A trilogia do paraíso é composta por filmes polêmicos, que escolhem sempre por tentar incomodar seu espectador com um conteúdo sexual considerado anormal pelas sociedades modernas tradicionais. Ulrich Seidl sempre se acostumou em sua filmografia a trazer coisas fora do padrão, mas nesta trilogia ele ultrapassa qualquer um de seus filmes anteriores. Os três filmes seguem um padrão estético praticamente idêntico, porém acabam alternando em qualidade.



‘Paraíso – Amor'(Ulrich Seidl, 2012)


O filme conta
a história de uma mulher, depois de seus 50 anos, que decide deixar seu
país(Áustria) e fazer uma viagem por um país do continente africano. No
decorrer do filme, vamos sendo apresentados ao real motivo daquela viagem e ao
quão triste e decadente a vida daquela mulher se revela.
No início do
filme, aparentemente somos apresentados a uma mulher comum, preocupada com a
filha, que decide fazer uma viagem para a África. Com a chegada da mulher no
país africano, somos aos poucos apresentados a real motivação da viagem, o
sexo. A mulher trata os nativos daquele país como meros objetos sexuais, à
venda, sem nenhuma preocupação além. O componente sexual do filme é exagerado.
Cenas de sexo que fogem completamente do que seria recomendado, totalmente
gratuitas. O incômodo gerado pelas cenas acaba desviando um pouco o espectador da
real história daquele filme. O aspecto da exploração do choque gratuito nos
remete a outro filme, este bem pior, que usa do excesso para atrair seus
espectadores. Estou falando de ‘Doce Vingança’, Steven R. Monroe. Filme do
gênero terror, que utiliza de quase 30% do longa dispostos ao choque.

O diretor, Ulrich Seidl, apela ao choque para conseguir, não passar o recado do roteiro, mas
apenas para atrair espectadores curiosos pelas cenas. Vale ressaltar a bela
fotografia do filme e o clima documental da película, completamente ausente de
uma trilha sonora. A direção é competente, apesar dos exageros descritos acima,
aproveitando bem o cenário paradisíaco do local.
O triste
final reflete o quadro triste que aquela mulher se encontra. Esnobada pelos
homens locais, que só demonstram interesse quando colocada o motivador global,
o dinheiro, a mulher sucumbe na cena final, aparentando ter sido finalmente
convencida da vida patética a qual está inserida. Relato verdadeiro, porém
exagerado, da vida de algumas mulheres naquela fase da vida(depois dos 50 anos
de idade), refletindo o conceito social de isolamento, não mais hábeis para
atividades sexuais. Filme fraco, mas com uma história que não é totalmente
desprezível.
‘Paraíso – Fé'(Ulrich Seidl, 2012)
Ulrich Seidl entrega aqui o melhor filme da trilogia do
paraíso. Um filme que questiona os pilares éticos e morais intrínsecos a uma
sociedade, despejando boas doses de marteladas sobre o espectador. Teremos
temas provocadores presentes na obra, como fetichismo e o conceito de fé como
escape do perverso. ‘Paraíso – Fé’ ainda fará sua ligação temática na história
com um grande clássico de Chantal Akerman.
A história do
filme se concentra na vida de Anna Maria, uma mulher com mais de 50 anos, que
encontra na fé a solução de seus problemas. Nutrindo traços obsessivos em sua
personalidade disfuncional, Maria trabalha em um hospital em seu expediente e
dedica seu tempo livre tocando a campainha de pessoas a fim de levar sua
religião à diante. A trama do filme ganhará força quando Maria acaba pegando
férias de seu emprego, intensificando suas ações de disseminar sua religião, e
acaba tendo que lidar com o surgimento de um homem com quem já tivera um
relacionamento.
O filme tem
um começo bem intenso, tratando por nos apresentar os tons que acabam compondo
a personalidade de Anna Maria. É mostrado em tela como a mulher utiliza essa
premissa católica do pecado para destilar agressões contra seu próprio corpo.
Em outros momentos nos são entregues pequenos fragmentos sobre o martírio da
mulher em sua empreitada por mais devotos de sua crença. Porém, o detalhe mais
importante exposto sobre a mulher é sobre o quão insosso e desesperador é sua
rotina.

 Fica bastante
evidente ao espectador que aquilo experimentado pela mulher logo cairá em um
processo degenerativo inescapável. Veremos a sanidade da mulher se esvair a
cada minuto de projeção do longa. É com um misto de prazer e tristeza que
testemunhamos todo esse processo. E é exatamente neste ponto da degeneração da
protagonista que teremos nossa ligação com a grande obra-prima do cinema de
Chantal Akerman, o fabuloso ‘Jeanne Dielman’(1975).
Em ambos os
filmes é evidenciado o quanto o papel moderno da mulher em meio ao mundo social
é prejudicial para a saúde mental delas. Veremos o fenômeno de uma rotina
inexorável engolir todos os aspectos subjetivos inerentes à espécie humana. Sua
carga instintual é colocada de lado, levando a um acúmulo de conteúdos
recalcados que simplesmente não retornam para o consciente nem mesmo em forma
de sintoma. Esse conteúdo reprimido vai somente ficando cada vez maior com o
passar dos dias. E é na eclosão de toda essa carga inconsciente que teremos a
figura da loucura que surge em suas personalidades, tornando a convivência
consigo próprio impossível. É neste aspecto que surge essa conversão em forma
de perversão, sendo por meio da prostituição em ‘Jeanne Dielman’ e na figura da
religião punitiva aqui em ‘Paraíso – Fé’.
Esse conceito
de perversão que surge por meio da religião na personagem de Anna Maria atua
por provocar na mulher uma sensação de saciedade quanto às suas necessidades
sexuais. Maria utiliza os castigos físicos como um escape para sua repressão
sexual, evidenciada na cena em que presencia na rua uma cena de sexo em grupo,
ficando completamente desnorteada. Maria encontra na dor a sensação tangível
para sua descarga sexual.

No entanto,
todo esse excelente ritmo empreendido pelo filme acaba se perdendo na reta
final. Algumas cenas parecem estar presentes ali simplesmente para preencher
tempo, tornando o filme insosso em determinado momento. Outro ponto que deixa a
desejar é o relacionamento de Maria com o homem que retorna de um tempo que a
mulher deseja esquecer. Todas as cenas que envolvem essa relação poderiam ser
suprimidas do filme, onde a própria existência deste homem é completamente
dispensável para o conteúdo que a história pretende mostrar.
A direção de Ulrich Seidl trabalha quase que em sua totalidade com a utilização de quadros fixos,
deixando com que o ambiente estático dite o ritmo do filme. Sou um grande
apreciador deste estilo de filmagem, onde cada plano é totalmente manipulável
pela produção, produzindo uma maior absorção pelo espectador. E Seidl sempre
trabalha com esse estilo. No entanto, neste filme é onde ele melhor consegue
dar a esse estilo estático algo vivo. Tudo isso com o auxílio da fotografia
fantástica de Edward Lachman
e Wolfgang Thaler.
Os filmes deste diretor sempre costumam ter belas fotografias, entretanto aqui
isso é intensificado. O diretor também, como é tradicional de seu cinema,
descarta completamente o uso de uma trilha sonora, dando um tom visceral
necessário ao tema explorado.
Aliás, todo o
estilo empreendido por Seidl lembra muito o do seu compatriota Michael Haneke,
ao utilizar filmes que abrem mão da trilha sonora, um foco quase que obsessivo
nos objetos que permeiam os cenários, as temáticas polêmicas e o distanciamento
entre câmera e ator. E é neste ponto que adentraremos agora.

O elenco do
filme não tem espaço para brilhar em cena. Todo o estilo direcional é tangido
por um distanciamento proposital, descartando qualquer tipo de foco nas feições
dos atores. Aqui nem mesmo a protagonista, interpretada por Maria Hofstätter, possui um espaço tradicional. É exatamente este estilo que permite que
o diretor utilize o ator que bem entender, independente de seu talento.
Poderíamos ter aqui atores sem um pingo de talento que não faria a menor
diferença. Isso faz com que Seidl possa escolher seus atores unicamente baseado
em sua constituição física.
‘Paraíso –
Fé’ é um filme extremamente provocador, que consegue por meio da religião
contar ao seu espectador os importantes nuances que cercam a vida de
determinadas pessoas. Todos os conceitos explorados pelo roteiro do filme,
escrito pelo diretor e por Veronika Franz, jamais teriam seu impacto pretendido se não fosse sua direção
habilidosa. O trabalho de Seidl nesta obra é acurado e consistente, conseguindo
trazer uma simbiose entre ambiente e personagem. Um filme que acaba por perder
um pouco de seu charme durante sua duração, mas que se faz brilhante em suas
revisitações históricas.
‘Paraíso – Esperança'(Ulrich Seidl, 2013)


Muito se
questiona sobre os limites que tangem um filme, sobre se seu conteúdo é
palatável e até mesmo de bom gosto. Bem, em ‘Paraíso – Esperança’, obra que
fecha a trilogia do ‘Paraíso’, esse limite é imposto pelo diretor. Ulrich Seidl faz um filme que tenta provocar seu espectador, sempre buscando os
caminhos mais sutis possíveis para fazer uma denúncia bidimensional sobre o
relacionamento de uma adolescente com seu médico. Infelizmente a obra acaba
entrando em um emaranhado de repetições insistentes, se tornando um filme
insosso e completamente ausente de sentido. Um filme curto, de apenas 92
minutos de duração, mas que se faz extremamente longo aos olhos seu espectador.
A trama do
filme vai se concentrar nas experiências de Melanie, uma garota obesa de treze
anos, que é mandada para um acampamento de emagrecimento junto com diversos
outros adolescentes. Neste acampamento, sob o comando de um especialista um
tanto quanto ditador, a adolescente será exposta a uma série de conversas de
cunho sexual com as outras integrantes do acampamento, vendo sua sexualidade se
aflorar e desenvolvendo um estranho “affair” com o médico do lugar.
A premissa do
filme é ótima, questiona e investiga diversos elementos intrínsecos à
adolescência. Até mesmo seu início se faz muito produtivo, colocando o
espectador como se este estivesse escondido assistindo os desdobramentos
daquele acampamento. Toda a atmosfera emanada do filme em seus primeiros
minutos trabalha por alocar quem o assiste naquele ambiente.

Os problemas
começam a aparecer bem lentamente. É nas constantes, e provocadoras, consultas
de Melanie com o médico que o filme começa a tropeçar em seus próprios
caminhos. A relação perturbadora entre os dois é levada a tela de uma maneira
muito crua. Não há diálogos consistentes entre os dois, todo o material dado ao
espectador é por bases de expressões dos atores. Nenhum problema até aí. Porém,
o diretor escolhe por um estilo de filmagem com quadros estáticos, longes das
feições dos atores, tornando a função de analisar os atos dos personagens
praticamente impossíveis.
O comando da
direção fica a encargo de Ulrich Seidl, como citado acima. Seidl está muito longe de ser um diretor mediano, o
indivíduo tem bastante talento. Aqui ele procura dar ao filme um estilo mais
pausado, como é habitual em sua carreira, focando sempre nas construções de
ambientes, pegando em cada quadro todo o cenário oferecido. O diretor também
trabalha bastante o clima atmosférico do filme, procurando sempre causar uma
sensação de imersão por parte do espectador àquele ambiente. Todo esse trabalho
só é possível com a bela cinematografia de Edward Lachman
e Wolfgang Thaler.
Não teremos
aqui a utilização de uma trilha sonora, algo que somente depõe a favor da
tentativa de dar um tom visceral ao filme. Seidl procura dar o filme o tom mais
realístico possível. Diferente de Todd Solondz, em filmes com uma temática similar a este, como ‘Felicidade’(1998) e
‘A Vida Durante a Guerra’(2009), Seidl jamais tenta atenuar o conteúdo trazido
ao espectador com o uso de uma trilha convidativa.

Entretanto,
todo esse esforço na direção acaba se fazendo inútil em detrimento do péssimo
roteiro do filme, escrito por Seidl e Veronika Franz. Os diálogos contidos no filme, em sua maioria as conversas entre os
adolescentes, não vão para lugar nenhum. Não temos aqui nenhuma justificativa
para o filme trazer o que conta. Como se isto não fosse o bastante, algumas
situações são completamente inverossímeis, subestimando a inteligência de quem
as assiste.
O elenco,
formado quase que em totalidade por jovens atores, não possui muito o que
mostrar aqui. Seus diálogos são controlados e limitados. A protagonista, Melanie Lenz, segue a mesma linha, porém acaba tendo cenas esforçadas. Esse pouco
espaço dado aos atores está longe de ser um problema. O filme cria esse
distanciamento para sobrepujar as limitações do elenco.

Gostaria
muito de dizer que apesar dos erros o filme ainda acaba valendo a pena ser
assistido. No entanto, a extrema lentidão torna o filme quase insuportável em
determinado momento da trama. Em 92 minutos teremos quase uma dezena de cenas
simplesmente iguais, como a constante ida da jovem ao consultório do médico, ou
as cenas no quarto de Melanie. A sensação é a de estar assistindo uma mesma
cena durante todo o filme. Junte isso a um tema polêmico, o relacionamento da
adolescente com o médico, que é explorado com pouca precisão e muita
superficialidade e você terá um filme que jamais deveria ter saído do papel.
Fica a impressão que a filmografia de Ulrich Seidl iria se fazer muito mais evidente, tendo em vista a qualidade de seu
trabalho, se ele colocasse essa energia em obras com algum conteúdo. Um filme
que encerra a saga do ‘Paraíso’ da mesma forma que começou, mostrando a
qualidade limitada da trilogia.