Abordaremos, neste top10, bons filmes de suspense que talvez você não tenha visto. Temos filmes mais atuais talvez não tão bem conhecidos do maior público, bem como clássicos do cinema francês e da década de 1980. Também traremos verdadeiras pérolas que ficaram perdidas no tempo. Os filmes sempre vão ter em comum os elementos clássicos que abrangem um bom filme do gênero, como a carga exacerbada de tensão em suas tramas e o habitual mistério que permeia determinados personagens ou ambientes.

10º – Gêmeos – Mórbida Semelhança (David Cronenberg, 1988)

O universo
paralelo criado por David Cronenberg em seus filmes é um espetáculo. Temos ali
instrumentos jamais vistos antes, pragas inconcebíveis, homens se transformando
em criaturas animalescas, parafilias grotescas, fitas de vídeo assassinas e
etc. Entretanto, o assunto presente nos temas citados e em toda a carreira de
Cronenberg é a sexualidade exacerbada presente no ser humano e na natureza que
o cerca. E em ‘Gêmeos – Mórbida Semelhança’ o diretor não poderia fazer
diferente. Aqui ele usa de um laço inexorável surgido em dois irmãos, quase que
incestuoso, onde mulheres são compartilhadas, pacientes, méritos e, por fim, a
loucura. Junte esses temas a uma direção impecável, uma cinematografia linda,
trilha sonora memorável e uma atuação precisa e você terá algo único.
O filme conta
a história de dois irmãos gêmeos, Beverly e Elliot Mantle.
Ambos ginecologistas conceituados, levando uma vida dos sonhos no alto escalão
da sociedade. A vida dos dois é completamente transformada após eles se
envolverem com uma atriz frágil e perturbada, onde um dos dois se vê
completamente apaixonado e dependente do relacionamento.

É
interessante ver aqui os desmembramentos da vida de Beverly e Elliot. Os dois
demonstram um carinho único um pelo outro. Os dois moram na mesma casa, dividem
as mesmas mulheres, atendem as mesmas pacientes, comem a mesma comida e gostam
das mesmas coisas. Tudo ali é compartilhado. A grande diferença presente nos
dois se deve ao fator de um ter uma personalidade mais eloquente e
desinibida(Elliot) e o outro ser tímido e retraído(Beverly). A figura da atriz
que adentra ao campo intocável que tange o relacionamento dos dois é a grande
chave que abrirá uma porta que jamais deveria ter sido aberta.
O que deveria
ser mais uma aventura sexual para os irmãos, acaba se tornando em um jogo
obsessivo letal para a saúde mental deles. Os dois enganam a mulher, sem
deixá-la saber que os dois se revezam para transar com ela. Para ela, Beverly
era o único ser atuante ali. A atriz não sabe, a princípio, nem que Beverly
possui um irmão, muito menos que ele seria gêmeo.
Elliot não
liga para atriz, vê nela apenas um escape para um dia entediante, tratando-a
com desdém. Enquanto Beverly vê na mulher algo muito maior, apaixonando-se por
ela quase que instantaneamente.

Quando essa
unidade de escolha é quebrada nos irmãos, começaremos a ver pouco a pouco as
coisas saírem do controle. Beverly acaba ficando viciado em drogas de todos os
tipos, tendo alucinações e ficando incapaz de exercer sua profissão. Elliot
apesar de, a princípio, estar bem, é pego pelo fenômeno de unicidade. O vínculo
criado pelos irmãos em toda sua vida, jamais poderia ser desfeito. O filme
segue por caminhos cruéis para os irmãos, em uma rotina de autodestruição
inapelável.
O que torna
este filme único, entretanto, não é a história em si, mas sim sua parte
estética impecável. A direção do Cronenberg é soberba, criando uma atmosfera
pulsante no filme. O diretor escolhe por realizar seu filme em cenários
claustrofóbicos. Estaremos sempre envoltos a um quarto, uma sala, um
consultório e etc. Tudo aqui é extremamente apertado, evidenciando o mundo
limitado na vida daqueles irmãos. A decisão de utilizar um único ator para
interpretar os irmãos é outro ponto que mostra a genialidade de Cronenberg,
onde a simbiose dos irmãos entregues pelo roteiro é realizada de maneira
natural. A construção dos efeitos visuais para conceber que um mesmo ator faça
dois personagens em um único ambiente, onde o rosto dos dois é mostrado, também
impressiona. A fotografia linda de Peter Suschitzky
ajuda a dar um clima sombrio ao filme. Já a trilha sonora, entre todos os
detalhes técnicos, é a que mais consegue nortear o caminho dos personagens e
definir o relacionamento dos dois, sempre escolhendo por composições
melancólicas e doces. A composição desta trilha sonora é um dos melhores
trabalhos de Howard Shore(talvez
o maior nome que há na área) em sua brilhante carreira.

A dupla
atuação de Jeremy Irons é essencial para o sucesso do filme. Irons consegue
fazer com que o espectador realmente acredite que ali se encontra duas pessoas
diferentes. A sua entrega aos personagens é total. Um ator comum jamais
conseguiria encarar a missão. Todo o brilho da produção deste filme jamais traria
recompensas sem a presença de Irons. Um trabalho hercúleo para o talentoso
ator.
‘Gêmeos –
Mórbida Semelhança’ é o filme em que David Cronenberg transcende pela primeira
vez o gênero horror, nos entregando um drama peculiar. Uma espécie de homenagem
sombria ao clássico ‘Persona’(1966), de Ingmar Bergman.
9º – Traídos Pelo Desejo (Neil Jordan, 1992)

Contando com um roteiro bem construído e uma direção
competente, ‘Traídos Pelo Desejo’ obtêm êxito em trazer para seu espectador uma
história densa e envolvente que, apesar ter um ritmo bem dosado, consegue criar
um filme muito interessante.
A trama do filme se desenvolve em duas partes, sendo a
primeira o relacionamento entre um terrorista do IRA e um soldado sequestrado
por seu grupo e a segunda no relacionamento deste terrorista do IRA com a namorada
do soldado sequestrado. A história ganha corpo em meio aos diversos momentos de
enganações e falsas verdades que são jogadas na trama.
Na primeira parte do filme o relacionamento entre o
sequestrador e o soldado ganha conotações homossexuais. Apesar de ambos ali
demonstrarem e dizerem todo o seu afeto sexual pelas mulheres, acaba surgindo
uma química e tensão sexual invisíveis no ar. Toda essa tensão é relevante para
a segunda parte e o desfecho do filme, quando o sequestrador conhece a namorada
do soldado e desenvolve por ela afetos e é retribuído.
O roteiro não é superficial, colocando determinados itens na
história de forma discreta que podem ou não serem percebidos pelo espectador. A
psique dos personagens é muito bem construída, evidenciando o conflito entre a
realização de prazeres com as regras morais implícitas na sociedade e,
principalmente, neles próprios. ‘Traídos Pelo Desejo’ tem todos os elementos
que Pedro Almodóvar utiliza em seus filmes, poderíamos facilmente confundir com
um de seus filmes se este não tivesse uma direção melancólica e soturna.
A parte técnica do filme também é de qualidade. O comando da
direção é entregue a Neil Jordan e ele faz um trabalho positivo aqui.
Adequando-se ao roteiro, Jordan consegue ser sutil no momento certo, não
deixando as cenas revelarem mais do que é esperado. O diretor também consegue
criar uma atmosfera decadente no filme, evidenciando a vida de cada personagem
inserido ali. A fotografia fria de Ian Wilson
também segue o ritmo proposto pelo diretor.
Temos com o papel de protagonista Stephen Rea, que entrega uma performance convincente e
soturna no papel do terrorista. O resto do elenco acaba não tendo a mesma
desenvoltura de Rea, mas nada que venha comprometer o andamento do longa.
‘Traídos Pelo Desejo’ é um thriller sufocante que consegue
prender o espectador do primeiro ao último minuto das quase duas horas de
duração. Pecando um pouco talvez na falta de uma edição mais dinâmica, o filme
alcança sucesso por explorar as motivações e conflitos que cada personagem
vive. Apesar do elenco limitado, Neil Jordan consegue tirar ao máximo de seu
protagonista, compensando os outros elementos.
8º – Uma Janela Suspeita (Curtis Hanson, 1987)

Conservando
em sua essência a aura clássica que permeava a década no gênero, ‘Uma Janela
Suspeita’ é um suspense que consegue entreter muito bem seu espectador apesar
de seu roteiro fraco. Um filme que serviu para Curtis Hanson, seu diretor, nos
mostrar o que estaria por vir em sua filmografia.
A trama do
filme vai se concentrar no desmembramento de uma série de ataques contra
mulheres na cidade, que acabavam por ser estupradas e mortas. A história
ganhará forma rapidamente quando Sylvia, que estava no apartamento de um
empregado de seu marido traindo-o, presencia um ataque pela janela do quarto e
acaba por salvar a mulher gritando por ajuda. 
Deste momento em diante se iniciará um encadeamento de histórias que vão
unir forçadamente Sylvia, o empregado com que tinha o caso, Terry, e a mulher
atacada, Denise. Os três, por suas próprias motivações, procuram empreender uma
caçada contra o assassino em questão.

O filme desde
seu início evidencia um ritmo irregular em seu desenvolvimento. As situações
são exploradas sem que seja feita uma devida introdução básica dos eventos
anteriores. Os personagens são trazidos à tela com motivações banais demais
para convencer o espectador das atitudes que estes acabam tomando. A personagem
que melhor acaba sendo desenvolvida é a de Sylvia. Vemos na mulher um sentimento
de despreocupação quanto à captura ou não do assassino, se concentrando apenas
em manter a história longe dos ouvidos de seu marido, a fim de que este não
descubra sua traição.
Já em Terry e
Denise, a grande maioria de suas atitudes acabam soando inverossímeis. Terry,
sem mais nem menos, desenvolve uma vontade inerente ao seu ser de encontrar o
assassino a qualquer custo, iniciando uma investigação particular. O porquê
dessas atitudes o roteiro simplesmente não apresenta ao público. Em Denise, o
maior ponto de desequilíbrio do filme, vemos uma personagem que age
completamente destoante da forma que uma vítima de um tipo de violência
semelhante o faria. A mulher parece não ter sentido os efeitos psicológicos que
aquela situação traria normalmente, ignorando isto e juntando-se a Terry na
caça do assassino.
Escrito por
pelo próprio Curtin Hanson, baseado no romance de Anne Holden, o roteiro tropeça nos caminhos trilhados, procurando sempre a situação
mais novelesca possível. Além dos três personagens centrais do filme, temos
todo o resto, como policiais, o assassino e o marido de Sylvia, desempenhando
discursos forçados e cheios de clichês.

No entanto,
nem tudo é ruim no filme. A atmosfera emanada no filme é ótima, conseguindo
inserir o espectador no seu clima de mistério. A caça ao assassino também é outro
ponto que favorece o filme, sendo sempre cheia de jogos de enganações entre os
personagens. O clima contido aqui nos remete diretamente a ‘O Fio da
Suspeita’(1985), conseguindo nos desnortear a cada acontecimento.
A direção de
Curtis Hanson é muito competente, sabendo elevar a intensidade do filme com
leves detalhes, como um quadro fechado em um bracelete ou a introdução de uma
música que remete aos assassinatos. E são exatamente esses detalhes que nos
prendem em frente à tela durante os 112 minutos de sua duração. Hanson começava
aqui a construir e aprimorar seu modo de fazer um bom filme de suspense,
chegando ao seu ápice na década de 1990, com filmes como ‘Sob a Sombra do
Mal’(1990) e, um dos maiores clássicos da década, ‘A Mão Que Balança o Berço’(1992).

Nos inserindo
no campo do elenco, temos presentes na trinca que comanda o filme Steve Guttenberg, Elizabeth McGovern e Isabelle Huppert. Todos estão regulares no filme, às vezes pecando pela falta de tato em
algumas cenas, já em outras surpreendendo com olhares e expressões com um nível
de intensidade alto. Huppert está regular no filme, tendo uma atuação
inconstante, entretanto é ela a responsável pelos grandes momentos de atuação
no filme, em efêmeros minutos que mostravam um pouco do que fez da francesa uma
das melhores atrizes da história do cinema. McGovern tem a atuação mais sóbria
do elenco, conseguindo manter uma regularidade padrão durante todo o filme. Já
Guttenberg acaba sendo esforçado, ele é um bom ator, mas, talvez, o fato ter
feito seu nome em filmes de comédia da década atrapalhem um pouco na absorção
de sua atuação.
‘Uma Janela
Suspeita’ está longe de ser um bom filme, mas o fato de elencar uma atmosfera
atraente, junto com elementos característicos da época, faz com que este seja
um ótimo entretenimento. Junte isso a um diretor conceituado na indústria em
seu primeiros passos, atores competentes devotados a seus personagens e uma
temática de sucesso e você terá um filme que, sem dúvida, merece ser visto.
7º – No Vale das Sombras (Paul Haggis, 2007)
Baseado em
fatos, ‘No Vale das Sombras’ nos surpreende apresentando um thriller calmo,
utilizando-se de um roteiro feito com extrema inspiração e atuações
competentes. O cineasta Paul Haggis acerta o tom e nos brinda com um filmaço. São duas horas de uma
construção precisa da psique de um pai afogando-se em seus próprios conceitos.
Logo no
início do filme, após a apresentação da trama central, temos uma cena
fundamental para adentrar a síntese do personagem principal (protagonizado por
Tommy Lee Jones). Na cena, o personagem inicia uma viagem à procura de
respostas sobre o desaparecimento de seu filho, e acaba se deparando com uma
bandeira de seu país colocada de cabeça para baixo. O pai para seu carro e
orienta de forma calma e contundente um indivíduo, claramente ignorante sobre
os costumes locais. Cena que aparenta ter pouca importância para o filme, mas
eis aqui a chave central para a compreensão do que o personagem vive,  suas crenças e regras morais.
A procura do
pai é por esclarecimentos do porque seu filho, um militar que devia estar
voltando do Iraque recentemente, não se apresentou em sua base. Aqui,
diferentemente de Missing(Costa-Gravas), outro grande filme com temática
parecida, o pai sabe, após poucas conversas, que o caso é mais grave do
aparentava a priori.

No decorrer
do filme, vamos nos dando conta, assim como o personagem, do tamanho do fardo
que ele carrega. Temos aqui uma vida construída a partir de valores morais
rígidos. Patriotismo, senso de dever e integridade são construtos básicos do
personagem. A vida militar para ele é uma obrigação. Obrigação esta que ele
passa a seus filhos. Formados a partir destes ensinamentos, o caminho trágico
que ambas as vidas tomam acabam por refletir diretamente o que o pai causou em
seus caminhos. O personagem vive uma espécie de catarse durante a investigação,
dando-se conta no jornada de suas responsabilidades. Somos inundados com o
sofrimento e culpa que ele passa a expressar a cada olhar.
A ignorância
do pai se deve ao fato de acreditar que seu filho era um exemplo de moralidade.
No transcorrer da trama ele vai tomando ciência dos horrores que seu filho
viveu no Iraque e o quanto isto o mudou de maneira cruel. Seus atos agora eram
cruéis assim como a vida no Iraque. Somos apresentados a isto por intermédio de
vídeos presentes em um celular recuperado pelo pai.

O elenco aqui
está muito bem. Temos participações de Josh Brolin, Susan Sarandon, Jason
Patric e James Franco compondo seu núcleo. Charlize Theron interpreta uma policial
que se mostra disposta a esclarecer o caso do desaparecimento ao lado do
protagonista. Sua performance aqui é boa, nos apresentando uma mulher com uma
vida familiar complicada e no âmbito profissional limitada a subir em sua
carreira em virtude de casos com as pessoas certas. Entretanto, o destaque aqui
é para a atuação de Tommy Lee Jones. Uma atuação contida, demonstrando uma
sensibilidade ímpar para representar o pai obstinado. A cada cena sua, temos
uma aula de boa interpretação. Limitando-se a olhares, expressões faciais e
palavras calmas ele consegue nos introduzir a vida daquele homem.
Os aspectos
técnicos são discretos. Uma direção que tem como sua maior preocupação dar ao
protagonista a liberdade e conforto para guiar a trama, assim como a
fotografia. Já a trilha sonora pontua nos momentos certos seu tom nostálgico e
contemplativo.
‘No Vale das
Sombras’ é um relato fiel da vida de muitos americanos patriotas que se veem
presos a uma ideologia defasada, sem se dar conta do quão venenoso isso pode
ser as suas futuras gerações. O filme seria bom sem a presença de Tommy Lee
Jones como protagonista, porém sua presença aqui torna o longa-metragem único.
6º – Dublê de Corpo (Brian De Palma, 1984)

Trazendo os
componentes tradicionais de seu cinema, Brian De Palma entrega a seu público um
filme regular, que acaba por explorar o aspecto voyeurístico no ser humano,
fazendo mais uma homenagem a Alfred Hitchcock. Um filme que sofre com problemas
de ritmo constantes e um roteiro que parece ter sido concebido as pressas em
determinado ponto do filme. Apesar dos erros, ‘Dublê de Corpo’ é a última vez
que o diretor entregou uma obra com seu selo de qualidade ao gênero de suspense.
O filme vai
trazer em seu enredo a história de Jake Scully, um
ator de filmes pequenos que, ao sofrer um ataque claustrofóbico em uma cena do
filme que estava fazendo, perde seu emprego. O calvário de Scully se iniciava
aí. Chegando em sua casa, o homem acaba por encontrar sua namorada com outro.
Scully agora estava sem emprego, namorada e casa, já que a residência onde
residia pertencia à namorada em questão.
A trama vai
ganhar forma quando um amigo de Scully, Sam Bouchard,
oferece um lugar para o homem passar algumas semanas até encontrar outra coisa.
Neste local, Bouchard mostra a Scully uma vizinha que gosta de se exibir diante
da janela. Scully desenvolve uma fixação em sua vizinha, espiando todas as
noites a mulher fazer seu “show”. Em uma dessas exibições, Scully acaba
percebendo um homem a espiando de um telhado. É deste momento em diante que se
inicia um jogo de gato e rato onde o único perdedor sempre será o protagonista.

A atmosfera
do filme começa com um dinamismo interessante, mostrando com cautela os detalhes
da vida do protagonista e introduzindo pequenos itens na trama para elevar o
tom de paranoia no espectador. No entanto, após os 30 primeiros minutos, o
filme acaba entrando em um emaranhado de situações e diálogos que demoram a
sair do lugar. Quando vamos perceber, já se passaram mais de 40 minutos e a
trama simplesmente não saiu do lugar. Essa demora acarreta em uma reta final
corrida demais. A partir do momento em que começam a se desmembrar os mistérios
da história, tudo ocorre muito rápido, onde qualquer tipo de “plot-twist”
idealizado pelo roteiro acaba soando muito forçado.
O roteiro do
filme, escrito por De Palma e Robert J. Avrech,
acaba tendo uma ideia inicial muito boa, mas que em algum momento em sua
produção acabou se confundindo em seus próprios caminhos. Essa falta de regularidade
no ritmo do filme é muito em virtude do material entregue, onde os diálogos
passam de longos e bem construídos, para falas curtas e desconexas. Outro erro
contido aqui são as consequências ausentes de sentido de vários atos dos
personagens.

Já nos
inserindo no campo da direção, vamos ter um trabalho que nos remete aos
melhores filmes de De Palma apesar de conter alguns exageros. O diretor faz um
bom uso das cores, em especial do vermelho, para evidenciar, assim como em
‘Videodrome’(1983) de David Cronenberg, a atmosfera pulsante do filme. A
composição dos cenários também agrada muito, sempre com ambientes estranhos e
que evidenciam a aura sexual do filme. A câmera do diretor também trabalha por
sempre nos propiciar o melhor ângulo. Os maiores erros de Brian De Palma se
alocam nas cenas com uma carga sexual mais exacerbada. O diretor prolonga muito
as tomadas, causando desconforto no espectador, não pelas cenas em si, mas pelo
fundo sonoro desmedido.
A trilha
sonora de Pino Donaggio é
um ponto que prejudica na absorção do conteúdo apresentado, se fazendo muito
espalhafatosa e, muitas vezes, tirando completamente o foco da história em si.
A cinematografia do filme, comandada por Stephen H. Burum,
caminha de mãos dadas com a ideia do diretor, conseguindo fazer uma completa
junção entre atores e cenário.

O elenco do
filme, encabeçado por Craig Wasson, Gregg Henry e Melanie Griffith, acaba sendo irregular. Henry e Griffith acabam tendo atuações
convincentes dentro do que o roteiro e a direção ofereceram para eles. Já
Wasson, nosso protagonista, está muito mal no filme. Nas cenas de maior carga
de suspense, com a câmera focada em seu rosto, o ator peca na falta de
expressões faciais coesas, jamais convencendo o espectador.
‘Dublê de
Corpo’ está longe de ser um dos melhores trabalhos do diretor. Está longe de
ser até mesmo um bom filme de suspense. Mas simplesmente por conter todos os
elementos clássicos que fizeram de Brian De Palma um dos maiores expoentes do
gênero depois de Alfred Hitchcock, já faz com que o tempo investido valha muito
a pena.
5º – Desaparecido – Um Grande Mistério (Costa-Gavras, 1982)

Contando a história de um jovem ingênuo com aspirações
intelectuais que desaparece em meio a um golpe militar no Chile, o filme aborda
os aspectos políticos e familiares da questão. O filme aborda de maneira
delicada e sombria o drama de uma família em uma busca desesperada a procura do
jovem americano.
O filme tem seus primeiros 20 minutos calmos, contando a
vida de um jovem sem rumo, idealista, como o filme sugere, procurando por um
sentido para sua vida em um país em chamas, em meados da década de 1970. O
jovem, interpretado de maneira competente e discreta por John Shea, é casado
com uma mulher com contornos revolucionários(Sissy Spacek), que ignora o perigo
das ruas procurando, quase de que maneira suicida, por algo que simplesmente
não está ali.
A atmosfera crua e angustiante do filme gera no espectador a
sensação de que algo espreita os jovens pelas sombras. O grande ponto de virada
do filme, após os primeiros 20 minutos, é no momento em que o roteiro engana o
espectador, dando a sensação de que o perigo vai atingir determinado
personagem, quando de fato o atingido foi outro. A edição contribui para isso,
deixando lacunas propositais na trama.
O segundo ato do filme se desenvolve após o desaparecimento
enigmático do jovem, fazendo com que seu pai saia dos Estados Unidos a procura
de seu filho. Jack Lemmon interpreta o pai do jovem de maneira grandiosa.
Lemmon traz, no início da apresentação de seu personagem, um homem
completamente ignorante em relação ao que estava acontecendo no Chile,
acostumado com uma vida tranquila e com muito dinheiro nos EUA, mostrando uma
postura superior com as pessoas a sua volta. No decorrer do filme o personagem
vai sucumbindo ao desespero, se dando conta que a situação é irreversível. O
roteiro é impecável com a formação de cada personagem, de suas personas, e
deixando latente o aspecto político de toda a situação.
O elenco do filme está muito bem. Jack Lemmon, em talvez a
melhor atuação de sua carreira, ausente de exageros, não deixando o espectador
desenvolver empatia pelo seu personagem. O brilho de sua atuação não se dá em
virtude de uma ou duas cenas, mas quando se junta todos os 122 minutos do
filme. O personagem vai da confiança e prepotência iniciais até, no final, um
homem completamente desesperado, vítima das circunstâncias, de seu modelo de
vida, de sua falta de habilidade paterna. Lemmon nos conduz por todas essas
qualidades e fases que o protagonista passa de forma assombrosa; Sissy Spacek
realiza aqui a melhor atuação de sua vida. Intensa do começo ao fim, ela
consegue adentrar a psique de sua personagem, em um papel extremamente difícil
e; John Shea que tem uma performance competente, conseguindo envolver o
espectador com toda a inocência de seu personagem.
A parte final apenas pontua de forma precisa toda a
atmosfera decadente do filme. Contando com uma trilha sonora marcante e uma
direção competente, a película, mesmo sem contar com cenas fortes, é
extremamente impactante. Trata-se da inocência quebrada, tanto por parte do
jovem desaparecido, quanto de seu pai, acostumado com sua vida de conforto nos
Estados Unidos, da constatação inerente do óbvio. O clima de tensão, envolto em
um completo mistério faz sua conexão com ‘Zodíaco’(2007), de David Fincher, no
quesito de precisar apenas de um roteiro bem construído para deixar o
espectador apreensivo. Seu clima nostálgico, de um tempo inexistente passado,
nos remete à ‘O Silêncio do lago’(1988), de George Sluizer. O completo clima de
desespero que impera na segunda metade do filme aproxima os dois filmes, além
de sua fotografia fria, um pouco mais discreta em ‘Missing’.

4º – Mulheres Diabólicas (Claude Chabrol, 1995)

Baseado no
romance de Ruth Rendell, ‘Mulheres Diabólicas’ traz todos os ingredientes
necessários para se construir um clássico. Temos aqui um diretor francês
fantástico, uma trilha sonora forte e notável, roteiro preciso e a junção de
três das maiores atrizes da história do cinema. Um filme para ser visto e
revisto periodicamente.
A história
gira em torno de Sophie la bonne,
uma empregada doméstica que é contratada por uma família rica para trabalhar
com eles. A história se passa em uma cidade pequena da frança, e a casa em
questão se encontra isolada da cidade. A trama vai ganhar corpo a partir do
aparecimento de Jeanne la postière, uma funcionário dos correios, e o
desenvolvimento da perversa amizade que surge entre ela e La Bonne.

Vindo de um
passado turbulento, La Bonne revela logo nos primeiros minutos de filme que
estamos diante de uma mulher fria e com sérios problemas psicológicos. Recatada
e reclusa, a personagem consegue esconder seus graves distúrbios dos seus patrões,
parecendo, aos olhos deles, apenas uma mulher estranha, porém, muito
competente. Um pouco mais tarde na trama, a personagem de La Bonne acaba
revelando outra limitação, a mulher é analfabeta. Fato este que é extremamente
importante para o desenvolvimento da trama. Já a personagem de La Postiere
demora a aparecer no filme e quando finalmente é introduzida, esta parece ser
uma simples funcionária inocente dos correios que tem como entretenimento abrir
cartas de outras pessoas. O avançar da trama revela que, na verdade, La
Postiere é uma mulher idêntica à La Bonne, com o mesmo passado marcado, porém
com uma inteligência malévola mais aflorada.
É importante
nortear a trama usando como exemplo os clássicos que Chabrol utiliza aqui. A
atmosfera densa, utilizando uma fotografia fria e uma trilha sonora soturna,
nos leva diretamente ao clima usado nos filmes de Alfred Hitchcock em filmes
como ‘Pavor Nos Bastidores’(1950). A exploração de uma dupla mortal feminina já
tinha sido contada na década de 1950, quando Henri-Georges Clouzot resolveu adaptar outro romance para as telas, o clássico
‘As Diabólicas’(1955), onde o Chabrol aproveita vários elementos.

A construção
das personagens é um dos grandes acertos do filme. Vemos aqui, na figura das
duas mulheres, personagens desajustados demais para viver em uma sociedade
tradicional, sendo rejeitadas por ela. As personagens demonstram um ódio
exacerbado às circunstâncias que as cercam, demonstrando a cada atitude o
quanto a rejeição as machuca. La Bonne e La Postiere encontram uma na outra as
características para poderem ser o que realmente são, sem máscaras, sem amarras
sociais, sem nada que as impeçam de despejar todos seus impulsos instintuais. A
vida de La Bonne comove o espectador. Apesar de seus atos pouco amigáveis para
tratar de temas do dia a dia, a mulher parece sofrer para tentar parecer o mais
sociável possível. A inabilidade para com a vida desperta nela o desejo de
viver de forma passiva, sem inserir sua presença ao meio, não podendo
modificá-lo, se encontrando neste ponto seu importante relacionamento com a
televisão. La Bonne encontra ali algo perfeito, intocável, onde sua presença
jamais alteraria a ordem dos fatos que se sucedem.

Para dar vida
a essas duas mulheres foram escaladas Isabelle Huppert(La Postiere) e Sandrine Bonnaire(La Bonne). Suas atuações são arrebatadoras. Chabrol dedica cada cena ao
talento das duas, sempre focalizando nas expressões faciais das atrizes. A
química presente entre Huppert e Bonnaire é algo espetacular. Uma completa a
atuação da outra a cada cena juntas. Bonnaire consegue dar vida àquela figura
animalesca que vive, promovendo a cada cena seu olhar e gestos tímidos, quase
acuados, que dão substância à personagem. Já Huppert é o grande destaque do
filme. Aqui ela não está preocupada em gerar empatia por seus atos, muito pelo
contrário, não é difícil o espectador sentir repulsa em relação àquela mulher,
até certo nojo. Cada enquadramento em que Chabrol destaca o rosto de Huppert é
um espetáculo. O elenco conta ainda com Jacqueline Bisset, trazendo a trama em sua personagem todo aquele senso de moralidade
inserido naquele contexto familiar a qual está inserida, tendo uma atuação
discreta e precisa. Ainda temos Jean-Pierre Cassel e Virginie Ledoyen completando o time de forma
competente.
O filme
consegue adentrar de forma plausível ao estudo dessas ótimas personagens
criadas na trama. A escolha de um elenco estelar talvez seja o maior acerto da
equipe de produção do filme. Além de ser mais uma parceria brilhante entre
Chabrol e Huppert. ‘Mulheres Diabólicas’ é um clássico do cinema francês. Um
filme que deve ser contemplado durante seus 112 minutos de duração. A comédia
de erros e o acaso cruel que permeiam a trama apenas coroam o filme.
3º – Don’t Breathe (Fede Alvarez, 2016)
Grata
surpresa do gênero, ‘Don’t Breathe’ é um filme inovador, que se utiliza de uma
gama de métodos para entregar algo produtivo. Tendo como principais virtudes
uma edição e fotografia impecáveis, entretanto, o que realmente encabeça a
lista, é a ótima direção de Fede Alvarez.
Na trama
temos um grupo de adolescentes que praticam roubos a determinadas residências
com as mais variadas motivações. O ponto central da história acontece quando
eles decidem invadir a casa de um veterano de guerra cego, com um passado
recente marcado por uma tragédia. A decisão se mostra equivocada no segundo
terço do filme, quando a aparente presa fácil se mostra uma verdadeira máquina.
A casa se torna seu habitat natural e os adolescentes suas presas fáceis.

Já no começo
do longa somos contemplados com uma cena em um restaurante dos adolescentes
conversando sobre os roubos. Nesta cena já somos apresentados à qualidade
estética do filme, com ângulos que sempre procuram a melhor imersão de cena e
uma fotografia que norteia todo o ambiente. O resto do filme não foge dessa excelência
proposta. Nas cenas dentro da casa(que são a sua grande maioria), Fede Alvarez
consegue causar no espectador total senso de uma imersão claustrofóbica àquele ambiente.
A residência do veterano é uma casa comum(até mesmo um pouco menor) de um
subúrbio americano habitual. Fator este que aumenta as reverências ao trabalho
do diretor de realizar o filme em um ambiente limitado. Entretanto, o que não
falta aqui é a diversidade de tomadas de diferentes ângulos e formas.

O elenco e a
escolha do vilão do filme é outro acerto do filme. O trio de adolescentes é
formado por atores quase que desconhecidos do público(com exceção de Dylan Minnette que já atuou em filmes mais conhecidos), porém não menos competentes.
Já a escolha do vilão é a grande jogada aqui. Stephen Lang nos propicia uma performance contundente. Não temos aqui um vilão
indestrutível, onipresente e onisciente na trama. Muito pelo contrário, somos
apresentados a um homem marcado pelo passado e muito limitado em suas ações. Em
algumas cenas vemos seu desespero em meio à situação.
O filme tem
uma leve caída no início do arco final, porém algo que não dura nem 10 minutos.
Logo voltamos ao ritmo normal do filme. ‘Don’t Breathe’ é um dos melhores
filmes de terror e suspense dos últimos dez anos. Em seu segundo longa-metragem,
o diretor repete o ótimo trabalho feito em ‘A Morte do Demônio’(2013) e
demonstra que será um dos grandes expoentes do gênero no futuro próximo.
Assustador e claustrofóbico, a película encanta com sua ausência de clichês e
com a overdose de tomadas de tirar o fôlego do espectador.
2º – Corpos Ardentes (Lawrence Kasdan, 1981)

Utilizando-se
da figura climática para criar uma atmosfera diferenciada, ‘Corpos Ardentes’
alcança sucesso em apresentar ao espectador um suspense sedutor de qualidade
sobre os riscos da ganância e da busca de prazer a qualquer custo. Lawrence Kasdan nos traz um suspense de primeira com uma aura Brian De Palma de se
construir uma trama contundente.
A trama conta
a história de um advogado de uma cidade pequena, acostumado com a tranquilidade,
que se envolve com uma mulher casada. A história ganha corpo quando ele é
coagido por sua amante a matar seu marido rico. Completamente obcecado pela
figura da mulher, irresistível a seus olhos, o homem decide levar a ideia
adiante e investir contra a vida do marido da mulher. Toda a história se passa
durante uma onda de calor que atinge a cidade do filme.

Conservando
aspectos do clássico ‘Vestida para Matar’(1980), de Brian de Palma, o filme
consegue cativar seu público com detalhes pequenos, como a aparição por
segundos de figuras que vão ser importantes para o desenrolar da história.
Assim como acontece em ‘Dublê de Corpo’(1984), o espectador assiste ao filme
como se fosse parte ativa da história, como se estivesse escondido por detrás
de alguma cortina onde as ações do longa acontecem.
O bom diretor
Lawrence Kasdan, também responsável pelo ótimo roteiro, realiza aqui seu
primeiro longa-metragem, já acertando em cheio o modo de realizar o filme.
Kasdan resolve ritmar o filme da mesma forma que Billy Wilder fez no clássico
‘Pacto de Sangue’(1944). Aqui, Kasdan presta uma homenagem a um dos maiores
Noir de todos os tempos, entregando um filme similar na ordem e atmosfera dos
acontecimentos. Aliás, a atmosfera de ‘Corpos Ardentes’ viria a ser repetida
poucos anos depois em ‘Gosto de Sangue’(1984), outro grande filme do gênero.

O elenco está
muito bem, a dupla protagonista exerce uma química notável em cena,
evidenciando o porquê da tomada de certas decisões por parte dos personagens.
No papel do advogado temos William Hurt. Hurt aqui dá vida a um homem inocente, onde sua obsessão pelas
mulheres acaba sendo sua ruína. No papel da mulher casada está Kathleen Turner esbanjando sensualidade. O espectador quase chega a entender os motivos
do advogado para dar cabo aos planos da mulher de exterminar o marido. A composição
do elenco conta com Ted Danson, Richard Crenna e Mickey Rourke, todos muito bem no filme.
‘Corpos
Ardentes’ é um grande filme de suspense. O que Kasdan conseguiu fazer aqui,
utilizando o clima de maneira única para nortear os desfechos da trama, é
impressionante. O diretor não tem medo ou orgulho de usar aos montes
referências do gênero para fazer um filme de efeito. O elenco competente é
somente a cereja do bolo neste belo filme. Assistir ‘Corpos Ardentes’ é estar à
frente de um emaranhado do que há de melhor no gênero de suspense.
1º – O Caçador (Hong-jin Na, 2008)

Escolhendo
por dar ao filme uma atmosfera frenética, Hong-jin Na consegue captar o espectador desde o primeiro minuto. Em ‘O Caçador’
teremos um suspense em seu caráter mais substancial, fugindo de conclusões
óbvias, sem, no entanto, evitar o uso de elementos clássicos do gênero. Um
filme que consegue unir a exacerbação característica da violência do cinema
coreano a um clima de mistério que remete aos grandes filmes do gênero, como ‘O
Silêncio dos Inocentes’(1991) e ‘O Silêncio do Lago’(1988).
A trama do
filme vai se concentrar na busca de Joong-ho Eom, um “cafetão” que recentemente
largou seu emprego na polícia, por garotas que trabalhavam com ele que começam
a desaparecer. Inicialmente achando que elas teriam fugido dele, o homem não dá
muita importância ao fato. Porém, ao descobrir, por um mero capricho do acaso,
que um número de telefone dos registros batia exatamente com o último
atendimento das mulheres antes de desaparecer, o homem acaba percebendo que
aquilo era muito maior do que parecera outrora. A investigação do “cafetão”
acaba se ligando a procura da polícia por um serial killer que vinha
aterrorizando a cidade. Os fatos se encontram e a partir deste momento o filme
caminha por uma luta contra o tempo para capturar o psicopata.

O filme não
tarda a adentrar a sua aura alucinante, deixando claro para seu espectador
desde o primeiro minuto qual seria o ritmo do filme. Todo o constructo do longa
é baseado em duas vertentes, o olhar do “cafetão” atrás de suas garotas e do
assassino colocando em prática seu “modus operandi”. A grande sacada do filme é
revelar a identidade do assassino logo na primeira parte do filme, mudando o
rumo de seus desfechos. Todos os clichês do gênero são “demolidos” na primeira
hora de filme. Todas as resoluções desafiam o espectador, jamais pecando pela
falta de ousadia.
O roteiro do
filme, escrito por Won-Chan Hong, Shinho Lee e Hong-jin Na, é
muito bem conduzido. Temos aqui todos os conflitos muito bem destrinchados,
revelando todos os nuances de cada personagem ali envolvido. Os caminhos que a
trama percorre, quando falamos de um filme de suspense, também ajudam a dar um
charme especial ao filme.

Já caminhando
pelo campo da direção, teremos no trabalho de Hong-jin Na o grande diferencial que alavanca a qualidade do filme. Logo em seu
primeiro trabalho a frente da direção de um longa, Hong-jin escolhe dar ao
filme um ritmo movimentado, a câmera parece sempre estar em alerta, perseguindo
seus atores a cada ato destes. O diretor também decide fazer uma grande
homenagem ao filme ‘Memórias de Um Assassino’(2003), pegando todos seus elementos
mais importantes para conseguir guiar seu trabalho.
Entretanto, é
inserido na edição que se encontra o grande ponto que dá toda a essência do
filme. Sun-min Kim,
responsável também pela edição de ‘Memórias de Um Assassino’, já citado acima, faz
um trabalho brilhante aqui. Todos os cortes atuam para agilizar o andamento da
trama. Temos cenas que se dividem em dois ambientes, onde o filme varia de cada
ato com cortes que trabalham por criar uma sensação de paranoia no espectador.
Sun-min escolhe também por fazer uma abordagem semelhante ao arco final de ‘O
Silêncio dos Inocentes’, desnorteando seu público da melhor forma, criando
cenas fantásticas.

A trilha
sonora é outro ponto da parte técnica do filme que chama a atenção. Yong-rock Choi
e Jun-seok Kim
fazem uma composição que serve para pontuar toda a carga frenética que o filme
apresenta, sem, no entanto, sobrepujar o enredo.
As peças do
elenco fazem um bom trabalho, com o destaque para os dois protagonistas Yun-seok Kim e Jung-woo Ha. Yun-seok consegue entrar na figura do personagem que o
roteiro lhe entregou, nos propiciando um trabalho dedicado. O ator sofre uma
completa mutação durante as duas horas de filme, passando de um “cafetão”
despreocupado e sem nenhum sentimento de carinho pelos que o cercam para um
homem em completo desespero pelas circunstâncias as quais está atrelado. Já
Jung-woo adentra com perfeição a toda a aura do psicopata que interpreta,
prezando sempre por uma atuação controlada, se exacerbando apenas nos momentos
oportunos.

A reta final
de ‘O Caçador’ acaba por não ser generosa com seu espectador, nos inundando com
uma violência demasiada. As resoluções, desde os pequenos arcos até a essência
da história, são todas cruéis, nos remetendo diretamente a ‘O Silêncio do
Lago’. O filme também se baseia em alguns desfechos em histórias reais, como na
história verídica da 1ª prisão do serial killer Ted Bundy e seus desdobramentos
medonhos que se seguem.
‘O Caçador’ é
um grande filme. Um dos melhores do gênero e do país no século XXI. Um filme
que consegue ser original mesmo se utilizando de elementos clássicos. A curta
filmografia de Hong-jin não é um esboço de sua qualidade. O diretor consegue
conciliar muito bem a ação emanada de cada cena para dentro do gênero do filme,
sem que esta acabe por confundir o espectador.