Criando uma
atmosfera diferente da que está acostumado, David Cronenberg entrega ao
espectador neste filme uma história sobre como o passado pode ser sobrepujado,
mas jamais esquecido. Um filme que adentra ao conceito da violência desmedida
que eclode dos menores detalhes. ‘Marcas da Violência’ utiliza a figura de uma
pequena cidade ou a construção de uma família feita com mentiras para conseguir
empreender o ritmo necessário ao filme. Não teremos uma trilha sonora marcante,
um cenário vivo ou o conceito de fetichismo explorado como é comum ao cinema de
Cronenberg. O que está sempre presente no filme, durante os seus 96 minutos de
duração, é o tom visceral que emana a cada gesto do protagonista. Está presente
aqui o conceito de estilização da violência como um todo.
A história do
filme vai nos levar até uma pequena cidade dos Estados Unidos. Nesta cidade
adentraremos a vida de Tom Stall e sua
família, composta por sua esposa, Edie, e seus dois filhos, Jack e Sarah. A
trama ganha força quando uma dupla de assassinos tenta roubar o restaurante
onde Stall trabalha. Ambos os assaltantes são mortos por Stall, e o homem logo passa
a ser considerado o herói da cidade, tendo sua foto vinculada a jornais físicos
e televisivos. O problema é que essa exposição exacerbada vai trazer à tona um
passado que Stall gostaria de deixar esquecido.

O ritmo
inicial do filme é bem lento, instigando o espectador a adentrar ao ambiente
onde a família vive. É trazido para a tela a maneira tranquila com que Stall
leva sua vida no lugar, seu relacionamento de carinho com a esposa e filhos e
sua química com a cidade e seus moradores. A figura da violência que invade o
local para tirar a paz que Stall conservara é colocada no filme aos poucos.
A partir do
momento em que a violência penetra a realidade do filme, é importante notarmos
a transformação forçada que nosso protagonista passa. Após Stall ser obrigado a
matar duas pessoas em seu restaurante e os fatos de seu passado começarem a
assombrá-lo, o homem se vê contra a parede. É aí que encontraremos a figura do
animal colocado contra a parede, onde acontece uma erupção das nossas pulsões
instintuais trancafiadas pela vida em sociedade. Temos uma ligação clara entre
os personagens de Stall e o de David Summer, no icônico ‘Sob o Domínio do
Medo’(1971). Ambos os personagens são produtos de uma sociedade moderna, cada
um de sua forma, domesticados, instruídos a abandonarem suas naturezas. Quando
encurralados por diferentes situações, os personagens sofrem um processo de
mutação, abandonando os conhecimentos aprendidos de outrora para tentar
preservar suas vidas.

O filme ainda
mostra a figura deste passado que Stall tanto tentou exterminar, voltar e tomar
conta do homem. Stall passa a ter que separar essas duas personas que tomam
conta dele, uma do homem social e engajado na proliferação da paz e, a outra,
de um homem regido completamente por sua carga inconsciente, trabalhando
unicamente por satisfazer suas pulsões.
Já partindo
para o campo da direção, comandada por David Cronenberg, teremos um trabalho
mais sutil. Cronenberg cria um filme que segue uma linha atmosférica fria, onde
a violência explode de repente e, logo depois, toda a calmaria habitual retorna
ao local. Esse filme foge bastante do universo proposto por David Cronenberg, sem,
no entanto, ser algo completamente inédito empreendido pelo diretor. Cronenberg
trabalhou com essa atmosfera bem semelhante em filmes como ‘Spider – Desafie
Sua Mente’(2002) e ‘Mapa Para as Estrelas’(2014).
Outro fator
que causa espanto a primeira vista é a quase ausente trilha sonora de Howard
Shore. Aqui todas as composições usadas são bem discretas, pontuando apenas
alguns fragmentos do filme. Essa ausência faz muita falta ao filme, mesmo sendo
proposital para causar uma imersão ao ambiente e as situações exploradas.

O elenco do
filme conta com Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris
e William Hurt em seu eixo principal. Mortensen, assumindo o
comando do filme, tem uma atuação muito boa, sabendo fazer essa caracterização
do indivíduo que sofre com essa separação entre passado e presente. Bello e
Harris também seguem o padrão proposto pelo protagonista, sem, no entanto,
jamais conseguirem se destacar no filme. E temos também uma pequena, mas não
menos importante, participação de William Hurt. Hurt tem algo em torno de 5
minutos em tela, porém consegue deixar sua presença registrada.
‘Marcas da
Violência’ consegue alcançar o sucesso nas suas investidas em mostrar alguns
aspectos intrínsecos ao ser humano que, mesmo com o distanciamento de sua
natureza, acaba, nos momentos mais intensos, recorrendo a ela para reger seus
atos. Um filme relativamente curto, mas que se faz completo em detrimento do
assunto abordado. Boas atuações e uma direção sempre eficiente de David
Cronenberg completam a beleza do filme.
Nota CI: 6,8 Nota IMDB: 7,5
Filmografia:
MARCAS da
Violência. Direção: David Cronenberg. 2005. 96 min. Título Original: A History
of Violence.
SPIDER –
Desafie Sua Mente. Direção: David Cronenberg. 2002. 98 min. Título Original:
Spider.
MAPA Para as
Estrelas. Direção: David Cronenberg. 2014. 111 min. Título Original: Maps to
the Stars.
SOB o Domínio
do Medo. Direção: Sam Peckinpah. 1971. 113 min. Título Original: Straw Dogs.