Flertando com
tópicos relevantes, como os conceitos de predestinação e loucura, David
Cronenberg cria com ‘eXistenZ’ um filme que acaba por acompanhar toda a sua
estranha filmografia. Um thriller envolvente, que aproveita a
habilidade do seu diretor de criar realidades alternativas para nos entregar
uma aventura fascinante.
Em um futuro
não tão distante, a designer de jogos Allegra Geller
está fazendo uma exposição do seu mais recente trabalho. Muito conhecida no
meio, Allegra parece ser adorada pelos que a cercam. A trama do filme vai
ganhar novos contornos rapidamente após a mulher sofrer uma tentativa de
assassinato e ter que fugir de seus perseguidores com o intuito de salvar sua
nova produção milionária. Tudo isso com a ajuda de Ted Pikul, um
guarda que estava no evento no momento da tentativa de assassinato.
O ritmo que o
filme compreende é constante, indo aumentando conforme a trama se desenvolve.
No início do filme somos deixados com lacunas propositais do roteiro, não
conseguimos absorver todas as motivações dos personagens. Entretanto, aos
poucos as coisas vão se encaixando, por mais loucas que estas sejam. Toda a
história contada parece ser verossímil em determinado ponto do filme.

Toda a parte
gore contida em ‘eXistenZ’ é extremamente bem feita, conseguindo incomodar seu
espectador, sem, no entanto, afugentá-lo. Teremos uma enormidade de insetos
mutantes sendo dissecados, iguarias bizarras sendo consumidas e rostos sendo
destruídos por armas nada convencionais. O grande elemento que se destaca aqui
é o de sermos apresentados a diversos componentes inventados pelo filme, tornando
o gore inserido ali uma curiosidade a mais sanada pelo espectador.
O filme ainda
vai adentrar nas esferas que caracterizam o desenvolvimento de tecnologias
absurdas e a sua implicância na configuração do ser humano no seu contato com o
mundo. Teremos uma investigação da forma como os avanços da tecnologia
propiciam ao ser humano uma fuga das dores da realidade. De como buscar um
refúgio no irreal pode trazer o sentimento de completude as pessoas. Um espaço
onde os elegidos perdedores pela sociedade podem ter uma efêmera sensação de
poder.
Ainda vamos
caminhar por locais mais densos, como essa quebra com a realidade entregue
pelas tecnologias podem exasperar uma violência intrínseca aos homens. E como
isso é perigoso para saúde mental dos ali inseridos. E mais, do perigo que os
indivíduos fora daquela bolha tecnológica ao redor correm de forma
inconsciente.

Diferente de
filmes da mesma época, como ‘Estranhos Prazeres’(1995) e ‘13º Andar’(1999),
aqui não é dado à liberdade ao indivíduo nos meandros da realidade virtual.
Tudo que acontece nesta realidade virtual é guiado por forças ocultas. Todos os
temperamentos e atitudes são regidas pelo compêndio da predestinação. Nenhum
caminho escolhido é ausente de sentido, as rotas se encontram para chegar ao
destino comum.
A direção de
David Cronenberg consegue dar ao espectador uma completa sensação de imersão à
obra. O diretor mostra com extremo cuidado os pequenos detalhes do filme,
priorizando sempre a vivacidade do que é transmitido. Diferente da maioria dos filmes
dele, aqui o tom criado é sujo, desprezando a habitual fotografia quente, para
trazer tons desgastados, evidenciando a atmosfera podre daquele mundo. Para
tornar isto possível o responsável pela fotografia foi Peter Suschitzky.
O corrente
interesse de Cronenberg por transmitir a sexualidade exasperada em todos os
seus filmes é outro fator que depõe a favor de sua obra. Ligando-se a
psicanálise, o cineasta tem como característica de fazer a conexão entre o
objeto de prazer de determinado indivíduo a coisas bizarras. O ato da
penetração é edificado pelo diretor, revelando sempre no gesto de adentrar a
algum recipiente o grande clímax da relação. Até este ponto tudo normal. Porém,
o que se sobressai em seus filmes é a inserção de alguma parte do corpo do
indivíduo 1, não necessariamente o falo, em qualquer orifício minimamente
amigável no indivíduo 2. Teremos em ‘Videodrome’(1983) o protagonista
encontrando prazer em penetrar a figura da televisão com suas mãos e línguas,
em ‘Mistérios e Paixões’(1991) o personagem de Peter Weller acaba por se satisfazer penetrando seus dedos no interior de uma
máquina de escrever, em ‘Crash – Estranhos Prazeres’(1996) toda a temática do
filme é direcionada no prazer encontrado de determinados indivíduos em
penetrar, seja com suas mãos ou o pênis, feridas abertas não cicatrizadas, e,
finalmente, em ‘eXistenZ’ os protagonistas penetram orifícios, que servem como
uma espécie de porta USB, encontrando prazer em manipulá-los com seus dedos.

Nos inserindo
no campo das atuações, temos Jennifer Jason Leigh e Jude Law
como protagonistas. Law acaba tendo uma atuação regular, cumprindo bem o que o
personagem tem a oferecer ao espectador, sem, no entanto, exacerbar sua
performance em nenhum momento. Já Leigh está muito bem no filme, conseguindo
passar com seus trejeitos estranhos toda a perversão incumbida a sua
personagem.
Um filme
completamente surtado que acaba colocando a espectador ao lado de seus
personagens. Talvez tenha sido a primeira vez de fato que David Cronenberg
tenha quebrado aquela sua estética tradicional de se fazer filmes, nos
entregando uma atmosfera bem diferente da usada em seus filmes anteriores.
‘eXistenZ’ consegue fascinar na mesma medida que incomoda. Seu tema ficcional
pode soar estranho para quem o assiste, mas acaba se inserindo em muitos dos
nossos dilemas encontrados nos últimos vinte anos.
Nota CI: 7,0 Nota IMDB: 6,8
Filmografia:
EXISTENZ.
Direção: David Cronenberg. 1999. 97 min.
CRASH –
Estranhos Prazeres. Direção: David Cronenberg. 1996. 100 min. Título Original:
Crash.
MISTÉRIOS e
Paixões. Direção: David Cronenberg. 1991. 115 min. Título Original: Naked
Lunch.
VIDEODROME –
A Síndrome do Vídeo. Direção: David Cronenberg. 1983. 87 min. Título Original:
Videodrome.
ESTRANHOS
Prazeres. Direção: Kathryn Bigelow. 1995. 145 min. Título Original: Strange Days.
13º Andar.
Direção: Josef Rusnak. 1999. 100 min. Título Original: The Thirteenth
Floor.