Utilizando de
um tom quase lúdico para desenvolver sua história, ‘Três é Demais’ consegue
atrair completamente a atenção de seu espectador logo nos primeiros minutos de
sua duração. Um filme que trata os conflitos surgidos na adolescência de uma
forma suave, sem dar uma carga de dramaticidade descabida. Wes Anderson, em seu
segundo longa-metragem, faz um trabalho único aqui.
O filme vai
nos inserir em alguns meses da vida de Max Fischer, um
adolescente no auge de seus 15 anos, que tem uma bolsa de estudos na escola
Rushmore. Max é um indivíduo de difícil trato. Estranho e nutrindo um
sentimento inerente por se destacar dos outros, o jovem acaba por ter uma
grande gama de atividades extracurriculares em seu boletim. No entanto, são
essas atividades que acabam fazendo com que Max tenha notas ruins
correntemente, sendo ameaçado de perder sua bolsa. É em meio a essa ameaça e ao
desenvolvimento de uma paixão por uma professora, além da amizade com um
indivíduo mais velho, que o filme vai se desenvolver.
O
desenvolvimento da trama é dinâmico. As informações entregues ao espectador são
conduzidas de uma forma rápida, onde cada fragmento de conteúdo tem por
essência alavancar a velocidade do filme. Os aparentemente poucos 93 minutos de
duração na prática passam longe de serem efêmeros. Apesar da agilidade, cada
conteúdo é destrinchado em todos seus âmbitos.

A maneira
romantizada de contar a forma como um adolescente desajustado socialmente leva
sua vida é um tiro certeiro realizado pelo filme. Estão presentes ali todos os
problemas tradicionais enfrentados por um jovem comum, como, por exemplo, a
afloração de sua sexualidade e a confusão de identidade. E é exatamente com
esse trabalho de romantizar a trama que o filme consegue com rara destreza
fazer a ponte adolescência/infância e adolescência/adulto.
Vamos ter
trabalhado aqui toda a sensação de afastamento que um indivíduo acaba sendo
instruído pela sociedade a ter por suas fases já ultrapassadas ou então que não
foram atingidas. Max evidencia toda uma junção de fases com seus
relacionamentos com seu amigo Dirk Calloway,
um garoto com algo em torno de 11 anos, e com Herman Blume,
um milionário com mais de 50 anos. Esse emaranhado de fases que se unem em
detrimento dos relacionamentos de Max, acaba por relativizar a periodização da
vida e, não só isso, também atua por fazer um grande processo de troca de
valores, onde cada personagem transcende sua fase, se inserindo em qualquer uma
das outra duas relatadas no filme.
Teremos o
personagem de Blume ora agindo de acordo com sua idade, em outra, de maior
exacerbação, como um adolescente e, em alguns momentos, até mesmo como uma
criança. O mesmo acontece com Dirk e, principalmente, com Max. E o filme não
mostra esses comportamentos de forma depreciativa, pelo contrário, até
glorifica essa instabilidade de suas psiques.

O roteiro do
filme, escrito por Wes Anderson e Owen Wilson, obtêm sucesso exatamente por
essas investidas ausentes de determinismos sociais. As situações de maior carga
emocional são atenuadas com piadas leves e certeiras. Todas as tomadas cômicas
do filme são emanadas de um humor extremamente bem construído. Já as
características e personalidades dos personagens do filme são formuladas de
maneira precisa, dando o tom substancial necessário a eles.
Já adentrando
ao campo da direção, teremos aqui o ponto que encanta seu espectador. Wes
Anderson escolhe por dar um tom nostálgico ao filme, sempre destacando em
enquadramentos perfeitos objetos que pertenciam a décadas passadas. Esses
enquadramentos nos objetos norteiam sua forma de levar o filme ao seu público.
A composição de seus cenários é outro detalhe que pesa quando comparado a
outros filmes do gênero. Aqui teremos planos abertos com uma câmera fixada,
revelando escolas, casas ou ruas.
Os destaques
fogem também para a sua fotografia fantástica, utilizando cores fortes para
marcar determinada cena, em um trabalho irretocável de Robert D. Yeoman.
A edição de David Moritz é
a principal aliada de Wes quando decide dar um tom ágil a trama, sempre
trabalhando por dar cortes ousados e frequentes a cada cena. Já a trilha sonora
de Mark Mothersbaugh
procura de certa forma guiar a história e atuar de acordo com o clima intenso
intrínseco aos personagens ali inseridos.

O elenco é
composto, em suas partes mais relevantes, por Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams e Mason Gamble. Gamble, como Dirk, acaba tendo uma atuação mais
contida, onde o próprio roteiro limita a quantidade de falas entregues a ele.
Williams, como Rosemary Cross,
tem uma atuação suave, jamais tentando usurpar a o foco dos personagens mais
relevantes. Murray, como Blume, é o grande destaque do filme, guiando o tom
melancólico em alguns pontos da obra com uma atuação pontual. E Schwartzman no
papel de protagonista do filme, conseguindo evidenciar toda a aura paranoica de
seu personagem com uma atuação intensa do começo ao fim.
Em nenhum
momento de sua duração o filme tem uma queda de nível. Seu ritmo se mantém
constante do primeiro ao último minuto. ‘Três é Demais’ é uma obra doce que
trabalha por encantar os públicos de qualquer idade. Um filme que se encaixa no
caráter conceitual do devir no mundo, onde toda a atmosfera presente no longa
se apresenta em constante processo de transformação.
Nota CI: 7,5 Nota IMDB: 7,7
Filmografia:
TRÊS é
Demais. Direção: Wes Anderson. 1998. 93 min. Título Original: Rushmore.