira, sendo definitivamente a pior peça do
elenco. Nada em seu personagem soa verdadeiro. E chegamos a uma verdade
inquestionável. Quando uma peça do elenco está péssima, você culpa o ator. Agora,
quando um elenco inteiro formado por bons atores está péssimo, sem dúvida, a
responsabilidade inteira fica a encargo do diretor.
‘Pecados de
Guerra’ está longe de ser um bom filme. Está longe até mesmo de ser um filme relevante
com a temática Vietnã. O filme é um grande emaranhado de problemas que sempre
acabam parando na figura de seu diretor. A escalação de um diretor com maior
afinidade em fazer filmes deste tipo definitivamente poderia trazer uma visão e
execução melhores para o roteiro do filme. Péssimo trabalho de Brian de Palma,
um dos piores de sua carreira, ressaltando a ideia de que até os grandes
monstros do cinema erram. O que não diminui em nada a brilhante carreira do
diretor.
Ponto de Extremos: Pulsões sexuais são exacerbadas, levando determinados indivíduos a destruírem famílias inteiras atrás de um modo de satisfazê-las.

 

2º – Adeus, Meninos (Louis Malle, 1987)

 

Louis Malle
nos traz aqui uma verdadeira obra-prima. Temos com ‘Adeus, Meninos’ um dos
filmes que melhor retratam os prazeres e dissabores da infância. Um filme doce
e nostálgico que evoca em seu espectador sentimentos bons e ruins.

 

 

A trama do
filme se desenvolve em uma escola comandada por padres, em meio à ocupação
alemã na França, no meio da 2ª Guerra Mundial. Adentraremos ao cotidiano
conturbado de Julien Quentin,
um garoto com em torno de 12 anos, que, a priori, desgosta do fato de ser
mandado por sua mãe para a escola, mas pouco tempo depois se vê completamente
inserido naquele ambiente convidativo. A história ganha força quando novos
estudantes chegam à escola. Um deles, Jean Bonnet,
acaba formando um vínculo muito forte com Julien, criando um laço inquebrável
entre os dois. Entretanto, nem tudo é o que parece. O novo estudante esconde
segredos sobre suas origens. Segredos estes que poderiam colocar toda a escola
em risco.

 

 

 

 

O filme é
extremamente leve, mesmo quando decide andar por campos mais complexos, se
preocupando unicamente em seguir os passos dos personagens ali inseridos. Toda
sua atmosfera é criada ao redor da vida naquela escola em que os meninos passam
a morar. A inocência contida no ar rege o ambiente, onde iremos nos identificar
com cada evento que acontece na convivência entre os personagens. A
sensibilidade para tratar sobre o tema remete o espectador diretamente à ‘Conta
Comigo’(1986). Os dois filmes se complementam, teremos exatamente o mesmo clima
do clássico de Rob Reiner presente aqui.

 

 

 

 

 

O roteiro do
filme, também escrito por Malle, consegue obter êxito em sua investida
exatamente por conseguir retratar os pequenos detalhes da vida dos personagens.
Cada conversa, briga e punição a que são submetidos tem um sentido intrínseco
em cada um. A virtude do roteiro é não minimizar os efeitos que cada situação
traz.

 

 

Já no campo
da direção, Malle não destoa da excelência proposta por seu roteiro. O diretor
escolhe por dar um ritmo cadenciado ao longa, tirando o máximo de substância de
cada cena. Aqui ele repete seus melhores trabalhos, como ‘Trinta Anos Esta
Noite’(1963), aproveitando muito de sentimentos como tristeza e melancolia para
caracterizar a personalidade dos personagens.

 

 

 

 

 

O bom
trabalho de Malle também se estende na direção de seu jovem elenco. O diretor
consegue extrair o máximo do que eles têm a oferecer, sempre propiciando cenas
muito físicas. Ambos os protagonistas, Gaspard Manesse e Raphael Fejtö, estão ótimos no filme, chegando a
lembra muito a performance de Christian Bale em ‘Império do Sol’(1987).

 

 

‘Adeus,
Meninos’ é um filme que traz ao seu espectador um vislumbre de um tempo que já
não existe mais. Assistir a obra de Louis Malle é como olhar para o nosso
próprio passado, nossa própria infância. O filme ainda traz em sua síntese o
quão prejudicial é uma tensão social na vida de uma criança e o quanto aquilo
pode marcar seu presente e comprometer seu futuro. Um filme ímpar em sua
categoria.

 

 

Ponto de Extremos: Veremos o quanto tensões raciais causadas pela guerra podem danificar a forma como um indivíduo é constituído, destruindo sua infância e ingenuidade.

 

1º – Apocalypse Now (Francis Ford Coppola, 1979)

 

Sendo
considerado um dos filmes com os maiores problemas em sua realização,
‘Apocalypse Now’ justifica todo o empenho de sua produção em terminar o filme.
Revolucionando o gênero, que viria a fornecer ao espectador nos anos seguintes
clássicos como ‘Platoon’(1986) e ‘Nascido Para Matar’(1987), Coppola conseguiu
mensurar conceitos como vontade de poder e eterno retorno, propostos pelo
filósofo alemão Friedrich Nietzsche, aos horrores que um evento de tamanha
proporção pode causar nos ali envolvidos.

 

 

A trama do
filme gira em torno de um capitão do exército americano, interpretado por
Martin Sheen, que tem a missão de achar e exterminar um coronel americano(Marlon
Brando) que desertou da força de seu país e teria enlouquecido em meio aos seus
próprios ideais. Na busca por seu objetivo, o capitão enfrentará diversos
percalços, além de ter de lidar com seus próprios fantasmas.

 

 

O
desenvolvimento da história a partir do tema central é fascinante. Temos aqui,
na figura do capitão, um homem perturbado e confuso, visivelmente alheio à vida
que continua ao seu redor. Seu personagem parece ser um mero fantoche em meio
ao mar de mortes e loucura presentes a cada cenário explorado. Em sua
trajetória, o capitão acaba conhecendo o inesquecível Tenente Coronel
Kilgore(Robert Duvall). A megalomania e a completa ausência de realidade em
Kilgore é o ponto alto do filme. Um homem que simplesmente ama aquele ambiente
ao qual está inserido, vivendo cada momento com extrema intensidade. Seu único
pesar é pensar que um dia aquilo terá um fim.

 

 

 

 

A primeira
metade do filme é impecável. Somos inundados por um verdadeiro espetáculo de
cenas feitas à maestria. Temos tomadas feitas de todos os ângulos. As cenas
aéreas talvez sejam as melhores do filme, com destaque, é claro, para as
infindáveis sequências com helicópteros. Os barulhos emanados dos helicópteros
ganham conotações poéticas aqui. A famosa cena do ataque ao vilarejo ao som de
Wagner é sem dúvida a melhor do filme.

 

Infelizmente
o ritmo do filme cai muito em sua segunda metade, ficando arrastado em
determinados momentos. Vale a pena ressaltar que mesmo perdendo seu ritmo, o
filme jamais fica ruim, sempre se mantendo, no mínimo, bom. As sequências com
as coelhinhas da playboy e seu prosseguimento, até a introdução ao personagem
de Brando, acaba por perder um pouco o foco central do filme.
A reta final
do filme acaba por resgatar em parte a atmosfera apresentada na primeira
metade, sem, entretanto, igualar-se. O filme ganha tons macabros, atirando o
espectador a um local caótico, onde o que reina é uma carnificina sem precedentes.
A introdução da figura mais emblemática do filme finalmente acontece com o
aparecimento de Marlon Brando, vivendo a figura do Coronel Kurtz. Aqui temos um
homem com um passado brilhante pelo exército de seu país, mas que, de alguma
forma, acabou perdendo-se em meio aos possíveis horrores que passaram diante de
seus olhos, enlouquecendo e adquirindo ideais mais deturpados que outrora.

 

A composição
do elenco de ‘Apocalypse Now’ é muito boa. Temos no filme Martin Sheen
estrelando, Marlon Brando e Robert Duvall engrandecendo o longa, além das
presenças de Frederic Forrest, Sam Bottoms e Laurence Fishburne. Contamos ainda com Dennis Hopper e Harrison Ford em papéis menores do filme. Martin Sheen tem uma
atuação muito competente, conseguindo entrar na pele de seu personagem na luta
contra os pesadelos vividos em sua vida. Marlon Brando tem poucos minutos em
tela, porém o suficiente para conseguir tatuar no cérebro de qualquer um o
icônico personagem vivido por ele. Entretanto, o destaque do filme se deve a
atuação soberba de Robert Duvall. Frenético em tela, o sucesso de Duvall está
longe de se constituir apenas em virtude do belo personagem entregue pelo
roteiro. O ator entrega ao espectador uma atuação incrível. Dando vida a
diálogos completamente incompreensíveis falados por seu personagem e fazendo da
loucura deste o ponto de seu sucesso.
Coppola vinha
da direção de três verdadeiros clássicos do cinema, o que o deixou mais a
vontade para realizar o filme de seu jeito, além de ter um grande orçamento em
suas mãos. Porém, assistindo o filme, nós ficamos com a impressão de que esse
orçamento deve ter sido mal administrado. Se pegarmos as duas metades do filme,
a impressão é de estar assistindo a produções diferentes. Fato este que não
apaga o belo trabalho feito por Coppola na direção. Vale destacar também a
edição precisa do filme, causando completa imersão a trama por parte do
espectador. A trilha sonora também é linda, sabendo utilizar os momentos certos
para alavancar o filme. Já o roteiro, escrito por Coppola e John Milius(baseado
no romance de Joseph Conrad),
é outro ponto que distingue ‘Apocalypse Now’ dos demais filmes do gênero feitos
até o lançamento deste.

 

As mais de
três horas enfrentadas pelo espectador passam em uma velocidade incrível. Fruto
de um diretor em sua melhor fase na carreira, ‘Apocalypse Now’ não é o melhor
filme de guerra já feito, não é nem mesmo o melhor filme sobre a guerra do
Vietnã, mas a forma como aquela jornada é contada e a maneira em que é filmada
sem dúvida colocam o filme em um patamar elevado. Coppola nos traz um filme que
transcende seu gênero, podendo facilmente ser incluído na categoria Noir. O
roteiro complexo traz ao espectador temas filosóficos relevantes para a
humanidade. O personagem de Kilgore(Duvall) é um exemplo perfeito de ‘Vontade
de Potência’ e ‘Eterno Retorno’, propostos por Nietzsche. Temos aqui um homem
aproveitando cada segundo de sua vida, encarando os horrores da guerra como
momentos únicos. A vida para ele é aquilo ali presente em seu cotidiano turbulento.
Ele não nutre em seus pensamentos nada além daquilo. E em meio a essa aceitação
pelo real, Kilgore procura elevar-se a cada segundo, jamais aceitando
conservar-se na mesma situação. O tema ‘Vontade de Potência’ extrapola o
personagem de Kilgore, sendo também presente no Coronel Kurtz(Brando). Kurtz
passou a vida buscando a excelência militar de tal forma que quando a atingiu,
se viu inquieto àquilo. Querendo mais, Kurtz agora procura o status de uma
divindade, seus ideais não chegam a um fim.
‘Apocalypse
Now’ é um verdadeiro clássico do cinema, assistir a ele é uma experiência
única. Adentramos ao campo mais pedregoso do ser humano, onde seus impulsos
instintuais são tudo o que há. A guerra aqui é apenas uma figura passiva aos
horrores presentes na cerne do homem. Um filme que não deve ser assistido, e
sim, contemplado por seu espectador.
Ponto de Extremos: Indivíduos colocados em situações físicas e psicológicas surreais, substituindo a visão normal de mundo por uma completamente deturpada.