Sendo talvez
o filme que mais deixe claro a passagem de estilos do cinema coreano do final
da década de 1990 para o início dos anos 2000, ‘Zona de Risco’ é uma obra quase
impecável. Teremos exploradas, nesta pérola do cinema oriental, a amizade, as
exacerbações políticas de dois países e o senso moral dos indivíduos ali
inseridos. Um roteiro conciso e atuações extremamente emocionais somente abrem
o caminho para o trabalho genial de Chan-wook Park na direção. Um filme que
pode enganar seu espectador, tendo em vista seus pôsteres e sinopses,
entregando muito mais do que este esperava.
O filme vai
trazer a seu espectador os desdobramentos e as motivações da eclosão de um
conflito surgido em uma parte da fronteira que divide a Coreia do Sul e a do
Norte, que resultou na morte de dois militares norte-coreanos. Embarcaremos no
desencadeamento de uma investigação que tentará trazer à tona tudo o que de
fato aconteceu naquela fatídica noite. Veremos a marca que aquilo causou nos
sobreviventes envolvidos diretamente no fato e como, às vezes, nem mesmo um
laço forte de amizade pode superar mágoas territoriais.

Toda a
estrutura do filme é dividida em fragmentos aleatórios dos fatos ocorridos e da
investigação. Teremos como personagens centrais para a história a Maj. Sophie
E. Jean, mulher responsável por comandar as investigações e impedir um
incidente diplomático ainda maior entre os países, Sgt. Lee Soo-hyeok, um militar sul-coreano em seus últimos meses de serviço, e Sgt. Oh
Kyeong-pil, um militar norte-coreano ciente das condições rigorosas que regem o
seu país. Essas estruturas citadas vão se basear nos três personagens, onde
Sophie terá o arco responsável por nortear o espectador no filme e os outros
dois terão as partes que dão substância à história.
Não
seguiremos aqui uma ordem cronológica tradicional. O filme vai aos poucos dando
o conteúdo ao espectador. Ora estamos no cenário na investigação, com Sophie
comandando os interrogatórios atrás das informações, na outra temos os meses
anteriores até chegar ao incidente esmiuçado para o espectador. O ritmo que o
filme empreende é muito sedutor, jamais deixando que o espectador se sinta
desmotivado por saber o que motivou tudo aquilo.

Teremos um
aprofundamento na questão do quanto o ser humano precisa do outro para poder se
desenvolver em um âmbito psicológico. A figura da amizade é forte durante os
110 minutos de duração do filme. O filme investiga como podemos chegar ao sentimento
de uma completude no que acaba por ser estranho a nós, como, no exemplo do
filme, as diferenças morais e éticas de um país. Toda essa figura do
companheirismo é mostrada de uma maneira carregada de um sentimentalismo
intenso no filme.
O roteiro do
filme consegue fazer com que toda a carga emocional do filme não fique
demasiada, mesclando isso com diálogos mais descontraídos e alguns escapes para
situações cômicas. Não vamos ter aqui também saídas típicas para histórias com
essa temática, conforme o filme avança vai ficando claro que todas as situações
jamais vão ser resolvidas da maneira mais comum e fácil. É claro que alguns
clichês acabam ficando presentes na obra, como, por exemplo, o personagem que
tem pouco tempo de exército faltando para ele antes do incidente ou do outro
que sabe das condições precárias as quais está submetido.

Existe ainda
um pequeno ponto que devemos destacar. Este é um filme feito na Coreia do Sul
que acaba obviamente trazendo um material conturbado sobre a outra Coreia.
Durante algum tempo do filme teremos questões colocadas que, de uma forma ou outra,
acabam questionando o modelo político e de vida do país vizinho. Porém,
diferente do que estamos acostumados com a visão norte americana de ofender
tudo aquilo que foge de seu padrão tido como normal, aqui teremos uma visão
realista. Nada do que é exposto foge da forma soturna que os norte-coreanos
tangem o seu país. E o filme trabalha por deixar isto bem claro.
A direção de
Chan-wook Park segue a risca o padrão do cineasta. Park utilizada pela única
vez em sua carreira um modo mais defasado de se fazer cinema em seu país. O
filme é do ano 2000, época em que o cinema coreano começava a conceber a grande
revolução em seu modo de se fazer uma obra. E aqui temos um filme que usa o
modelo presente até o final dos anos 1990, com uma câmera mais estática e
enquadramentos melodramáticos, mas também contamos, e é isto que aloca a obra
em outro patamar, o início do que se constituiria o cinema coreano, utilizando
sequências frenéticas, cenas dos mais diversos ângulos e uma exacerbação da
violência. ‘Zona de Risco’ conta com uma infinidade desses valores, como uma
cena no começo do filme na fronteira, filmada com uma câmera aérea(god’s point
of view), que é essencial para tudo o que trabalharemos na trama.

Outros detalhes
que valem a pena serem lembrados é a edição de Sang-beom Kim, atribuindo
ao filme sempre um dinamismo ao contar sua história, e a trilha sonora de Jun-seok Bang e
Yeong-wook Jo,
que sabe pontuar os momentos cruciais do filme e dando às cenas de ação um
olhar completamente deturpado do que a situação oferece. Essa trilha serviria
de um esboço para Jo colocar em prática o que Park tinha em mente para seus
filmes posteriores.
O elenco do
filme conta com Byung-hun Lee, Kang-ho Song e Yeong-ae Lee nos papéis de maior destaque. Yeong-ae Lee acaba tendo uma aparição mais limitada como Sophie, não convencendo
muito na personagem. Já Byung-hun e Kang-ho estão incríveis. A relação que os
dois acabam tendo no filme só consegue passar um grau de veracidade ao
espectador em detrimento da química entre os atores. Ambos escolhem por um tom
de atuações bem intenso, demonstrando sempre que os personagens estão em seus
limites.
‘Zona de
Risco’ é uma obra que, apesar do conteúdo rústico que aborda, consegue
emocionar o espectador com sua aura sensível para lidar com os relacionamentos
humanos. Durante o filme teremos várias cenas que a obra atinge seu auge da
carga dramática trabalhando por nos emocionar em todas elas. Um dos melhores
filmes de Chan-wook Park e um trabalho de direção que deixa o espectador
extasiado. Como se não fosse o bastante, contamos ainda com um dos filmes que
melhor consegue investigar a figura da amizade no ser humano.
Nota CI: 8,3 Nota IMDB: 7,9
Filmografia:
ZONA de
Risco. Direção: Chan-wook Park. 2000. 110 min. Título Original: Gongdong
gyeongbi guyeok JSA.