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Incluiremos, nesta lista, bons filmes de comédia pouco conhecidos. Temos filmes onde Woody Allen atua como protagonista sem dirigir a obra, temáticas pouco abordadas, olhares discrepantes sobre a constituição de determinada cultura, preconceito social explorado com um olhar doce e uma abordagem pouco habitual para os fenômenos da adolescência. Todos os filmes têm em comum a utilização de um humor extremamente inteligente, contido nos pequenos detalhes.

10º – Testa de Ferro Por Acaso (Martin Ritt, 1976)

Dirigido por Martin Ritt, ‘Testa de Ferro Por Acaso’ é um dos raros filmes que tem Woody Allen
como protagonista sem que este esteja no comando da direção do filme. Um filme
que tem como difícil missão a de levar ao público uma comédia com toques
dramáticos sobre a época negra de Hollywood, quando falsos simpatizantes do
Comunismo eram colocados na lista negra da indústria.
A história
trazida ao público é a de Howard Prince,
no começo da década de 1950, um homem que ganha a vida como caixa de um bar e
fazendo apostas para determinados indivíduos. A trama ganha força quando seu
amigo, Phil Sussman, um famoso roteirista de Hollywood, o procura querendo
ajuda. Inserido há pouco tempo na lista negra de Hollywood, Sussman pede para
Prince que este comece a assinar seus roteiros, como se eles fossem escritos
pelo próprio Prince, em troca de uma pequena porcentagem da comissão de venda.
Prince aceita a missão e logo se dá conta que aquilo era muito mais prazeroso e
rentável do que aparentava a priori.

O ritmo de
comédia do filme é bem limitado. A comédia presente no filme é sutil, para
apreendê-la o espectador deve compreender a construção de cada personagem.
Talvez encontre-se neste ponto o grande equívoco do filme. Não temos no filme
piadas ou situações de fácil acesso, mesmo compreendendo as situações cômicas
que determinado personagem está inserido, é difícil tirar prazer daquilo.
Seu gênero é
alterado no meio do longa. Logo passamos de uma comédia sutil para um drama com
leves toques de humor. A parte dramática do filme é bem construída, explorando
as implicações que as limitações da lista negra geravam naqueles ali inseridos.
O roteiro de Walter Bernstein tem suas partes positivas, mas a incapacidade de determinar um gênero
em específico acaba atrapalhando sua essência. O fato também de ter Woody Allen
em um filme e não vê-lo no comando do roteiro também influencia no olhar do
espectador.

O elenco é
regular, onde o destaque é mesmo a presença de Woody Allen no papel de
protagonista. Allen propicia ao público uma atuação bem diferente daquelas que
estamos acostumados a ver em seus filmes. Aqui o ator vive um homem muito mais
seguro de si, encarando as situações a que lhe são impostas com muita
desenvoltura, jamais colocando sua paranoia e insegurança habituais nas falas.
Apesar de
conter os erros explicitados acima, o filme está longe de ser ruim. A
oportunidade de ver mais sobre um tema tão difícil quanto a época negra em
Hollywood é válida, conseguindo atenuar os itens mais difíceis de colocar-se em
um filme. A segunda parte do longa evoca o bom ‘Culpado Por Suspeita’(1991),
conseguindo dar substância aos personagens ali inseridos. ‘Testa de Ferro Por
Acaso’ também é uma oportunidade de ver Woody Allen em algo diferente do que
estamos acostumados.
9º – Recrutas da Pesada (Ivan Reitman, 1981)
Adentrando no
campo das tradicionais comédias de sua década, ‘Recrutas da Pesada’ utiliza de
elementos clássicos, que viriam a fazer sucesso na época, para tentar alavancar
o sucesso do filme. Um filme que flerta com bons momentos, mas que acaba
derrapando em seus excessos, onde a trama surreal demais acaba tirando um pouco
o interesse do espectador ao foco principal do filme, o de fazer as pessoas rirem.
O filme vai
nos contar a história de John e Russell, dois homens desajustados, que acabam
por nutrir certo desdém pelo que a vida lhes oferece. Após John perder seu
emprego, namorada e carro, ele convence seu amigo a largar tudo e se alistar no
exército junto com ele. A trama central do filme ganha corpo na forma como os
dois amigos vão sobreviver ao ambiente hostil das forças armadas de seu país.
Seu começo é
produtivo, colocando o espectador para assistir ao modo de como o mundo trata John
e Russell, os colocando em situações verdadeiramente engraçadas, como uma
simples rotina trabalhando em um táxi que acaba virando um caos generalizado.
Porém, rapidamente após iniciarmos o arco principal, no treinamento do
exército, o filme acaba ficando exagerado demais. Todo o material cômico que o
filme produz é muito forçado, deixando o longa completamente inverossímil.

A queda é
gradativa e constante. As situações que os personagens vão se metendo vão
ficando cada vez mais intensas, onde a história acaba se expandindo para além
do treinamento dos recrutas em si, até mesmo colocando-os para entrar em um
combate real, já em sua reta final. O começo do filme, que se preocupava em
criar comédia em situações onde os diálogos eram a parte mais importante, é
completamente esquecido em seu desfecho, trazendo a utilização quase que
exclusiva de um humor gráfico que claramente não funciona.
Porém, nem
tudo acaba sendo desperdiçado pelo filme. Conseguimos absorver a situação dos
recrutas envoltos naquele ambiente tenso. Toda a inocência emanada dos jovens
acaba soando real. Temos uma icônica cena dos recrutas tendo suas cabeças
raspadas que, ao mesmo tempo que diverte o público, acaba gerando certa empatia
pelos indivíduos ali inseridos.
Outro ponto
positivo do filme é o seu elenco cheio de carisma. Temos aqui Bill Murray, Harold Ramis, John Candy
e Judge Reinhold engrandecendo a comédia. Reinhold
acaba tendo uma participação mais discreta, se limitando a algumas cenas
gráficas e poucas falas. John Candy tem um espaço maior para atuar, sendo,
talvez, a melhor peça do elenco. Ramis, em um de seus primeiros papéis de
destaque, também está muito bem, dividindo o filme com Bill Murray. Murray
estava em fase de ascensão na carreira na época, e se mostrou disposto a
entregar uma performance bastante corporal que, apesar de alguns excessos, consegue
entreter o espectador.

A direção do
filme foi feita pelo bom cineasta Ivan Reitman. Reitman é outro que estava em ascensão na carreira, vindo a dirigir
depois deste filme nada menos do que ‘Os Caça-Fantasmas’(1984). O diretor faz
um trabalho regular neste filme, conseguindo dar um tom frenético à atmosfera
do longa, porém pecando quando defrontado pelas lacunas do roteiro, não
conseguindo contornar isto. Outra coisa que deixa bastante a desejar é a trilha
sonora extremamente repetitiva de Elmer Bernstein,
comprometendo bastante a possibilidade de imersão ao filme por parte de seu
público.
‘Recrutas da
Pesada’ é uma comédia limitada, agradando mais pelo grupo de qualidade que
conseguiu unir do que pelo seu conteúdo. Um filme que peca na construção de sua
história, onde a exacerbação de algumas situações acaba tirando o foco daquilo
que realmente pode divertir. No entanto, o filme não é formado apenas por
erros, contendo em seu interior elementos que viriam a ser usados na a exaustão
nos anos seguintes nos filmes do gênero.
8º – Clockwise (Christopher Morahan, 1986)
Utilizando
elementos já conhecidos do espectador no gênero da comédia, ‘Clockwise’
consegue por vários momentos flertar com um estilo divertido para contar sua
história. Porém, acaba perdendo a força em determinada parte do filme, acabando
por recorrer a clichês vazios e sem empolgação. Um filme que ainda traz o
excelente John Cleese como seu protagonista.
O filme conta
a história de um diretor de uma importante escola de sua cidade que nutre uma
obsessão pela pontualidade em sua rotina. O homem tem exatamente tudo que irá fazer
em seu dia registrado, seja em uma agenda ou em sua própria cabeça, jamais se
permitindo o atraso. Obviamente, o homem posterga esse legado a todos os seus
alunos, exigindo que os mesmos se policiem para não cometer atrasos.
A trama do
filme ganhará força quando o diretor é convidado para assumir um importante
cargo e tem que se encaminhar até uma cidade vizinha, Norwich, para fazer o
discurso mais importante de sua vida. A caminho do discurso, o homem acaba
pegando o trem errado, se iniciando neste ponto o desmembramento de inúmeras
confusões em seu trajeto.

Todo aquele
começo do filme, desenvolvendo o caráter paranoico do personagem, funciona
muito bem. O clima escolar, sua relação com os alunos e o modo que estes o veem
acabam por ditar o ritmo divertido do filme. Apesar das situações emanadas a
cada momento cômico já serem completamente conhecidas do espectador, a virtude
do filme aqui é a de mostrar isso de uma maneira diferente. Muito desse ritmo
diferente foi aproveitado com excelência dois anos depois em ‘Um Peixe Chamado
Wanda’(1988).
Infelizmente
a qualidade do filme vai caindo gradativamente. Conforme a aura do filme começa
a tomar uma forma ‘’Road Movie’’, já é possível notar as primeiras exacerbações
em piadas e no humor físico. Tudo começa por ficar forçado demais, utilizando
piadas prontas e situações que o espectador já sabe seu desfecho antes mesmo de
elas começarem. O que atenua tudo isso é o modo como o humor britânico acaba
sendo concebido mais na formação do sarcasmo. Essa combinação entre a ironia
utilizada pelos personagens e o rosto comum à comédia do protagonista ajudam
muito na sensação de imersão ao filme.

A presença de
John Cleese aqui é essencial para que o filme alce voos maiores. O ator está
incrível como o diretor do colégio. Seu modo de pontuar cada fala, despejando
uma expressão cheia de uma espécie de enojamento às situações que lhe são
impostas, é incrível. O resto do elenco acaba não conseguindo acompanhar o
ritmo de Cleese, mas também passam longe de estarem mal no filme.
A direção de Christopher Morahan é regular no filme. Morahan faz um belo trabalho no começo do filme,
sempre prezando pela escolha de mostrar planos fechados em relógios durante
cada cena, evidenciando o conceito paranoico que permeia a personalidade do
diretor. No decorrer do filme, os grandes momentos de Morahan ficam por conta
das sequências de perseguições, conseguindo belas cenas que acabam divertindo
bastante.
Apesar da
falta de consistência em seu ritmo, ‘Clockwise’ é um filme de comédia que vale
o tempo investido. É a chance de ver um olhar diferente em boa parte do filme
nos clichês que consomem o gênero. Além de ser mais uma oportunidade de ver o
fantástico John Cleese em um personagem que o ator trata por deixá-lo único.
7º – As Bicicletas de Belleville (Sylvain Chomet, 2003)
Nutrindo uma aura nostálgica, ‘As Bicicletas de Beleville’
consegue encantar o espectador durante sua curta duração. Sylvain
Chomet nos apresenta uma animação peculiar, diferente de
todas as outras.
A história contada aqui é sobre um sequestro que acontece
durante a ‘Tour de France’, mais famosa corrida de bicicletas da época. A avó
do indivíduo sequestrado emprega uma caçada épica atrás de seu neto
desaparecido. Durante a procura somos inundados com uma série de eventos
engraçados, que acabam divertindo, não por uma exposição comum, com piadas com
uma substância demonstrativa, mas utilizando um humor sensível.
O roteiro da animação, também escrito por Chomet, se apega
ao simbolismo dos eventos. São poucas as falas utilizadas aqui. O que ele
aproveita é, apenas, do humor presente em cada situação. A estética do filme é
o grande fator positivo. A animação passa um caráter datado, seus desenhos
impelem no espectador a sensação de estar vendo algo em ruínas. Essa
degeneração é essencial para contar a história da família em questão.
Apesar da trama simples, o conteúdo do filme é muito mais
denso. Aqui vemos uma família em completa decadência. Assim como sua casa,
vítima da urbanização violenta, a vida dessas pessoas está condenada. Nada mais
resta aqui para eles. O cachorro da família demonstra essa queda inevitável.
Seu dia é composto pela simples esperança de latir para o trem que passa ao lado
a casa. Entretanto, o fio que segura essas pessoas a seguirem a rotina
inexorável de suas vidas é a participação na ‘Tour de France’. Os apenas 80
minutos de duração são o bastante para deixar um vazio no espectador ao seu
término. Alguns anos depois, Chomet iria nos apresentar outra animação
contemplativa, ‘O Mágico’(2010), que também nutre uma atmosfera
existencialista.

6º – Um Senhor Estagiário (Nancy Meyers, 2015)

Se
beneficiando de uma direção competente, trilha sonora leve, edição dinâmica e
um protagonista à vontade na caracterização de seu personagem, ‘Um Senhor
Estagiário’ atinge seu objetivo de agradar o espectador com um bom filme. A
experiente cineasta Nancy Meyers faz um de seus melhores trabalhos na direção e consegue realizar aqui
um “Feel Good Movie”.
A história
contada aqui é a de um senhor de idade, na casa de seus 70 anos, aposentado,
viúvo, que se vê imerso em uma vida rotineira inexorável. Eis que, após ver um
panfleto de uma empresa procurando pessoas para preencher determinadas vagas, o
personagem decide tentar mudar seu estilo de vida. A trama se desenvolve a
partir deste ponto, explorando a vida deste senhor após a decisão.
Na primeira
metade, o filme se limita praticamente a um só ambiente, a empresa em que o
personagem decide trabalhar. A proposta aqui apresentada pelo filme é simples,
explorar ao máximo a boa química entre os atores e aproveitar o ambiente
convidativo da empresa em questão, lembrando muito a atmosfera criada por ‘O
Diabo Veste Prada’(2006). O sucesso desta comédia se deve muito por encontrar
um ritmo já não utilizado constantemente em filmes do gênero atualmente, usado
a exaustão em longas da primeira metade da década passada, como, por exemplo,
‘Como Perder Um Homem em 10 Dias’(2003).

Na reta
final, a comédia acaba perdendo um pouco do encanto, tornando-se repetitiva e
cansativa. O fato do roteiro ser ruim e repleto de clichês é muito bem
contornado pela diretora na primeira hora de filme, porém, nesta segunda metade,
já não havia muito o que se fazer. O filme conta com duas histórias
interligadas na trama, a central do aposentado querendo encontrar seu caminho
e, a segunda, de uma mulher importante e competente vivendo conflitos e dúvidas
familiares e profissionais. E é quando o foco do filme se detêm na segunda
história que essa queda notável de qualidade acontece.
A parte
estética do filme é muito boa. Temos aqui um importante espaço dado pela
diretora para a edição e trilha sonora no filme. E isso é de suma importância
para o sucesso deste. Começando pela leveza da trilha sonora, que trabalha por
conduzir o espectador através da história contada aqui, sem jamais se tornar um
parasita na história. O trabalho de edição é um dos elementos que mais
relativiza as falhas do roteiro(comandado também por Nancy Meyers). Seu
dinamismo aqui é fundamentalmente necessário para não deixar o longa insosso.
Entretanto, tudo isso não faria a menor diferença se não tivéssemos uma
profissional competente no comando da direção. Nancy Meyers conseguiu repetir a
estrutura usada por ela em filmes como ‘Do Que as Mulheres Gostam’(2000) e
‘Alguém tem Que Ceder’(2003), fazendo aqui seu melhor trabalho.

Aliás, o
trabalho da diretora vai muito além dos aspectos técnicos do filme, aqui ela
trabalha assiduamente para que o elenco entregue algo positivo. Todos os seus
integrantes estão muito bem, seja lá qual for sua importância no filme. O
destaque, claro, é para a atuação de Robert De Niro. O experiente ator não tem
vergonha em mergulhar de cabeça em um papel que o expõe a elementos sociais
complicados, como a defasagem imposta pela sociedade às pessoas mais velhas. A
atuação de Robert De Niro nos lembra muito do personagem clássico interpretado
por este em ‘O Rei da Comédia’(1982). Temos também no elenco a presença de Anne Hathaway, que entrega uma performance positiva.
‘Um Senhor
Estagiário’ está longe de ser um filme ausente de erros, mas é exatamente a
habilidade de superar estes que fazem o sucesso do longa. Meyers não cria aqui
uma comédia que vai ser relembrada através do tempo, mas é, sem dúvidas, um
entretenimento para qualquer hora. A leveza do filme é o que segura o
espectador por mais de duas horas. A química presente no elenco torna piadas
batidas em momentos engraçados. Um bom filme que vale o tempo investido.
5º – Três é Demais (Wes Anderson, 1998)
Utilizando de
um tom quase lúdico para desenvolver sua história, ‘Três é Demais’ consegue
atrair completamente a atenção de seu espectador logo nos primeiros minutos de
sua duração. Um filme que trata os conflitos surgidos na adolescência de uma
forma suave, sem dar uma carga de dramaticidade descabida. Wes Anderson, em seu
segundo longa-metragem, faz um trabalho único aqui.
O filme vai
nos inserir em alguns meses da vida de Max Fischer, um
adolescente no auge de seus 15 anos, que tem uma bolsa de estudos na escola
Rushmore. Max é um indivíduo de difícil trato. Estranho e nutrindo um
sentimento inerente por se destacar dos outros, o jovem acaba por ter uma
grande gama de atividades extracurriculares em seu boletim. No entanto, são
essas atividades que acabam fazendo com que Max tenha notas ruins
correntemente, sendo ameaçado de perder sua bolsa. É em meio a essa ameaça e ao
desenvolvimento de uma paixão por uma professora, além da amizade com um
indivíduo mais velho, que o filme vai se desenvolver.
O
desenvolvimento da trama é dinâmico. As informações entregues ao espectador são
conduzidas de uma forma rápida, onde cada fragmento de conteúdo tem por
essência alavancar a velocidade do filme. Os aparentemente poucos 93 minutos de
duração na prática passam longe de serem efêmeros. Apesar da agilidade, cada
conteúdo é destrinchado em todos seus âmbitos.

A maneira
romantizada de contar a forma como um adolescente desajustado socialmente leva
sua vida é um tiro certeiro realizado pelo filme. Estão presentes ali todos os
problemas tradicionais enfrentados por um jovem comum, como, por exemplo, a
afloração de sua sexualidade e a confusão de identidade. E é exatamente com
esse trabalho de romantizar a trama que o filme consegue com rara destreza
fazer a ponte adolescência/infância e adolescência/adulto.
Vamos ter
trabalhado aqui toda a sensação de afastamento que um indivíduo acaba sendo
instruído pela sociedade a ter por suas fases já ultrapassadas ou então que não
foram atingidas. Max evidencia toda uma junção de fases com seus
relacionamentos com seu amigo Dirk Calloway,
um garoto com algo em torno de 11 anos, e com Herman Blume,
um milionário com mais de 50 anos. Esse emaranhado de fases que se unem em
detrimento dos relacionamentos de Max, acaba por relativizar a periodização da
vida e, não só isso, também atua por fazer um grande processo de troca de
valores, onde cada personagem transcende sua fase, se inserindo em qualquer uma
das outra duas relatadas no filme.

Vamos ter o
personagem de Blume ora agindo de acordo com sua idade, em outra, de maior
exacerbação, como um adolescente e, em alguns momentos, até mesmo como uma
criança. O mesmo acontece com Dirk e, principalmente, com Max. E o filme não
mostra esses comportamentos de forma depreciativa, pelo contrário, até
glorifica essa instabilidade de suas psiques.
 O roteiro do
filme, escrito por Wes Anderson e Owen Wilson, obtêm sucesso exatamente por
essas investidas ausentes de determinismos sociais. As situações de maior carga
emocional são atenuadas com piadas leves e certeiras. Todas as tomadas cômicas
do filme são emanadas de um humor extremamente bem construído. Já as
características e personalidades dos personagens do filme são formuladas de
maneira precisa, dando o tom substancial necessário a eles.
Já adentrando
ao campo da direção, teremos aqui o ponto que encanta seu espectador. Wes
Anderson escolhe por dar um tom nostálgico ao filme, sempre destacando em
enquadramentos perfeitos objetos que pertenciam a décadas passadas. Esses
enquadramentos nos objetos norteiam sua forma de levar o filme ao seu público.
A composição de seus cenários é outro detalhe que pesa quando comparado a
outros filmes do gênero. Aqui teremos planos abertos com uma câmera fixada,
revelando escolas, casas ou ruas.

Os destaques
fogem também para a sua fotografia fantástica, utilizando cores fortes para
marcar determinada cena, em um trabalho irretocável de Robert D. Yeoman.
A edição de David Moritz é
a principal aliada de Wes quando decide dar um tom ágil a trama, sempre
trabalhando por dar cortes ousados e frequentes a cada cena. Já a trilha sonora
de Mark Mothersbaugh
procura de certa forma guiar a história e atuar de acordo com o clima intenso
intrínseco aos personagens ali inseridos.
O elenco é
composto, em suas partes mais relevantes, por Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams e Mason Gamble. Gamble, como Dirk, acaba tendo uma atuação mais
contida, onde o próprio roteiro limita a quantidade de falas entregues a ele.
Williams, como Rosemary Cross,
tem uma atuação suave, jamais tentando usurpar a o foco dos personagens mais
relevantes. Murray, como Blume, é o grande destaque do filme, guiando o tom
melancólico em alguns pontos da obra com uma atuação pontual. E Schwartzman no
papel de protagonista do filme, conseguindo evidenciar toda a aura paranoica de
seu personagem com uma atuação intensa do começo ao fim.
Em nenhum
momento de sua duração o filme tem uma queda de nível. Seu ritmo se mantém
constante do primeiro ao último minuto. ‘Três é Demais’ é uma obra doce que
trabalha por encantar os públicos de qualquer idade. Um filme que se encaixa no
caráter conceitual do devir no mundo, onde toda a atmosfera presente no longa
se apresenta em constante processo de transformação.
4º – Wiener-Dog (Todd Solondz, 2016)
A carreira do
diretor Todd Solondz é dedicada a fazer filmes provocadores, que mexem com seu
público (e, às vezes, não de uma forma positiva). Sua filmografia inclui
tópicos difíceis de serem abordados, como estupro, pedofilia, depressão e
homicídios, como em ‘Felicidade’(1998). Tudo retratado de uma forma cômica,
porém fiel. Solondz tem uma atração incomum pela figura dos derrotados em nossa
sociedade. Seu trabalho não é colocar conceitos de certo ou errado, bem ou mal.
Nos seus filmes ele passa o que é o mundo, sem desumanizar aqueles que fogem do
comportamento normal da massa.
Os filmes do
diretor sempre seguem uma qualidade muito alta. E aqui, com ‘Wiener-Dog’, não é
diferente. Aqui temos um filme que é dividido em quatro contos independentes,
interligados apenas pela presença de um cachorro muito simpático em suas vidas.
Temos neste filme contos que mostram a vida com olhos cruéis e desalentadores,
seja em uma família de classe alta, onde a inabilidade de dois pais em cuidar
de seu filho de uma maneira normal acaba moldando a personalidade do pequeno,
seja em um casal de seus vinte e poucos anos condenados ao fracasso devido
simplesmente as circunstâncias da vida, do acaso, ou seja em um professor em profundo
estado de depressão. Todos os contos tem em comum, além do cachorro, um
profundo estado desilusão quanto à vida.

O diretor usa
de maneira excessiva um humor inteligente, impregnado em pequenos atos dos
personagens. O filme é curto, com apenas 88 minutos de duração, não deixando o
espectador entediado em nenhum momento. Muito pelo contrário, ao seu término
desejamos que ele tivesse mais alguns minutos de duração.
O elenco
conta com alguns nomes consagrados já do cinema, como Danny DeVito, Ellen
Burstyn e Julie Delpy. O filme ainda possui Greta Gerwig e Kieran Culkin
compondo o elenco. Aqui todos estão ótimos, demonstrando um humor melancólico
perfeito para a obra.
‘Wiener-Dog’
é um filme delicioso de se assistir. Solondz, em seu oitavo longa-metragem,
mais uma vez acerta a mão. Temos neste filme a vida destrinchada em relatos
divertidos. O diretor ainda nos premia com um final que é genial, apenas coroando
este ótimo filme.
3º – O Agente da Estação (Tom McCarthy, 2003)
Contando as
histórias de personagens que se fundem em sua própria solidão, ‘O Agente da
Estação’ acaba se definindo como uma obra suave, que mostra a tranquilidade com
que os personagens encaram os conflitos que permeiam suas vidas. Uma comédia
doce que acaba por transcender seu gênero, inserindo-se na dramaticidade de se
tentar viver alheio à sociedade.
O filme vai
contar a história de Fin, um homem que sofre de nanismo, que, após o dono do
lugar onde trabalha morrer e deixar uma propriedade em uma zona rural de Nova
Jersey, acaba deixando sua vida na cidade grande para trás em decorrência do
preconceito social exacerbado contra a patologia que o aflige. Nesta nova
cidade, Fin acaba por encontrar e começar um relacionamento de amizade com Joe,
um vendedor de cachorro-quente, e Olivia, uma mulher recentemente divorciada
que perdeu seu filho.
A trama do
filme vai se desenvolver exatamente no relacionamento improvável entre os três
personagens, revelando os motivos de eles residirem em um local tão longe do
tumulto social e o desmembramento de seus conflitos internos. Nos prolongaremos,
durante os curtos 89 minutos de duração do filme, neste relacionamento
catártico entre os três e as implicações que isso irá acarretar.
Toda a
história contada tem um desenvolvimento contínuo, explorando todos os três
personagens centrais da trama, sem deixar nenhum ficar sob as sombras do outro.
No entanto, a história procura adentrar ao cotidiano dos personagens sempre
pela visão de Fin. É o homem que faz essa ligação entre os três, acabando por
tornar toda essa junção de personas diferentes possíveis.

São debatidas
aqui as opressões a que os personagens são submetidos pela sociedade, e daí o
desejo de se desvincular dela. Cada um, por uma motivação diferente, anseia
pela solidão para poder ter um pouco de paz em suas vidas. A vida construída
longe do contato dos outros fica longe de se fazer satisfatória para eles, mas
pelo menos entrega um alívio necessário.
É importante
fazer um paralelo entre as diferentes vertentes que guiaram os personagens a buscar
o isolamento. O isolamento de Fin vem devido aos constantes preconceitos que as
pessoas despejam sobre o homem devido a sua patologia. Fin, em sua rotina
diária, é alvo de gozações, olhares assustados e perguntas ofensivas sobre seu
tamanho. Olivia anda por caminhos diferentes. A mulher buscou esse isolamento
de maneira proposital, sendo incapaz de se submeter às rotinas comuns após a
morte de seu filho. A vida inserida a um ambiente social turbulento, com
familiares e amigos, simplesmente passou a enojar a mulher. Já na figura de Joe
o isolamento foi uma coisa imposta pelo mundo ao seu redor. Falante demais, o
homem acaba por se tornar sociável em demasia, tornando seu convívio com os
outros inviável.

Em seu
primeiro trabalho a frente da direção, Tom McCarthy faz um trabalho mais conservador, se limitando a cenas com um trabalho
de câmera mais fixo, sempre explorando cenários bem delimitados. Toda essa
limitação passa longe de ser algo ruim para o filme, entregando para o roteiro,
também escrito por McCarthy, a responsabilidade de guiar completamente o filme.
O diretor também escolhe por dar um clima ultrapassado ao filme, parecendo, por
seus enquadramentos e composições de cenário, uma obra realizada 10 anos antes.
O elenco é
composto por atores esforçados. No papel dos três personagens centrais temos Peter Dinklage, Bobby Cannavale e Patricia Clarkson. Todos estão ótimos, tendo em suas atuações um ar melancólico que
norteia seus personagens. É impossível destacar uma atuação, todas seguem o
mesmo padrão.
A reta do
filme acaba ficando um pouco forçada demais em seus conflitos, sem, no entanto,
perder o foco. ‘O Agente da Estação’ acaba se destacando pela sutileza com que
trata de assuntos difíceis, como processo de luto e preconceito social. Um
filme que faz o espectador se perguntar sobre o modo de como um indivíduo em
uma sociedade moderna é ensinado a agir, desprezando qualquer coisa que fuja
aos seus ideais comuns.
2º – Relax (Albert Brooks, 1985)
A tarefa de
fazer um filme de comédia de bom nível, mesmo que este se baseie em inúmeros
clichês do gênero, não é fácil. Porém, ‘Relax’ consegue conciliar perfeitamente
todos os pontos comuns nele, acrescentando um ótimo roteiro e atuações na
medida certa. Um ótimo ‘Rod Movie’ para qualquer hora.
A história
trazida aqui é a de David e Linda Howard. Um casal com uma vida ganha, com
ambos trabalhando em ótimos empregos, envoltos em uma rotina inexorável que
traz segurança a eles. David Howard, após oito anos de dedicação a empresa em
que trabalha, está ansioso por uma promoção que lhe fora prometida. Quando
David fica sabendo que não terá a vaga e ainda teria que mudar para outra
cidade, o homem tem um surto, insulta seu chefe e acaba demitido. A trama
central do filme toma forma quando, acusado periodicamente por sua esposa de
ser um homem extremamente precavido, David decide se desfazer de todos seus
bens, comprar um trailer e viver o resto de sua vida com a esposa viajando pela
América.
O filme não
tem medo de usar e abusar de clichês característicos das situações que os
personagens encaram. Porém, o grande diferencial aqui é saber dosar a
quantidade de informação que é passada ao público.

O que temos
na sequência dos eventos, na verdade, não é um ‘Road Movie’ em sua síntese, já
que o filme se norteia em determinados locais com mais frequência. Os clichês
utilizados vão desaparecendo na reta final do filme, as ações dos personagens
não são as que o espectador espera, indo mais a fundo, questionando determinadas
motivações que surgem nos seres humanos.
O roteiro do
filme é pontual, onde cada piada atinge o espectador de determinada forma.
Entretanto, sua maior virtude aqui, é a de propiciar diálogos complexos,
densos, onde a realidade dos personagens é questionada de maneira por vez
sutil, outras mais truculentas, mas sempre cômicas.
Já a direção
é outro ponto positivo do filme. Aqui seu diretor não tem medo de ousar em
algumas cenas, usando uma variedade de ângulos e enquadramentos pouco habituais
para filmes de tal gênero. A curta duração do filme também evidencia o ótimo
trabalho feito pelo diretor, onde cada minuto é aproveitado para contar uma
história completa em suas mais variadas formas.

O elenco
talvez seja o ponto alto do filme. O casal em questão exibe uma química
inerente, onde a cada cena os dois aparentam já saber o que o outro vai fazer,
antecipando seus atos. O timing das piadas é outro fator que pesa na hora de
transmitir ao público as situações cômicas do roteiro. No papel de Linda Howard
temos a ótima Julie Hagerty. Hagerty tira proveito de sua voz,
talvez a mais bonita entre as irritantes do mundo da sétima arte, e seu jeito
corporal de executar as cenas para ganhar seu público. No papel de David Howard
temos a figura de Albert Brooks.
É importante
isolar Albert Brooks aqui. Brooks comanda a direção, roteiro e ainda
protagoniza este filme. Todas as três atividades feitas com extrema
competência. Ousado na direção, preciso no roteiro e hilário em sua atuação. O
brilho de Brooks atuando se dá muito por estar familiarizado com as situações e
piadas ali contidas, nos propiciando uma atuação memorável.
‘Relax’ é um
filme ímpar em meio a tantas comédias dispensáveis. Inserido na inesquecível
década de 1980, o filme contém os melhores elementos da época, inserindo ainda
alguns outros, fazendo com que o filme não fique defasado mesmo 30 anos depois.
Um filme divertido que sem dúvidas vale o tempo investido.
1º – Contratei Um Matador Profissional (Aki Kaurismäki, 1990)
O universo de
Aki Kaurismaki contém uma obsessão em mostrar os desmembramentos das vidas de
indivíduos tidos como estranhos e fracassados pela sociedade que lhes cercam.
Ladrões, trabalhadores descontentes, mulheres vingativas e músicos fracassados
são apenas alguns dos exemplos de indivíduos que permeiam os filmes do cineasta
finlandês. Toda a atmosfera criada por Kaurismaki tem como fundamento o de
divertir seu público com piadas que emanam das situações corriqueiras dos
personagens. E, aqui, em ‘Contratei Um Matador Profissional’, temos um de seus
filmes mais divertidos e simbólicos de sua carreira. Um filme que diverte o
espectador na mesma medida que denuncia o quanto uma vida dentro dos padrões da
normalidade pode ser prejudiciais.

Teremos aqui
um pequeno, porém o mais importante, fragmento da vida de Henri Boulanger,
um homem solitário, que faz um trabalho burocrático em uma empresa há mais de
15 anos. O trabalho é o curto fio que motiva Boulanger a acordar todas as
manhãs. Entretanto, quando é demitido de seu trabalho e se encontrar
completamente alheio ao mundo, Boulanger decide dar início a uma saga de
infindáveis tentativas frustradas de tirar sua vida. A trama ganhará força
quando o homem desmotivado até mesmo com as tentativas de suicídio, decide
pagar para um assassino profissional matá-lo. Boulanger só não esperava se
apaixonar por uma vendedora de flores pouco tempo depois de contratar o
assassino.
O filme é
curto, conta com apenas 79 minutos de duração, por isso seu ritmo tem como
proposta sempre ser mais constante, acelerando em algumas partes e seguindo o
curso natural da cena em outras. Como o filme se dispõe a contar um pequeno
espaço da vida dos personagens, essa curta duração soa longe de ser algo negativo.
Pelo contrário, é mais do que o suficiente para a história.

Iremos nos
concentrar em mais dois personagens, além do protagonista, Margaret, o “affair”
de Boulanger, e o assassino contratado. Esses dois outros personagens acabam
tendo uma abordagem menos relevante de suas vidas, sem, no entanto, se fazerem
superficiais. Margaret aparenta ser uma mulher solitária, assim como nosso
protagonista, encontrando no personagem de Boulanger o sentimento de
pertencimento a alguma coisa, jamais encontrado outrora. No assassino veremos
um homem comprometido com sua causa, emanando uma solidão desejada em sua
personalidade, e tendo que lidar com o fato de que seus dias estão contados
devido a um câncer.
Todas as
situações cômicas que surgem no filme se devem a um humor encontrado nos
pequenos detalhes das cenas, como em uma bonificação de demissão ou um simples
caminhar sobre um bar nada amigável. Aqui o humor nos diálogos é quase que
descartado, destinando ao ambiente e nas implicações dos atos dos personagens o
trabalho de divertir o público.

A direção de
Aki Kaurismaki se faz única. O diretor procura no primeiro momento evidenciar a
atmosfera claustrofóbica a que Boulanger está inserido, utilizando
enquadramentos fechados em relógios na parede e objetos de trabalho, tomadas
estáticas da composição geral do ambiente do escritório onde o homem trabalha e
uma cena única e curta de seu isolamento perante os colegas de trabalho no
almoço. Kaurismaki trabalha muito com uma espécie pouco comum de humor físico,
no sentido de que os maneirismos dos personagens acabam fazendo o espectador
rir.
Contamos no
elenco com nada menos do que Jean-Pierre Léaud comandando as ações do filme. O lendário ator francês consegue passar
com sua atuação uma confusão inerente ao seu personagem, parecendo a cada fala
não ter o mínimo de convicção do que acabara de afirmar. Assim como é habitual
no cinema do diretor, Léaud acaba criando uma persona melancólica para seu
personagem, seguindo o que a atmosfera do filme sugere a ele. Temos ainda Margi Clarke e Kenneth Colley compondo o elenco com atuações esforçadas,
porém limitadas.

‘Contratei Um
Matador Profissional’ é um filme ímpar em meio a tanta comédia sem substância
espalhadas pelo cinema. Uma obra doce e intensa, que poderia facilmente se
acomodar no gênero de drama. Um filme que se nega a simplesmente divertir seu
público, destilando toda uma indagação sobre os caminhos que decidimos seguir
em nossas vidas. O filme ainda flerta com o conceito de predestinação em vários
momentos do filme, questionando o quão livre somos para exercer nossos atos.
Como se todos os ingredientes do filme não fossem o bastante, ainda temos a
oportunidade de assistir a junção Leaud e Kaurismaki, duas das maiores lendas
da história do cinema.