Destacaremos, neste top10, filmes que, de alguma forma, causaram polêmicas após o lançamento por seu conteúdo mostrado ou, até mesmo, em sua produção. A lista contém diversos pontos polêmicos, desde abatimento de animais e atrasos na realização do filme até cenas de estupros chocantes e filmes que desafiaram a cultura conservadora americana. Confira a lista!

10º – O Vídeo de Benny (Michael Haneke, 1992)

Contendo uma
aura hipnotizante, ‘O Vídeo de Benny’ é um filme que impede seu espectador de
sair de frente da tela. Seu conteúdo perturbador apenas evidencia o quanto seus
realizadores foram felizes em conceber este filme. Exploraremos os âmbitos da
apatia, falta de ajuste social, narcisismo e rompimento com a realidade. Tudo
exposto em seu determinismo mais frio possível.
Adentraremos
ao ambiente nada aconchegante, dizendo no quesito psicológico, da vida de
Benny, um garoto de 14 anos, viciado em televisão e na produção de seus
próprios vídeos amadores. Benny, a priori, aparenta ser um indivíduo normal na
escola que frequenta, tendo relacionamentos comuns com seus colegas. Seus pais
procuram lhe dar sempre o melhor, apesar de estarem um pouco ausentes da rotina
do garoto.
O vício na
televisão que aparentava ser um distúrbio leve, comum na vida de um
adolescente, toma proporções impossíveis de se mensurar quando Benny arranja
uma nova amiga, a leva para sua casa, enquanto seus pais estão ausentes, e a
mata com extrema frieza e crueldade. O filme então ganha forma e trará ao
espectador as implicações do ato e o que aquilo causa no ambiente em que vive.

O filme é
extremamente cruel em todos os seus desdobramentos. São denunciadas ao seu
público os males que a nossa sociedade propicia com seus avanços, seja ele em
qual âmbito for. Benny é uma vítima, talvez inocente, de uma realidade contida
na forma de televisão que banaliza a morte, o convívio social e a violência
como uma forma geral. O garoto não sabe o que determinado ato seu vai causar no
ambiente ao seu redor, todo o vislumbre de realidade nele é dado através da
televisão. Ele acaba rompendo com a realidade do dia a dia, não de uma forma
que o psicótico o faz, mas, sim, como uma quebra forçada, incumbida a ele pelo
ambiente pouco afável de seu quarto, local a que fica recluso.
Diferente de
‘Mulheres Diabólicas’(1995), clássico de Claude Chabrol, onde a personagem de
Sophie La Bonne, interpretada por Sandrine Bonnaire, nutre um relacionamento passivo com a televisão, vendo nela uma forma
de escapar de sua vida espedaçada, aqui Benny é ativo no seu relacionamento com
o objeto. Ele, na forma da gravação de vídeos e o seu manuseio, podendo pausar,
avançar ou retroceder, arruma uma forma de controle e criação de determinado
ambiente, dando ao garoto um status de onisciência àquilo.
Não teremos
na figura de Benny um legítimo psicopata. Não, essa não é a mensagem que o
filme traz ao espectador. O que temos em Benny é um indivíduo alheio a tudo que
o cerca, não sendo capaz de expressar qualquer forma de sentimento. Entretanto,
o modo de como o garoto age após o assassinato traduz uma forma de pedido de
socorro da situação agora inerente ao seu ser. Seu grito silencioso de
desespero jamais é direcionado com arrependimento ao ato que cometeu, mas da
falta de sensações que este lhe trouxera.

Temos também
implícita no filme uma crítica à cultura do narcisismo, impelindo nos
indivíduos, como um todo, uma contemplação de si próprio exacerbada. Conforme a
estrutura psicológica de Benny vai se degenerando, temos um forte vínculo do
garoto com a imagem de seu próprio corpo tatuado nas imagens que faz com sua
câmera.
O modo como o
filme é feito somente aumenta a imersão do espectador àquele mundo
completamente deturpado. A direção de Michael Haneke, também responsável pelo
roteiro, busca sempre dar determinada substância ao que está contando por meio
da exposição constante dos objetos que permeiam os ambientes explorados. Haneke
também escolhe por impactar seu público logo na abertura do filme. Antes de
qualquer tipo de apresentação de créditos ou distribuidoras do filme, somos
apresentados a uma cena real de um abatimento de um porco. Tudo gravado pela
lente da câmera de Benny. A cena é brutal, sem nenhum tipo concessão, dando uma
amostra do que vamos encarar pela frente. A cena com o porco é repetida
diversas vezes durante o filme, ficando tatuado permanentemente em quem as
assiste.
Haneke,
diferente de seu filme anterior, consegue dar espaço e conteúdo para os atores
efetuarem suas atuações. O diretor sempre vai prezar pela exposição dos objetos
da vida daquelas pessoas, mas também escolhe por manter em vários momentos a
câmera fechada nos rostos dos atores, seja para um diálogo comum ou mesmo para
captar suas feições diante dos horrores da câmera de Benny. Porém, o grande
destaque de sua direção é a cena do assassinato. O diretor registra todo o
desenrolar dos acontecimentos por meio das imagens captadas pela câmera do
garoto, nos dando um panorama limitado, mas, ao mesmo tempo, assustador.
Já entrando
no campo das atuações, teremos como grande destaque Ulrich Mühe, interpretando o pai do garoto. Muhe consegue nos propiciar uma atuação
distante em seu início, refletindo a incapacidade de seu personagem de captar
as mensagens que o ambiente lhe dava. Conforme a trama avança, o ator vai
aumentando a intensidade de sua interpretação, indo da inocência, até o
corrente desespero silencioso nas cenas finais. Arno Frisch protagoniza o filme como Benny. Frisch também nos dá uma atuação
impecável, partindo sempre de uma frieza incorrigível para levar seu personagem.
Compondo o elenco temos como Angela Winkler em uma performance segura como a mãe de Benny. E a grandeza das
atuações é uma marca recorrente dos filmes dirigidos por Michael Haneke, sempre
conseguindo tirar o melhor de seus atores.

Vale destacar
na trama do filme também a inabilidade que acaba regendo o modo como os pais de
Benny conduzem toda a situação. Entraremos em uma série de debates morais sobre
os limites do amor e as liberdades que são dadas ao garoto. Haneke vai
questionar até onde se pode confiar em um ser humano, mesmo que este seja seu
filho, para assuntos de uma complexidade exacerbada. O conflito que os
personagens do filme passam, causam determinada comoção em quem as assiste.
O sempre
pouco palatável cinema de Michael Haneke talvez encontre neste filme uma de
suas obras mais indigestas de toda sua brilhante filmografia. A ambiguidade do
final de ‘O Vídeo de Benny’ traz duas perspectivas diferentes, sendo uma
pessimista e a outra completamente aterradora. Um filme que se aloca no gênero
de drama, mas que facilmente assusta muito mais que a grande maioria do gênero
de horror. E não pelo seu material gráfico, mas por seu conteúdo psicológico
demasiadamente sombrio.
POLÊMICA: Como se não fosse o bastante todo o material psicológico demasiado do filme, Haneke ainda coloca uma cena real de um abatimento de um porco. E não para por aí, ele repete a tomada por diversos momentos durante o filme.
9º – Sem Saída (James Watkins, 2008)

Podemos aqui
fazer um paralelo do começo de ‘Sem Saída’ com o clássico ‘Conta Comigo’(1986),
quando vemos um grupo de adolescentes desajustados, com traços perversos em sua
personalidade. Poderíamos continuar com essa atmosfera, porém ela é
abruptamente interrompida. Começamos a nos dar conta que na verdade nos
encontramos em uma cidade obscura, seus residentes não são amistosos com nossos
protagonistas, nos remetendo ao perturbador ‘Sob o Domínio do Medo’(1971).
Porém, no avançar da jornada épica dos nossos queridos mártires, nos damos
conta, infelizmente, que estamos imersos no universo de ‘Violência Gratuita’(1997).
Nos seus 15 minutos finais de tortura, o filme nos lança a ‘Amargo Pesadelo’(1972).
Nada aqui fica em pé. Todos os pilares de humanidade da trama são demolidos a
cada minuto. James Watkins nos apresenta uma obra extremamente
perturbadora, porém não gratuita. Uma viagem sem volta ao âmago do que há de
pior na humanidade.
A trama conta
a história de um casal que resolve aproveitar um fim de semana em um lago
agradável, chamado ‘Eden Lake’. Os contornos do filme logo começam a ficar
obscuros com a apresentação dos adolescentes residentes da cidade em que o lago
se encontra. Um grupo de seis indivíduos que logo na cena de apresentação
demonstram o perigo iminente que o casal virá a ser “contemplado”.

O filme é
protagonizado por Kelly Reilly e Michael Fassbender. Qualquer filme do gênero
ficaria extremamente satisfeito com essa dupla de protagonistas. E James
Watkins sabe aproveitar bem a presença dos dois aqui. Fassbender faz um
personagem inocente, ignorante em relação ao perigo que corre. A ignorância vem
acompanhada com castigos severos e irreversíveis que, quando se dá conta do
perigo, já é tarde demais. Não é fácil ver o ótimo ator, acostumado a papéis de
homens poderosos, viver um personagem fraco e condenado pelo acaso. Já a
personagem de Reilly é uma mulher mais consciente. Aos primeiros sinais ela já
internaliza o perigo que está correndo. Ambas as performances são ótimas.

A direção de
James Watkins não poupa o espectador de cenas exacerbadamente violentas. São 91
minutos de tortura física nos personagens e psicológica no seu público. A
fotografia quente do filme acaba evidenciando mais as cenas, destacando o
sangue e ganhando aspectos sádicos no decorrer do longa. A edição não foge do
comum em filmes de terror. Temos aqui uma repetição de cortes tradicionais do
gênero. O roteiro, também de Watkins, é bem formulado. Não ausente de clichês
característicos, entretanto dando novas direções a trama.
Toda a
violência empregada pelo filme acaba se justificando. Apesar das referências a
filmes clássicos, conter um elenco competente, ter uma direção consistente e
uma trama verdadeiramente horripilante, ‘Sem Saída’ não é ausente de alguns
erros comuns cometidos no gênero. Algumas situações desafiam a compreensão de
seu espectador. Entretanto, o longa acaba destoando de seus demais por não se
conter em investidas arriscadas. Um filme que deve ser visto por aqueles com
estômago e uma estrutura psicológica fortes.
POLÊMICA: O martírio dos personagens acaba por chocar o espectador, fazendo o mesmo se questionar sobre a possível gratuidade das cenas mais intensas.
8º – Elle (Paul Verhoeven, 2016)

Uma viagem
pela psique de uma sociopata imersa em um calvário inexorável. Um filme que não
vai te fazer sentir nenhuma empatia pela personagem principal. O melhor
trabalho da carreira de Paul Verhoeven e uma das maiores atuações da história
do cinema.
Logo no
início do filme somos introduzidos de maneira genial aos instantes finais de
uma mulher sendo estuprada por um estranho encapuzado em sua própria casa. Após
a cena, vamos percebendo que nada é o que aparenta. A frieza da protagonista
após ser violentada dá ao espectador um esboço do que está por vir.
A personagem
logo se revela uma mulher amoral, fria e perversa. Nutrindo um cargo importante
em determinada empresa e vindo de uma família aparentemente com bastante
dinheiro, ela demonstra ser odiada pela maioria de seus companheiros de
trabalho. Sua vida é repleta de casos amorosos com homens comprometidos, o que
parece excitá-la de alguma forma. A violência sofrida por ela é colocada de
lado pela própria personagem, que se preocupa mais em não divulgar o fato do
que procurar as medidas cabíveis. Ela aparenta não sofrer nenhum trauma após o
ocorrido. Muito pelo contrário, logo após o fato ela retoma sua vida normal.
Temos a icônica cena da personagem indo ao hospital para ver se havia sido
contaminada com alguma doença. O médico a avisa que não é possível descobrir em
tão pouco tempo e que ela poderia iniciar um tratamento para evitar o avanço da
possível doença. De maneira impassível ela anuncia ao médico que tal ato não
poderia ser completado em virtude de seu trabalho, completando com a célebre
frase: “Azar, veremos o que dá”.

No avançar da
trama, a personagem acaba descobrindo que agora está sendo perseguida por seu
algoz e que este não é um mero atacante desconhecido. Ela passa a receber
ameaças revelando que seu agressor está muito mais perto do que ela imaginava.
Ela não procura a polícia, ao invés disso adquire alguns objetos para a defesa.
Finalmente a personagem começa a sentir os efeitos da situação e passa a viver
uma vida paranoica.
A sociopatia
latente da personagem é explicada por uma infância marcada por eventos
surreais. A moça é filha simplesmente de um assassino em massa que aterrorizou
seu bairro na década de 1970. Ela então nutre um ódio inerente em relação ao
pai, evitando visitar o mesmo na prisão. E quando decide finalmente o fazê-lo,
após a morte de sua mãe, o pai recebendo a notícia de antemão resolve cometer o
suicídio.

O papel da
personagem foi dado a atriz francesa, Isabelle Huppert. E ela não decepciona
aqui. Cada expressão facial da atriz tira o fôlego do espectador. A atriz, com
63 anos na época do filme, convence como uma personagem talvez 10 anos mais
jovem, passando um charme e uma sexualidade exacerbados a cada cena. Ela é brilhante
do início ao fim do filme. A segunda maior atuação feminina da história do
cinema, ficando atrás somente de sua própria atuação em ‘A Professora de
Piano’(2001). A performance da atriz aqui merece ser vista e revista inúmeras
vezes. É algo de outro mundo.
A direção de
Paul Verhoeven beira à perfeição aqui. Cada cena é realizada com extrema
sutiliza. A câmera segue a atriz a cada segundo, tentando dar sempre o melhor
ângulo para ela desfilar seus olhares e gestos. A maior virtude da direção de
Verhoeven é reconhecer que tem uma atriz fabulosa em suas mãos. E aqui ele
dedica o filme a ela. O diretor já havia feito algo semelhante com Sharon
Stone, em Instinto Selvagem(1992). Melhor trabalho de direção e filme da
carreira do aclamado diretor holandês, superando Robocop(1987) e ‘O Vingador do
Futuro(1990).

A experiência
de assistir ‘Elle’ é única. Essa obra prima é muito mais do que um thriller
psicológico. O filme é um retrato cruel da vida de uma mulher vítima do acaso,
que a transformou em um ser humano decadente. Uma sociopata fria e calculista.
A figura do estupro, assim como o suspense inserido no filme, são apenas
camadas superficiais do longa-metragem. O mergulho no cérebro dessa mulher é um
processo sem volta. Uma viagem ao cerne do que consiste o ser humano, uma
espécie falida e maravilhosamente única. Isabelle Huppert não tem frescuras
aqui, ela se entrega completamente ao papel de Michele Leblanc. Um ato de amor
a sua profissão da maior atriz da história da sétima arte. Assistir a francesa
em ação traz sensações indescritíveis ao espectador. Uma obra indispensável
para qualquer público.
POLÊMICA: As cenas de estupro, assim como a forma como a protagonista lida com isto, acabou gerando uma sensação de mal-estar nos mais frágeis, levando-os a disparar contra seu diretor.
7º – JFK (Oliver Stone, 1991)

Temos aqui uma declaração de amor de Oliver Stone ao cinema
e aos temas que marcaram a sociedade americana no século XX. Uma das melhores
direções de todos os tempos e, com certeza, o melhor trabalho da carreira do
genial diretor. Cada cena aqui é necessária, nada é desperdiçado por um roteiro
impecável. O elenco é formado por comprometimento, cada item aqui desempenha
seu melhor.
Não é fácil fazer uma adaptação cinematográfica de um tema
tão espinhoso da cultura norte-americana. Qualquer erro aqui no âmbito de sua
produção poderia por fim ao projeto. E, mais do que isso, é uma tarefa árdua
juntar todos os detalhes de material importante para condensar em um roteiro.
Geralmente um filme com tema parecido ou caminha pelo campo da invenção,
desprezando aspectos reais da história para entreter o espectador, ou, ao
contrário, faz um filme verossímil, que acaba por se tornar entediante. O
grande mérito do filme é não cometer erros comuns em produções semelhantes,
como ‘J. Edgar’(2011) ou ‘Hitchcock’(2012). Não nos é dada uma visão única,
temos a autonomia de discordar ou não das atitudes do protagonista. A história
contada dá a possibilidade de várias interpretações.
A direção abusa da ‘’irresponsabilidade’’ durante o filme.
Oliver Stone nos brinda com diversas formas de direção em um filme só. Ora
temos um tom documental, ora nostálgico e ora moderno. A grande sacada aqui é
realizar essa coesão de estilos com uma edição competente. A edição é o grande
destaque do filme. A cada cena temos cortes que dão um tom assustador ao filme.
Algo jamais visto anteriormente. Joe Hutshing e Pietro Scalia nos presenteiam
com a melhor edição já vista por mim. Nada nem ao menos se aproxima do que é
visto aqui.
Responsável pela trilha sonora, John Williams consegue dar o
tom certo para o filme, flutuando pelo campo da melancolia e do suspense. Sua
virtude aqui é não tentar criar uma atmosfera por si própria e apenas
acompanhar a trama, sem extravagâncias.
Quando fugimos para o campo de elenco, somente confirmamos a
competência de seu diretor. Todos aqui estão bem, não há nenhuma exceção. Temos
aqui ao menos 20 nomes de peso participando do filme. Todos com participações
relevantes para a trama. Todos dando seu melhor. E, assim como em ‘Platoon’,
Oliver Stone conta com um ator mediano para seu papel principal. Kevin Costner
aqui está no seu limite, nos dando uma atuação competente. Seu personagem está
presente em cada cena durante o longo filme(206 minutos), o que só demonstra o
comprometimento do ator.
Geralmente, quase que como lei, dispenso filmes com tons
biográficos. Ao começo do filme esperava um filme insosso como vários outros
que tratam de temas semelhantes, porém lembrei-me que Stone encabeçava a
produção(o diretor já tinha entregue anteriormente o bom ‘The Doors’(1991), que
acompanha a vida de Jim Morrison). Oliver Stone dedicou grande parte de sua
vida no cinema denunciando os horrores das guerras vividas por seu
país(principalmente a do Vietnã). Filmes como ‘Platoon’(1986) e ‘Nascido em 4
de Julho’(1989) se assemelham em determinados pontos com ‘JFK’. Apesar do
contorno político de ‘JFK’, temos latente o tema guerra durante todo o filme.
Cuba e Rússia soam aqui como motivações da arquitetura do assassinato do
presidente americano. Ao começo do filme já percebemos que se trata de algo
único. São mais de 3 horas de duração que passam de forma leve, sem em momento
algum cansar o espectador. Filme ímpar, que demonstra o empenho de todos os
envolvidos em sua produção.
POLÊMICA: Muito se questiona até hoje o quão precisa é a obra de Oliver Stone. Muitos afirmam que os fatos contidos ali foram maquiados para dar intensidade ao filme.
6º – A Criada (Chan-wook Park, 2016)

No cinema
contemporâneo muito se discute sobre a utilização exacerbada de cenas de sexo
para construir um filme. Periodicamente temos o levantamento de discussões,
como as surgidas no lançamento de ‘Ninfomaníaca’(2013), se é válido ou não
expor essas cenas. É neste cenário que entra a figura de Chan-wook Park, um dos mais talentosos diretores de nossa geração.
Park cria um
filme onde o sexo é apenas um subterfúgio para conseguir criar o clima adequado
para que a história tenha substância. Diferente de filmes como ‘Azul é a Cor Mais
Quente’(2013), onde é utilizado de forma gratuita, alheia a trama, aqui todo o
sexo contido nos 144 minutos de duração é necessário.

Utilizando
todos os elementos já conhecidos em sua filmografia, o coreano consegue
aumentar seu repertório. O diretor se aventura por um cenário onde toda a
violência presente em seus filmes anteriores tem de ser comedida. Em ‘A
Criada’, todo o brilho do filme se concentra na riqueza de seus diálogos. Junte
isso a uma parte estética quase impecável, atuações complexas e uma trilha
sonora que tem o trabalho de cadenciar o longa e teremos algo memorável. Não
direi que é o melhor trabalho do diretor, ele se equipara aos grandes filmes do
coreano, como ‘Oldboy(2003) e ‘Zona de Risco’(2000), mas, sem dúvida, estamos
diante de uma verdadeira obra-prima.
A trama
contada aqui gira em torno da vida em determinada casa, na década de 1930.
Nesta casa vivem Lady Hideko e
seu tio Kouzuki. Quando a antiga criada da casa é demitida, cabe a inocente Sook-Hee se
aventurar pelo aparente árduo trabalho que se apresenta diante dela. Teremos
ainda a presença do charmoso Conde Fujiwara que surge como um pretendente ao
amor da jovem Lady. A aura emanada da casa é sombria, não se sabe exatamente o
que acontece naquele interior. E é inserido neste ambiente que teremos a
eclosão de um verdadeiro jogo de gato e rato, onde as máscaras vão lentamente
se desfazendo, revelando as pessoas perversas que encontram-se no ambiente.

O filme é
dividido em três partes, nutrindo em cada uma delas uma atmosfera diferente. A
primeira serve para desorientar o espectador; Na segunda teremos os
esclarecimentos, passaremos a entender melhor o que está sendo exposto no filme
e; Sua última parte para dar os contornos finais à vida dos personagens ali
inseridos. Todas as partes se encaixam perfeitamente na proposta da história
que o filme se propõe a contar, baseada no romance de Sarah Waters.
O ritmo
inicial do filme é lento em seu início. A primeira parte é toda composta por uma
temperatura morna, onde o filme se limita mais em introduzir o espectador ao
seu universo do que colocar dinamismo na trama. O ritmo vai aumentando
gradualmente e, já no início da segunda parte, o filme compreende uma
velocidade que faz com que o espectador esqueça do tempo. É importante fazer
essa ligação entre a frequência do ritmo à sua trilha sonora. Yeong-wook Jo
talvez tenha chegado ao seu auge e, em mais uma colaboração com o diretor, faz
um trabalho incrível. Aqui ela segue a trama do começo ao fim, lhe dando
sustentação. Em seu início é discreta, nós só vamos começar a notar a trilha no
exato momento em que começamos a ficar realmente interessados no que o filme
tem a contar. A sua timidez do início é trocada por uma efusão de emoções na
última hora de filme, sem, entretanto, sobrepujar a trama.
A parte
estética do filme é outro ponto de destaque. A direção é firme, procurando
sempre dar o que há de melhor ao filme em um conglomerado de ângulos
diferentes. Talvez a única ressalva feita a direção de Park seja a de, às
vezes, alternar seu estilo, recorrendo a um padrão ‘Dogma 95’. Vale expor
também o belo trabalho feito pela equipe inteira no filme, destacando a
cinematografia(Chung-hoon Chung), design de produção(Seong-hie Ryu), figurino(Sang-gyeong Jo) e o setor de maquiagem(Jong-hee Song). Toda a junção do ótimo trabalho dos
profissionais responsáveis é preponderante para o sucesso do filme.

O elenco
também está ótimo. A química presente nos quatro integrantes, responsáveis pelo
andamento da história, é muito boa. Temos Jin-woong Jo interpretando o tio da protagonista, um homem mais velho do que o ator,
e, mesmo com pouco tempo em tela, é fundamental para o desfecho da história. Jung-woo Ha e Tae-ri Kim, como Conde Fujiwara e Sook-Hee respectivamente,
conseguem dar substância a seus personagens. Porém, quem brilha no filme é Min-hee Kim(Lady Hideko). A atriz logra sucesso em fazer uma camaleoa. Em cada
parte do filme a atriz assume uma persona diferente, somente permanecendo igual
no filme inteiro a sua sensualidade inerente a ela.
Um belo filme
em todos os seus âmbitos. Chan-wook Park mostra com esse trabalho que seu talento transpõe determinados gêneros,
realizando um drama intenso, sem perder uma sutileza recorrente em toda a
duração do filme. Um filme que não teme em ser duro e mostrar um universo sádico,
onde as inúmeras formas de perversões contidas ali são tão normais e
necessárias quanto se alimentar. ‘A Criada’ é uma obra que merece ser degustada
por seu espectador.
POLÊMICA: O conteúdo sexual do filme levantou uma discussão sobre os limites que o cinema oferece para tratar do tema.
5º – Felicidade (Todd Solondz, 1998)

Abordando
pequenos temas complexos para conseguir chegar até o ponto central de sua
trama, ‘Felicidade’ acaba se definindo como uma comédia trágica. São esmiuçados
aqui tudo o que acaba por compreender a vida em sociedade. Um filme polêmico,
que, em virtude da direção suave de Todd Solondz, consegue ser bonito mesmo com seu conteúdo que mostra o que de pior um
ser humano e suas construções sociais podem oferecer.
A história do
filme vai se concentrar em mostrar pequenos fragmentos das vidas de vários
indivíduos envolvidos em um emaranhado de rotinas, conflitos psicológicos e
exclusão social que os ligam. Além do claro desejo de conseguir alcançar a tão
sonhada felicidade. O filme vai nos mostrar como esses conceitos intrínsecos a
sociedade moderna oprimem os que não se encaixam neste modelo social,
destruindo suas vidas sem que estes nem se deem conta.
Nos
personagens contidos no filme teremos inúmeros arquétipos sociais destrinchados
pelo roteiro. A maior ligação que podemos ver em suas personalidades é o fato
de estes serem rotulados como os típicos fracassados da sociedade. Teremos o
indivíduo fora de forma que obtêm prazer fazendo ligações aleatórias para falar
obscenidades para mulheres, um senhor com mais de 60 anos insatisfeito com a
vida com sua esposa, decidindo deixá-la, um psicólogo com uma vida familiar bem
estruturada com tendências a pedofilia, uma mulher com mais de trinta anos,
tomada pelos seus romances fracassados e etc. Esses são apenas alguns dos
personagens que compartilharão suas histórias conosco.

O mérito do
filme se faz por em nenhum momento dar contornos maléficos aos personagens.
Todos os conflitos emanados no filme são explorados em todas as suas
implicações. É mostrada tanto a visão do causador do conflito, quanto dos
indivíduos afligidos pelas consequências. O filme não faz nenhum tipo de
concessão em seu roteiro, sendo bem cru em todos os desmembramentos de diálogos
e traumas. As formas de suavizar o conteúdo passado vêm pela direção.
O roteiro,
também responsabilidade de Todd Solondz, utiliza o máximo do que cada personagem pode oferecer. A forma como os
personagens acabam se ligando uns com os outros também é uma grande sacada para
agilizar o processo de conhecimento dos indivíduos ali inseridos. Todos esses
relacionamentos formam uma grande teia entre os personagens.
Solondz
mantém o bom desempenho em sua direção. Aqui o diretor escolhe por fazer um
trabalho bem solto, não ficando exclusivo, ou dando prioridade, a algum dos
personagens. Todos os nove indivíduos que o filme se propõe a contar suas
histórias acabam tendo uma narrativa praticamente igual a dos outros. Solondz
ainda trabalha com uma abordagem mais lúdica, evidenciada por pela trilha
sonora do filme, realizada por Robbie Kondor,
e a composição de cenários e ambientes. A fotografia com um grande arsenal de
cores, propiciada por Maryse Alberti,
também ajuda muito a criar a atmosfera do filme.
Nos inserindo
no campo das atuações, temos um grande compêndio de grandes atores extremamente
dedicados na realização de seus personagens, sendo localizado neste ponto o que
alavanca o filme. O elenco conta com Philip Seymour Hoffman, Dylan Baker, Ben Gazzara, Jane Adams,
Lara Flynn Boyle e Cynthia Stevenson. Todos muito bem no filme. O destaque acaba sendo pela coragem de Dylan
Baker e Philip Seymour Hoffman de aceitarem interpretar personagens tão
extremos. Ainda temos uma participação incrível de Jon Lovitz
na cena de abertura do filme. Lovitz dá uma pequena amostra em cinco minutos de
tela do que o filme iria oferecer.

O filme ainda
procura durante seus 134 minutos de duração fazer uma espécie de denúncia ao
guia considerado como essencial proposto pela sociedade para uma vida
satisfatória. A liberdade de escolha é usurpada do indivíduo logo em seus
primeiros anos de vida, criando neste uma realidade única e inexorável. Ao se
tornar adulto, o indivíduo que acaba por se fazer minimamente diferente do
padrão comum de seu ambiente, seja por completudes físicas ou até de
relacionamentos, irá internalizar em seu âmago um sentimento de vazio, sem se
dar conta que aquilo que vive também é uma forma de vida. O crime da situação,
como exposto em simplesmente todos os personagens do filme, é o próprio
indivíduo se subjugar perante suas próprias definições, vindo daí nossos
grandes problemas, como assassinatos em massa, suicídio e ódio social.
É preciso
nutrir uma coragem e confiança demasiadas para logo em seu terceiro filme
empreender uma obra tão extrema. Solondz é um diretor ímpar em todo o meio
cinematográfico. Sua obsessão pela figura do fracassado norteia sua filmografia
e, mais do que isso, dá substância a este filme aqui. ‘Felicidade’ é a grande
obra-prima do diretor. Um filme que trabalha por mostrar o quanto o ser humano
é uma raça falida. O conceito niilista de felicidade impregnado na sociedade
acaba sendo apenas uma forma de negar o mundo que se apresenta diante de nós.
Um desserviço a nossa natureza, condenando nossas pulsões instintuais e
agravando problemas inerentes a nossa espécie. O filme termina com uma música
singela que trabalha por colocar em forma de versos toda a ideia central da
obra.
POLÊMICA: Envolto a uma sociedade americana extremamente conservadora, Solondz colocou em tela diversos assuntos sociais praticamente intocáveis, além de tratar indivíduos muitas vezes esquecidos pelas pessoas ao seu redor. A obra causou e continua causando muita polêmica.
4º – Paradise Love (Ulrich Seidl, 2012)

O filme conta
a história de uma mulher, depois de seus 50 anos, que decide deixar seu
país(Áustria) e fazer uma viagem por um país do continente africano. No
decorrer do filme, vamos sendo apresentados ao real motivo daquela viagem e ao
quão triste e decadente a vida daquela mulher se revela.

No início do
filme, aparentemente somos apresentados a uma mulher comum, preocupada com a
filha, que decide fazer uma viagem para a África. Com a chegada da mulher no
país africano, somos aos poucos apresentados a real motivação da viagem, o
sexo. A mulher trata os nativos daquele país como meros objetos sexuais, à
venda, sem nenhuma preocupação além. O componente sexual do filme é exagerado.
Cenas de sexo que fogem completamente do que seria recomendado, totalmente
gratuitas. O incômodo gerado pelas cenas acaba desviando um pouco o espectador da
real história daquele filme. O aspecto da exploração do choque gratuito nos
remete a outro filme, este bem pior, que usa do excesso para atrair seus
espectadores. Estou falando de ‘Doce Vingança’, Steven R. Monroe. Filme do
gênero terror, que utiliza de quase 30% do longa dispostos ao choque.

O diretor, Ulrich Seidl, apela ao choque para conseguir, não passar o recado do roteiro, mas
apenas para atrair espectadores curiosos pelas cenas. Vale ressaltar a bela
fotografia do filme e o clima documental da película, completamente ausente de
uma trilha sonora. A direção é competente, apesar dos exageros descritos acima,
aproveitando bem o cenário paradisíaco do local.
O triste
final reflete o quadro triste que aquela mulher se encontra. Esnobada pelos
homens locais, que só demonstram interesse quando colocada o motivador global,
o dinheiro, a mulher sucumbe na cena final, aparentando ter sido finalmente
convencida da vida patética a qual está inserida. Relato verdadeiro, porém
exagerado, da vida de algumas mulheres naquela fase da vida(depois dos 50 anos
de idade), refletindo o conceito social de isolamento, não mais hábeis para
atividades sexuais. Filme fraco, mas com uma história que não é totalmente
desprezível. 
POLÊMICA: O filme é repleto de cenas extremamente fortes de sexo.

3º – Apocalypse Now (Francis Ford Coppola, 1979)

Sendo
considerado um dos filmes com os maiores problemas em sua realização,
‘Apocalypse Now’ justifica todo o empenho de sua produção em terminar o filme.
Revolucionando o gênero, que viria a fornecer ao espectador nos anos seguintes
clássicos como ‘Platoon’(1986) e ‘Nascido Para Matar’(1987), Coppola conseguiu
mensurar conceitos como vontade de poder e eterno retorno, propostos pelo
filósofo alemão Friedrich Nietzsche, aos horrores que um evento de tamanha
proporção pode causar nos ali envolvidos.
A trama do
filme gira em torno de um capitão do exército americano, interpretado por
Martin Sheen, que tem a missão de achar e exterminar um coronel americano(Marlon
Brando) que desertou da força de seu país e teria enlouquecido em meio aos seus
próprios ideais. Na busca por seu objetivo, o capitão enfrentará diversos
percalços, além de ter de lidar com seus próprios fantasmas.

O
desenvolvimento da história a partir do tema central é fascinante. Temos aqui,
na figura do capitão, um homem perturbado e confuso, visivelmente alheio à vida
que continua ao seu redor. Seu personagem parece ser um mero fantoche em meio
ao mar de mortes e loucura presentes a cada cenário explorado. Em sua
trajetória, o capitão acaba conhecendo o inesquecível Tenente Coronel
Kilgore(Robert Duvall). A megalomania e a completa ausência de realidade em
Kilgore é o ponto alto do filme. Um homem que simplesmente ama aquele ambiente
ao qual está inserido, vivendo cada momento com extrema intensidade. Seu único
pesar é pensar que um dia aquilo terá um fim.
A primeira
metade do filme é impecável. Somos inundados por um verdadeiro espetáculo de
cenas feitas à maestria. Temos tomadas feitas de todos os ângulos. As cenas
aéreas talvez sejam as melhores do filme, com destaque, é claro, para as
infindáveis sequências com helicópteros. Os barulhos emanados dos helicópteros
ganham conotações poéticas aqui. A famosa cena do ataque ao vilarejo ao som de
Wagner é sem dúvida a melhor do filme.

Infelizmente
o ritmo do filme cai muito em sua segunda metade, ficando arrastado em
determinados momentos. Vale a pena ressaltar que mesmo perdendo seu ritmo, o
filme jamais fica ruim, sempre se mantendo, no mínimo, bom. As sequências com
as coelhinhas da playboy e seu prosseguimento, até a introdução ao personagem
de Brando, acaba por perder um pouco o foco central do filme.
A reta final
do filme acaba por resgatar em parte a atmosfera apresentada na primeira
metade, sem, entretanto, igualar-se. O filme ganha tons macabros, atirando o
espectador a um local caótico, onde o que reina é uma carnificina sem precedentes.
A introdução da figura mais emblemática do filme finalmente acontece com o
aparecimento de Marlon Brando, vivendo a figura do Coronel Kurtz. Aqui temos um
homem com um passado brilhante pelo exército de seu país, mas que, de alguma
forma, acabou perdendo-se em meio aos possíveis horrores que passaram diante de
seus olhos, enlouquecendo e adquirindo ideais mais deturpados que outrora.

A composição
do elenco de ‘Apocalypse Now’ é muito boa. Temos no filme Martin Sheen
estrelando, Marlon Brando e Robert Duvall engrandecendo o longa, além das
presenças de Frederic Forrest, Sam Bottoms e Laurence Fishburne. Contamos ainda com Dennis Hopper e Harrison Ford em papéis menores do filme. Martin Sheen tem uma
atuação muito competente, conseguindo entrar na pele de seu personagem na luta
contra os pesadelos vividos em sua vida. Marlon Brando tem poucos minutos em
tela, porém o suficiente para conseguir tatuar no cérebro de qualquer um o
icônico personagem vivido por ele. Entretanto, o destaque do filme se deve a
atuação soberba de Robert Duvall. Frenético em tela, o sucesso de Duvall está
longe de se constituir apenas em virtude do belo personagem entregue pelo
roteiro. O ator entrega ao espectador uma atuação incrível. Dando vida a
diálogos completamente incompreensíveis falados por seu personagem e fazendo da
loucura deste o ponto de seu sucesso.
Coppola vinha
da direção de três verdadeiros clássicos do cinema, o que o deixou mais a
vontade para realizar o filme de seu jeito, além de ter um grande orçamento em
suas mãos. Porém, assistindo o filme, nós ficamos com a impressão de que esse
orçamento deve ter sido mal administrado. Se pegarmos as duas metades do filme,
a impressão é de estar assistindo a produções diferentes. Fato este que não
apaga o belo trabalho feito por Coppola na direção. Vale destacar também a
edição precisa do filme, causando completa imersão a trama por parte do
espectador. A trilha sonora também é linda, sabendo utilizar os momentos certos
para alavancar o filme. Já o roteiro, escrito por Coppola e John Milius(baseado
no romance de Joseph Conrad),
é outro ponto que distingue ‘Apocalypse Now’ dos demais filmes do gênero feitos
até o lançamento deste.

As mais de
três horas enfrentadas pelo espectador passam em uma velocidade incrível. Fruto
de um diretor em sua melhor fase na carreira, ‘Apocalypse Now’ não é o melhor
filme de guerra já feito, não é nem mesmo o melhor filme sobre a guerra do
Vietnã, mas a forma como aquela jornada é contada e a maneira em que é filmada
sem dúvida colocam o filme em um patamar elevado. Coppola nos traz um filme que
transcende seu gênero, podendo facilmente ser incluído na categoria Noir. O
roteiro complexo traz ao espectador temas filosóficos relevantes para a
humanidade. O personagem de Kilgore(Duvall) é um exemplo perfeito de ‘Vontade
de Potência’ e ‘Eterno Retorno’, propostos por Nietzsche. Temos aqui um homem
aproveitando cada segundo de sua vida, encarando os horrores da guerra como
momentos únicos. A vida para ele é aquilo ali presente em seu cotidiano turbulento.
Ele não nutre em seus pensamentos nada além daquilo. E em meio a essa aceitação
pelo real, Kilgore procura elevar-se a cada segundo, jamais aceitando
conservar-se na mesma situação. O tema ‘Vontade de Potência’ extrapola o
personagem de Kilgore, sendo também presente no Coronel Kurtz(Brando). Kurtz
passou a vida buscando a excelência militar de tal forma que quando a atingiu,
se viu inquieto àquilo. Querendo mais, Kurtz agora procura o status de uma
divindade, seus ideais não chegam a um fim.
‘Apocalypse
Now’ é um verdadeiro clássico do cinema, assistir a ele é uma experiência
única. Adentramos ao campo mais pedregoso do ser humano, onde seus impulsos
instintuais são tudo o que há. A guerra aqui é apenas uma figura passiva aos
horrores presentes na cerne do homem. Um filme que não deve ser assistido, e
sim, contemplado por seu espectador.
POLÊMICA: Todas as polêmicas desse filme se devem aos eventos nos bastidores. Para começar, as filmagens que deveriam ser concluídas em 6 semanas acabaram levando mais de 6 meses. Coppola era odiado por Marlon Brando, chegando ao ponto de o diretor mandar um assistente para guiar o ator nas filmagens. Martin Sheen tinha uma vida tão regrada ao álcool que acabou sofrendo um ataque cardíaco durante as filmagens, deixando Coppola extremamente irritado. Há relatos que Coppola havia dito, em uma conversa mais exaltada com membros da produção, que Sheen só morreria quando ele mandasse. As polêmicas se estenderam até o filme, onde, na reta final, temos um abatimento a sangue frio de um animal que, segundo relatos, Coppola guiou completamente.
2º – Violência Gratuita (Michael Haneke, 1997)

No filme mais
provocador de sua carreira, Michael Haneke trabalha por nos entregar um terror
psicológico ousado. Colocando o espectador como cúmplice das barbaridades
cometidas no filme, o diretor acaba por desconstruir qualquer tipo de vestígio
do conceito de humanidade latente na sociedade. Um filme que investiga nossa
substância violenta e, mais do que isso, questiona a maldade intrínseca
presente no ser humano. ‘Violência Gratuita’ é uma obra extremamente
perturbadora que, certamente, marca seu espectador.
O filme vai
nos inserir no dia mais cruel da vida de um casal, Georg e Anna, e seu pequeno
filho, Schorschi. A
família, no início do filme, se dirige para uma casa de campo, localizada em um
lugar quase que paradisíaco, para passar um tempo lá. A trama não demora a
ganhar forma quando dois jovens, se dizendo amigos de seus vizinhos, entram na
casa da família e iniciam uma rotina de abusos e o desmembramento de um jogo
psicológico perverso.

Desde os
primeiros cinco minutos, o filme já apresenta, por intermédio do único
resquício de trilha sonora presente na obra, o que o espectador iria
acompanhar. Somos introduzidos a uma cena aérea do carro que a família se
encontra, bem como um plano dentro do veículo, indo em direção à casa de
férias. Ao fundo é colocada uma música clássica, ilustrando, a priori, a
atmosfera tranquila que circundava a família e, após isto, mostrando, com os
diálogos da mulher e de seu marido, a música que eles estavam escutando. A
genialidade do filme se encontra no momento que o diretor escolhe por cortar o
som da música clássica e os diálogos da família, para apresentar uma música no
estilo heavy metal, junto com a subida dos créditos iniciais.
O terror psicológico
emanado de cada cena, mesmo naquelas antes do início do ataque, são construídas
nos pequenos detalhes. Antes do ataque o terror surgia, por exemplo, de um
olhar desconfiado de Georg, de um plano aberto mostrando a noção de completo
isolamento do lugar ou, até mesmo, de um simples ato de cortar alimentos da mulher
na cozinha. Esses elementos trabalham por criar um clima de paranoia em quem os
assiste. Já no decorrer do ataque temos um terror que cresce a cada cena. Não
bastam os diálogos extremamente contundentes, o filme prioriza mostrar em
quadros fechados objetos que vão ter significância nas tomadas seguintes, como,
por exemplo, um telefone molhado, um saco de tacos de golfe ou alguns ovos
quebrados sobre o chão.
Os atos de
violências físicas infringidos contra a família muitas vezes não são gráficos.
Podemos ter um close-up no rosto de uma pessoa, enquanto outro indivíduo é
subjugado ao lado. A câmera de Haneke não se preocupa em seguir a ação, o
cineasta sabe que nada é tão assustador quanto a simples imaginação do evento
pelo espectador.
 

Em vários
momentos durante o filme temos a quebra da quarta parede realizada por um dos
jovens agressores. Essa quebra serve para causar a imersão do espectador ao
cenário, como se este participasse ativamente ao lado dos jovens. Esse diálogo,
agressor contra espectador, é mediado pelo tom sarcástico do jovem, perguntando
para nós o que deveria acontecer a seguir com a família.
Toda essa
simbiose entre filme e espectador denúncia a separação entre o que é ficção e o
que determina a realidade. A exasperação da cultura midiática de propagação da
violência acaba por diminuir o choque causado quanto ela de fato acontece. O
sentido de ficção se faz presente no momento em que o indivíduo perde essa
ligação com o real, e com isso seu senso de realidade, diminuindo seu critério
de certo e errado e objetificando relações interpessoais. A violência do filme,
e como o próprio título original, se faz em forma de uma espécie de jogo. Do
ponto em que os agressores só querem se divertir, aumentar a carga de sensações
em suas vidas. Não há dúvidas de que ali se encontram verdadeiros psicopatas.
Assim como não há dúvida de que esses agressores não são nada além do que
produtos de seu tempo, de sua cultura.

Na outra
ponta do filme, temos na família outro ponto de cegueira da condição humana, do
caráter violento que é inerente ao homem. Aqueles indivíduos foram domesticados
por sua sociedade, jamais presenciaram qualquer tipo de violência em suas
vidas. É a negação de sua natureza em prol da socialização. O problema contido
nisso é que eles, quando finalmente expostos a crueldade humana, se tornam
presas incapazes de esboçar qualquer tipo de defesa.
O conceito
visceral exacerbado do filme é intensificado pela ausência de uma trilha
sonora, com exceção dos minutos iniciais, onde cada cena causa impacto somente
pelo seu conteúdo. O diretor sabe usar essa ausência a seu favor, criando uma
atmosfera completamente crua, solidificando o filme muitas vezes com o uso do
silêncio nas cenas externas e na voz de um dos agressores nas internas.
A direção do
Haneke trata por adentrar a um terreno não explorado. Como exposto acima, o
diálogo entre agressor e espectador se faz presente, temos também, indo de
encontro no embate realidade/ficção comentado antes, a figura da manipulação do
curso do filme, onde temos a icônica cena em que o agressor aperta um botão do
controle remoto para retroceder o filme e refazer as coisas de seu jeito. Esse
controle da realidade do personagem já tinha sido explorado anteriormente em ‘O
Vídeo de Benny’(1992) e seria também utilizado oito anos depois em
‘Caché’(2005). Porém, diferente dos filmes citados, aqui o controle se insere
no próprio desenrolar da obra.

Haneke
propicia ao espectador enquadramentos perfeitos dos componentes do elenco.
Teremos sempre, após o início das agressões, a câmera focalizada em planos
limitados, oferecendo somente a expressão dos atores. Os mais aproveitados são
os rostos de Georg e Anna, nos inundando com “close-ups” aterradores do
tormento que aquelas pessoas estão sofrendo.
É trabalhado
ainda pelo diretor uma completa desconstrução do que foi feito até então no
gênero de terror psicológico. A direção engana o espectador, dando pistas
falsas, como, por exemplo, a imagem capturando, no início do filme, a faca no
barco da família, dando a impressão de que aquilo seria usado mais tarde para
algo importante. É exatamente na figura dessa faca na cena final do filme que
podemos notar o quão genial é a figura deste diretor austríaco. Durante os 30
minutos finais de filme, Haneke brinca conosco, dando falsas esperanças e
despejando um conteúdo quase intragável. O filme ainda entrega uma contemplação
doentia na figura de um dos agressores, edificando seus gestos e atitudes com
uma câmera que o segue nos seus jogos perversos.

O elenco do
filme é formado por Susanne Lothar, Ulrich Mühe e Stefan Clapczynski nos papéis da família em questão. Já interpretando os agressores, nós
temos Arno Frisch e Frank Giering. Cabe aqui separarmos esses cinco atores em três níveis de intensidade.
Clapczynski e Giering, como o filho do casal e o agressor menos falante,
respectivamente, estão mais soltos na trama. Os dois acabam não conseguindo
seguir o ritmo das outras três peças do elenco, sem, no entanto, estarem mal no
filme de alguma forma. Muhe, como o Georg, está intenso em sua própria
aceitação do destino cruel que lhe foi imposto. É comovente ver sua atuação
aqui, demonstrando um homem derrotado pelo acaso desde a primeira agressão.
Cada enquadramento destacando o rosto do ator somente intensifica a experiência
do espectador. Cada expressão facial do ator revelam o terror e o estado de
choque que aquele indivíduo está passando. Na camada mais intensa do filme
temos Susanne Lothar e Arno Frisch, como Anna e o agressor central. Ambos estão ótimos, onde Susanne
entrega uma atuação mais física, é ela que luta por manter a família viva nas
mãos dos agressores, e Frisch assume um tão sarcástico, sendo o responsável por
fazer a ponte entre espectador e filme.
Por mais
competentes que sejam as atuações, toda a qualidade empreendida pelo filme se
faz na habilidade de seu realizador. Michael Haneke entrega um filme
pessimista, onde todo seu talento é utilizado para causar espanto em quem o
assiste. ‘Violência Gratuita’ mostra um conteúdo que, usando de todos os
componentes perturbadores possíveis, dá ao espectador a possibilidade de tirar
suas próprias conclusões. Um dos poucos filmes que, mesmo sendo bom, causa um
alívio em quem o assiste ao seu término.
POLÊMICA: As torturas que permeiam o filme acabam levando um completo mal-estar até o espectador. O filme ainda emite torturas constantes à criança ali inserida.
1º – Sob o Domínio do Medo (Sam Peckinpah, 1971)

Polêmico em
simplesmente todas as suas esferas, ‘Sob o Domínio do Medo’ transcende a visão
machista que faz das mulheres, entregando um filme ousado. Sam Peckinpah  cria um filme perturbador sobre
a exasperação social em uma terra quase sem leis. Some isso a uma direção
praticamente impecável e um Dustin Hoffman em chamas e você terá um dos grandes filmes presentes na década de
1970. Violenta e perturbadora, a obra de Peckinpah foi reeditada inúmeras
vezes, em diversos gêneros, nesses mais de 45 anos desde o filme, sem, no entanto,
se igualar ao que o diretor construiu aqui.
A história
que o filme tem a contar se passa nos confins de uma Inglaterra rural. David e
Amy, um casal despojado, decide migrarem dos Estados Unidos para este lugar,
onde seu pai deixou uma bela casa para os dois. Chegando lá, os dois percebem
que a atmosfera do lugar era meio estranha, sendo tratados com desdém,
especialmente David, pelos moradores do lugar. A trama do filme toma forma
quando os habitantes do local passam a incomodar o casal com jogos cada vez
mais perversos, até finalmente atingir um nível insustentável.

É importante
delimitar as personalidades do casal protagonista do filme, a fim de entender
seus comportamentos mediante as barbaridades a que são expostos. David é um
homem acostumado com uma vida de confortos oferecida pelo seu país de origem.
Professor de matemática e escritor, David vê no lugar afastado a oportunidade
de paz e tranquilidade para terminar seu livro. O personagem ainda se demonstra
um tanto quanto mimado e nutre uma ingenuidade inerente a sua pessoa. Já na
figura de Amy, encontramos uma mulher despreocupada, extrovertida e
extremamente desejada pelos homens. Amy gosta dos olhares que caem sobre ela.
Ela descarta usar sutiã e, em determinada ponto do filme, acaba se mostrando para
um dos trabalhadores de sua residência, com quem já havia tido um caso na sua
primeira estadia no lugar. Apesar de gostar dos olhares, Amy começa a se sentir
invadida quando a corrente atração do sexo masculina acaba se intensificando.
Amy e David
são pessoas extremamente diferentes, e essas diferenças ganharão proporções
cruéis no decorrer do filme. Entretanto, existe uma característica que os dois
conservam quase que por completo. Ambas são pessoas covardes. Os personagens
evitariam todos os seus problemas se tivessem um maior trato e convicção na
hora de lidar com os problemas que surgem no caminho.

Essa covardia
incomoda o protagonista, sendo acusado constantemente por sua mulher de ser
tolerante demais com as moléstias propiciadas pelos habitantes do local. Alguns
desses habitantes trabalham reformando a casa do casal, facilitando o acesso à
rotina deles. E é após esse sentimento de inquietação que David decide tentar
mostrar alguma virtude em seus atos, indo, em determinado momento do filme, atirar
em pássaros com os habitantes do local.
O ponto
central do filme se concentra nessa caça a pássaros empreendida por David e
seus molestadores. David é aconselhado por estes a ficar esperando
pacientemente até aparecer a oportunidade certa para ele atirar. Enquanto David
espera, os homens se escondem no lugar e alguns aproveitam a ausência do
protagonista de sua casa para se aproveitar de sua esposa. É neste momento que
o filme ganha contornos aterradores. Os indivíduos entram na casa de David e
acabam por estuprar sua esposa. A cena dura mais de 6 minutos, sendo
extremamente perturbadora, apesar de o diretor tentar ao máximo não expor a
atriz em demasia.
Toda a
intensidade cruel que Peckinpah distribui em tela se faz necessária pelo que o
filme tem a mostrar. Entretanto, o sentimento de náusea atrapalha um pouco na
absorção das implicâncias que aquela cena significa para o filme. Enquanto o
ato é cometido, temos cortes de uma sagacidade incrível da edição mostrando
David em sua empreitada atrás de um pássaro.

Em um desses
cortes da edição, vemos David finalmente conseguir acertar um pássaro. E é na
figura do pássaro morto, numa cena singela e arrebatadora, que encontramos todo
o desespero contido no psicológico de David. O homem parece perceber no pássaro
morto toda a liberdade retirada, usurpada de sua família. A morte do pássaro
desmembra em David uma experiência catártica que, enquanto sua esposa era
estuprada, incumbe um sentimento de abandono no espectador.
Vale a pena
entrar nas polêmicas do filme evidenciadas pela cena do estupro. Há na
construção da personagem de Amy uma rotulação pejorativa em sua substância.
Desde a primeira cena da mulher em tela, uma câmera fechada nos seus seios
cobertos apenas por uma fina camada de tecido, teremos uma exposição superficial
de sua persona. A mulher parece gostar, a priori, de se mostrar em público,
exasperando os comportamentos dos homens a sua volta, e na cena em que é
estuprada demonstra, em determinado momento, estar gostando de ser tratada
daquela forma.

A reta final
do filme ganha um tom acelerado. Todo o ritmo cadenciado da primeira parte do
filme é descartado, onde uma grande onda com toda a imundice do lugar atinge o
espectador. O clima da cidade parece ceder em um emaranhado de loucura que
acaba por atingir todos, inclusive David e Amy. David acaba inundado pelo ideal
de colocar um fim naquela rotina de abusos, indo contra todos e colocando sua
vida, assim como a de sua esposa, em perigo.
A direção de Sam Peckinpah é comedida em seu início. Dosando a quantidade de conflitos que surgem
na tela, Peckinpah acaba por preparar o terreno do que está por vir. A
atmosfera inicial do filme tem como objetivo retratar toda a aura decadente do
lugar, com casas caindo aos pedaços, ruas esquisitas e um bar apertado e nada
aconchegante. Todo esse trabalho é feito com a fotografia John Coquillon,
ajudando o diretor a construir o clima do lugar, utilizando uma tonalidade fria
e suja para causar repulsa no espectador.
No entanto,
toda essa monotonia inicial é quebrada pouco depois da metade do filme. Após
isso, as sequências do filme ficam completamente frenéticas. Peckinpah escolhe
por quebrar sua estética construída até aqui e utilizar enquadramentos
desconexos, evidenciando todo o clima de paranoia que se instala no ar. Cada
construção de cena literalmente arrepia o espectador, no melhor sentido da
palavra, criando fragmentos inesquecíveis. Todo esse trabalho de clima da reta
final proposto por Peckinpah não seria possível sem a edição fantástica
realizada por Paul Davies, Tony Lawson e Roger Spottiswoode. Os cortes são feitas com inquietação, não deixando o espectador
absorver o conteúdo passado. Tudo isso só engrandece a ideia de opressão
presente no filme.

Temos
encabeçando o elenco, dando vida aos personagens de Amy e David, Susan George e Dustin Hoffman. George acaba tendo uma atuação
competente, se destacando mais pela coragem de assumir uma personagem tão
complexa, do que por sua performance em si. Já Hoffman está irretocável no
filme. O ator consegue se adequar as duas partes do filme, sendo calmo e ingênuo
no início e assumindo um tom de insanidade na reta final. O martírio sofrido
pelo personagem só consegue perturbar o espectador devido aos nuances da
atuação do ator. Cada gesto, olhar e palavra do ator nos fazem acreditar que
ali está, de fato, um indivíduo quebrado pelo ambiente inóspito a sua volta.
Dustin Hoffman é um dos grandes do cinema e essa atuação somente “escancara”
isto.
As polêmicas
inseridas no filme não sobrepujam o que esta obra tem a oferecer. Uma verdadeira
obra-prima de Sam Peckinpah. O filme contém uma atmosfera e tema
muito parecidos com o que ‘Amargo Pesadelo’(1972) ofereceu no ano seguinte.
Essas duas obras se entrelaçam, servindo de modelo para inúmeros filmes de anos
posteriores que copiaram a fórmula de se criar o terror psicológico. ‘Sob o
Domínio do Medo’ investiga o quanto o ser humano pode “afundar” quando colocado
contra a parede.
POLÊMICA: A construção da personagem feminina do filme, como exposto acima, foi feita com um olhar machista que acaba incomodando o público até hoje.