Nutrindo uma
atmosfera imersiva, tratando por evidenciar o mundo atraente que permeia a
proliferação de determinadas lendas urbanas, ‘O Mistério de Candyman’ é um dos
filmes de terror mais potentes da década de 1990. Um filme que traz com seu
clima decadente toda a sujeira que emana do convívio social tangido pelo
preconceito em algumas cidades. Junte tudo isso a uma protagonista forte e
obcecada pelos desmembramentos dos mistérios do filme e uma trilha sonora
fabulosa e você terá uma obra irresistível.
A história do
filme se concentrará em uma grande lenda urbana acerca de um espírito maligno,
intitulado de ‘Candyman’. Candyman, diz a lenda, assombra uma pequena
comunidade carente, esquecida pelo mundo, onde no passado havia sofrido uma
terrível vingança. Candyman é um homem negro, com um gancho no lugar de uma das
mãos e coberto por abelhas. A trama do filme ganhará força quando duas
estudantes decidem fazer um artigo para sua universidade sobre o famoso mito.
Os problemas começam a aparecer quando uma das mulheres acaba ficando obcecada
com seu artigo, disposta a ir até as últimas consequências atrás de respostas.
Desde os
primeiros minutos de filme já podemos prever o quanto a obra se baseará na
construção de sua atmosfera para dar densidade à história. Somos inundados com
uma cinematografia fria, onde exploramos ambientes que parecem sem vida e
circundado por poucos indivíduos. Essa atmosfera decadente causa uma imersão
instantânea do espectador em sua história.

Os
desnivelamentos da história não são acelerados como é tradicional no gênero.
Temos a oportunidade ímpar de nos aprofundarmos no que consiste a personalidade
de nossa protagonista, uma mulher com uma sede inabalável por reconhecimento.
Toda a motivação da criação de seu artigo para a universidade parece ser iniciada
pela ambição da mulher em ter seu nome colocado em evidência no meio a qual
está inserida.
A aproximação
da mulher no mundo que tange as lendas urbanas é construída naturalmente pelo
filme. Pouco a pouco a mulher vai ficando presa no emaranhado que permeia o
mistério da lenda a qual se dispôs a estudar. Ela começa a descobrir que essa
lenda urbana poderia ter mais substância do que achara outrora. E é a partir
desse momento que o ritmo do filme começa a aumentar e a saúde mental da
protagonista a diminuir.
Vale
apontarmos para a forma de como o filme se pressupõe a abordar o universo das
lendas urbanas. Não teremos aqui algo superficial, como ficaria evidenciado em
filmes posteriores da década, todo o mistério da história é composto por várias
camadas, desde a obsessão da protagonista até os desmembramentos da lenda em
questão.

A derrocada
que a protagonista acaba enfrentando em sua investida é cruel em todos os seus
níveis, quando veremos todas as figuras que lhe davam conforto em sua vida
pessoal se afastarem ou serem destruídas pela obsessão destrutiva na mulher. É
nesse momento que encontraremos o ponto alto do filme, onde há um aumento da
tensão. Os sustos passam a ocorrer naturalmente, porém o que mais causa medo
são os nuances construídos pela história.
A direção de Bernard Rose é muito boa em todos os seus desnivelamentos. A forma como o diretor
constrói cada espectro de temor no espectador, com o auxílio de seu roteiro,
baseado em uma história de Clive Barker, é fantástica. Rose utiliza a figura
climática para impelir sensações em quem assiste a história. Outro ponto que
merece destaque é toda a ambientação onde ocorrem os fatos mais relevantes da
história, no bairro de Cabrini-Green, um lugar esquecido por deus. O lugar por
si só já emana uma aura assustadora incrível. Todas as construções dos cenários
são extremamente bem conduzidas. E, claro, todo esse trabalho competente de
Rose não seria possível sem a trilha sonora contemplativa.

Comandada por
Philip Glass, a
trilha segue um padrão suave, servindo para capturar a atenção do espectador em
toda aquela atmosfera fria e defasada do filme. E essa suavidade passa longe de
ser algo que não transmita a sensação de medo em quem assiste. Essa suavidade
só é quebrada nas cenas onde ocorre a utilização de “jump scares” pelo diretor,
porém passa longe de perder sua consistência.
Já no campo
do elenco, muito do brilho do filme se concentra na figura de Virginia Madsen, a protagonista. Madsen transpõe ao público todo o caráter forte de sua
personagem, se fazendo inquieta com sua atual situação na vida, sempre
procurando se elevar perante seu meio acadêmico. A atriz é suave em sua
atuação, mesmo passando toda essa força em seus atos, fazendo nos sentirmos
compadecidos com seu processo de inserção na loucura que caracteriza a lenda. O
resto do elenco também se faz muito bem, com destaque para a presença de Tony
Todd que consegue adentrar em toda a mística de seu personagem.
‘O Mistério
de Candyman’ é um ótimo filme de terror. Um filme que não recorre às maneiras
superficiais de espantar o espectador, algo que fica explícito na cena do
banheiro em Cabrini-Green, procurando sempre pela melhor forma de provocar medo
de forma inerente. A trilha sonora, cinematografia, atores e etc, tudo é
colocado para dar a melhor adaptação possível ao que o roteiro nos traz.
Nota CI: 7,2 Nota IMDB: 6,6
Filmografia:
MISTÉRIO de
Candyman, O. Direção: Bernard Rose. 1992. 99 min. Título Original: Candyman.