Considerado um dos filmes mais perturbadores já feitos, ‘Violência Gratuita’ ajudou a popularizar a carreira do cineasta Michael Haneke em 1997. Utilizando um terror psicológico, o diretor conseguiu assustar seu espectador como poucos filmes com um conteúdo gráfico o fazem. Dez anos depois o próprio Haneke dirigiria o remake do original, tentando expandir seu público.

Original: ‘Violência Gratuita’(1997, Michael Haneke)

No filme mais
provocador de sua carreira, Michael Haneke trabalha por nos entregar um terror
psicológico ousado. Colocando o espectador como cúmplice das barbaridades
cometidas no filme, o diretor acaba por desconstruir qualquer tipo de vestígio
do conceito de humanidade latente na sociedade. Um filme que investiga nossa
substância violenta e, mais do que isso, questiona a maldade intrínseca
presente no ser humano. ‘Violência Gratuita’ é uma obra extremamente
perturbadora que, certamente, marca seu espectador.
O filme vai
nos inserir no dia mais cruel da vida de um casal, Georg e Anna, e seu pequeno
filho, Schorschi. A
família, no início do filme, se dirige para uma casa de campo, localizada em um
lugar quase que paradisíaco, para passar um tempo lá. A trama não demora a
ganhar forma quando dois jovens, se dizendo amigos de seus vizinhos, entram na
casa da família e iniciam uma rotina de abusos e o desmembramento de um jogo
psicológico perverso.
Desde os
primeiros cinco minutos, o filme já apresenta, por intermédio do único
resquício de trilha sonora presente na obra, o que o espectador iria
acompanhar. Somos introduzidos a uma cena aérea do carro que a família se
encontra, bem como um plano dentro do veículo, indo em direção à casa de
férias. Ao fundo é colocada uma música clássica, ilustrando, a priori, a
atmosfera tranquila que circundava a família e, após isto, mostrando, com os
diálogos da mulher e de seu marido, a música que eles estavam escutando. A
genialidade do filme se encontra no momento que o diretor escolhe por cortar o
som da música clássica e os diálogos da família, para apresentar uma música no
estilo heavy metal, junto com a subida dos créditos iniciais.
O terror psicológico
emanado de cada cena, mesmo naquelas antes do início do ataque, são construídas
nos pequenos detalhes. Antes do ataque o terror surgia, por exemplo, de um
olhar desconfiado de Georg, de um plano aberto mostrando a noção de completo
isolamento do lugar ou, até mesmo, de um simples ato de cortar alimentos da mulher
na cozinha. Esses elementos trabalham por criar um clima de paranoia em quem os
assiste. Já no decorrer do ataque temos um terror que cresce a cada cena. Não
bastam os diálogos extremamente contundentes, o filme prioriza mostrar em
quadros fechados objetos que vão ter significância nas tomadas seguintes, como,
por exemplo, um telefone molhado, um saco de tacos de golfe ou alguns ovos
quebrados sobre o chão.
Os atos de
violências físicas infringidos contra a família muitas vezes não são gráficos.
Podemos ter um close-up no rosto de uma pessoa, enquanto outro indivíduo é
subjugado ao lado. A câmera de Haneke não se preocupa em seguir a ação, o
cineasta sabe que nada é tão assustador quanto a simples imaginação do evento
pelo espectador.
Em vários
momentos durante o filme temos a quebra da quarta parede realizada por um dos
jovens agressores. Essa quebra serve para causar a imersão do espectador ao
cenário, como se este participasse ativamente ao lado dos jovens. Esse diálogo,
agressor contra espectador, é mediado pelo tom sarcástico do jovem, perguntando
para nós o que deveria acontecer a seguir com a família.
Toda essa
simbiose entre filme e espectador denúncia a separação entre o que é ficção e o
que determina a realidade. A exasperação da cultura midiática de propagação da
violência acaba por diminuir o choque causado quanto ela de fato acontece. O
sentido de ficção se faz presente no momento em que o indivíduo perde essa
ligação com o real, e com isso seu senso de realidade, diminuindo seu critério
de certo e errado e objetificando relações interpessoais. A violência do filme,
e como o próprio título original, se faz em forma de uma espécie de jogo. Do
ponto em que os agressores só querem se divertir, aumentar a carga de sensações
em suas vidas. Não há dúvidas de que ali se encontram verdadeiros psicopatas.
Assim como não há dúvida de que esses agressores não são nada além do que
produtos de seu tempo, de sua cultura.
Na outra
ponta do filme, temos na família outro ponto de cegueira da condição humana, do
caráter violento que é inerente ao homem. Aqueles indivíduos foram domesticados
por sua sociedade, jamais presenciaram qualquer tipo de violência em suas
vidas. É a negação de sua natureza em prol da socialização. O problema contido
nisso é que eles, quando finalmente expostos a crueldade humana, se tornam
presas incapazes de esboçar qualquer tipo de defesa.
O conceito
visceral exacerbado do filme é intensificado pela ausência de uma trilha
sonora, com exceção dos minutos iniciais, onde cada cena causa impacto somente
pelo seu conteúdo. O diretor sabe usar essa ausência a seu favor, criando uma
atmosfera completamente crua, solidificando o filme muitas vezes com o uso do
silêncio nas cenas externas e na voz de um dos agressores nas internas.
A direção do
Haneke trata por adentrar a um terreno não explorado. Como exposto acima, o
diálogo entre agressor e espectador se faz presente, temos também, indo de
encontro no embate realidade/ficção comentado antes, a figura da manipulação do
curso do filme, onde temos a icônica cena em que o agressor aperta um botão do
controle remoto para retroceder o filme e refazer as coisas de seu jeito. Esse
controle da realidade do personagem já tinha sido explorado anteriormente em ‘O
Vídeo de Benny’(1992) e seria também utilizado oito anos depois em
‘Caché’(2005). Porém, diferente dos filmes citados, aqui o controle se insere
no próprio desenrolar da obra.
Haneke
propicia ao espectador enquadramentos perfeitos dos componentes do elenco.
Teremos sempre, após o início das agressões, a câmera focalizada em planos
limitados, oferecendo somente a expressão dos atores. Os mais aproveitados são
os rostos de Georg e Anna, nos inundando com “close-ups” aterradores do
tormento que aquelas pessoas estão sofrendo.
É trabalhado
ainda pelo diretor uma completa desconstrução do que foi feito até então no
gênero de terror psicológico. A direção engana o espectador, dando pistas
falsas, como, por exemplo, a imagem capturando, no início do filme, a faca no
barco da família, dando a impressão de que aquilo seria usado mais tarde para
algo importante. É exatamente na figura dessa faca na cena final do filme que
podemos notar o quão genial é a figura deste diretor austríaco. Durante os 30
minutos finais de filme, Haneke brinca conosco, dando falsas esperanças e
despejando um conteúdo quase intragável. O filme ainda entrega uma contemplação
doentia na figura de um dos agressores, edificando seus gestos e atitudes com
uma câmera que o segue nos seus jogos perversos.
O elenco do
filme é formado por Susanne Lothar, Ulrich Mühe e Stefan Clapczynski nos papéis da família em questão. Já interpretando os agressores, nós
temos Arno Frisch e Frank Giering. Cabe aqui separarmos esses cinco atores em três níveis de intensidade.
Clapczynski e Giering, como o filho do casal e o agressor menos falante,
respectivamente, estão mais soltos na trama. Os dois acabam não conseguindo
seguir o ritmo das outras três peças do elenco, sem, no entanto, estarem mal no
filme de alguma forma. Muhe, como o Georg, está intenso em sua própria
aceitação do destino cruel que lhe foi imposto. É comovente ver sua atuação
aqui, demonstrando um homem derrotado pelo acaso desde a primeira agressão.
Cada enquadramento destacando o rosto do ator somente intensifica a experiência
do espectador. Cada expressão facial do ator revelam o terror e o estado de
choque que aquele indivíduo está passando. Na camada mais intensa do filme
temos Susanne Lothar e Arno Frisch, como Anna e o agressor central. Ambos estão ótimos, onde Susanne
entrega uma atuação mais física, é ela que luta por manter a família viva nas
mãos dos agressores, e Frisch assume um tão sarcástico, sendo o responsável por
fazer a ponte entre espectador e filme.
Por mais
competentes que sejam as atuações, toda a qualidade empreendida pelo filme se
faz na habilidade de seu realizador. Michael Haneke entrega um filme
pessimista, onde todo seu talento é utilizado para causar espanto em quem o
assiste. ‘Violência Gratuita’ mostra um conteúdo que, usando de todos os
componentes perturbadores possíveis, dá ao espectador a possibilidade de tirar
suas próprias conclusões. Um dos poucos filmes que, mesmo sendo bom, causa um
alívio em quem o assiste ao seu término.

Remake: ‘Violência Gratuita’(2007, Michael Haneke)

É sempre
difícil a tarefa de avaliar um remake que é feito pelo mesmo diretor do
original, mantendo praticamente todos os elementos de outrora. Entretanto,
aqui, em ‘Violência Gratuita’ essa tarefa é atenuada em detrimento das poucas,
porém cruciais diferenças. Um filme que peca em vários sentidos, perdendo
completamente o charme e a mensagem intrínseca do original, fazendo um longa de
terror banal e dispensável. Criticar uma obra do cineasta Michael Haneke é uma
tarefa ingrata. Porém, temos que evidenciar que este, de fato, é de longe o
pior filme de sua carreira.
A história do
filme, exatamente igual ao original, vai contar a vida de George e Ann, um
casal com uma vida tranquila, e Georgie, filho do casal. Estas pessoas
aparentam estar se dirigindo para uma casa típica de férias, a fim de passar
alguns dias tranquilos. A trama do filme ganhará sua substância quando um par
de jovens os mantém presos em sua própria casa, dando início a um perverso jogo
que colocará a vida daquelas pessoas em risco.
O
desenvolvimento do filme é amarrado desde as cenas iniciais. Todas as suas
sequências são extremamente robotizadas, jamais avançando naturalmente por sua
história. Os atores incumbidos do trabalho de viver os personagens do filme
parecem pouco a vontade, não conseguindo esconder isto do público.
Há aqui uma clara
falta de química entre diretor e atores. Principalmente com a protagonista do
filme. Parece que o diretor de alguma forma não conseguiu transmitir o que ele
realmente queria para os atores. Apesar de esforçados, eles perecem nas cenas
mais intensas, onde falta uma empatia com as situações que os personagens são
expostos. Um ponto que deixa claro essa confusão de atuações é a presença do
filho do casal. O menino possui feições e gestos mais ativos do que deveria,
não parecendo se enquadrar na sua idade.
Não foi por
falta de qualidade em seu elenco que essas situações ocorreram. Temos os bons
atores Naomi Watts, Tim Roth
e Michael Pitt nos papéis de maior evidência. Talvez o personagem
mais aceitável com sua performance seja o de Tim Roth, jamais se destacando,
porém também não atrapalhando o andamento do filme. O promissor Michael Pitt
está escalado em um personagem muito difícil(o principal agressor), onde mesmo
dando o seu melhor, ainda acaba por não se enquadrar e passar veracidade nos
atos do personagem. Já Naomi Watts é o ponto central que evidencia o fracasso do
filme. Excelente atriz, Watts jamais consegue convencer minimamente o
espectador com sua atuação. Cada quadro fechado em seu rosto, algo que deu
proporções inimagináveis no original, não causa nenhuma sensação no público.
A direção de
Michael Haneke tenta seguir seu padrão habitual de trabalho. Porém, com o
avançar do filme, vai ficando evidente que isto não acontecerá. Apesar de
tentar repetir ao máximo cada enquadramento e falas contidas no original de
1997, Haneke jamais consegue emanar o mesmo charme que ele. Haneke sofreu aqui
exatamente o mesmo problema que aconteceu com George Sluizer, ao tentar fazer um remake de seu clássico de 1988, ‘O Silêncio do
Lago’(1988). Apesar de Sluizer ter alterado algumas coisas no remake, o
fracasso em sua investida é exatamente igual ao de Haneke.
Outro ponto
que vale ser destacado é a mixagem de som precária do filme. Parece algo
pequeno em um filme, só nos lembramos de sua existência quando o trabalho é muito
bom ou muito ruim. Infelizmente o cenário aqui é do muito ruim, onde sons
simples, como um soco ou uma pancada, soam esquisitos, parecendo filmes típicos
de artes marciais da década de 1970.
‘Violência
Gratuita’ é um filme completamente dispensável mesmo para aqueles mais ávidos pelo
cinema de Michael Haneke. Um filme que talvez tenha tido seus efeitos em
aumentar o reconhecimento do diretor austríaco, mas que, analisando pelo âmbito
qualitativo, jamais deveria ter saído do papel. Um remake que nos faz lembrar o
quanto uma obra pode andar sobre essa linha tênue entre o impactante e o
insosso.
O QUE FALTA DIZER?
Infelizmente o remake não possui nada da mística emanada do original. Um filme engessado desde o primeiro minuto, que em nenhum momento propicia alguma recompensa a seu espectador. Já o original é um marco no cinema de Michael Haneke. Uma obra genial do cineasta austríaco.