Beirando a
perfeição em vários dos elementos que compõem um filme, ‘Oldboy’ acaba por se
caracterizar como um filme ímpar, que elevou o status do cinema coreano para
outro patamar. Toda a composição sonora, as atuações e, principalmente, a
direção mostram o que o filme tem de tão especial. Chan-wook Park traz aqui seu
melhor filme e o melhor trabalho de direção de sua carreira.
A trama do
filme contará a história de Dae-su Oh, que,
em uma noite chuvosa, é sequestrado e colocado em isolamento em um quarto por
15 anos. Durante esses 15 anos, o homem trata de escrever em uma espécie de
diário o nome de todos aqueles que poderiam tê-lo prendido ali.
Misteriosamente, após os quinze anos de confinamento, o homem é solto. E é
exatamente neste ponto que o filme ganha força, dando início a um jogo de gato
e rato entre Dae-su e a pessoa que lhe prendeu.
O filme
empreende um ritmo único do começo ao fim do filme, sempre escolhendo por
entregar ao espectador o maior número de conteúdo possível. A história contida
aqui é tão bem condensada pelo roteiro que ao seu término parece que acabamos de
assistir um filme de mais de três horas de duração, quando na verdade ele dura
exatamente duas horas. Essa sensação passa longe de ser algo negativo como em
outros filmes. Não. Aqui a sensação somente evidencia a competência em mostrar
uma história com tanta substância em um período tão curto.

Temos também
no filme, como é de praxe do cinema coreano, a utilização de cenas cômicas
intrínsecas aos personagens, algo que serve para tirar um pouco do peso de todo
o conteúdo gráfico que nos é apresentado durante sua duração. Esse uso perfeito
das situações cômicas em filme que não pertencem ao gênero de comédia é algo
exclusivo dos coreanos. Nenhum outro país consegue chegar nem perto do que eles
fazem aqui.
A utilização
da violência em um grau exacerbado vai totalmente de encontro ao que o filme
nos propõe. Há uma completa simbiose entre trama e violência, tornando
impossível separar as duas sem que haja uma queda na qualidade da obra. Temos
cenas duríssimas de violência, como, por exemplo, extrações dentárias e línguas
decepadas. O uso dessa violência é tão intenso, que ela se prolonga até mesmo
para uma refeição em um restaurante, onde o protagonista devora um polvo vivo.
A figura simbólica dessa cena é essencial para poder absorver tudo àquilo que o
filme tem em sua história. E até mesmo na fase de vida que o protagonista se
encontra. Vale a pena ressaltar que todas essas cenas difíceis de serem
digeridas pelo espectador são expostas sempre com o auxílio da trilha sonora
marcante ao fundo, evidenciando como o bom uso de do fundo sonoro pode elevar e
até mesmo nortear os passos de um filme.

A trilha
sonora é comandada por Yeong-wook Jo,
conseguindo conciliar muito bem composições clássicas com aquelas feitas para o
filme. Todos os 120 minutos de filme são pontuados pelo uso da trilha, seguindo
o clima de cada cena e do personagem de Dae-su. Em alguns momentos teremos
composições que evidenciam o suspense de cada cena e em outros que tratam de
pontuar alguma ação dos personagens. Vale um destaque para a cena magistral de
Dae-su contra um de dos algozes do filme, onde há a entonação genial da parte
inverno das quatro estações de Vivaldi. É um momento para ficar tatuado na
mente de nós por muito tempo.
A figura da
vingança, na qual o filme trabalha toda a sua trama, é utilizada obviamente
criando um senso de exagero nos atos dos personagens. O modelo proposto de
execução deste filme trabalha exatamente com este ponto, tentando causar o
máximo de distanciamento possível entre o que é mostrado em tela para a
realidade. Park faz esse uso para poder dar vida a todas as cenas mais intensas
de ação e da trama.

Sua direção
segue exatamente a linha de seus outros trabalhos. Porém, seu filme que mais se
assemelha ao estilo de direção utilizado aqui é ‘Eu Sou Um Cyborg, e
Daí?’(2006), onde o cineasta procura sempre seguir as loucuras dos
protagonistas quase que exclusivamente, utilizando planos fechados em seus
rostos com o intuito de trazer ao público toda a perturbação que regem aqueles
personagens. Teremos aqui também tomadas aéreas, sequências de combate físico
realizadas com rara felicidade e planos de “zoom” com aproximações e
distanciamentos da ação do filme.
Ainda
contamos com o belo trabalho de fotografia de Chung-hoon Chung,
que dá as cenas um tom quente, sempre com cores fortes que evidenciam toda a
completude do cenário explorado em cada enquadramento. Esse trabalho de
cinematografia de Chung é o que mais se aproxima de seu desempenho genial em ‘A
Criada’(2016), onde tem mais uma contribuição com Park.

O elenco
central do filme também está ótimo. Temos Hye-jeong Kang e Ji-tae Yu realizando atuações precisas nos papéis secundários. E o
grande destaque do filme, é claro, vai para nosso protagonista, interpretado
pelo brilhante Min-sik Choi. São poucas as vezes que vimos um ator tão devotado ao seu papel como
Choi está em ‘Oldboy’. Sem frescuras, uma atuação extremamente física o tempo
inteiro, descartando a utilização efeitos de câmera, como na cena do polvo já
citada acima, ou de dublês em algumas das cenas mais intensas. Mas não se
enganem, Choi está longe de se destacar apenas no quesito físico do papel. O
ator dá um show de interpretação em cada cena, sabendo se inserir em toda a
estranheza do personagem, nos propiciando cenas fantásticas, como a do
elevador, logo depois que é solto e seu primeiro contato humano após os 15 anos
preso.
‘Oldboy’ é o
maior responsável por essa grande eclosão de interesse no cinema coreano por
parte do ocidente. Um filme que trata de vários tabus muito importantes para os
asiáticos, como incesto e um senso moral demasiado. Um filme fascinante que
atinge seu ápice nos seus 30 minutos finais, onde cada sequência parece ser a
última, no entanto, sempre prosseguindo para a próxima. Trabalho genial em
colocar a ideia original do mangá de Nobuaki Minegishi
em tela por Chan-wook Park.Um filme que reúne o que há de melhor no já
espetacular cinema coreano.
Nota CI: 8,2 Nota IMDB: 8,4
Filmografia:
OLDBOY.
Direção: Chan-wook Park. 2003. 120 min. Título Original: Oldeuboi.
CRIADA, A.
Direção: Chan-wook Park. 2016. 144 min. Título Original: Ah-ga-ssi.
EU Sou Um
Cyborg, e Daí?. Direção: Chan-wook Park. 2006. 105 min. Título Original:
Ssa-i-bo-geu-ji-man-gwen-chan-a.