Contendo uma
história que assusta na mesma medida que intriga o espectador, ‘Os Filhos do
Medo’ acaba se caracterizando por ser um filme completamente surtado, com uma
história surreal. Seu realizador, o canadense David Cronenberg, estava em dias
muito inspirados quando decidiu começar a escrever a história. Um filme muito
bem feito em sua completude, apesar do orçamento enxuto.
A trama vai
adentrar em uma investigação amadora realizada por Frank Carveth a
um centro de reabilitação no qual a sua esposa está internada. Frank inicia a
investigação após ser impedido de ver sua esposa e notar machucados nas costas
de sua filha após uma visita da menina ao centro de reabilitação. A história
ganha forma quando uma série de assassinatos cometidos por criaturas que
aparentam ser crianças se inicia.
O filme acaba
tendo um ritmo bem cadenciado, onde a trama se desenvolve bem lentamente. Todo
o conteúdo é exposto com extrema cautela, apesar do horror ter início rápido em
tela. O espectador demora a captar o que está acontecendo na história, somente
se familiarizando com ela em seus últimos minutos.
O roteiro do
filme é bem simples. Não teremos nenhum fato oculto em meio à história. A trama
é aquilo que se apresenta e acabou. Os personagens também acabam não possuindo
muitos diálogos com uma maior sustância, limitando-se a olhares e expressões de
medo. A aparição de alguns personagens surgindo do nada para serem assassinado
em sequência também atrapalha na absorção da história.

Porém,
compensando o roteiro fraco, Cronenberg faz um trabalho brilhante na direção. O
trabalho de imersão à atmosfera do filme é quase que hipnotizante. O diretor
escolhe, em virtude do pouco orçamento, a se limitar a poucos ambientes, como a
clínica, uma casa ou então uma escola. O grande trabalho do diretor é conseguir
tornar estes ambientes únicos, enclausurando o espectador junto com os
personagens do filme. Outro fator que chama a atenção no filme é o trabalho
simplesmente espetacular do gore propiciado por Cronenberg. Temos poucas cenas,
mas as que ali estão são extremamente incômodas, destacando o ato final que
fará o estômago de qualquer pessoa “embrulhar”.
Vale também
fazer um destaque para a ótima trilha sonora de Howard Shore.
Shore aqui escolhe pelo excesso. Teremos, desde o minuto inicial, composições
notáveis, que acabam não somente acompanhando o ritmo do filme, mas também
tomando o controle para si, impelindo determinados sentimentos no espectador.
Normalmente eu condeno uma trilha sonora que acaba por reger o filme, mas no
caso de Howard Shore é impossível fazer qualquer ressalva a respeito de seu
trabalho.

Já adentrando
ao campo das atuações, teremos talvez aqui o ponto fraco do filme. O
protagonista do filme, Art Hindle,
não tem o mínimo de talento para protagonizar um filme do Cronenberg, soando
apático nas cenas mais importantes do filme. Outro ponto negativo da composição
do elenco se faz pela esposa de Frank. Personagem central para o
desenvolvimento do filme, a atriz Samantha Eggar peca, ao contrário de Hindle, por uma atuação exacerbada, exagerando
demais com expressões faciais e gritos jogados ao vento. A peça que tenta
redimir o elenco é a de Oliver Reed. Reed acaba por se destacar no filme, conseguindo a cada aparição em
tela evidenciar a aura sombria do filme proposta pelo diretor.
‘Os Filhos do
Medo’ é um filme essencial para os amantes do gênero horror. Uma verdadeira
aula de como criar um clima com os recursos mais pobres. Após este filme, David
Cronenberg empreenderia uma verdadeira sequência de clássicos, e muito se deve,
claro, as experiências adquiridas aqui. Um filme demasiadamente bizarro que
vale cada um dos 92 minutos investidos aqui.
Nota CI: 6,2 Nota IMDB: 6,9
Filmografia:
FILHOS do
Medo, Os. Direção: David Cronenberg. 1979. 92 min. Título Original: The Brood.