Explorando os
nuances que tangem o conceito de perversão, Michael Haneke entrega uma obra
contemplativa. Um estudo fiel sobre a vida de uma mulher perversa em completo
estado de desconexão com o mundo que a cerca. Teremos abordados temas como, por
exemplo, a relação perturbadora entre mãe/filha, falta de assertividade nas relações
interpessoais, a degeneração do aparato psíquico no perverso e o conceito de
sofrimento em perversão. Um filme cruel em suas investidas, assim como a
protagonista, desprezando os limites impostos pelo espectador. Como se tudo
isso não fosse o bastante, ‘A Professora de Piano’ ainda entrega a maior
atuação feminina da história do cinema.

O filme vai
contar a história de Erika, uma professora de piano, extremamente fria em suas
relações sociais, que acaba por viver uma vida dupla, entregando parte de seu
dia ao estranho hábito de frequentar cinemas pornôs. A frieza da mulher é
unicamente despejada na sua máscara social, já que na presença da mãe ela acaba por
se comportar como uma espécie de adolescente. E sendo tratada como tal. A trama
do filme ganhará sua substância com o surgimento de um aluno completamente
obcecado na figura da professora, desenvolvendo por ela uma paixão inescapável.
Os dois vão aos poucos desenvolvendo um estranho tipo de relacionamento, no qual os limites morais e éticos serão atingidos, fornecendo à professora toda a
sua fragilidade psíquica.
O início do
filme serve para alocar o espectador na vida de Erika, mostrando primeiro sua
relação com sua mãe, uma figura castradora responsável provavelmente por grande
parte dos problemas que afligem a mulher. Sua mãe a trata de uma maneira
adolescente, como se Erika tivesse 15 anos, não deixando a filha chegar mais
tarde do que deveria em casa, inspecionando todos os tipos de objetos da mulher e
regendo, até mesmo, a forma como a filha se veste.
Essa relação
passa longe de ser problemática unilateralmente. Erika também estimula esse
comportamento por parte da mãe, deixando com que ela dite sua vida
profissional. As duas ainda evidenciam esse laço praticamente inquebrável com o
ato de dormirem na mesma cama.

Nas cenas
seguintes, somos inundados com a frieza que Erika acaba levando sua vida em
meio ao convívio social. A mulher trata todos que a cercam de forma mecânica.
Todas as suas frases e esboços de expressões faciais parecem ser controladas,
uma espécie de roteiro ético e social. Seu relacionamento com seus alunos, além
de ser frio, também se faz cruel, punindo severamente com ameaças veladas
qualquer tipo de comportamento que lhe pareça ameaçador.
É em meio a
essa frieza, essa máscara social tangida pela normalidade, que haverá o grande
contraponto da obra. De forma abrupta somos introduzidos aos hábitos
completamente surreais da protagonista. Em um momento, estamos inseridos na vida
tediosa e normal de Erika, no outro, estamos adentrando em um cinema
pornográfico onde a mulher assiste os filmes com um ar passivo, nutrindo
hábitos de cheirar lenços que os homens do local usavam para ejacular.
Tudo que se
segue após essa cena, preponderante para as ambições do filme, acabam enojando
o espectador. Ficará claro, se até aqui nós ainda tenhamos alguma dúvida sobre
a natureza da mulher, o fator perverso que lhe acomete, atingindo atos de
parafilias, como voyeurismo, sadismo e, principalmente, o masoquismo.
Seria
importante, antes de nos inserirmos na questão conceitual da perversão que
acomete Erika, ressaltar o esboço de trilha sonora que o filme nos propicia.
Fora as aulas e apresentações de piano, o único momento que temos a introdução
de um esquete de trilha sonora é exatamente nesse corte abrupto citado acima, entre normalidade e o patológico. As composições musicais clássicas que são
entoadas no caminho da mulher para o cinema pornô delimitam o quão crucial é
esse momento para o filme, esse corte imediato entre uma realidade insossa e a
outra praticamente intragável. O diretor já havia usado esse modelo de corte
por meio de esboços de trilha sonora em ‘Violência Gratuita’(1997), quando a
música serve para tirar a realidade social e pacífica da família do filme, para
lhes apresentar o conceito cruel da violência instintual do mundo. Os modelos
usados são idênticos nos dois filmes e essenciais para essa quebra forçada no
espectador entre uma realidade e outra.
Essa
realidade bidimensional que Erika vive é sempre guiada por sua falta de
sentimentos em relação ao mundo que a cerca. Esses sentimentos ausentes é algo
que incomoda a própria protagonista, nos quais a mulher simplesmente anseia por algo
que lhe faça se sentir viva. E é neste momento que teremos uma cena magistral
que homenageia um clássico de Ingmar Bergman.

A cena em
questão é quando Erika se tranca no banheiro, pegando uma gilete e cortando sua
área genital. Essa cena encontra sua ligação histórica no filme ‘Gritos e
Sussuros’(1972), quando Karin, personagem interpretada por Ingrid Thulin, pega um pedaço de espelho quebrado e corta sua vagina. Os simbolismos
destes atos se encontram, nos quais ambas as personagens procuram com o ato imprimir
em si algum tipo de sentimento, nem mesmo que seja a sensação de dor. Karin procura
algo que a faça acordar do pesadelo melancólico que sua vida se tornara. Já
Erika procura na dor algo mais ligado ao fetichismo, quando a busca por
sentimentos sempre se ligará nas pulsões sexuais da mulher.
Há nesses
pequenos comportamentos da protagonista uma sensação de distanciamento do real,
da realidade externa inerente a ela. Erika vai entrar em um emaranhado de
atitudes onde trata as pessoas a sua volta como meros objetos na busca por seus
objetivos. A mulher passa a ser cada vez mais ausente em seu trato social. Em
outro momento, decide, como um animal encurralado, atacar uma aluna por
simplesmente despertar a atenção do jovem com quem desenvolveria sue
relacionamento.
O
desenvolvimento do romance atípico com o jovem é todo pautado nessa busca por
sentir algo em sua vida. E é neste momento que chegaremos no ponto derradeiro
do processo de evolução da perversão em Erika, quando finalmente atinge o
estado masoquista. O masoquismo vem como ponto final na busca
incansável da mulher por sentimentos reais.
Esse
masoquismo presente em Erika é colocado em forma de palavras na cena em que
escreve uma carta para o jovem com quem está se relacionando, pedindo para ele
seguir um série de regras, nas quais ela iria se sujeitar completamente a ele. O
momento em que ele lê a carta em voz alta para ela, com um ar de completa
consternação àquilo, é ímpar no cinema e extremamente perturbador.
Concentrando-nos nos espectros do personagem do jovem veremos sua ingenuidade, querendo apenas vivenciar aquela paixão que nutria pela personagem da professora,
sem ter ideia do que consistia a essência da mulher. E no momento em que lê a
carta, ele é submetido a um choque de realidade onde essa paixão pela mulher
abre espaço para o completo enojamento por sua pessoa.
Para Erika, o
jovem é apenas um objeto pelo qual ela pode alcançar a satisfação sexual. Ali
não está presente um ser humano, mas, sim, um falo, um objeto que pode lhe proporcionar dor e etc. Já para o jovem, a priori, antes da carta, a mulher era uma
aventura romântica pela qual ele sempre ansiara. Esses contrapontos cruéis
acabam por levar a relação para lados opostos, causando a completa quebra do
aparelho psíquico que ainda sustentava o mínimo possível Erika no mundo e uma
completa perturbação no jovem um tanto quanto inocente, levando o mesmo a uma
confusão da forma em que pretende agir posterior à descoberta da carta com
a mulher.
A reta final
do filme vai se ater ao processo de degeneração do construto psicológico de
Erika até chegar ao estágio de completa loucura. É questionado pelo filme
também o conceito de sofrimento do perverso, de como aquela falta de
pertencimento ao mundo e ao meio social acaba marcando a vida dessas pessoas.
Erika quer mudar, quer se sujeitar a um processo de mutação em um ser social. A
cena que evidencia isso é quando ela implora pela reconsideração do jovem,
prometendo dar a ele tudo que ele queria a priori. Quando ele aceita a proposta
dela, a mulher acaba tendo uma reação física de repulsa, que mostra a
impossibilidade de algo próximo ao desenvolvimento de sentimentos. Erika é
incapaz de mudar e sofre por isso.
O ato final é
interpretativo. Não sabemos ao certo o destino que Erika levara. O roteiro de
Haneke, baseado no romance de Elfriede Jelinek, deixa a encargo da imaginação do espectador projetar os passos tristes
de professora.
A direção de
Michael Haneke foge um pouco da forma como vinha se consumando em seus filmes
anteriores, se comparando mais ao estilo empreendido por ele posteriormente em
‘Amor’(2012), por exemplo. Esse estilo esquece a obsessão nos objetos que
permeiam os ambientes, dando um foco na completude da personagem protagonista,
com enquadramentos fechados, que sempre procuram preservar o estado psicológico
que se encontra a mulher. O brilho do trabalho de Haneke é se conscientizar que
possui em mãos uma atriz sem frescuras, disposta a ir ao limite do aceitável
para consumar sua atuação.
Isabelle Huppert está completamente genial no filme. A
atriz consegue dar uma intensidade na própria frieza da personagem,
aproveitando os enquadramentos fechados em sua face para dar ao espectador toda
a anomalia que tange aquela mulher. Huppert compadece o público em alguns
momentos, já em outros nos deixa completamente enojados. Ela é frenética em
cena, cada segundo projetado da atriz em tela trabalha por deixar o espectador
completamente extasiado. São vários os momentos onde a atriz ultrapassa sua
consistência padrão, atingindo níveis incríveis de atuação, como na cena onde
coloca em prática o lado voyeur da personagem, espiando um casal fazendo sexo
em um carro, quando, com a câmera fechada em seu rosto, vai às lágrimas pela
empolgação do momento. São 131 minutos de filme em que veremos mais de uma dezena
de momentos como esse. A maior atuação feminina da história do cinema. O nível
que a francesa empreende em suas atuações, e mais especificamente nesta, atriz
nenhuma conseguiu chegar perto.
‘A Professora
de Piano’ é um estudo acurado sobre os construtos psicológicos de um perverso. Haneke
ainda questiona o senso comum e, até mesmo, alguns profissionais da área que
afirmam que os acometidos da perversão (sempre entendendo o tema pela visão psicanalítica) não possuem um sofrimento
intrínseco a seu ser. O diretor acaba por mostrar, com a personagem de Erika, o
quanto existe, sim, um sofrimento exacerbado na constituição do aparato
psíquico no perverso. Um filme difícil de ser digerido, que ainda relata o
quanto um vínculo demasiado intenso com a família pode ser prejudicial no
desenvolvimento do ser humano.

Nota CI: 7,8 Nota IMDB: 7,4
Filmografia:
PROFESSORA de
Piano, A. Direção: Michael Haneke. 2001. 131 min. Título Original: La pianiste.
AMOR.
Direção: Michael Haneke. 2012. 127 min. Título Original: Amour.
GRITOS e
Sussurros. Direção: Ingmar Bergman. 1972. 91 min. Título Original: Viskningar
och Rop.