Abordando os
diferentes nuances que tangem os conceitos de loucura, Samuel Fuller tenta aqui criar uma história atraente sobre um jornalista dominado
pela ganância e derrotado por ela. ‘Paixões Que Alucinam’ é uma obra
impactante, não ausente de generalizações superficiais, que consegue dar um
olhar mais atento aos diferentes tipos de arquétipos dos acometidos por
diferentes transtornos mentais.
A história
contada pelo filme gira em torno de Johnny Barrett,
um jornalista espirituoso e inconsequente, que decide armar todo um plano para
ser internado em um hospital psiquiátrico onde um assassinato não resolvido
havia acontecido. A motivação do homem é simples, desvendar o mistério e ganhar
um enorme reconhecimento em seu ramo após escrever um artigo sobre o fato. A
trama do filme vai se concentrar nos passos de Johnny dentro do hospital, sua
busca pelos desnivelamentos do assassinato e seu contato com a loucura ali
dentro.
O filme
começa com a seguinte frase dita pelo poeta grego Eurípides: “Aqueles que deus
deseja destruir, ele primeiro os leva a loucura”. E é baseado nessa frase
inicial que o filme vai construir toda a sua substância. Aqui são questionados
os limites aceitáveis de uma vontade de poder desmedida. A figura da loucura
surge como uma espécie de praga punitiva pelos pecados cometidos pelo
protagonista.

Toda a
construção do filme acontece em um ritmo praticamente idêntico durante os 101
minutos de sua duração. Esse ritmo não chega a ser lento, mas em alguns
momentos fica claro que a trama tiraria proveito de uma agilidade maior. O
protagonista vai seguir uma linha narrativa única, explorando e sendo
introduzido nas vidas de diferentes indivíduos inseridos no lugar.
A tentativa
inicial bem-sucedida do homem em transparecer um estado mental deteriorado lhe
dá um passaporte para caminhar e ser aceito pelos pacientes do local,
explorando seus medos, angústias e prazeres, sempre com o intuito final de
conseguir os elementos para desvendar o assassinato. E é por meio desses
diversos contatos de Johnny no interior do local que talvez tenhamos o ponto
alto do filme, nos trazendo a constituição de vida de alguns dos pacientes do
hospital.
Conheceremos
o jovem veterano de guerra atormentado pelo que viu, chegando a desenvolver uma
obsessão nos construtos militares. Já em outra ponta teremos um jovem negro
que, devido as constantes violências físicas e psicológicas sofridas em sua
vida por sua cor, desenvolve outra personalidade, sendo agora um indivíduo que
sente ódio dos negros, pregando violentamente contra eles. E, por fim, somos
apresentados brevemente a um paciente que utiliza parte do seu tempo no lugar
pintando diferentes coisas, mas que possui uma regressão a infância quando
colocado sob algum tipo de pressão.

É por meio de
todo esse contato com a loucura que Johnny acaba se familiarizando com ela de
uma forma negativa. Naquele ambiente todos acabam agindo sempre no limite.
Qualquer tipo de gesto pode ser o ponto de partida para uma grande confusão
entre os pacientes no lugar. O filme sabe mostrar essa exacerbação que impera
no lugar. E todo esse contato demasiado com o lugar acaba sobrepujando a
motivação inicial de Johnny, despertando no homem um completo senso de
confusão, o levando a quebrar seu contato com a realidade em alguns momentos.
Pouco a pouco
Johnny vai sendo consumido pela loucura. Fuller evidencia a loucura como um
vírus que se espalha pelo ar. Todos naquele ambiente estão contaminados,
inclusive os médicos e enfermeiros. É esse paralelo que o filme faz, mostrando
como o ambiente determina o nosso desenvolvimento. É mostrado aqui como o meio
que nós vivemos determina inabalavelmente nossa completude como indivíduos no
mundo. O conceito de livre-arbítrio é descartado por Fuller.

A direção do
filme acaba seguindo uma estética defasada de se construir as cenas, parecendo
algo oriundo da década de 1940. Fuller escolhe também por montagens de cenas
diversificadas, tentando sempre utilizar enquadramentos que evidenciam a
loucura presente em cada indivíduo do hospital psiquiátrico. Vale destaque para
a sequência em que o protagonista sonha com sua namorada. Os recursos
utilizados ali, a colagem de duas cenas em dimensões diferentes, acaba
incomodando e se fazendo um pouco longa demais, porém se faz necessária para o
que o filme nos propõe.
O elenco do
filme está bem. Todos os componentes conseguem se enquadrar perfeitamente nos
personagens que lhes foram oferecidos. Nenhum ator acaba pecando pelo excesso,
algo que seria plausível em personagens tão intensos, não dando um ar muito
teatral ao filme.
‘Paixões Que
Alucinam’ é um filme regular que, pelo tema abordado, se faz necessário para
resgatar um pouco da história entre essa relação entre loucura e cinema. Mesmo
com a estilização de algumas situações, para que o filme se torne mais
palatável e se enquadre em um modelo comum de cinema da década, Fuller entrega
uma visão interessante sobre o assunto.
Nota CI: 6,5 Nota IMDB: 7,5
Filmografia:
PAIXÕES Que
Alucinam. Direção: Samuel Fuller. 1963. 101 min. Título Original: Shock Corridor.