Utilizando de
um ritmo cadenciado durante todos os 147 minutos de duração, Wim Wenders
entrega com este filme a grande obra-prima de sua filmografia consagrada.
‘Paris, Texas’ aborda a vida em suas mais diferentes formas. Um filme que traz
a essência fundamental de um “Road Movie”, mesclado com um tom melancólico
presente em toda a obra.
O filme
começa abordando a vida de Travis Henderson,
que, após ficar mais de quatro anos desaparecido, é achado vagando sem rumo
pelo deserto. Seu irmão, Walt Henderson,
fica incumbido de ir ao encontro de Travis para trazê-lo de volta a sua casa.
Aos poucos, assim como o protagonista, vamos assimilando tudo o que acontece
naquele ambiente. Travis vai recuperando sua saúde mental e física e tem a
difícil missão de reatar o laço com seu filho pequeno, Hunter, que tinha
abandonado após desaparecer. Hunter não fora somente abandonado pelo pai, sua
mãe também decidira por deixá-lo aos cuidados de Walt e sua esposa, a fim de
não comprometer o desenvolvimento da criança. A trama ganhará sua essência
quando Travis decide reencontrar Jane, sua esposa, junto com seu filho.

O início do
longa é marcada pelo ritmo lento, onde serão explorados todos os nuances que
acabam por reger esse aparecimento misterioso de Travis do meio do nada. Todas
as suas motivações, assim como a de seu irmão, são suprimidas do espectador,
nos deixando tão perdidos quanto Travis aparenta estar. Travis parece ter
perdido sua sociabilidade, agindo de forma desconexa e não pronunciando uma
única palavra.
Essa carga
misteriosa do protagonista é transmitida até nós. Vamos nos habituando ao seu
modo estranho de agir e ao seu tom silencioso. Esse silêncio propiciado pelo
protagonista acaba se transmitindo para toda a atmosfera inicial do filme.
Veremos unicamente a figura daquele clima escaldante do lugar e Walt tentando,
sem sucesso, fazer o irmão dizer o que acontecia com ele.
O silêncio de
Travis somente é quebrado quando ele encontra no irmão o esboço necessário de
segurança do qual necessitava. Essa quebra do silêncio trabalha também por
quebrar todo esse ritmo lento empreendido pelo filme. Seguiremos então na
jornada de Travis e Walt de volta para casa. E com isso vemos emanar dos dois
personagens toda a preocupação que essa volta de Travis para o lugar que
abandonara outrora iria implicar na vida de todos.

O retorno do
homem ao convívio social é facilitado pela recepção atenciosa da mulher de
Walt. O filho de Travis parece um tanto quanto perdido pela situação, sem saber
como agir diante daquilo. Hunter acaba nutrindo um esboço de raiva diante desse
pai ausente. Esse esboço de raiva é atenuado pela simples falta de lembranças
do menino pela figura desse pai. Walt e sua esposa passaram a ser mãe e pai do
menino. O processo de aceitação de Hunter por essa nova figura de pai ocorre de
maneira rápida e natural. Tanto Travis quanto Hunter encontram na inabilidade
social o fio que lhes aproximam.
Travis acaba
passando por um processo de mutação em novamente um ser social. Esse contato
acolhedor com a família facilita que o homem recupere, em seu próprio ritmo,
algo que escolhera deixar para trás quatro anos antes. E essa recuperação de
sua saúde mental é evidenciada em uma das cenas mais simbólicas do filme,
quando Travis atravessa uma ponte e encontra a figura de um homem completamente
atormentado gritando coisas sem nexo. Travis se dá conta neste momento do que
fora meses antes, vendo no homem uma espécie de espelho e se compadecendo
disto. Medo e aversão surgem no protagonista. Aversão pelo que havia sido
durante um fragmento de sua vida e medo de que isto não tenha se acabado por
completo. E esse medo será fundamental para os desnivelamentos finais da obra.

A essência
“Road Movie” do filme é responsável por evidenciar a aura “deveniente” que a
relação entre Travis e Hunter é concebida. A confusão intrínseca aos
personagens, por diferentes motivos, acaba incitando os mesmos a encontrarem o elo
perdido que talvez propicie o conforto necessário. Esse elo é a figura de Jane.
Somente ela poderia providenciar essa recuperação do buraco na vida de Travis e
Hunter. E a jornada dos dois pela busca da mulher é linda. Veremos surgir nessa
jornada os sentimentos de aceitação e amor nos protagonistas.
O encontro de
Travis e Jane é uma das cenas mais impactantes já feitas no cinema. Tudo que
envolve a construção dessas cenas, separadas em dois momentos em um único
ambiente, acaba arrepiando quem as assiste. A intensidade do filme, que até
então era mais tranquila e suave, acaba se elevando consideravelmente. As
conversas entre Jane e Travis, separadas por um espelho do o que aparenta ser
uma casa de “strip-tease”, típico de cenas de interrogatórios policiais, onde
só um lado consegue ter pleno acesso visual ao outro, são permeadas por um tom
nostálgico inicialmente por parte do homem, já que a mulher não sabe com quem
está falando.
Essa primeira
conversa elenca no homem a terrível conclusão de que tudo que ele tinha
planejado para este momento jamais poderia ser levado adiante. A figura do
passado turbulento dos dois, regido pelo tom obsessivo de ambas as partes,
acaba por regressar no cérebro do homem. Pela primeira vez, Travis se dá conta
que ali se encontram dois seres incompatíveis e autodestrutivos quando juntos.

Já a segunda
conversa, onde ocorre a revelação de Travis para Jane, é norteada por um tom
completamente diferente. Ambos, diante do espelho limitador, passam por um
processo catártico, despejando um sobre o outro todo o material reprimido
durante esses quatro anos de separação. Veremos finalmente o que motivou todas
as ações do filme. Em um tom suave e melancólico, somos inundados do quão
implacável é a figura do tempo e seus desmembramentos na vida que nos cerca. E
toda essa cena linda só causa esse impacto em seu espectador devido à maneira
genial na qual foi feita por seu diretor.
A direção de
Wim Wenders é fantástica por trazer uma junção de vários estilos para a
temática que o filme se propõe em contar. Talvez o único item que se mantenha
idêntico durante todo o filme seja a doçura em contar uma história com tanto
conteúdo. Aqui Wenders vai caminhar com perfeição entre as cenas mais ágeis na
parte “road movie” do filme, até as mais estáticas, quando a trama se
desenvolve apenas nos diálogos e expressões corporais dos personagens. Tudo
caminha em uma completa simbiose atmosférica até adentrarmos no encontro de
Jane e Travis. Wenders então imprime um clima que até então não havia sido
utilizado pelo filme, dando a cada espectro de cena uma intensidade ímpar.

A construção
que é feita na cena que muda todo o filme é feita com extrema cautela e
carinho. Teremos momentos em que Jane, olhando diretamente para a câmera,
posicionada como se estivesse dentro do espelho, faz uma espécie de quebra da
quarta parede, mirando diretamente para o espectador com um olhar perdido,
buscando algo que nós simplesmente não sabemos definir. Ou que não está lá. Em
outros momentos, podemos visualizar com extrema precisão o quão perdida se
tornou a vida daquela mulher. A câmera de Wenders, sempre utilizando uma edição
dinâmica, faz essa conexão entre os dois indivíduos separados pelo falso
espelho. A genialidade aqui se faz presente em representar todo esse
afastamento que tange os dois, mesmo estando tão próximos, pela figura desse
espelho, impossibilitando que os dois se toquem.
Outro ponto
de suma importância nessa transição de estilos e ambientes é a cinematografia
de Robby Müller.
Muller consegue dar tons diferentes para cada cena do filme. Nos ambientes
externos teremos o uso de um tom mais quente, evidenciando até mesmo o clima
presente nos locais. Já nas cenas internas vamos ter tons ora soturnos, ora mais
centrados no uso do vermelho.

Indo para o
campo das atuações, encontraremos os cinco elementos presentes no filme
entregando performances praticamente impecáveis.  Dean Stockwell(Walt) e Aurore Clément(Anne) vão viver os personagens menos relevantes para a obra, porém,
mesmo assim, se fazendo importantes para o clima atmosférico do filme. Hunter Carson, como o filho de Travis, está fantástico no filme, sempre estando no
tom certo, não soando exagerado como é habitual em atuações infantis. Nastassja Kinski, como Jane, faz um uso preciso de sua beleza, sabendo trabalhar muito
bem com a câmera focada nela, já que é a única que possui esse privilégio no
filme, inundando o espectador com seu rosto permeado por expressões concretas
para aquilo que a personagem está passando. E o destaque, é claro, vai para a
atuação da carreira de Harry Dean Stanton, sempre passando uma confusão nos atos de seu personagem, conseguindo
por meio da sensibilidade encantar com cada gesto.
‘Paris,
Texas’ é a jornada de indivíduos buscando por sua identidade em meio a uma
conjunção cruel de fatores. Um filme que vai lidar com pontos extremos do ser
humano com uma sensibilidade comovente. Wim Wenders entrega a obra mais
relevante de seu cinema, mostrando aqui todos os elementos que acabam por
compor seus filmes. Toda a nostalgia presente em cada fragmento de cena traz um
misto de tristeza e felicidade no próprio espectador, nos fazendo olhar para
nossos próprios passos, atrás da construção de nossas identidades no mundo.
Nota CI: 7,8 Nota IMDB: 8,1
Filmografia:
PARIS, Texas.
Direção: Wim Wenders. 1984. 147 min.