Responsável
por nortear e solidificar uma nova vertente ao conceito de criaturas mortas que
retornam à vida procurando por carne humana, denominadas popularmente de
Zumbis, ‘A Noite dos Mortos-Vivos’ acaba se caracterizando por ser uma obra
crua, muito parecida com sucessos posteriores do gênero realizados com a mesma
limitação orçamental. George A. Romero, na sua primeira direção de longa-metragem,
realiza aqui um trabalho hercúleo, dando quase todos os toques necessários que
o orçamento pequeno não propiciou ao filme.
A trama do
filme vai nos trazer a história de um grupo de pessoas que se veem presas em
uma casa de campo quando parte da população começa a se comportar de maneira
estranha, atacando os outros e se tornando praticantes do canibalismo. O filme
se concentrará, durante seus 96 minutos de duração, na luta dessas pessoas por
se manterem vivas e entenderem o que está acontecendo com aquela parte da
população.

O filme não
entrega muitas explicações sobre o que está acontecendo no lugar. A proposta do
roteiro, escritor por Romero e John A. Russo, é fazer com que o espectador saiba exatamente a mesma coisa que os
personagens do filme. Essa decisão favorece o sentimento de imersão a obra por
parte de quem a assiste. Nos sentimos desorientados e frágeis, assim como os
personagens, procurando descobrir em cada fragmento de explicação que o filme
oferece o necessário para juntar as peças desse enorme quebra-cabeça que segue
a trama.
O avançar do
filme vai desnivelando alguns dos mistérios acerca dos estranhos acontecimentos
do lugar. É sempre por meio da figura da televisão que somos informados da
magnitude dos conflitos. Essa exacerbação no uso da televisão como instrumento
para preencher lacunas do roteiro irrita em determinados momentos. Porém, nem
todos os mistérios são destrinchados pelo filme no que diz respeito a seus personagens.

Os
personagens do filme jamais são introduzidos da maneira comum, entregando suas
histórias de vida e suas personalidades. Não. Aqui os personagens são jogados
em tela, sem histórias anteriores, não sabemos suas motivações ou suas
constituições como pessoas. Isso é extremamente benéfico para a atmosfera de
distanciamento entre personagens e espectador que o filme propõe. Essa falta de
conhecimento das pessoas que permeiam aquele ambiente somente aumenta a
sensação de imersão àquele cenário devastado, invadido por criaturas comedoras
de carne.
A visão que o
filme faz de zumbis é extremamente crua para os padrões conhecidos atualmente.
No entanto, foi exatamente essa visão de Romero que iniciou toda uma construção
de um novo arquétipo sobre o tema. Obviamente não é o primeiro filme sobre o
tema, a origem oficial de zumbis no cinema é oriunda da década de 1940, mas é o
responsável por difundir toda essa cultura.

Romero
utiliza em sua direção um ritmo mais lento, utilizando muito de enquadramentos
desconexos, com uma cinematografia um tanto quanto psicodélica, que evidencia a
bizarrice que permeia os acontecimentos do local. Esses enquadramentos foram
bastante característicos do gênero na década, junto com a edição frenética que
consegue fazer uma colagem rápida dessas cenas. E é exatamente com essa figura
da edição que o filme consegue seu maior acerto. Esse tipo de edição teve seu
ponto alto na década de 1960 no filme ‘Repulsa ao Sexo’(1965), de Roman
Polanski, e Romero soube pegar essas referências para fazer seu trabalho.
Romero fez o trabalho hercúleo de comandar todos esses elementos
citados(direção, roteiro, cinematografia e edição). O diretor ainda escolhe em
determinado ponto do filme em impor o “gore” ao público, utilizando cenas
extremamente simples, mas que conseguem exercer bem seu papel na história.
Um ponto que
talvez deixe um pouco a desejar é o uso contido da trilha sonora. Grandes obras
do gênero, com pequenas exceções, como o magnífico ‘O Massacre da serra
Elétrica’(1974), são sempre pautadas em uma trilha sonora robusta. E é
exatamente esse elemento que falta aqui. Ela é até usada com competência em
alguns momentos, mas é nas cenas com ausência de ação que a sua falta acaba
prejudicando muito o filme.

O elenco
acaba não se fazendo essencial para o desenvolvimento do filme. Aqui temos uma
conjunção de atores medianos e ruins dando vida a diversos tipos de
personagens. Suas atuações se limitam a ações físicas e gritos, algo que o próprio
filme fornece a eles. E, para isso, todos ali estão bem.
‘A Noite dos
Mortos-Vivos’ é um filme regular em sua completude. O belo trabalho de Romero é
o que dá brilho ao filme e o faz como essencial no cinema de horror. O diretor
escolhe por nos presentear com uma obra extremamente autoral, realizada com
muito empenho e competência. Essa onda gigantesca da cultura zumbi hoje em dia,
se é que podemos chamar assim, jamais atingiria tais pontos sem este filme.
Nota CI: 6,3 Nota IMDB: 7,9
Filmografia:
NOITE dos
Mortos-Vivos, A. Direção: George A. Romero. 1968. 96 min. Título Original: Night of the Living Dead.
REPULSA ao
Sexo. Direção: Roman Polanski. 1965. 105 min. Título Original: Repulsion.
MASSACRE da
Serra Elétrica, O. Direção: Tobe Hooper. 1974. 83 min. Título Original: The Texas Chain Saw Massacre.