Abordaremos, neste top10, filmes que de alguma forma compreendam formas de vida fora do modelo tradicional de normas e valores propostos pela sociedade. Foram inseridos nesta lista filmes que vão desde uma sociedade inteira fora dos padrões, até indivíduos que decidem quebrar as características do ambiente ao qual estão inseridos.

10º – Wiener-Dog (Todd Solondz, 2016)

A carreira do
diretor Todd Solondz é dedicada a fazer filmes provocadores, que mexem com seu
público (e, às vezes, não de uma forma positiva). Sua filmografia inclui
tópicos difíceis de serem abordados, como estupro, pedofilia, depressão e
homicídios, como em ‘Felicidade’(1998). Tudo retratado de uma forma cômica,
porém fiel. Solondz tem uma atração incomum pela figura dos derrotados em nossa
sociedade. Seu trabalho não é colocar conceitos de certo ou errado, bem ou mal.
Nos seus filmes ele passa o que é o mundo, sem desumanizar aqueles que fogem do
comportamento normal da massa.
Os filmes do
diretor sempre seguem uma qualidade muito alta. E aqui, com ‘Wiener-Dog’, não é
diferente. Aqui temos um filme que é dividido em quatro contos independentes,
interligados apenas pela presença de um cachorro muito simpático em suas vidas.
Temos neste filme contos que mostram a vida com olhos cruéis e desalentadores,
seja em uma família de classe alta, onde a inabilidade de dois pais em cuidar
de seu filho de uma maneira normal acaba moldando a personalidade do pequeno,
seja em um casal de seus vinte e poucos anos condenados ao fracasso devido
simplesmente as circunstâncias da vida, do acaso, ou seja em um professor em profundo
estado de depressão. Todos os contos tem em comum, além do cachorro, um
profundo estado desilusão quanto à vida.
O diretor usa
de maneira excessiva um humor inteligente, impregnado em pequenos atos dos
personagens. O filme é curto, com apenas 88 minutos de duração, não deixando o
espectador entediado em nenhum momento. Muito pelo contrário, ao seu término
desejamos que ele tivesse mais alguns minutos de duração.

O elenco
conta com alguns nomes consagrados já do cinema, como Danny DeVito, Ellen
Burstyn e Julie Delpy. O filme ainda possui Greta Gerwig e Kieran Culkin
compondo o elenco. Aqui todos estão ótimos, demonstrando um humor melancólico
perfeito para a obra.
‘Wiener-Dog’
é um filme delicioso de se assistir. Solondz, em seu oitavo longa-metragem,
mais uma vez acerta a mão. Temos neste filme a vida destrinchada em relatos
divertidos. O diretor ainda nos premia com um final que é genial, apenas coroando
este ótimo filme.
Fugindo do Tradicional: O filme procura adentrar a vida dos conhecidos como fracassados pela sociedade contemporânea moderna, destrinchando seus comportamentos e o ambiente que os cercam.
9º – O Lar (Ursula Meier, 2008)
Tratando de
um tema complexo como os efeitos da urbanização naqueles inseridos em
determinados locais afetados diretamente, ‘O Lar’ é um filme conciso e pesado.
Sua diretora, Ursula Meier, escolhe por ter uma abordagem rústica com seu
espectador. Tudo ali mostrado é cruel, avassalador e triste. E as situações
cômicas não ajudam a diminuir o peso da trama, somente a torna mais palatável.

O filme vai
contar a história de uma família, um casal e seus três filhos, vivendo na parte
rural da França, em completo isolamento de outras residências ou pessoas, que
tem sua vida baseado em um modo liberal e calmo de se viver.  A casa onde a família mora fica ao lado de uma
estrada inoperante, onde por mais de 10 anos o governo adiou seu lançamento. A
família é tomada periodicamente pelo medo de que a estrada venha finalmente a
começar a funcionar. Não fica claro o porquê de a família resolver fazer sua
vida em um local condenado às ruínas. Ou então, se a família já morara ali
previamente a construção da estrada. Essa ausência de informações funciona
muito bem no filme, nos levando a projetar várias vezes determinadas causas e
motivos para aquele cenário.
A história
rapidamente ganha novos rumos quando a estrada finalmente é lançada. A família
tenta continuar com seu modelo de vida, apesar do constante barulho dos carros
e o perigo de serem atropelados ao tentar atravessar o lugar. Porém, após um
curto espaço de tempo, fica claro que a vida naquele lugar poderia não ser mais
uma realidade. A vida diante daquela estrada fica insuportável. Logo, suas
vidas começam a entrar em um processo de degradação constante inescapável.
Não ficam
exatamente claros os motivos para a família permanecer no local após os
transtornos começarem a se tornar latentes. Porém, podemos presumir que a falta
de dinheiro e outro local para ficar é a razão principal da permanência. É na
figura do pai da família que fica mais evidente o sofrimento que aquela família
está passando. O homem parece ser o único realmente ciente do quão desesperador
seria a vida da família, o quanto seus futuros estariam condenados. Ele parece
ser o único a se dar conta que a destruição da família era, agora, algo
inexorável.
Temos na
figura da mãe uma pessoa alegre e despreocupada, que, apesar de nutrir certa
ignorância quanto à situação que está inserida, se vê cada vez mais envolta em
uma rotina quebrada. A tranquilidade gradualmente dá lugar à completa paranoia
na mulher. Já pegando a personagem da filha maior, aparentando estar na faixa
dos 20 anos, temos uma figura que parece ser a única alheia àquilo tudo. A vida
parece passar diante de seus olhos sem que essa se incomode, tudo que ela
precisa é de seu rádio e sua cadeira para tomar sol, o resto não importa. Nos
outros dois filhos menores, o garoto, aparentando ter uns oito anos, e a menina,
com algo entre 12 e 14 anos, fica implícito o quão ruim a situação se tornara.
Os dois sentem o efeito da situação quase que na mesma proporção que seus pais,
onde a vida como conheciam anteriormente se apagara por completo.
A degeneração
da família é constante, inapelável. A saúde mental dos integrantes da casa cada
vez mais parece menor. A história acaba por ganhar contornos do gênero de
horror. A casa agora parece criar vida, os impedindo de sair do lugar. Logo,
vamos notando que a família de outrora já não existe mais. O que há agora é um
compêndio de loucura.
A direção de Ursula Meier, em seu primeiro longa-metragem, é muito boa. A diretora escolhe por
utilizar um ritmo dosado, jogando informações para o espectador aos poucos. Não
conseguimos saber o que está acontecendo direito até os 30 minutos de filme,
somente depois desta marca começamos a ligar os pontos e começar a tirar nossas
próprias conclusões sobre o que está sendo mostrado. Meier também escolhe por
dar uma atmosfera quente ao filme, com o apoio da cinematografia de Agnès Godard,
onde os personagens aparentam estar sempre em um eterno desconforto.
Os atores
evolvidos no filme também conseguem captar a proposta do roteiro e da diretora.
No papel dos filhos do casal temos Adélaïde Leroux como a filha mais velha e Madeleine Budd e Kacey Mottet Klein no papel dos
filhos menores. Eles estão
regulares no filme, dão a dramaticidade e inocência necessária ao que a trama
propõe. Como esposa temos Isabelle Huppert. Huppert aqui tem uma boa interpretação, escolhendo, no começo, pela
sutileza em caracterizar sua personagem e, na parte final, por uma performance
corporal exacerbada, tentando evidenciar o quadro daquela pessoa. Porém, o
grande destaque é o de Olivier Gourmet, no marido em questão. Gourmet consegue com simples olhares demonstrar
todo o desespero que impera no personagem.
A construção
de cenário feita pelo filme acaba transcendendo o drama pessoal a que aquela
família está envolvida, servindo como realidade para urbanização desenfreada
que acomete o mundo desde o século passado. Não há mais espaço para a
proliferação de vidas fora do eixo social/urbano. O crime contido aqui não é o
de expandir os domínios de uma vida socializada comum, mas, sim, o de não dar
aos afetados pela perda de seu modelo de vida uma condição para se habituarem a
sua nova realidade.  ‘O Lar’ é um filme
duro, não sendo prazeroso de o ver em alguns momentos. A trilha sonora é
ausente, o ritmo lento e até as situações cômicas causam incômodo no
espectador. Mas tudo o relatado aqui é palpável. O filme termina com uma cena
linda, encerrando uma obra ímpar.
Fugindo do Tradicional: Veremos o quanto a figura inconsciente social oprime os desertores de seu espaço habitual, dificultando qualquer coisa que seja tenha o mínimo de diferença do que é tido como normal.
8º – Um Senhor Estagiário (Nancy Meyers, 2015)
Se
beneficiando de uma direção competente, trilha sonora leve, edição dinâmica e
um protagonista à vontade na caracterização de seu personagem, ‘Um Senhor
Estagiário’ atinge seu objetivo de agradar o espectador com um bom filme. A
experiente cineasta Nancy Meyers faz um de seus melhores trabalhos na direção e consegue realizar aqui
um “Feel Good Movie”.
A história
contada aqui é a de um senhor de idade, na casa de seus 70 anos, aposentado,
viúvo, que se vê imerso em uma vida rotineira inexorável. Eis que, após ver um
panfleto de uma empresa procurando pessoas para preencher determinadas vagas, o
personagem decide tentar mudar seu estilo de vida. A trama se desenvolve a
partir deste ponto, explorando a vida deste senhor após a decisão.
Na primeira
metade, o filme se limita praticamente a um só ambiente, a empresa em que o
personagem decide trabalhar. A proposta aqui apresentada pelo filme é simples,
explorar ao máximo a boa química entre os atores e aproveitar o ambiente
convidativo da empresa em questão, lembrando muito a atmosfera criada por ‘O
Diabo Veste Prada’(2006). O sucesso desta comédia se deve muito por encontrar
um ritmo já não utilizado constantemente em filmes do gênero atualmente, usado
a exaustão em longas da primeira metade da década passada, como, por exemplo,
‘Como Perder Um Homem em 10 Dias’(2003).
Na reta
final, a comédia acaba perdendo um pouco do encanto, tornando-se repetitiva e
cansativa. O fato do roteiro ser ruim e repleto de clichês é muito bem
contornado pela diretora na primeira hora de filme, porém, nesta segunda metade,
já não havia muito o que se fazer. O filme conta com duas histórias
interligadas na trama, a central do aposentado querendo encontrar seu caminho
e, a segunda, de uma mulher importante e competente vivendo conflitos e dúvidas
familiares e profissionais. E é quando o foco do filme se detêm na segunda
história que essa queda notável de qualidade acontece.
A parte
estética do filme é muito boa. Temos aqui um importante espaço dado pela
diretora para a edição e trilha sonora no filme. E isso é de suma importância
para o sucesso deste. Começando pela leveza da trilha sonora, que trabalha por
conduzir o espectador através da história contada aqui, sem jamais se tornar um
parasita na história. O trabalho de edição é um dos elementos que mais
relativiza as falhas do roteiro(comandado também por Nancy Meyers). Seu
dinamismo aqui é fundamentalmente necessário para não deixar o longa insosso.
Entretanto, tudo isso não faria a menor diferença se não tivéssemos uma
profissional competente no comando da direção. Nancy Meyers conseguiu repetir a
estrutura usada por ela em filmes como ‘Do Que as Mulheres Gostam’(2000) e
‘Alguém tem Que Ceder’(2003), fazendo aqui seu melhor trabalho.
Aliás, o
trabalho da diretora vai muito além dos aspectos técnicos do filme, aqui ela
trabalha assiduamente para que o elenco entregue algo positivo. Todos os seus
integrantes estão muito bem, seja lá qual for sua importância no filme. O
destaque, claro, é para a atuação de Robert De Niro. O experiente ator não tem
vergonha em mergulhar de cabeça em um papel que o expõe a elementos sociais
complicados, como a defasagem imposta pela sociedade às pessoas mais velhas. A
atuação de Robert De Niro nos lembra muito do personagem clássico interpretado
por este em ‘O Rei da Comédia’(1982). Temos também no elenco a presença de Anne Hathaway, que entrega uma performance positiva.
‘Um Senhor
Estagiário’ está longe de ser um filme ausente de erros, mas é exatamente a
habilidade de superar estes que fazem o sucesso do longa. Meyers não cria aqui
uma comédia que vai ser relembrada através do tempo, mas é, sem dúvidas, um
entretenimento para qualquer hora. A leveza do filme é o que segura o
espectador por mais de duas horas. A química presente no elenco torna piadas
batidas em momentos engraçados. Um bom filme que vale o tempo investido.
Fugindo do Tradicional: O personagem de Robert De Niro trabalha por quebrar a figura do inconsciente coletivo que compreende o indivíduo com mais idade como algo defasado e condenado.
7º – Capitão Fantástico (Matt Ross, 2016)
Utilizando um
roteiro conciso e eficiente, ‘Capitão Fantástico’ consegue dar ao espectador um
Road Movie interessante e, por vezes, sensível. Matt Ross faz uma direção
regular (sem a mesma inspiração de seu roteiro), conseguindo criar em seu filme
uma atmosfera parecida com a de ‘Pequena Miss Sunshine’(2006).
A trama de
‘Capitão fantástico’ aborda a processo de luto de uma família que, acostumada a
viver sem um contato ativo com outros seres humanos ou a uma sociedade, é
obrigada a se inserir em um mundo diferente ao que estão acostumados. O roteiro
aqui é complexo. Temos um protagonista que aos poucos vai sendo sugado pelos
seus próprios ideais morais rígidos. Sua vida vai se degenerando gradualmente,
levando toda sua família com ele. Sua personalidade autodestrutiva acaba por,
assim no personagem de David Thewlis em Nu(1993), destruir a vida de todos que o cercam.
Apesar do
roteiro ser ótimo, o que desponta como o ponto alto do longa é a atuação de Viggo Mortensen. Nutrindo aqui seus maneirismos habituais de suas interpretações,
Mortensen ainda consegue dar mais substância ainda ao já complexo personagem.
Sua performance no filme é extremamente física. A direção é o que destoa um
pouco no filme, tomando decisões erradas na hora de executar determinadas
cenas, tornando-as demasiadamente cruas.
‘Capitão fantástico’
mostra a crueldade natural do mundo. Vemos aqui uma família que aos poucos vai
se dando conta do futuro penoso a que estão condenados. A vida fora de uma
sociedade, já completamente em desuso nos dias atuais, é incompatível neste
mundo a qual estamos inseridos. O filme acaba sendo regular, não alcançando uma
intensidade necessária para a trama. Matt Ross comanda apenas seu segundo filme
aqui, já realizando uma obra notável. Sem dúvida o filme merece uma atenção
especial.
Fugindo do Tradicional: Os personagens embutidos no filme se fizeram pessoas alheios ao modelo tradicional, formando eles mesmos suas normas e regras próprias.
6º – A Febre do Rato (Cláudio Assis, 2011)
O cenário
nacional vem crescendo gradativamente a cada ano, tendo uma nova gama esforçada
de cineastas dispostos a entregar ao espectador um material de qualidade. Bom,
com Cláudio Assis não é diferente. Assis não é novo no ramo, mas a qualidade de
seu trabalho vai de encontro ao que está sendo lançado a cada ano. Em ‘A Febre
do Rato’, o polêmico diretor nos entrega um filme poético sobre nada menos que
a vida em uma cidade onde a exacerbação social rege o ambiente.
O filme traz
a história de Zizo, um poeta libertário e anarquista da cidade de Recife. Zizo
vive uma vida regrada a muito sexo e álcool, onde a colocação de limites vai
contra tudo aquilo que ele acredita. O homem comanda um pequeno jornal
independente e volta e meia sai às ruas da cidade para pregar seus ideais à
sociedade. A vida desprendida de valores e regras morais não é uma
exclusividade de Zizo, seus amigos partilham a ideia e vivem tais como, no
entanto, sem a mesma intensidade do poeta.
A escolha por
dar um ritmo moderado ao filme vai de encontro à atmosfera criada para ele. Não
teremos aqui pontos cruciais para o andamento da história, tudo é contado em um
único tom. O filme quer simplesmente mostrar um curto período da vida daqueles
personagens. Nada relevante para suas vidas acontece que eles já não estejam
acostumados. E o encanto do filme se faz exatamente por isto.
Temos na
figura de Zizo um homem completamente desprendido de valores. Sua vida é
construída a base da absorção da essência da aura instintual do ser humano. O
superego naquele indivíduo é completamente negligente, ele parece ser dominado
pelos conteúdos rechaçados oriundos do Id. Poderíamos categorizar Zizo como um
homem em processo de degeneração, se autodestruindo a cada ato. Porém, é
deveras vazio colocar um personagem tão rico em uma substância tão pobre. São
vários os modos de se analisar este personagem. E talvez todos se encaixem pelo
menos um pouco na sua persona.
É importante
ressaltar o roteiro do filme. Escrito por Hilton Lacerda, a história não tem medo de se tornar insossa para alguns espectadores,
aproveitando o máximo dos diálogos ou versos poéticos entoados pelo protagonista.
A abordagem feita à vida das pessoas incluídas naquela classe e grupo é uma
coisa complicada, muitas vezes podemos cair em estereótipos preconceituosos. No
entanto, Lacerda acerta em cheio não amaciando o conteúdo que é trazido no
roteiro.
Porém, o
destaque, claro, vai para a direção soberba de Cláudio Assis. Somos inundados
com uma infinidade de takes dos mais diversos ângulos, todos inseridos em uma
estética única de filme. Em determinado momento o protagonista quebre a quarta
parede, falando diretamente conosco. Em outros, temos cenas de sexo exploradas
na sua mais densa completude. Ou então, somos apresentados a um plano contínuo,
com a câmera percorrendo um ângulo de 360°, destilando os diferentes nuances
dos personagens. Podemos citar como exemplo as cenas daquela espécie de caixa
d’água que é usada como uma piscina, onde a câmera é coloca acima, como se
estivesse pendurada em uma árvore, revelando uma imagem panorâmica ousada que dá
a possibilidade do espectador ver o filme com outros olhos. O cinema de Cláudio
Assis é bom demais.
A fotografia
do filme também merece destaque. Feita por Walter Carvalho,
o objetivo dela é dar um contorno defasado e em ruínas da cidade, da roda de
ambientes frequentados pelos personagens. A sensação é de se assistir algo que
está se desfazendo, retratando com exatidão a proposta do roteiro e direção. O
preto e branco presentes no filme ajudam Carvalho em sua investida precisa.
Já a edição
não destoa dos elementos do filme citados, conseguindo dar uma agilidade
necessária ao filme. Os cortes das cenas são extremamente acurados, jamais
deixando algo solto ou desnecessário em tela.
O elenco está
muito bem. Temos Irandhir Santos como protagonista, além de Juliano Cazarré e Matheus Nachtergaele compondo a parte mais relevante do
elenco. Talvez o melhor ator brasileiro da atualidade, Irandhir Santos consegue
entregar um performance muito corporal ao filme, sempre prezando pela
eletricidade em seu modo de agir. A intensidade com que o ator também fala e
entoa suas poesias assustam. Não temos um único momento do filme em que o ator
não esteja frenético em cena, até seu silêncio é pontuado de forma intensa. Matheus
Nachtergaele também dá um show no filme, mesmo com um papel de menor
importância para a trama, interpretando um homem quieto e intrigante que nutre um
conturbado relacionamento amoroso.
‘A Febre do
Rato’ é uma obra que somente evidencia o quão bom é o diretor Cláudio Assis. Em
virtude de toda a equipe muito boa, já teríamos um bom filme com um diretor
mediano, mas a direção de Assis é o que coloca o filme em outro patamar. Um
filme polêmico e provocador que escolhe por dar foco a uma parte da população
brasileira que é esquecida pelas classes mais altas.
Fugindo do Tradicional: Criando um convívio de libertinagem entre indivíduos, os personagens do filme desprezam qualquer tipo do conservadorismo presente na cidade em que residem.
5º – Paradise Love (Ulrich Seidl, 2012)
O filme conta
a história de uma mulher, depois de seus 50 anos, que decide deixar seu
país(Áustria) e fazer uma viagem por um país do continente africano. No
decorrer do filme, vamos sendo apresentados ao real motivo daquela viagem e ao
quão triste e decadente a vida daquela mulher se revela.
No início do
filme, aparentemente somos apresentados a uma mulher comum, preocupada com a
filha, que decide fazer uma viagem para a África. Com a chegada da mulher no
país africano, somos aos poucos apresentados a real motivação da viagem, o
sexo. A mulher trata os nativos daquele país como meros objetos sexuais, à
venda, sem nenhuma preocupação além. O componente sexual do filme é exagerado.
Cenas de sexo que fogem completamente do que seria recomendado, totalmente
gratuitas. O incômodo gerado pelas cenas acaba desviando um pouco o espectador da
real história daquele filme. O aspecto da exploração do choque gratuito nos
remete a outro filme, este bem pior, que usa do excesso para atrair seus
espectadores. Estou falando de ‘Doce Vingança’, Steven R. Monroe. Filme do
gênero terror, que utiliza de quase 30% do longa dispostos ao choque.
O diretor, Ulrich Seidl, apela ao choque para conseguir, não passar o recado do roteiro, mas
apenas para atrair espectadores curiosos pelas cenas. Vale ressaltar a bela
fotografia do filme e o clima documental da película, completamente ausente de
uma trilha sonora. A direção é competente, apesar dos exageros descritos acima,
aproveitando bem o cenário paradisíaco do local.
O triste
final reflete o quadro triste que aquela mulher se encontra. Esnobada pelos
homens locais, que só demonstram interesse quando colocada o motivador global,
o dinheiro, a mulher sucumbe na cena final, aparentando ter sido finalmente
convencida da vida patética a qual está inserida. Relato verdadeiro, porém
exagerado, da vida de algumas mulheres naquela fase da vida(depois dos 50 anos
de idade), refletindo o conceito social de isolamento, não mais hábeis para
atividades sexuais. Filme fraco, mas com uma história que não é totalmente
desprezível.
Fugindo do Tradicional: Isolada pela sociedade, a protagonista tenta de todas as formas saciar seus impulsos sexuais, destruindo qualquer tipo de arquétipo comum a sua idade.
4º – Relax (Albert Brooks, 1985)
A tarefa de
fazer um filme de comédia de bom nível, mesmo que este se baseie em inúmeros
clichês do gênero, não é fácil. Porém, ‘Relax’ consegue conciliar perfeitamente
todos os pontos comuns nele, acrescentando um ótimo roteiro e atuações na
medida certa. Um ótimo ‘Rod Movie’ para qualquer hora.
A história
trazida aqui é a de David e Linda Howard. Um casal com uma vida ganha, com
ambos trabalhando em ótimos empregos, envoltos em uma rotina inexorável que
traz segurança a eles. David Howard, após oito anos de dedicação a empresa em
que trabalha, está ansioso por uma promoção que lhe fora prometida. Quando
David fica sabendo que não terá a vaga e ainda teria que mudar para outra
cidade, o homem tem um surto, insulta seu chefe e acaba demitido. A trama
central do filme toma forma quando, acusado periodicamente por sua esposa de
ser um homem extremamente precavido, David decide se desfazer de todos seus
bens, comprar um trailer e viver o resto de sua vida com a esposa viajando pela
América.
O filme não
tem medo de usar e abusar de clichês característicos das situações que os
personagens encaram. Porém, o grande diferencial aqui é saber dosar a
quantidade de informação que é passada ao público.
O que temos
na sequência dos eventos, na verdade, não é um ‘Road Movie’ em sua síntese, já
que o filme se norteia em determinados locais com mais frequência. Os clichês
utilizados vão desaparecendo na reta final do filme, as ações dos personagens
não são as que o espectador espera, indo mais a fundo, questionando determinadas
motivações que surgem nos seres humanos.
O roteiro do
filme é pontual, onde cada piada atinge o espectador de determinada forma.
Entretanto, sua maior virtude aqui, é a de propiciar diálogos complexos,
densos, onde a realidade dos personagens é questionada de maneira por vez
sutil, outras mais truculentas, mas sempre cômicas.
Já a direção
é outro ponto positivo do filme. Aqui seu diretor não tem medo de ousar em
algumas cenas, usando uma variedade de ângulos e enquadramentos pouco habituais
para filmes de tal gênero. A curta duração do filme também evidencia o ótimo
trabalho feito pelo diretor, onde cada minuto é aproveitado para contar uma
história completa em suas mais variadas formas.
O elenco
talvez seja o ponto alto do filme. O casal em questão exibe uma química
inerente, onde a cada cena os dois aparentam já saber o que o outro vai fazer,
antecipando seus atos. O timing das piadas é outro fator que pesa na hora de
transmitir ao público as situações cômicas do roteiro. No papel de Linda Howard
temos a ótima Julie Hagerty. Hagerty tira proveito de sua voz,
talvez a mais bonita entre as irritantes do mundo da sétima arte, e seu jeito
corporal de executar as cenas para ganhar seu público. No papel de David Howard
temos a figura de Albert Brooks.
É importante
isolar Albert Brooks aqui. Brooks comanda a direção, roteiro e ainda
protagoniza este filme. Todas as três atividades feitas com extrema
competência. Ousado na direção, preciso no roteiro e hilário em sua atuação. O
brilho de Brooks atuando se dá muito por estar familiarizado com as situações e
piadas ali contidas, nos propiciando uma atuação memorável.
‘Relax’ é um
filme ímpar em meio a tantas comédias dispensáveis. Inserido na inesquecível
década de 1980, o filme contém os melhores elementos da época, inserindo ainda
alguns outros, fazendo com que o filme não fique defasado mesmo 30 anos depois.
Um filme divertido que sem dúvidas vale o tempo investido.
Fugindo do Tradicional: Insatisfeitos com a forma que a sociedade lhes trata, os personagens do filme quebram os padrões e se arriscam em algo completamente desconhecido para eles. Infelizmente alguns danos causados pela sociedade são irreversíveis, e temos na figura dos dois um exemplo claro disto.
3º – Um Assunto de Mulheres (Claude Chabrol, 1988)
Podemos estar
diante do maior filme do cineasta francês Claude Chabrol. Uma obra-prima do
cinema em todos os seus âmbitos. Um filme impactante, forte, bonito, poético e
exacerbadamente emocionante. Uma viagem arrebatadora pela psique feminina
presente na primeira metade do século XX. Contamos aqui com um filme que beira
a perfeição. Direção, fotografia, roteiro e, principalmente, uma protagonista
que nos brinda com uma das maiores atuações da história do cinema, todos
perfeitos. ‘Um Assunto de Mulheres’ é tudo, menos um filme comum.
O filme vai
trazer a vida de Marie, uma mulher atraente, com dois filhos pequenos, um
marido ausente e nenhum dinheiro no bolso. Morando em um pequeno apartamento,
Marie tenta de todas as formas sobreviver. Sim, sobreviver. A luta diária é
para conseguir determinada quantia em dinheiro para poder propiciar uma
alimentação, mínima para passar o dia, para ela e seus filhos. Sua vida é
permeada de sonhos, de uma inocência perversa e uma limitação intelectual que a
atrapalha em seu cotidiano. O filme se passa durante a segunda guerra mundial,
na França ocupada pelos nazistas.
A vida de
Marie começará a tomar um rumo diferente a partir do momento em que decide
ajudar uma colega do prédio em que vive a fazer um aborto. Marie ganha uma
vitrola como recompensa e um pedaço de sabão. O ato desperta algo jamais visto
em Marie. O fato de ganhar uma determinada recompensa pelo ato é o fator menos
importante, o que comove Marie é o poder que lhe fora dado naquele momento. A
partir deste momento, da experimentação dos sentimentos jamais atingidos
outrora, a vida de Marie ganha contornos deturpados.
Em meio à
exasperação de sentimentos em Marie, temos a figura de seu marido Paul, até
então completamente ausente, que retorna da guerra. Paul é um homem desprendido
da vida, acha já ter feito o bastante nela. Sofrido o bastante. Ele não tem
nenhuma culpa em deixar a encargo da esposa o sustento da casa. Por vezes até
consegue um emprego ou outro, mas a demissão parece algo inerente ao homem. Ao
voltar da guerra, Paul percebe a figura de sua mulher mudada, o homem já não
reconhecera a esposa de que estava diante. A mulher agora emanava uma confiança
demasiada para aquela figura passiva que Paul conheceu antes da guerra. Paul
jamais iria ter o controle sobre sua casa novamente, Marie era quem reinava em
absoluto agora.
É importante
traçar o perfil do marido em questão, ele irá nortear o destino cruel de sua
esposa. Paul fora um homem que, querendo ou não, certo ou errado, voltou
marcado da guerra que estivera. Seja quem ele fosse antes da guerra, agora já
não existia mais. Ele agora demonstra extremo carinho pelas figuras dos filhos,
fazendo o possível para estar sempre próximo deles, e uma atração demasiada
pela esposa. Apesar de suas investidas, Marie parece sentir repulsa do marido.
Sexo com sua esposa já não era mais uma realidade para Paul. Em determinado
momento, Paul aborda de surpresa a esposa em uma rua vazia no meio da noite,
tentando coagi-la a fazer sexo com ele. A mulher se desvencilha de seus braços,
entoando a palavra: “Jamais! Jamais!”.
Em
determinado momento em um bar, Marie conhece uma prostituta que a indaga sobre
sua vida cautelosa e sem emoções. Marie então diz que, apesar das aparências,
não é uma mulher comum, afirmando burlar as regras fazendo abortos esporádicos.
Logo as duas desenvolvem um laço de amizade, onde uma iria elevar a outra. Os
abortos, que Marie se gabara para a prostituta até então, na realidade, fora
apenas um caso único. Entretanto, a mentira contada virá uma realidade quando
começam a chegar mulheres desesperadas a sua porta pedindo a ajuda de Marie em
troca de uma quantia razoável de dinheiro. Marie não hesita e começa a dar vida
a uma persona extra em sua rotina, essa muito mais interessante. Marie começa a
ganhar quantias relevantes de dinheiro, mudando do casebre que estava alocada
para um lugar muito melhor e mais cômodo. Ela decide, também, começar a alugar
apartamentos para prostitutas e, inevitavelmente, dá início a uma rotina de
traição com um jovem elegante, cliente de sua amiga prostituta.
Veremos a
seguir a construção de uma mulher poderosa, demonstrando uma frieza incomum na
cerne de sua pessoa. Sua preocupação com as pessoas ao seu redor é praticamente
nula, com exceção do carinho com seus filhos. Em determinado momento, uma de
suas clientes acaba morrendo em detrimento do aborto. Marie é abordada por um
dos familiares, mas não demonstra maiores preocupações fora aquelas com a sua
própria liberdade, aceitando até o dinheiro do familiar.
A direção do
Chabrol é impecável. Aqui o francês escolhe por fazer algo mais sutil nas
escolhas de cenários, construindo bem as cenas em seus locais limitados. Assim
como todas as suas parcerias com Isabelle Huppert, ele escolhe por dar a câmera
a ela. São inúmeros os enquadramentos fixos no rosto da atriz. Chabrol sabe
como encantar o público. Já seu roteiro, baseado no livro de Francis Szpiner,
escrito com Colo Tavernier,
segue a mesma linha de qualidade. Não teremos aqui uma extensão de diálogos,
porém eles são precisos. A fotografia é outra coisa que desperta atenção no
filme. Os enquadramentos, não se aproveitando do cenário, mas, sim, de seus
atores, é deslumbrante. Podemos recortar pelo menos uns três momentos que
serviriam de aula para qualquer filme, um se resume ao pôster do filme. É
impossível não se arrepiar no momento da cena.
O longa ainda
conta com uma composição de elenco regular, destacando o ator François Cluzet, interpretando o marido de Marie. Mas o grande elemento do filme é a
atuação de Isabelle Huppert. É muito fácil categorizar a
interpretação de Huppert em três fases da personagem: Antes dos crimes; Seu
Auge; e sua derrocada. A atriz consegue internalizar os diferentes nuances na
vida de sua personagem, dando em cada fase uma atuação cheia de complexidade.
Aproveitando sua química com o diretor, ela sabe os momentos certos de
intensificar a atuação. Os últimos 20 minutos de filme sua atuação alcança uma
qualidade inacreditável. A francesa é incomparável.
‘Um Assunto
de Mulheres’ é um filme ímpar até mesmo para o cenário francês de se fazer cinema.
A abordagem do filme, semelhante à usada por Mike Leigh,
em ‘O Segredo de Vera Drake’(2004), consegue colocar em pauta o “zeitgeist”
presente na época, em que mulheres oprimidas pelo machismo impregnado na
sociedade encontravam uma forma de se destacar diante de atos que infringiam as
leis da época. Uma obra-prima no sentido mais literal da palavra. São 108
minutos que não voltam mais. Ou até voltam, mas jamais vão ser experimentados
da forma que foi visto pela primeira vez.
Fugindo do Tradicional: Rejeitada pelo meio em que vive, mesmo que seja de uma forma inconsciente, a personagem de Huppert procura saciar sua sede por poder da forma que lhe é mais possível.
2º – A Criada (Chan-wook Park, 2016)
No cinema
contemporâneo muito se discute sobre a utilização exacerbada de cenas de sexo
para construir um filme. Periodicamente temos o levantamento de discussões,
como as surgidas no lançamento de ‘Ninfomaníaca’(2013), se é válido ou não
expor essas cenas. É neste cenário que entra a figura de Chan-wook Park, um dos mais talentosos diretores de nossa geração.
Park cria um
filme onde o sexo é apenas um subterfúgio para conseguir criar o clima adequado
para que a história tenha substância. Diferente de filmes como ‘Azul é a Cor Mais
Quente’(2013), onde é utilizado de forma gratuita, alheia a trama, aqui todo o
sexo contido nos 144 minutos de duração é necessário.
Utilizando
todos os elementos já conhecidos em sua filmografia, o coreano consegue
aumentar seu repertório. O diretor se aventura por um cenário onde toda a
violência presente em seus filmes anteriores tem de ser comedida. Em ‘A
Criada’, todo o brilho do filme se concentra na riqueza de seus diálogos. Junte
isso a uma parte estética quase impecável, atuações complexas e uma trilha
sonora que tem o trabalho de cadenciar o longa e teremos algo memorável. Não
direi que é o melhor trabalho do diretor, ele se equipara aos grandes filmes do
coreano, como ‘Oldboy(2003) e ‘Zona de Risco’(2000), mas, sem dúvida, estamos
diante de uma verdadeira obra-prima.
A trama
contada aqui gira em torno da vida em determinada casa, na década de 1930.
Nesta casa vivem Lady Hideko e
seu tio Kouzuki. Quando a antiga criada da casa é demitida, cabe a inocente Sook-Hee se
aventurar pelo aparente árduo trabalho que se apresenta diante dela. Teremos
ainda a presença do charmoso Conde Fujiwara que surge como um pretendente ao
amor da jovem Lady. A aura emanada da casa é sombria, não se sabe exatamente o
que acontece naquele interior. E é inserido neste ambiente que teremos a
eclosão de um verdadeiro jogo de gato e rato, onde as máscaras vão lentamente
se desfazendo, revelando as pessoas perversas que encontram-se no ambiente.
O filme é
dividido em três partes, nutrindo em cada uma delas uma atmosfera diferente. A
primeira serve para desorientar o espectador; Na segunda teremos os
esclarecimentos, passaremos a entender melhor o que está sendo exposto no filme
e; Sua última parte para dar os contornos finais à vida dos personagens ali
inseridos. Todas as partes se encaixam perfeitamente na proposta da história
que o filme se propõe a contar, baseada no romance de Sarah Waters.
O ritmo
inicial do filme é lento em seu início. A primeira parte é toda composta por uma
temperatura morna, onde o filme se limita mais em introduzir o espectador ao
seu universo do que colocar dinamismo na trama. O ritmo vai aumentando
gradualmente e, já no início da segunda parte, o filme compreende uma
velocidade que faz com que o espectador esqueça do tempo. É importante fazer
essa ligação entre a frequência do ritmo à sua trilha sonora. Yeong-wook Jo
talvez tenha chegado ao seu auge e, em mais uma colaboração com o diretor, faz
um trabalho incrível. Aqui ela segue a trama do começo ao fim, lhe dando
sustentação. Em seu início é discreta, nós só vamos começar a notar a trilha no
exato momento em que começamos a ficar realmente interessados no que o filme
tem a contar. A sua timidez do início é trocada por uma efusão de emoções na
última hora de filme, sem, entretanto, sobrepujar a trama.
A parte
estética do filme é outro ponto de destaque. A direção é firme, procurando
sempre dar o que há de melhor ao filme em um conglomerado de ângulos
diferentes. Talvez a única ressalva feita a direção de Park seja a de, às
vezes, alternar seu estilo, recorrendo a um padrão ‘Dogma 95’. Vale expor
também o belo trabalho feito pela equipe inteira no filme, destacando a
cinematografia(Chung-hoon Chung), design de produção(Seong-hie Ryu), figurino(Sang-gyeong Jo) e o setor de maquiagem(Jong-hee Song). Toda a junção do ótimo trabalho dos
profissionais responsáveis é preponderante para o sucesso do filme.
O elenco
também está ótimo. A química presente nos quatro integrantes, responsáveis pelo
andamento da história, é muito boa. Temos Jin-woong Jo interpretando o tio da protagonista, um homem mais velho do que o ator,
e, mesmo com pouco tempo em tela, é fundamental para o desfecho da história. Jung-woo Ha e Tae-ri Kim, como Conde Fujiwara e Sook-Hee respectivamente,
conseguem dar substância a seus personagens. Porém, quem brilha no filme é Min-hee Kim(Lady Hideko). A atriz logra sucesso em fazer uma camaleoa. Em cada
parte do filme a atriz assume uma persona diferente, somente permanecendo igual
no filme inteiro a sua sensualidade inerente a ela.
Um belo filme
em todos os seus âmbitos. Chan-wook Park mostra com esse trabalho que seu talento transpõe determinados gêneros,
realizando um drama intenso, sem perder uma sutileza recorrente em toda a
duração do filme. Um filme que não teme em ser duro e mostrar um universo sádico,
onde as inúmeras formas de perversões contidas ali são tão normais e
necessárias quanto se alimentar. ‘A Criada’ é uma obra que merece ser degustada
por seu espectador.
Fugindo do Tradicional: Veremos na casa em que a trama se passa um ambiente completamente deturpado ao que o mundo lá fora permite, onde as perversões sexuais ganham contornos inconcebíveis aos olhos de um indivíduo comum.
1º – A Balada de Narayama (Shôhei Imamura, 1983)
Contendo uma história bizarra, ‘A Balada de Narayama’ é um
filme que explora as diferentes trajetórias que uma sociedade pode tomar, e o
quão estranho seus costumes e normas morais podem soar para aqueles que não
estão inseridos ali. Uma viagem pela composição do ser humano e as normas e
implicações que a vida em sociedade nos obriga a seguir.
O filme é baseado no romance de Shichirô
Fukazawa, contando a história da vida em determinado vilarejo
rural do século XIX. Entre os diversos costumes estranhos daquele lugar, um
acaba destacando-se. É implícito no local que, assim que completar 70 anos de
idade, os indivíduos deveriam ser guiados até o topo de uma montanha para serem
atirados. O filme desenvolve sua trama a partir das implicações que isto causa
na vida de uma senhora de 69 anos, prestes a completar 70, e na vida daqueles
que a cercam.
A vida dentro daquela comunidade é um verdadeiro martírio
para todos ali inseridos, sobreviver é uma grande vitória para aquelas pessoas.
Os hábitos nada convencionais vão desde obrigar a esposa a transar com todos os
homens da vila para afastar um fantasma da residência, até, em outro caso,
pedir à esposa que transe com seu irmão, homem aquele que nenhuma mulher nem ao
menos chega perto, para que o mesmo não destrua os negócios da família por
falta de sexo.
A direção de Shôhei
Imamura é um fator preponderante para criar a atmosfera
adequada à história. Aqui o diretor entrega cenas cruas, explorando ao máximo o
desprezo que determinadas situações causam no espectador. Entretanto, a genialidade
do diretor se deve em evidenciar a vida natural acontecendo ao redor do
vilarejo. A natureza reflete de forma idêntica a luta diária que passam os
habitantes do lugar. Imamura preenche o filme com diversas cenas de
acasalamentos e a luta pela sobrevivência de diversos animais. Porém, nem só de
elogios se faz a direção. A decisão de utilizar uma atmosfera crua, utilizando
longas cenas, acaba por tornar o filme um pouco entediante, fazendo pesar os
130 minutos de duração.
A composição do elenco é outro quesito que deixa a desejar
no filme. Seus integrantes acabam tendo atuações muito exageradas, destoando da
atmosfera criada pelo diretor. A exceção ao caso se deve a Ken Ogata,
protagonista do filme. Ogata tem uma atuação suave, acompanhando o clima
proposto pelo ambiente, usando da intensidade nos momentos certos. Sem dúvida a
performance de Ogata não se compara às suas atuações em filmes como ‘Minha
Vingança’(1979) e ‘Mishima – Uma Vida em Quatro Tempos’(1985), mas acaba sendo
o destaque no filme.
Muito maior do que é vendido quando recomendado, ‘A Balada
de Narayma’ transpõe seu tema central, não se resumindo apenas em questionar a
forma como uma sociedade descarta seus idosos, isolando-os como se estes já
estivessem mortos. Não, aqui o filme traz algo muito maior. Ele investiga as
motivações humanas para determinados atos, e, colocando a natureza como sua
testemunha, nos responde de forma brutal como nossas ações são cíclicas,
mudando apenas a sua forma.
Fugindo do Tradicional: Extremo é a palavra que melhor define a forma como esse vilarejo é concebido. O filme questiona a definição da palavra ‘normal’ de uma forma poucas vezes vista no cinema.