No cinema
contemporâneo muito se discute sobre a utilização exacerbada de cenas de sexo
para construir um filme. Periodicamente temos o levantamento de discussões,
como as surgidas no lançamento de ‘Ninfomaníaca’(2013), se é válido ou não
expor essas cenas. É neste cenário que entra a figura de Chan-wook Park, um dos mais talentosos diretores de nossa geração.
Park cria um
filme onde o sexo é apenas um subterfúgio para conseguir criar o clima adequado
para que a história tenha substância. Diferente de filmes como ‘Azul é a Cor Mais
Quente’(2013), onde é utilizado de forma gratuita, alheia a trama, aqui todo o
sexo contido nos 144 minutos de duração é necessário.
Utilizando
todos os elementos já conhecidos em sua filmografia, o coreano consegue
aumentar seu repertório. O diretor se aventura por um cenário onde toda a
violência presente em seus filmes anteriores tem de ser comedida. Em ‘A
Criada’, todo o brilho do filme se concentra na riqueza de seus diálogos. Junte
isso a uma parte estética quase impecável, atuações complexas e uma trilha
sonora que tem o trabalho de cadenciar o longa e teremos algo memorável. Não
direi que é o melhor trabalho do diretor, ele se equipara aos grandes filmes do
coreano, como ‘Oldboy(2003) e ‘Zona de Risco’(2000), mas, sem dúvida, estamos
diante de uma verdadeira obra-prima.
A trama
contada aqui gira em torno da vida em determinada casa, na década de 1930.
Nesta casa vivem Lady Hideko e
seu tio Kouzuki. Quando a antiga criada da casa é demitida, cabe a inocente Sook-Hee se
aventurar pelo aparente árduo trabalho que se apresenta diante dela. Teremos
ainda a presença do charmoso Conde Fujiwara que surge como um pretendente ao
amor da jovem Lady. A aura emanada da casa é sombria, não se sabe exatamente o
que acontece naquele interior. E é inserido neste ambiente que teremos a
eclosão de um verdadeiro jogo de gato e rato, onde as máscaras vão lentamente
se desfazendo, revelando as pessoas perversas que encontram-se no ambiente.

O filme é
dividido em três partes, nutrindo em cada uma delas uma atmosfera diferente. A
primeira serve para desorientar o espectador; Na segunda teremos os
esclarecimentos, passaremos a entender melhor o que está sendo exposto no filme
e; Sua última parte para dar os contornos finais à vida dos personagens ali
inseridos. Todas as partes se encaixam perfeitamente na proposta da história
que o filme se propõe a contar, baseada no romance de Sarah Waters.
O ritmo
inicial do filme é lento em seu início. A primeira parte é toda composta por uma
temperatura morna, onde o filme se limita mais em introduzir o espectador ao
seu universo do que colocar dinamismo na trama. O ritmo vai aumentando
gradualmente e, já no início da segunda parte, o filme compreende uma
velocidade que faz com que o espectador esqueça do tempo. É importante fazer
essa ligação entre a frequência do ritmo à sua trilha sonora. Yeong-wook Jo
talvez tenha chegado ao seu auge e, em mais uma colaboração com o diretor, faz
um trabalho incrível. Aqui ela segue a trama do começo ao fim, lhe dando
sustentação. Em seu início é discreta, nós só vamos começar a notar a trilha no
exato momento em que começamos a ficar realmente interessados no que o filme
tem a contar. A sua timidez do início é trocada por uma efusão de emoções na
última hora de filme, sem, entretanto, sobrepujar a trama.

A parte
estética do filme é outro ponto de destaque. A direção é firme, procurando
sempre dar o que há de melhor ao filme em um conglomerado de ângulos
diferentes. Talvez a única ressalva feita a direção de Park seja a de, às
vezes, alternar seu estilo, recorrendo a um padrão ‘Dogma 95’. Vale expor
também o belo trabalho feito pela equipe inteira no filme, destacando a
cinematografia(Chung-hoon Chung), design de produção(Seong-hie Ryu), figurino(Sang-gyeong Jo) e o setor de maquiagem(Jong-hee Song). Toda a junção do ótimo trabalho dos
profissionais responsáveis é preponderante para o sucesso do filme.

O elenco
também está ótimo. A química presente nos quatro integrantes, responsáveis pelo
andamento da história, é muito boa. Temos Jin-woong Jo interpretando o tio da protagonista, um homem mais velho do que o ator,
e, mesmo com pouco tempo em tela, é fundamental para o desfecho da história. Jung-woo Ha e Tae-ri Kim, como Conde Fujiwara e Sook-Hee respectivamente,
conseguem dar substância a seus personagens. Porém, quem brilha no filme é Min-hee Kim(Lady Hideko). A atriz logra sucesso em fazer uma camaleoa. Em cada
parte do filme a atriz assume uma persona diferente, somente permanecendo igual
no filme inteiro a sua sensualidade inerente a ela.
Um belo filme
em todos os seus âmbitos. Chan-wook Park mostra com esse trabalho que seu talento transpõe determinados gêneros,
realizando um drama intenso, sem perder uma sutileza recorrente em toda a
duração do filme. Um filme que não teme em ser duro e mostrar um universo sádico,
onde as inúmeras formas de perversões contidas ali são tão normais e
necessárias quanto se alimentar. ‘A Criada’ é uma obra que merece ser degustada
por seu espectador.
Nota CI: 8,0 Nota IMDB: 8,1
 
Filmografia:
CRIADA, A.
Direção: Chan-wook Park. 2016. 144 min. Título Original: Ah-ga-ssi.
OLDBOY.
Direção Chan-wook Park. 2003. 120 min. Título Original: Oldeuboi.
ZONA de
Risco. Direção: Chan-wook Park. 2000. 110 min. Título Original: Gongdong
gyeongbi guyeok JSA.
AZUL é a Cor
Mais Quente. Direção: Abdellatif Kechiche. 2013. 180 min. Título Original: La vie d’Adèle.
NINFOMANÍACA(Vol.
I e II). Direção: Lars Von Trier. 2013. 240 min. Título Original: Nymphomaniac.