Nutrindo um
roteiro fraco, ‘Chove Sobre Nosso Amor’ é praticamente ausente dos elementos
que caracterizariam a carreira de Ingmar Bergman. Um filme que peca pela
confusão em sua história, nos personagens mal construídos, no ritmo
extremamente irregular e na edição fraca. Ainda teremos soluções superficiais
para problemas narrativos e uma introdução pouco habilidosa de situações
cômicas.
O filme vai
nos trazer a história de Maggi e David, duas pessoas que se conhecem após uma
jogada do acaso. Os dois logo desenvolvem um relacionamento de carinho e amor
entre si, lutando contra os percalços que a vida lhes oferece. A trama do filme
se concentrará nessa luta dos dois para conseguirem construir suas vidas em
meio às limitações financeiras e o ódio social.
Desde seu
início o filme sofre com a falta de ritmo em seus desmembramentos. Não há aqui
uma conjunção de fatores aceitáveis que liguem o casal do filme. A relação dos
dois é consumada de uma forma muito apressada, não passando veracidade ao
espectador. Isto é evidenciado pela quantidade praticamente nula de diálogos
entre os dois no início do filme.
Teremos um
tom bastante novelesco durante todo o filme. E isso passa longe de ser algo
positivo. Teremos grandes clichês(já naquela época) como, por exemplo, a
ingenuidade latente dos protagonistas, a figura de um antagonista mostrada por
meio de enquadramentos fechados, onde o personagem revela caras e bocas
tradicionais, e o retorno de elementos do passado dos personagens que assombram
o presente e colocam em risco o futuro de suas vidas.

É trabalhado
pelo filme também a figura de um narrador que quebra a quarta parede, falando
diretamente conosco em alguns momentos. A primeira aparição do narrador e sua
conversa com o público é positiva, norteia alguns caminhos do filme.
Entretanto, o narrador demora a voltar a aparecer e quando o faz acaba soando
como um recurso superficial para esconder, ou preencher, buracos no roteiro.
Em algumas
entrevistas durante sua vida, Ingmar Bergman confessou o sentimento de dívida
em meio as suas investidas em filmes de comédia, achando que suas obras do
gênero deixaram a desejar. Aqui esses problemas aparecem também, embora seja
uma obra que se aloque no gênero dramático. E eles são bem evidentes.
Já na reta
final do filme entraremos em um emaranhado de cenas introduzidas na história
que tentam ser cômicas, a fim de aliviar um pouco a carga dramática. Essas
cenas são extremamente fracas e previsíveis, com piadas ruins e um humor físico
sofrível.

A direção do
sueco é ruim, assim como o todo, porém deixa um leve esboço do que o cineasta
eternizaria nas suas maiores obras. De uma maneira bem rápida, temos o
protagonista destilando toda sua angústia quanto aos rumos ingratos que sua
vida acaba levando, onde Bergman utiliza um enquadramento deixando o ator em
evidência em relação ao ambiente. Não é algo semelhante, por exemplo, aos
enquadramentos perfeitos que Sven Nykvist
levaria ao extremo em filmes como ‘Persona’(1966) e ‘Gritos e Sussurros’(1972),
mas já é algo mais comum ao cinema de Bergman.
E, já que
lembrei do maior nome da história do cinema quando falamos em cinematografia,
vale adentrarmos na fotografia deste filme aqui, feita por Hilding Bladh e
Göran Strindberg.
Passaremos longe de termos um trabalho ruim, mas não há nada que se destaque e
chame a atenção do espectador. Os quadros não possuem uma profundidade natural
e acabam por não causar uma sensação de imersão no espectador. É claro que a
limitação territorial imposta pelos ambientes norteia a possibilidade de Bladh
e Strindberg fazerem algo que se destaque.
Outro ponto
negativo do filme é a edição precária de Tage Holmberg.
As cenas parecem não se ligar muitas vezes. Já em outras, o corte acaba sendo
abrupto demais, não deixando as tomadas prosseguirem até seu final. Toda essa
incompetência da edição fica bem latente na cena final do filme.

O elenco do
filme está regular. Temos Barbro Kollberg e Birger Malmsten nos personagens centrais do filme.
Ambos estão bastante empenhados em seus papéis, porém acabam pecando em alguns
momentos ao usar um tom muito teatral nas suas performances. Ainda contamos no
final do filme com uma pequena participação do excelente Gunnar Björnstrand. Em poucos minutos de tela o ator consegue ser o único elemento do
filme inteiro que obtém sucesso em sua investida, conseguindo soar bastante
engraçado na caracterização de seu personagem.
‘Chove Sobre
Nosso Amor’ seria um filme completamente esquecido poucos anos após seu
lançamento se não fosse dirigido por Ingmar Bergman. A obsessão por tudo que o
sueco realizou em sua carreira nos leva até este filme. E, apesar dos inúmeros
equívocos intrínsecos a sua substância, o filme merece ser assistido. Podemos
ver nele um pouco do “zeitgeist” presente na Suécia da época. Bergman também
assina o roteiro, mas passa longe de escrever algo com total liberdade.
Nota CI: 5,3 Nota IMDB: 6,8
Filmografia:
CHOVE Sobre
Nosso Amor. Direção: Ingmar Bergman. 1946. 95 min. Título Original: Det regnar
på vår kärlek.
GRITOS e
Sussurros. Direção: Ingmar Bergman. 1972. 91 min. Título Original: Viskningar
och Rop.
PERSONA.
Direção: Ingmar Bergman. 1966. 85 min.