Fugindo do
seu modelo tradicional de se fazer cinema, Chan-wook Park entrega uma obra
intensa que acaba por ser toda pautada na utilização do silêncio. Um filme que
lida de maneira cruel com a figura do acaso no trajeto das vidas ali inseridas,
utilizando o conceito de vingança como um alívio para o peso da existência.
‘Mr. Vingança’ não é ausente de problemas em seu ritmo, porém acaba se
notabilizando pela atuação de um dos protagonistas na medida certa.
O filme vai
nos inserir em um emaranhado de relações condenadas à tragédia. Temos aqui Ryu,
um indivíduo que é surdo e mudo, que, após ser demitido de seu emprego e ver
sua irmã morrendo por falta de um transplante de rim, resolve tentar a sorte
pagando uma organização do mercado negro para conseguir o órgão. Na outra ponta
do filme, temos Dong-jin Park,
um homem poderoso, mas que tem que lidar ultimamente com a crise em sua
empresa. As histórias vão se ligar quando Ryu é enganado pela organização do
mercado negro, perdendo seu dinheiro e também seu rim, e decide sequestrar,
junto com sua namorada, a filha de Dong-jin Park a fim de conseguir um dinheiro
para salvar sua irmã. 

Desde o
começo o filme trata por deixar claro ao seu espectador que trabalhará toda a
sua construção através do silêncio. Este uso serve para conseguirmos ter uma
breve imersão ao mundo que Ryu vive. Veremos como o homem passa a viver em uma
espécie de redoma devido a sua deficiência. E é essa redoma que o personagem
vive que lhe incumbe a uma ingenuidade e determinada certa falta de apatia com
o mundo que lhe cerca.
É em meio a esse
silêncio que o filme tropeça na construção de sua dinâmica. O uso desse
silêncio não chega nem perto de ter o mesmo impacto e genialidade com que seu
compatriota Ki-duk Kim usa em sua filmografia, como em ‘Casa Vazia’(2004) e ‘O
Arco’(2005). Não que esse silêncio seja usado de uma forma errada. Mas ele
acaba por comprometer o tradicional dinamismo das obras de Park, dando a filme
um ritmo muito cadenciado.
É importante
também trazermos a construção com que meras escolhas simples e o acaso definem
a trajetória dos indivíduos ali inseridos. Desde estar no momento errado em um
banheiro público, até o de aparecer uma vaga para a cirurgia de sua irmã pouco
depois de Ryu perder o dinheiro necessário. Das pequenas coincidências até as
mais impactantes, toda essa junção de fatores acaba definindo o caminho de
todos os personagens do filme.

A segunda
metade acaba ganhando um contorno bem distinto do que o filme tinha trilhado em
seu início, dando um tom mais ágil e delimitando em várias sequências
ininterruptas os conflitos entre os personagens. Todo esse aumento na qualidade
do filme se deve muito a presença mais intensa do ator Kang-ho Song.
Praticamente
ausente na primeira metade, Song assume a ponta do filme nas suas conclusões,
conseguindo com uma atuação sóbria e contida evidenciar toda a mensagem que a
obra tentou expressar em seu início. Song assume o personagem que tem a filha
sequestrada, dando um tom melancólico ao homem. Em sua atuação não há, mesmo as
cenas mais intensas, nenhuma alteração no seu tom de voz. O ator sempre procura
nortear a sua performance por uma intensidade unicamente contida no olhar. Algo
que inclusive acaba por caracterizar a carreira deste ator fantástico.
O resto do
elenco infelizmente não consegue manter o padrão de qualidade, embora ninguém
se faça ruim no filme. Todos os personagens requerem muito de seus atores, são
composições de personalidades muito complexas. E é todo esse engajamento
necessário que talvez falte para esses atores.

Em um filme ímpar
na sua carreira, Chan-wook Park escolhe por ter uma direção bem contida aqui. O
coreano decide por conceber um estilo mais tradicional de direção, onde não
teremos aqui a infinidade de ângulos contidos em filmes como, por exemplo,
‘Zona de Risco’(2000) e ‘A Criada’(2016). E, assim como fez em ‘Eu Sou Um
Cyborg, e Daí?’(2006), Park trabalha por dar ao filme, em pequenos momentos, um
olhar duplo, onde há a narrativa tradicional e o ponto de vista do personagem
acometido com a deficiência. São nestas pequenas cenas que mais nos sentimos
imersos à vida daquele homem, onde ele compartilha todo aquele silêncio
conosco.
Filme que dá
origem à aclamada trilogia da vingança, ‘Mr. Vingança’ faz um estudo sobre a
utilização da violência como um alívio para determinado peso existencial
contido nos indivíduos. Um filme que por mais que sofra de um ritmo cadenciado
demais, acaba ganhando sua essência na atuação fabulosa de Kang-ho Song.
Trabalho mais contido da carreira de Chan-wook Park. Fato este que não quer
dizer que o filme não mantenha sua tradicional exacerbação da realidade.
Nota CI: 6,7 Nota IMDB: 7,7
Filmografia:
MR. Vingança.
Direção: Chan-wook Park. 2002. 129 min. Título Original: Boksuneun naui geot.
CRIADA, A.
Direção: Chan-wook Park. 2016. 144 min. Título Original: Ah-ga-ssi.
EU Sou Um
Cyborg, e Daí?. Direção: Chan-wook Park. 2006. 105 min. Título Original:
Ssa-i-bo-geu-ji-man-gwen-chan-a.
ZONA de
Risco. Direção: Chan-wook Park. 2000. 110 min. Título Original: Gongdong
gyeongbi guyeok JSA.
 
ARCO, O.
Direção: Ki-duk Kim. 2005. 90 min. Título Original: Hwal.
CASA Vazia. Direção:
Ki-duk Kim. 2004. 88 min. Título Original: Bin-jip.