Utilizando um
roteiro bem construído, ‘Senhores do Crime’ vai nos trazer um embate entre
ingenuidade e maturidade exposta nos dois personagens principais. David
Cronenberg entrega um filme frio, que utiliza da violência gráfica em algumas
cenas para martelar alguma ideia na constituição da obra. Junte isso a um ator
na atuação de sua carreira e você terá um filme memorável.
A história,
escrita por Steven Knight, vai nos trazer o estranho
relacionamento que surge entre Nikolai e Anna e seus desmembramentos nas vidas
das pessoas ao seu redor. Anna ganha a vida trabalhando em um hospital de
Londres, enquanto Nikolai trabalha como motorista de uma família que pertence à
máfia russa. Os dois vão se conhecer após uma jovem morrer e deixar em seu
diário, que fica sob o poder de Anna, importantes escritos sobre o que havia
acontecido com ela, fazendo a mulher chegar até a origem dos problemas, a
família onde Nikolai trabalha, dando início a uma série de situações
inesperadas.

O filme se
desenvolve, desde seu ponto inicial, através de uma atmosfera fria, onde cada
espectro de situação é abordado de uma maneira mais enxuta, não dando muitos
detalhes para o espectador confabular ideias sobre as origens dos personagens.
Não saberemos o que acaba por motivar Nikolai, ou de onde aquele homem havia
saído. Já Anna, utilizando traços mais emocionais em seus gestos, até chega a
transparecer alguns detalhes sobre sua vida.
Aos poucos o
filme vai entregando pequenos fragmentos essenciais para entendermos o que está
regendo os personagens. O brilho do roteiro está exatamente nesse ponto, onde
os minutos iniciais da história te levam para uma esfera de pensamento, porém,
com o desenvolvimento do filme, são desmembrados pequenos “plot twists”
naturais que mudam completamente o rumo do filme.

São muito
utilizados pelo filme pequenos momentos de uma violência gráfica exacerbada.
Essas cenas incomodam bastante o espectador. São momentos simples, que não
fazem um apelo narrativo para projetar um choque no espectador e que usam da
naturalidade dos personagens em meio àquilo para passar seu recado. Todo esse
incômodo é positivo para adentrarmos na constituição da personalidade de
Nikolai.
Nikolai é um
homem que aparenta ter sido moldado pelo mundo para agir de forma fria ao lidar
com a violência que o cerca. E mais, ele a pratica sem nenhum esboço de emoção.
No entanto, Nikolai passa longe de ser um indivíduo alheio ao mundo, ele se
compadece das situações que julga erradas e tenta sempre escolher o caminho que
ele considere o correto. O homem jamais revela todas as suas motivações, cabe
ao espectador preencher o vazio que o filme deixa propositadamente sobre
Nikolai.

Ao contrário
de Nikolai, um homem experiente e pouco instintivo, Anna é uma pessoa que se
baseia nos seus sentimentos para agir sobre o mundo. Ingênua e, por vezes,
irracional, a mulher ignora a segurança de sua família para seguir suas pulsões
acerca de cada situação. Essa instintividade de Anna encontra em Nikolai seu
ponto de equilíbrio, o elemento que falta em sua vida e na constituição de sua
pessoa. E o contrário também se aplica. Nikolai vê em Anna a figura que o tira
e dá alento mediante toda a sujeira a que está acostumado.
A direção
procura nos colocar no interior da vida dos indivíduos tidos como desviantes da
nossa sociedade. Teremos um olhar alheio, que não tenta escolher lados ou
posicionamentos éticos, sobre um pequeno aspecto de uma família pertencente à
máfia russa. Cronenberg utiliza as cenas mais intensas de violência
simplesmente para mostrar ao espectador o quanto aquilo é comum para aquelas
pessoas, para deixar claro qualquer tipo de ideia que o ótimo roteiro não tenha
consolidado. O uso dessa violência por Cronenberg é de suma importância para a
construção perfeita que o filme utiliza em seu “plot twist” final.

O elenco do
filme é formado por Viggo Mortensen, Naomi Watts, Armin Mueller-Stahl e Vincent Cassel. Todos aqui estão ótimos em seus
personagens, porém os maiores destaques vão para as atuações de Mortensen e
Mueller-Stahl. Mueller-Stahl, no personagem de Semyon,
consegue passar em seus atos uma sensação de medo aos espectadores em
detrimento de toda a sua calma para executar cada ação. Sua atuação é comedida,
procurando passar, com sua feição tranquila e ausente de exacerbação, uma
crueldade maior em seus crimes. Já Mortensen atinge a melhor atuação de sua já
brilhante carreira, utilizando da limitação nos seus atos, algo parecido com o
que Mueller-Stahl fez, para passar a sensação de um homem que mede todos os
seus passos. Sua atuação lembra bastante, claro que não na mesma perfeição, a
de Daniel Day-Lewis em ‘Sangue Negro’(2007), quando usa demasiadamente de suas
expressões faciais para passar firmeza em sua performance. Seu rosto passa
maturidade, cada traço marcado pelo tempo em sua face é usado para dar
substância e humanidade ao seu personagem.
‘Senhores do
Crime’ é um ótimo filme. O melhor do diretor no século XXI. A forma como
Cronenberg decide contar essa história, sabendo dosar cada elemento na hora de jogá-los
em tela, é essencial para o sucesso do filme. Um filme que traz ainda em sua
síntese a forma que figuras opostas encontram segurança na companhia do outro.
Nota CI: 7,4 Nota IMDB: 7,7
Filmografia:
SENHORES do
Crime. Direção: David Cronenberg. 2007. 100 min. Título Original: Eastern
Promises.
SANGUE Negro.
Direção: Paul Thomas Anderson. 2007. 158 min. Título Original:
There Will Be Blood.