Nome mais popular entre os cineastas coreanos, Chan-wook Park soube usar muito bem as influências do cinema norte-americano para poder realizar suas direções praticamente impecáveis. Seus filmes possuem em sua essência uma grande devoção em evidenciar o quanto um mistério bem construído pode ser efetivo quando colocado em filme. E, assim como a grande onda de ótimos diretores surgidos na década de 1990 em seu país, Park possui grande apreço pela figura da utilização estilizada da violência. Abaixo está a análise dos filmes de Park.

Zona de Risco(2000)

Sendo talvez
o filme que mais deixe claro a passagem de estilos do cinema coreano do final
da década de 1990 para o início dos anos 2000, ‘Zona de Risco’ é uma obra quase
impecável. Teremos exploradas, nesta pérola do cinema oriental, a amizade, as
exacerbações políticas de dois países e o senso moral dos indivíduos ali
inseridos. Um roteiro conciso e atuações extremamente emocionais somente abrem
o caminho para o trabalho genial de Chan-wook Park na direção. Um filme que
pode enganar seu espectador, tendo em vista seus pôsteres e sinopses,
entregando muito mais do que este esperava.
O filme vai
trazer a seu espectador os desdobramentos e as motivações da eclosão de um
conflito surgido em uma parte da fronteira que divide a Coreia do Sul e a do
Norte, que resultou na morte de dois militares norte-coreanos. Embarcaremos no
desencadeamento de uma investigação que tentará trazer à tona tudo o que de
fato aconteceu naquela fatídica noite. Veremos a marca que aquilo causou nos
sobreviventes envolvidos diretamente no fato e como, às vezes, nem mesmo um
laço forte de amizade pode superar mágoas territoriais.
Toda a
estrutura do filme é dividida em fragmentos aleatórios dos fatos ocorridos e da
investigação. Teremos como personagens centrais para a história a Maj. Sophie
E. Jean, mulher responsável por comandar as investigações e impedir um
incidente diplomático ainda maior entre os países, Sgt. Lee Soo-hyeok, um militar sul-coreano em seus últimos meses de serviço, e Sgt. Oh
Kyeong-pil, um militar norte-coreano ciente das condições rigorosas que regem o
seu país. Essas estruturas citadas vão se basear nos três personagens, onde
Sophie terá o arco responsável por nortear o espectador no filme e os outros
dois terão as partes que dão substância à história.

Não
seguiremos aqui uma ordem cronológica tradicional. O filme vai aos poucos dando
o conteúdo ao espectador. Em um momento estamos no cenário na investigação, com Sophie
comandando os interrogatórios atrás das informações, no outro temos os meses
anteriores até chegar ao incidente esmiuçado para o espectador. O ritmo que o
filme empreende é muito sedutor, jamais deixando que o espectador se sinta
desmotivado por saber o que motivou tudo aquilo.
Teremos um
aprofundamento na questão do quanto o ser humano precisa do outro para poder se
desenvolver em um âmbito psicológico. A figura da amizade é forte durante os
110 minutos de duração do filme. O filme investiga como podemos chegar ao sentimento
de uma completude no que acaba por ser estranho a nós, como, no exemplo do
filme, as diferenças morais e éticas de um país. Toda essa figura do
companheirismo é mostrada de uma maneira carregada de um sentimentalismo
intenso no filme.

O roteiro do
filme consegue fazer com que toda a carga emocional do filme não fique
demasiada, mesclando isso com diálogos mais descontraídos e alguns escapes para
situações cômicas. Não vamos ter aqui também saídas típicas para histórias com
essa temática, conforme o filme avança vai ficando claro que todas as situações
jamais vão ser resolvidas da maneira mais comum e fácil. É claro que alguns
clichês acabam ficando presentes na obra, como, por exemplo, o personagem que
tem pouco tempo de exército faltando para ele antes do incidente ou do outro
que sabe das condições precárias as quais está submetido.
Existe ainda
um pequeno ponto que devemos destacar. Este é um filme feito na Coreia do Sul
que acaba obviamente trazendo um material conturbado sobre a outra Coreia.
Durante algum tempo do filme teremos questões colocadas que, de uma forma ou outra,
acabam questionando o modelo político e de vida do país vizinho. Porém,
diferente do que estamos acostumados com a visão norte americana de ofender
tudo aquilo que foge de seu padrão tido como normal, aqui teremos uma visão
realista. Nada do que é exposto foge da forma soturna que os norte-coreanos
tangem o seu país. E o filme trabalha por deixar isto bem claro.

A direção de
Chan-wook Park segue a risca o padrão do cineasta. Park utilizada pela única
vez em sua carreira um modo mais defasado de se fazer cinema em seu país. O
filme é do ano 2000, época em que o cinema coreano começava a conceber a grande
revolução em seu modo de se fazer uma obra. E aqui temos um filme que usa o
modelo presente até o final dos anos 1990, com uma câmera mais estática e
enquadramentos melodramáticos, mas também contamos, e é isto que aloca a obra
em outro patamar, o início do que se constituiria o cinema coreano, utilizando
sequências frenéticas, cenas dos mais diversos ângulos e uma exacerbação da
violência. ‘Zona de Risco’ conta com uma infinidade desses valores, como uma
cena no começo do filme na fronteira, filmada com uma câmera aérea(god’s point
of view), que é essencial para tudo o que trabalharemos na trama.
Outros detalhes
que valem a pena serem lembrados é a edição de Sang-beom Kim, atribuindo
ao filme sempre um dinamismo ao contar sua história, e a trilha sonora de Jun-seok Bang e
Yeong-wook Jo,
que sabe pontuar os momentos cruciais do filme e dando às cenas de ação um
olhar completamente deturpado do que a situação oferece. Essa trilha serviria
de um esboço para Jo colocar em prática o que Park tinha em mente para seus
filmes posteriores.

O elenco do
filme conta com Byung-hun Lee, Kang-ho Song e Yeong-ae Lee nos papéis de maior destaque. Yeong-ae Lee acaba tendo uma aparição mais limitada como Sophie, não convencendo
muito na personagem. Já Byung-hun e Kang-ho estão incríveis. A relação que os
dois acabam tendo no filme só consegue passar um grau de veracidade ao
espectador em detrimento da química entre os atores. Ambos escolhem por um tom
de atuações bem intenso, demonstrando sempre que os personagens estão em seus
limites.
‘Zona de
Risco’ é uma obra que, apesar do conteúdo rústico que aborda, consegue
emocionar o espectador com sua aura sensível para lidar com os relacionamentos
humanos. Durante o filme teremos várias cenas que a obra atinge seu auge da
carga dramática trabalhando por nos emocionar em todas elas. Um dos melhores
filmes de Chan-wook Park e um trabalho de direção que deixa o espectador
extasiado. Como se não fosse o bastante, contamos ainda com um dos filmes que
melhor consegue investigar a figura da amizade no ser humano.
Mr. Vingança(2002)

Fugindo do
seu modelo tradicional de se fazer cinema, Chan-wook Park entrega uma obra
intensa que acaba por ser toda pautada na utilização do silêncio. Um filme que
lida de maneira cruel com a figura do acaso no trajeto das vidas ali inseridas,
utilizando o conceito de vingança como um alívio para o peso da existência.
‘Mr. Vingança’ não é ausente de problemas em seu ritmo, porém acaba se
notabilizando pela atuação de um dos protagonistas na medida certa.
O filme vai
nos inserir em um emaranhado de relações condenadas à tragédia. Temos aqui Ryu,
um indivíduo que é surdo e mudo, que, após ser demitido de seu emprego e ver
sua irmã morrendo por falta de um transplante de rim, resolve tentar a sorte
pagando uma organização do mercado negro para conseguir o órgão. Na outra ponta
do filme, temos Dong-jin Park,
um homem poderoso, mas que tem que lidar ultimamente com a crise em sua
empresa. As histórias vão se ligar quando Ryu é enganado pela organização do
mercado negro, perdendo seu dinheiro e também seu rim, e decide sequestrar,
junto com sua namorada, a filha de Dong-jin Park a fim de conseguir um dinheiro
para salvar sua irmã.
Desde o
começo o filme trata por deixar claro ao seu espectador que trabalhará toda a
sua construção através do silêncio. Este uso serve para conseguirmos ter uma
breve imersão ao mundo que Ryu vive. Veremos como o homem passa a viver em uma
espécie de redoma devido a sua deficiência. E é essa redoma que o personagem
vive que lhe incumbe a uma ingenuidade e determinada certa falta de apatia com
o mundo que lhe cerca.

É em meio a esse
silêncio que o filme tropeça na construção de sua dinâmica. O uso desse
silêncio não chega nem perto de ter o mesmo impacto e genialidade com que seu
compatriota Ki-duk Kim usa em sua filmografia, como em ‘Casa Vazia’(2004) e ‘O
Arco’(2005). Não que esse silêncio seja usado de uma forma errada. Mas ele
acaba por comprometer o tradicional dinamismo das obras de Park, dando a filme
um ritmo muito cadenciado.
É importante
também trazermos a construção com que meras escolhas simples e o acaso definem
a trajetória dos indivíduos ali inseridos. Desde estar no momento errado em um
banheiro público, até o de aparecer uma vaga para a cirurgia de sua irmã pouco
depois de Ryu perder o dinheiro necessário. Das pequenas coincidências até as
mais impactantes, toda essa junção de fatores acaba definindo o caminho de
todos os personagens do filme.
A segunda
metade acaba ganhando um contorno bem distinto do que o filme tinha trilhado em
seu início, dando um tom mais ágil e delimitando em várias sequências
ininterruptas os conflitos entre os personagens. Todo esse aumento na qualidade
do filme se deve muito a presença mais intensa do ator Kang-ho Song.

Praticamente
ausente na primeira metade, Song assume a ponta do filme nas suas conclusões,
conseguindo com uma atuação sóbria e contida evidenciar toda a mensagem que a
obra tentou expressar em seu início. Song assume o personagem que tem a filha
sequestrada, dando um tom melancólico ao homem. Em sua atuação não há, mesmo as
cenas mais intensas, nenhuma alteração no seu tom de voz. O ator sempre procura
nortear a sua performance por uma intensidade unicamente contida no olhar. Algo
que inclusive acaba por caracterizar a carreira deste ator fantástico.
O resto do
elenco infelizmente não consegue manter o padrão de qualidade, embora ninguém
se faça ruim no filme. Todos os personagens requerem muito de seus atores, são
composições de personalidades muito complexas. E é todo esse engajamento
necessário que talvez falte para esses atores.

Em um filme ímpar
na sua carreira, Chan-wook Park escolhe por ter uma direção bem contida aqui. O
coreano decide por conceber um estilo mais tradicional de direção, onde não
teremos aqui a infinidade de ângulos contidos em filmes como, por exemplo,
‘Zona de Risco’(2000) e ‘A Criada’(2016). E, assim como fez em ‘Eu Sou Um
Cyborg, e Daí?’(2006), Park trabalha por dar ao filme, em pequenos momentos, um
olhar duplo, onde há a narrativa tradicional e o ponto de vista do personagem
acometido com a deficiência. São nestas pequenas cenas que mais nos sentimos
imersos à vida daquele homem, onde ele compartilha todo aquele silêncio
conosco.
Filme que dá
origem à aclamada trilogia da vingança, ‘Mr. Vingança’ faz um estudo sobre a
utilização da violência como um alívio para determinado peso existencial
contido nos indivíduos. Um filme que por mais que sofra de um ritmo cadenciado
demais, acaba ganhando sua essência na atuação fabulosa de Kang-ho Song.
Trabalho mais contido da carreira de Chan-wook Park. Fato este que não quer
dizer que o filme não mantenha sua tradicional exacerbação da realidade.
Oldboy(2003)

Beirando a
perfeição em vários dos elementos que compõem um filme, ‘Oldboy’ acaba por se
caracterizar como um filme ímpar, que elevou o status do cinema coreano para
outro patamar. Toda a composição sonora, as atuações e, principalmente, a
direção mostram o que o filme tem de tão especial. Chan-wook Park traz aqui seu
melhor filme e o melhor trabalho de direção de sua carreira.
A trama do
filme contará a história de Dae-su Oh, que,
em uma noite chuvosa, é sequestrado e colocado em isolamento em um quarto por
15 anos. Durante esses 15 anos, o homem trata de escrever em uma espécie de
diário o nome de todos aqueles que poderiam tê-lo prendido ali.
Misteriosamente, após os quinze anos de confinamento, o homem é solto. E é
exatamente neste ponto que o filme ganha força, dando início a um jogo de gato
e rato entre Dae-su e a pessoa que lhe prendeu.

O filme
empreende um ritmo único do começo ao fim do filme, sempre escolhendo por
entregar ao espectador o maior número de conteúdo possível. A história contida
aqui é tão bem condensada pelo roteiro que ao seu término parece que acabamos de
assistir um filme de mais de três horas de duração, quando na verdade ele dura
exatamente duas horas. Essa sensação passa longe de ser algo negativo como em
outros filmes. Não. Aqui a sensação somente evidencia a competência em mostrar
uma história com tanta substância em um período tão curto.
Temos também
no filme, como é de praxe do cinema coreano, a utilização de cenas cômicas
intrínsecas aos personagens, algo que serve para tirar um pouco do peso de todo
o conteúdo gráfico que nos é apresentado durante sua duração. Esse uso perfeito
das situações cômicas em filme que não pertencem ao gênero de comédia é algo
exclusivo dos coreanos. Nenhum outro país consegue chegar nem perto do que eles
fazem aqui.

A utilização
da violência em um grau exacerbado vai totalmente de encontro ao que o filme
nos propõe. Há uma completa simbiose entre trama e violência, tornando
impossível separar as duas sem que haja uma queda na qualidade da obra. Temos
cenas duríssimas de violência, como, por exemplo, extrações dentárias e línguas
decepadas. O uso dessa violência é tão intenso, que ela se prolonga até mesmo
para uma refeição em um restaurante, onde o protagonista devora um polvo vivo.
A figura simbólica dessa cena é essencial para poder absorver tudo àquilo que o
filme tem em sua história. E até mesmo na fase de vida que o protagonista se
encontra. Vale a pena ressaltar que todas essas cenas difíceis de serem
digeridas pelo espectador são expostas sempre com o auxílio da trilha sonora
marcante ao fundo, evidenciando como o bom uso de do fundo sonoro pode elevar e
até mesmo nortear os passos de um filme.
A trilha
sonora é comandada por Yeong-wook Jo,
conseguindo conciliar muito bem composições clássicas com aquelas feitas para o
filme. Todos os 120 minutos de filme são pontuados pelo uso da trilha, seguindo
o clima de cada cena e do personagem de Dae-su. Em alguns momentos teremos
composições que evidenciam o suspense de cada cena e em outros que tratam de
pontuar alguma ação dos personagens. Vale um destaque para a cena magistral de
Dae-su contra um de dos algozes do filme, onde há a entonação genial da parte
inverno das quatro estações de Vivaldi. É um momento para ficar tatuado na
mente de nós por muito tempo.
A figura da
vingança, na qual o filme trabalha toda a sua trama, é utilizada obviamente
criando um senso de exagero nos atos dos personagens. O modelo proposto de
execução deste filme trabalha exatamente com este ponto, tentando causar o
máximo de distanciamento possível entre o que é mostrado em tela para a
realidade. Park faz esse uso para poder dar vida a todas as cenas mais intensas
de ação e da trama.

Sua direção
segue exatamente a linha de seus outros trabalhos. Porém, seu filme que mais se
assemelha ao estilo de direção utilizado aqui é ‘Eu Sou Um Cyborg, e
Daí?’(2006), onde o cineasta procura sempre seguir as loucuras dos
protagonistas quase que exclusivamente, utilizando planos fechados em seus
rostos com o intuito de trazer ao público toda a perturbação que regem aqueles
personagens. Teremos aqui também tomadas aéreas, sequências de combate físico
realizadas com rara felicidade e planos de “zoom” com aproximações e
distanciamentos da ação do filme.
Ainda
contamos com o belo trabalho de fotografia de Chung-hoon Chung,
que dá as cenas um tom quente, sempre com cores fortes que evidenciam toda a
completude do cenário explorado em cada enquadramento. Esse trabalho de
cinematografia de Chung é o que mais se aproxima de seu desempenho genial em ‘A
Criada’(2016), onde tem mais uma contribuição com Park.

O elenco
central do filme também está ótimo. Temos Hye-jeong Kang e Ji-tae Yu realizando atuações precisas nos papéis secundários. E o
grande destaque do filme, é claro, vai para nosso protagonista, interpretado
pelo brilhante Min-sik Choi. São poucas as vezes que vimos um ator tão devotado ao seu papel como
Choi está em ‘Oldboy’. Sem frescuras, uma atuação extremamente física o tempo
inteiro, descartando a utilização efeitos de câmera, como na cena do polvo já
citada acima, ou de dublês em algumas das cenas mais intensas. Mas não se
enganem, Choi está longe de se destacar apenas no quesito físico do papel. O
ator dá um show de interpretação em cada cena, sabendo se inserir em toda a
estranheza do personagem, nos propiciando cenas fantásticas, como a do
elevador, logo depois que é solto e seu primeiro contato humano após os 15 anos
preso.
‘Oldboy’ é o
maior responsável por essa grande eclosão de interesse no cinema coreano por
parte do ocidente. Um filme que trata de vários tabus muito importantes para os
asiáticos, como incesto e um senso moral demasiado. Um filme fascinante que
atinge seu ápice nos seus 30 minutos finais, onde cada sequência parece ser a
última, no entanto, sempre prosseguindo para a próxima. Trabalho genial em
colocar a ideia original do mangá de Nobuaki Minegishi
em tela por Chan-wook Park.Um filme que reúne o que há de melhor no já
espetacular cinema coreano.
Lady Vingança(2005)

Emanando uma
intensidade presente em cada “frame” que compõe esta obra, ‘Lady Vingança’ é o
filme que encerra a magistral trilogia da vingança. Um filme potente, que
introduz o espectador a uma espécie de conto de fadas ao avesso. Chan-wook Park
mantém e exacerba toda a estética presente em ‘Oldboy’(2003), seu filme
interior, utilizando aqui cada fragmento de cena para extasiar quem as assiste.
Ainda teremos presente na obra o conceito da violência usada de forma
terapêutica, fazendo uma grande homenagem a um clássico do cineasta Ingmar
Bergman.
A trama vai
contar a vida de Geum-ja Lee,
uma mulher que perdeu parte de sua juventude na prisão após confessar ter
sequestrado e matado uma criança de cinco anos. Geum-ja cumpriu uma pena de 13
anos, onde cada segunda encarcerada serviu para a mulher planejar uma vingança
contra os responsáveis por seu aprisionamento. E agora, livre, a mulher irá
colocar seu plano em prática, em um misto de insanidade e moralidade.

O filme acaba
por ter um início bem dinâmico, sempre nos introduzindo a história como se
estivéssemos acompanhando um conto de fadas um tanto quanto perverso. Todo o
filme segue uma linha ativa de se contar a história de Geum-ja, porém esse seu
começo serve para alocar o espectador completamente ao lado dos personagens ali
expostos.
A personagem
principal é trazida a nós como se fosse uma espécie de divindade, utilizando
maquiagens carregadas, sempre se notabilizando pelo tom branco, e sendo tratada
com extrema contemplação por aqueles que a rodeiam. Geum-ja se notabiliza pela
sua intensidade contida na sua forma suave de agir. A mulher parece ter perdido
qualquer resquício de humanidade no interior da prisão, mesmo que tenha
praticado diversos atos bondosos lá dentro, agindo com um distanciamento em
relação à realidade a qual está inserida. Suas relações interpessoais são
sempre regidas por um olhar perdido e palavras que soam completamente
programadas. O fascínio que Geum-ja emite aos outros personagens acaba por se
transferir ao espectador. Tudo isto, claro, devido ao trabalho preciso de
atuação da atriz que a interpreta.

Yeong-ae Lee está simplesmente irretocável no papel da
personagem principal do filme. Cada gesto, olhar, expressão corporal ou físico
transmitem ao espectador tudo o que acaba dando substância a sua personagem. O
fator que se destaca em sua atuação é, sem dúvida, seu olhar perdido quando a
câmera é dada a ela. É impressionante ver a evolução desta atriz, pegando como
base essa e outra atuação em filmes do Park. Extremamente limitada em ‘Zona de
Risco’(2000), onde sua presença acaba deixando sua personagem um tanto quanto
limitada, aqui em ‘Lady Vingança, cinco anos depois, a atriz parece ser uma
pessoa completamente diferente. Yeong-ae transmite uma simbiose com a câmera,
sabendo cada atalho que os enquadramentos oferecem para elevar seu nível de
atuação.
O resto do
elenco acaba não conseguindo, obviamente, igualar o nível de perfeição atingido
por Yeong-ae, porém eles passam longe de estarem mal no filme. Muito pelo
contrário, todos os seus componentes estão fantásticos em seus papéis, com
destaque para a presença de Min-sik Choi, sempre destilando seu sarcasmo habitual em tela, desta vez de uma
forma muito menos física do que na contribuição anterior entre ele e o diretor.

A direção de
Chan-wook Park acaba seguindo seu padrão, utilizando a estilização da violência
para reger sua obra. Existe aqui uma conjunção de elementos trazidos pelo
diretor, a fim de propiciar a seu espectador uma imersão ao filme. Esses
elementos vão desde a câmera que segue a protagonista, em uma divisão entre obsessão
e contemplação, até a exploração completa dos ambientes que o filme traz
consigo.
Vale destacar
também o belo trabalho de Chung-hoon Chung
no comando da cinematografia do filme, trazendo cores fortes e um quadro sempre
com o uso da profundidade para equiparar a atmosfera da obra com o que se passa
na cabeça da personagem principal.
Não
seguiremos aqui uma linha cronológica precisa da ordem dos fatos que tangem a
vida dos personagens. Estaremos sempre alternando entre os acontecimentos
atuais e o passado dos personagens, principalmente Geum-ja. Essa linha não
cronológica vai aos poucos diminuindo durante o prosseguimento do filme, onde
essa falta de uma desconexão entre os fatos acaba causando uma ligeira perda na
qualidade da obra.

A reta final
do filme trabalha por trazer para a tela a ideia da violência sendo utilizada
como uma forma de terapia por seus personagens. O ato de provocar uma espécie
de dor a outro indivíduo, torturando um dos personagens do filme, trabalha por
trazer paz às vidas de indivíduos acometidos por fatores cruéis em suas
histórias. Pouco importa se o indivíduo torturado é ou não o responsável pelas
dores dos personagens. O que vale aqui é a eclosão de conteúdos inconscientes,
uma pulsão de morte, que, quando solta, causa um alívio no indivíduo. E a
maneira como o filme conduz todas essas cenas, extremamente importantes para a
conclusão da obra, remete diretamente ao clássico ‘A Fonte da Donzela’(1960),
de Ingmar Bergman, onde são aplicados exatamente os mesmos preceitos sobre essa
violência desmedida contra os agressores.
‘Lady
Vingança’ coloca um fim à trilogia da vingança do jeito que era necessário. Um
filme que somente enaltece toda a qualidade do diretor em trazer histórias
fascinantes para o cinema, filmando-as de uma maneira única. O filme ainda
debate conosco a causa e efeito de atos empreendidos pelos personagens ali
inseridos. Debate conceitos morais e éticos que tangem a nossa sociedade,
mostrando o quão importante é, de certa forma, nos limitarmos para preservarmos
a sanidade e racionalidade incumbidas ao ser humano. A obra ainda transgride
sua temática exagerada para tecer fortes críticas à banalização das necessidades
humanas.
Eu Sou Um Cyborg, e Daí?(2006)

Dando um
olhar bidimensional para a psicose, Chan-wook Park realiza o melhor
trabalho de direção da sua carreira, depois de ‘Oldboy’(2003). Um filme
potente, ágil e esquizofrênico, assim como nossa protagonista. ‘Eu Sou Um Cyborg,
e Daí?’ é uma obra doce, que conta com as características mais marcantes da
filmografia do cineasta coreano.
O filme nos
contará a história de Cha Young-goon,
uma mulher jovem, que acaba por ser internada em uma clínica psiquiátrica após
ter um surto e quase se matar. Cha é diagnosticada com psicose e terá que
aprender a lidar com seu estado, assim como lidar com os outros pacientes ao
seu redor. A trama se concentrará, durante os 105 minutos de duração do filme,
nesta nova forma de vida da jovem, fará uma terapia catártica dos pesadelos
familiares de Cha e mostrará os desmembramento de um dos romances mais bonitos
já trazidos para uma tela.

A narrativa
escolhida pelo filme é suave, interpretando cada cenário explorado com um olhar
intenso, porém sem perder a sensibilidade necessária pelo tema abordado. Até as
cenas mais exacerbadas são mostradas de uma forma que acaba por diminuir seu
impacto no espectador, fazendo com que este tenha a sensação de estar
assistindo um conto de fadas moderno. Essa sensação é a mesma emitida pela
forma de abordagem narrativa do filme ‘O Fabuloso Destino de Amélie Poulain’(2001).
Ambos os filmes possuem várias semelhanças e acabam se completando em suas
formas de se fazer cinema.
A genialidade
presente aqui é a de mostrar a vida de Cha tanto pelo olhar tradicional,
fazendo um estudo da vida da personagem, criando um distanciamento da situação
que lhe acomete, tanto quanto por um olhar pela visão da protagonista,
mostrando todos os pavores que aquela realidade deturpada lhe apresenta. Essa
ambivalência em contar a história foi sempre muito pouco utilizada pelo cinema.
E quando o fizeram, faltou qualidade para dar vida àquilo. Bem, não é o que
acontece nas mãos de Park.

A direção do
coreano é praticamente impecável. Park consegue fazer com que o espectador se
sinta completamente inserido ao decorrer da história após poucos minutos de
exibição. Essa imersão propiciada pelo diretor faz com que nós passemos a nos
sentir parte da história, parte da loucura contida em Cha. Toda a composição de
cenário e até a utilização de efeitos visuais são feitos exatamente para nos
importarmos com o desencadeamento das histórias ali contidas.
Como é
característico do cinema do diretor, veremos aqui a utilização de vários
estilos de filmagens, quebrando com a forma rotineira de se fazer cinema. Park
empreende no filme uma câmera que sempre procura pela melhor tomada. Cada
enquadramento do diretor arranca suspiros de seu público. Em um momento a câmera
persegue algum personagem, desenvolvendo um sentimento de ansiedade no
espectador, no outro, preza por uma câmera estática, deixando a encargo dos atores
emitirem qualquer ação. Teremos também tomadas fascinantes em 360° que mostram
toda a linda paranoia contida no lugar.
Ainda teremos
uma atmosfera quente dada pelo diretor ao filme, sempre buscando tonalidades
fortes, com o auxílio da magnífica cinematografia de Chung-hoon Chung,
para tatuar as cenas na cabeça de quem as assiste. Esse trabalho na criação da
atmosfera se deve muito também ao grande trabalho feito por Jae-beom Kim e Sang-beom Kim
na edição do filme, dando um tom frenético a cada cena.

Todo o elenco
do filme está muito bem, evidenciando a direção de Chan-wook Park, que acaba
por ser ótima também na condução de seu time de atores. O destaque vai para as
atuações dos dois protagonistas que formam o casal do filme. Soo-jung Lim e Rain conseguem dar vida a toda a estranheza atmosférica
proposta pelo diretor, dando, a cada close em seus rostos, expressões
aleatórias de completa fuga da realidade.
A visão
precisa de todos os envolvidos na produção deste filme, fizeram com que a
experiência de assisti-lo seja única. A forma de trazer ao espectador todos os
dramas enfrentados por aqueles que sofrem da psicose talvez seja a visão que
mais humaniza e dá um tom realístico a patologia. ‘Eu Sou Um Cyborg, e Daí?’ é
uma verdadeira eclosão de conteúdos inconscientes dados para o espectador tirar
suas próprias conclusões. Essa quebra entre o ego e a realidade externa é
relatada no filme com rara felicidade, dando a essa outra realidade inexistente
criada pela psique da protagonista um tom fascinante.
Sede de Sangue(2009)

Trabalhando
por modernizar e, de certa forma, humanizar os mitos sobre vampiros no cinema,
Chan-wook Park entrega ao seu espectador um filme diferente da parte maciça do
gênero. Um filme que consegue captar o interesse de seu público gradativamente
durante sua longa duração. Divertido, incômodo e levemente assustador, ‘Sede de
Sangue’ é um dos filmes mais originais sobre o tema em anos.
A trama vai
contar a história de um padre que nutre em seu âmago um desejo inerente de
fazer bem ao mundo. Após ficar sabendo de um experimento que poderia salvar
várias vidas, se fosse bem-sucedido, o padre se inscreve nele sem pensar duas
vezes, mesmo sabendo dos riscos. Após o experimento vir a falhar e o padre
quase morrer, vindo a ser salvo por uma transfusão de sangue, ele acaba por
desenvolver uma grande sensibilidade por via de seus sentidos, além da força
descomunal. O único problema disso é que o homem logo passa a nutrir um desejo
por sangue quase que incontrolável, vindo a sofrer severos problemas de pele se
não saciar sua fome. O filme ganha forma quando o padre acaba por se envolver
com uma mulher casada e tem que questionar todos os seus construtos sociais e
morais de sua vida.

O filme, a
priori, acaba por ter um ritmo bem lento. Tudo é desenvolvido com extrema
preocupação de mostrar a personalidade do padre. São explorados aqui todos os
seus dilemas antes e depois da estranha patologia que o acomete. Veremos como o
padre resolve manter suas regras morais rígidas mesmo após a doença, escolhendo
por saciar sua sede das formas mais inofensivas possíveis. Teremos um longo
tempo até o desenvolvimento da trama principal. Porém, toda essa lentidão é
essencial para a absorção da parte mais empolgante do filme.
O ritmo
começa a se acelerar depois de um pouco mais de uma hora de filme, mostrando o
padre perdendo o controle sobre seus meios de adquirir sangue. O homem ainda
tem que lidar com a afloração de sua sexualidade, consumando sua relação Tae-ju, esposa
de um conhecido. O padre, apesar de todos seus novos “poderes”, conserva uma
ingenuidade em sua personalidade, sofrendo com toda a malícia de Tae-ju.

A forma como
se desenrola o relacionamento entre os dois é o que dá verdadeira substância ao
filme. Ignorando todos os seus ideais religiosos, o padre se entrega a uma
rotina de perversão com sua parceira. E é em determinado ponto dessa perversão
que o filme começa a aumentar seu ritmo, passando a ficar quase que frenético
nos seus 40 minutos finais.
Tudo o que o
filme construiu começa a ser demolido, onde entraremos em uma rotina de
perseguições e mortes. O filme acaba por modificar completamente a atmosfera
criada antes, para apresentar ao público uma outra, muito mais atraente. Vale
destacar uma cena fantástica da reta final do filme, dentro de uma casa, que
levará o espectador diretamente ao clássico ‘O Massacre da Serra
Elétrica’(1974).

A direção de
Chan-wook Park é boa, apesar de não chegar nem perto de seus melhores
trabalhos. Park acaba por colocar uma quantidade demasiada de cenas em que os
efeitos visuais são necessários. Isso não seria um problema se eles não fossem
tão limitados. O diretor poderia facilmente suprimir várias cenas com os
efeitos sem perder nada da trama. Porém, os equívocos param por aí. O coreano é
ousado, usando uma câmera que se move atrás da melhor tomada. O uso do sexo,
algo recorrente em toda a filmografia do diretor, atua por dar o tom de
proibição ao filme.
Já adentrando
aos campos da trilha sonora e fotografia, teremos aqui também a realização de
um bom trabalho. Realizada pelo experiente Yeong-wook Jo,
a trilha sonora segue o tradicional caminho trilhado pelo compositor nos filmes
anteriores do Park, entregando ao filme um ar mais carregado de adrenalina
mesmo nos momentos mais calmos. A fotografia, comandada por Chung-hoon Chung,
consegue captar a sensação de paranoia presente na atmosfera do filme pelos
olhos do padre, mostrando a cada enquadramento o quanto a vida daquele sujeito
está uma completa bagunça. As ressalvas são feitas ao seu tom acinzentado que
acaba dando um ar muito poluído ao filme nas cenas realizadas em ambientes
externos.

O elenco está
muito bem dirigido pelo diretor no filme. Aqui todas as peças mostradas tem
alguma importância para o desmembramento da trama e conseguem entrar nos
personagens que o roteiro lhes oferece. Indo as camadas mais importantes das
atuações encontraremos o “affair” do padre, interpretada por Ok-bin Kim.
Kim entrega ao filme uma atuação extremamente concisa, sendo essencial para a
absorção do que a história tem a contar pelo espectador. Demonstrando sempre
uma perversidade em seus gestos, a atriz consegue nos convencer que estamos
diante de uma pessoa perigosa e pouco maleável. Já como protagonista o filme
tem a oportunidade de ter o incrível Kang-ho Song. Qualquer análise que possamos fazer das interpretações de Song podem
soar superficiais em detrimento da qualidade do ator. Song consegue trazer ao
personagem um homem calmo, demasiadamente comedido em suas atitudes, passando
com um simples olhar ou expressão facial toda uma mensagem ali inserida.
‘Sede de
Sangue’ segue toda a estranheza contida no filme que o antecede na filmografia
do diretor coreano. Assim como em ‘Eu Sou Um Cyborg, e Daí?’(2006), Park traz
ao espectador um filme completamente surreal, aproveitando do aspecto bizarro
para pontuar uma ideia. Junte a isso um tema fascinante, atuações precisas e
uma direção competente e teremos um baita entretenimento de qualidade.
Segredos de Sangue(2013)

Em seu
primeiro filme feito em inglês, Chan-wook Park tenta ao máximo deixar sua marca
nos novos espectadores, fazendo uma direção extremamente esforçada. Entretanto,
o roteiro fraco do filme acabou por delimitar os caminhos trilhados pelo
coreano. Um filme regular, que vale a pena ser assistido mais para ver o
trabalho de direção do que pela história em si.
O filme conta
a história da família Stoker. Os Stoker são uma família rica, composta pelo
casal Richard e Evelyn e sua filha, India. Adentraremos na história pouco após
a morte de Richard em um acidente e a chegada de seu irmão Charles, de quem
quase ninguém havia ouvido falar. A trama vai se concentrar no cotidiano cheio
de mistérios que permeia a vida da família e a forma como Charles irá se
adaptar a nova residência e como isso influenciará no cotidiano de India.
Todo o
desenvolvimento da história acaba se fazendo um tanto quanto amarrado desde o
começo. A história avança de maneira lenta, onde cada cena e diálogo parecem
oferecer pouco. O mistério por trás de Charles funciona na primeira parte do filme,
apesar do ritmo lento, nos deixando sempre ansiosos pelo próximo ato do homem.
Já o desenvolvimento de India, a personagem principal, segue o mesmo ritmo, se
fazendo devagar, mas trabalhando com bastante material para formularmos o que
rege o comportamento e as dúvidas daquela jovem que acabara de completar seus
18 anos.

Conforme o
filme avança em sua duração, os problemas do roteiro começam a ficar mais
evidentes. Tanto Charles quanto India acabam tendo um bom desenvolvimento de
personagem, o problema aqui acaba recaindo sobre a personagem de Evelyn. Evelyn
tem poucas cenas relevantes no filme, contrariando toda a premissa da história.
O que agrava ainda esse problema é o fato da personagem ser preponderante para
as resoluções no arco final.
Outro ponto
que depõe contra o roteiro, escrito por Wentworth Miller, são os desmembramentos dos mistérios que permeiam a família. Aqui eles
começam a ser dissolvidos a partir do último terço do filme, e acabam não
compensando o esforço da obra em deixar o espectador esperando por eles. A
natureza de Charles é exatamente aquela que o espectador acaba desconfiando nos
primeiros cinco minutos. Já India é conduzida da procura por respostas para os
mistérios da família como é clichê do gênero.

Essa pouca
entrega do roteiro de Miller é atenuada pela boa direção de Chan-wook Park.
Park parece perceber o quão raso é o roteiro e dá um foco, desde o começo do
filme, a parte estética. Procurando sempre fazer com que sua direção seja
notada, o diretor trabalha com uma enormidade de estilos de enquadramentos e
ângulos que parecem meio forçados no início, mas que logo vai se adequando com
o que Park tinha em mente.
Os outros
detalhes técnicos do filme, como fotografia, edição e trilha sonora, acabam por
seguir o padrão de qualidade do coreano. A fotografia consegue trazer à
sensação de imersão a atmosfera trazida pelo filme. A edição trabalha por dar
um ritmo mais acelerado a história. E a trilha sonora, não tão presente como
nos outros filmes de Park, procura tentar alavancar o suspense emitido pelos
personagens.

Entretanto,
nem tudo sai como planejado também na direção. A direção de atores de Park
parece ter ficado meio limitada, apesar de todos estarem muito bem ali. Diferente
dos filmes feitos em seu país, aqui não teremos atuações que ajudam a reger o
ritmo do longa. Mia Wasikowska, como a protagonista, conduz muito bem o filme, aliás, todo o trabalho
de câmera do diretor tenta criar uma aproximação entre ela e o espectador,
porém acaba faltando um pouco de uma perversidade em sua atuação, fato este que
acaba pesando contra o belíssimo final. Matthew Goode interpreta Charles, também se saindo bem, porém pecando muito no
exagero em várias expressões faciais durante o filme. E temos também Nicole Kidman fazendo a mãe de India. Não há muito o que falar de Kidman aqui, sua
personagem é completamente negligenciada pelo roteiro, acabando por desperdiçar
um talento que iria acrescentar muito ao filme.
‘Segredos de
Sangue’ fica muito longe de ser um trabalho que corresponda ao talento de Chan-wook
Park. Entretanto, é a oportunidade de ver o coreano querendo elevar seu nome
perante o quadro mundial. Diferente de Joon-ho Bong, que parece completamente à vontade em ‘Expresso do Amanhã’(2013),
também seu primeiro filme longe da Coreia, Park parece não ter tido toda essa
liberdade para criar os elementos clássicos de sua filmografia. Apesar dos
erros, o filme acaba tendo um final muito interessante.
A Criada(2016)

No cinema
contemporâneo muito se discute sobre a utilização exacerbada de cenas de sexo
para construir um filme. Periodicamente temos o levantamento de discussões,
como as surgidas no lançamento de ‘Ninfomaníaca’(2013), se é válido ou não
expor essas cenas. É neste cenário que entra a figura de Chan-wook Park, um dos mais talentosos diretores de nossa geração.
Park cria um
filme onde o sexo é apenas um subterfúgio para conseguir criar o clima adequado
para que a história tenha substância. Diferente de filmes como ‘Azul é a Cor Mais
Quente’(2013), onde é utilizado de forma gratuita, alheia a trama, aqui todo o
sexo contido nos 144 minutos de duração é necessário.

Utilizando
todos os elementos já conhecidos em sua filmografia, o coreano consegue
aumentar seu repertório. O diretor se aventura por um cenário onde toda a
violência presente em seus filmes anteriores tem de ser comedida. Em ‘A
Criada’, todo o brilho do filme se concentra na riqueza de seus diálogos. Junte
isso a uma parte estética quase impecável, atuações complexas e uma trilha
sonora que tem o trabalho de cadenciar o longa e teremos algo memorável. Não
direi que é o melhor trabalho do diretor, ele se equipara aos grandes filmes do
coreano, como ‘Oldboy(2003) e ‘Zona de Risco’(2000), mas, sem dúvida, estamos
diante de uma verdadeira obra-prima.
A trama
contada aqui gira em torno da vida em determinada casa, na década de 1930.
Nesta casa vivem Lady Hideko e
seu tio Kouzuki. Quando a antiga criada da casa é demitida, cabe a inocente Sook-Hee se
aventurar pelo aparente árduo trabalho que se apresenta diante dela. Teremos
ainda a presença do charmoso Conde Fujiwara que surge como um pretendente ao
amor da jovem Lady. A aura emanada da casa é sombria, não se sabe exatamente o
que acontece naquele interior. E é inserido neste ambiente que teremos a
eclosão de um verdadeiro jogo de gato e rato, onde as máscaras vão lentamente
se desfazendo, revelando as pessoas perversas que encontram-se no ambiente.

O filme é
dividido em três partes, nutrindo em cada uma delas uma atmosfera diferente. A
primeira serve para desorientar o espectador; Na segunda teremos os
esclarecimentos, passaremos a entender melhor o que está sendo exposto no filme
e; Sua última parte para dar os contornos finais à vida dos personagens ali
inseridos. Todas as partes se encaixam perfeitamente na proposta da história
que o filme se propõe a contar, baseada no romance de Sarah Waters.
O ritmo
inicial do filme é lento em seu início. A primeira parte é toda composta por uma
temperatura morna, onde o filme se limita mais em introduzir o espectador ao
seu universo do que colocar dinamismo na trama. O ritmo vai aumentando
gradualmente e, já no início da segunda parte, o filme compreende uma
velocidade que faz com que o espectador esqueça do tempo. É importante fazer
essa ligação entre a frequência do ritmo à sua trilha sonora. Yeong-wook Jo
talvez tenha chegado ao seu auge e, em mais uma colaboração com o diretor, faz
um trabalho incrível. Aqui ela segue a trama do começo ao fim, lhe dando
sustentação. Em seu início é discreta, nós só vamos começar a notar a trilha no
exato momento em que começamos a ficar realmente interessados no que o filme
tem a contar. A sua timidez do início é trocada por uma efusão de emoções na
última hora de filme, sem, entretanto, sobrepujar a trama.

A parte
estética do filme é outro ponto de destaque. A direção é firme, procurando
sempre dar o que há de melhor ao filme em um conglomerado de ângulos
diferentes. Talvez a única ressalva feita a direção de Park seja a de, às
vezes, alternar seu estilo, recorrendo a um padrão ‘Dogma 95’. Vale expor
também o belo trabalho feito pela equipe inteira no filme, destacando a
cinematografia(Chung-hoon Chung), design de produção(Seong-hie Ryu), figurino(Sang-gyeong Jo) e o setor de maquiagem(Jong-hee Song). Toda a junção do ótimo trabalho dos
profissionais responsáveis é preponderante para o sucesso do filme.
O elenco
também está ótimo. A química presente nos quatro integrantes, responsáveis pelo
andamento da história, é muito boa. Temos Jin-woong Jo interpretando o tio da protagonista, um homem mais velho do que o ator,
e, mesmo com pouco tempo em tela, é fundamental para o desfecho da história. Jung-woo Ha e Tae-ri Kim, como Conde Fujiwara e Sook-Hee respectivamente,
conseguem dar substância a seus personagens. Porém, quem brilha no filme é Min-hee Kim(Lady Hideko). A atriz logra sucesso em fazer uma camaleoa. Em cada
parte do filme a atriz assume uma persona diferente, somente permanecendo igual
no filme inteiro a sua sensualidade inerente a ela.

Um belo filme
em todos os seus âmbitos. Chan-wook Park mostra com esse trabalho que seu talento transpõe determinados gêneros,
realizando um drama intenso, sem perder uma sutileza recorrente em toda a
duração do filme. Um filme que não teme em ser duro e mostrar um universo sádico,
onde as inúmeras formas de perversões contidas ali são tão normais e
necessárias quanto se alimentar. ‘A Criada’ é uma obra que merece ser degustada
por seu espectador.
O Que Resta Dizer?
Chan-wook Park, ao lado do fabuloso Joon-ho Bong, é o que possuímos de melhor no cinema asiático contemporâneo. Seu cinema é provocativo, atípico e exacerbado. Park passa suas mensagens embutidas no filme a base de marteladas no espectador, onde toda a violência inserida em suas obras possuem um sentido intrínseco.
OBS: não foram incluídos nesta análise os filmes Daleun… haega kkuneun kkum(1992) e Saminjo(1997), já que as respectivas obras são praticamente impossíveis de serem achadas, e as poucas opções existentes não possuem legendas em inglês, espanhol ou português. Também não foram incluídos filmes onde Park dirige pequenos momentos ou contos.