Nascida no dia 16 de Março de 1953, em Paris, na França, Isabelle Huppert faria sua estreia como atriz no ano de 1971, no filme feito para a televisão ‘Le Prussien’. A atriz demoraria mais alguns anos até ter o seu primeiro papel de destaque, vindo a fazer diversos filmes com papéis pequenos neste espaço de tempo. Porém, em 1977, iria protagonizar seu primeiro filme de destaque, com o drama ‘Um Amor Tão Fácil’. Entretanto, seria no ano seguinte que a viria a se consolidar no cenário do cinema francês com o filme ‘Violette’, obra que daria início a uma das mais célebres parcerias do cinema. Huppert iniciou com o diretor de ‘Violette’, Claude Chabrol, uma relação profissional muito íntima, onde cada filme posterior somente evidenciava o quanto essa parceria fazia bem para ambos e para o cinema como um todo. Após esses dois papéis de destaque, a atriz iria empreender, na década de 1980, um série de filmes importantes, sempre nos propiciando atuações irretocáveis.

Conforme ganhava experiência, suas atuações somente ficavam cada vez mais intensas, vindo a atingir seu auge na carreira em 2001, quando protagonizou ‘A Professora de Piano’, onde interpretava uma personagem extremamente complicada. Os anos posteriores serviram para a atriz somente manter o impacto que havia construído desde que começou sua carreira. Em 2016 a atriz viria a voltar a ficar em evidência após protagonizar o polêmico ‘Elle’ e ser indicada ao óscar. Essa lista de filmes contém filmes essenciais para entender e adentrar ao modo de atuação da atriz. Vale ressaltar que a atriz já esteve em mais de 120 papéis diferentes. Ou seja, alguns bons filmes ficarão fora da lista. Confira a lista!

10º – O Lar (Ursula Meier, 2008)

Tratando de
um tema complexo como os efeitos da urbanização naqueles inseridos em
determinados locais afetados diretamente, ‘O Lar’ é um filme conciso e pesado.
Sua diretora, Ursula Meier, escolhe por ter uma abordagem rústica com seu
espectador. Tudo ali mostrado é cruel, avassalador e triste. E as situações
cômicas não ajudam a diminuir o peso da trama, somente a torna mais palatável.
O filme vai
contar a história de uma família, um casal e seus três filhos, vivendo na parte
rural da França, em completo isolamento de outras residências ou pessoas, que
tem sua vida baseado em um modo liberal e calmo de se viver.  A casa onde a família mora fica ao lado de uma
estrada inoperante, onde por mais de 10 anos o governo adiou seu lançamento. A
família é tomada periodicamente pelo medo de que a estrada venha finalmente a
começar a funcionar. Não fica claro o porquê de a família resolver fazer sua
vida em um local condenado às ruínas. Ou então, se a família já morara ali
previamente a construção da estrada. Essa ausência de informações funciona
muito bem no filme, nos levando a projetar várias vezes determinadas causas e
motivos para aquele cenário.

A história
rapidamente ganha novos rumos quando a estrada finalmente é lançada. A família
tenta continuar com seu modelo de vida, apesar do constante barulho dos carros
e o perigo de serem atropelados ao tentar atravessar o lugar. Porém, após um
curto espaço de tempo, fica claro que a vida naquele lugar poderia não ser mais
uma realidade. A vida diante daquela estrada fica insuportável. Logo, suas
vidas começam a entrar em um processo de degradação constante inescapável.
Não ficam
exatamente claros os motivos para a família permanecer no local após os
transtornos começarem a se tornar latentes. Porém, podemos presumir que a falta
de dinheiro e outro local para ficar é a razão principal da permanência. É na
figura do pai da família que fica mais evidente o sofrimento que aquela família
está passando. O homem parece ser o único realmente ciente do quão desesperador
seria a vida da família, o quanto seus futuros estariam condenados. Ele parece
ser o único a se dar conta que a destruição da família era, agora, algo
inexorável.
Temos na
figura da mãe uma pessoa alegre e despreocupada, que, apesar de nutrir certa
ignorância quanto à situação que está inserida, se vê cada vez mais envolta em
uma rotina quebrada. A tranquilidade gradualmente dá lugar à completa paranoia
na mulher. Já pegando a personagem da filha maior, aparentando estar na faixa
dos 20 anos, temos uma figura que parece ser a única alheia àquilo tudo. A vida
parece passar diante de seus olhos sem que essa se incomode, tudo que ela
precisa é de seu rádio e sua cadeira para tomar sol, o resto não importa. Nos
outros dois filhos menores, o garoto, aparentando ter uns oito anos, e a menina,
com algo entre 12 e 14 anos, fica implícito o quão ruim a situação se tornara.
Os dois sentem o efeito da situação quase que na mesma proporção que seus pais,
onde a vida como conheciam anteriormente se apagara por completo.

A degeneração
da família é constante, inapelável. A saúde mental dos integrantes da casa cada
vez mais parece menor. A história acaba por ganhar contornos do gênero de
horror. A casa agora parece criar vida, os impedindo de sair do lugar. Logo,
vamos notando que a família de outrora já não existe mais. O que há agora é um
compêndio de loucura.
A direção de Ursula Meier, em seu primeiro longa-metragem, é muito boa. A diretora escolhe por
utilizar um ritmo dosado, jogando informações para o espectador aos poucos. Não
conseguimos saber o que está acontecendo direito até os 30 minutos de filme,
somente depois desta marca começamos a ligar os pontos e começar a tirar nossas
próprias conclusões sobre o que está sendo mostrado. Meier também escolhe por
dar uma atmosfera quente ao filme, com o apoio da cinematografia de Agnès Godard,
onde os personagens aparentam estar sempre em um eterno desconforto.

Os atores envolvidos
no filme também conseguem captar a proposta do roteiro e da diretora. No papel
dos filhos do casal temos Adélaïde Leroux como a filha mais velha e Madeleine Budd e Kacey Mottet Klein no papel dos
filhos menores. Eles estão
regulares no filme, dão a dramaticidade e inocência necessária ao que a trama
propõe. Como esposa temos Isabelle Huppert. Huppert aqui tem uma boa interpretação, escolhendo, no começo, pela
sutileza em caracterizar sua personagem e, na parte final, por uma performance
corporal exacerbada, tentando evidenciar o quadro daquela pessoa. Porém, o
grande destaque é o de Olivier Gourmet, no marido em questão. Gourmet consegue com simples olhares demonstrar
todo o desespero que impera no personagem.
A construção
de cenário feita pelo filme acaba transcendendo o drama pessoal a que aquela
família está envolvida, servindo como realidade para urbanização desenfreada
que acomete o mundo desde o século passado. Não há mais espaço para a
proliferação de vidas fora do eixo social/urbano. O crime contido aqui não é o
de expandir os domínios de uma vida socializada comum, mas, sim, o de não dar
aos afetados pela perda de seu modelo de vida uma condição para se habituarem a
sua nova realidade.  ‘O Lar’ é um filme
duro, não sendo prazeroso de o ver em alguns momentos. A trilha sonora é
ausente, o ritmo lento e até as situações cômicas causam incômodo no
espectador. Mas tudo o relatado aqui é palpável. O filme termina com uma cena
linda, encerrando uma obra ímpar. Confira a crítica com a nota
9º – Comédia do Poder (Claude Chabrol, 2006)
Claude Chabrol falha na tentativa de criar um drama
convincente e robusto. Trazendo a sua mais célebre musa, a atriz francesa
Isabelle Huppert, Chabrol desta vez não consegue entregar a ela um papel
convincente. ‘Comédia do Poder’ não logra sucesso em sua investida de criar um
jogo psicológico, dando ao espectador, ao invés, uma trama sem sal e insossa.
A história contada aqui gira em torno da vida de uma
investigadora respeitável que, após muito tempo, consegue capturar um homem que
comanda negócios ilegais e corporações corruptas. A trama vai se desenvolver a
partir dos conflitos dessa mulher com o tal homem, atrás de mais detalhes sobre
as acusações contra ele, e os desdobramentos que sua vida profissional causa na
situação familiar a qual está inserida.
A direção de Chabrol não foge muito do habitual do diretor.
O problema aqui é seu roteiro, escrito por Chabrol em parceria com Odile Barski.
Aqui ele não se insere a fundo a nada, não dando uma visão acurada nem do caso
profissional que a mulher comanda, nem de sua vida familiar, passando ao
espectador apenas espectros dos assuntos.

O elenco encabeçado por Isabelle Huppert e François
Berléand, no entanto, está razoavelmente bem aqui. Huppert
tem uma atuação concisa sobre as responsabilidades enfrentadas por sua
personagem, demonstrando com suas feições e falas suaves e comedidas toda a
competência em dividir os diversos ramos de sua vida. Já o destaque do filme
fica por conta da performance positiva de Berléand, encarnando um homem de
moral duvidosa. A interpretação exagerado do ator cai como uma luva ao seu
personagem, demonstrando seu modo de agir patético e confuso.
‘Comédia do Poder’ é um filme comum que acaba por pecar em
propiciar ao espectador uma história que, de fato, gere sua atenção.
Entretanto, apesar dos diversos equívocos, é sempre válido acompanhar um filme
do lendário cineasta francês. Além de marcar a última contribuição de Huppert
aos filmes de Chabrol. Confira a crítica com a nota
8º – Uma Janela Suspeita (Curtis Hanson, 1987)
Conservando
em sua essência a aura clássica que permeava a década no gênero, ‘Uma Janela
Suspeita’ é um suspense que consegue entreter muito bem seu espectador apesar
de seu roteiro fraco. Um filme que serviu para Curtis Hanson, seu diretor, nos
mostrar o que estaria por vir em sua filmografia.
A trama do
filme vai se concentrar no desmembramento de uma série de ataques contra
mulheres na cidade, que acabavam por ser estupradas e mortas. A história
ganhará forma rapidamente quando Sylvia, que estava no apartamento de um
empregado de seu marido traindo-o, presencia um ataque pela janela do quarto e
acaba por salvar a mulher gritando por ajuda. 
Deste momento em diante se iniciará um encadeamento de histórias que vão
unir forçadamente Sylvia, o empregado com que tinha o caso, Terry, e a mulher
atacada, Denise. Os três, por suas próprias motivações, procuram empreender uma
caçada contra o assassino em questão.
O filme desde
seu início evidencia um ritmo irregular em seu desenvolvimento. As situações
são exploradas sem que seja feita uma devida introdução básica dos eventos
anteriores. Os personagens são trazidos à tela com motivações banais demais
para convencer o espectador das atitudes que estes acabam tomando. A personagem
que melhor acaba sendo desenvolvida é a de Sylvia. Vemos na mulher um sentimento
de despreocupação quanto à captura ou não do assassino, se concentrando apenas
em manter a história longe dos ouvidos de seu marido, a fim de que este não
descubra sua traição.

Já em Terry e
Denise, a grande maioria de suas atitudes acabam soando inverossímeis. Terry,
sem mais nem menos, desenvolve uma vontade inerente ao seu ser de encontrar o
assassino a qualquer custo, iniciando uma investigação particular. O porquê
dessas atitudes o roteiro simplesmente não apresenta ao público. Em Denise, o
maior ponto de desequilíbrio do filme, vemos uma personagem que age
completamente destoante da forma que uma vítima de um tipo de violência
semelhante o faria. A mulher parece não ter sentido os efeitos psicológicos que
aquela situação traria normalmente, ignorando isto e juntando-se a Terry na
caça do assassino.
Escrito por
pelo próprio Curtin Hanson, baseado no romance de Anne Holden, o roteiro tropeça nos caminhos trilhados, procurando sempre a situação
mais novelesca possível. Além dos três personagens centrais do filme, temos
todo o resto, como policiais, o assassino e o marido de Sylvia, desempenhando
discursos forçados e cheios de clichês.
No entanto,
nem tudo é ruim no filme. A atmosfera emanada no filme é ótima, conseguindo
inserir o espectador no seu clima de mistério. A caça ao assassino também é outro
ponto que favorece o filme, sendo sempre cheia de jogos de enganações entre os
personagens. O clima contido aqui nos remete diretamente a ‘O Fio da
Suspeita’(1985), conseguindo nos desnortear a cada acontecimento.

A direção de
Curtis Hanson é muito competente, sabendo elevar a intensidade do filme com
leves detalhes, como um quadro fechado em um bracelete ou a introdução de uma
música que remete aos assassinatos. E são exatamente esses detalhes que nos
prendem em frente à tela durante os 112 minutos de sua duração. Hanson começava
aqui a construir e aprimorar seu modo de fazer um bom filme de suspense,
chegando ao seu ápice na década de 1990, com filmes como ‘Sob a Sombra do
Mal’(1990) e, um dos maiores clássicos da década, ‘A Mão Que Balança o Berço’(1992).
Nos inserindo
no campo do elenco, temos presentes na trinca que comanda o filme Steve Guttenberg, Elizabeth McGovern e Isabelle Huppert. Todos estão regulares no filme, às vezes pecando pela falta de tato em
algumas cenas, já em outras surpreendendo com olhares e expressões com um nível
de intensidade alto. Huppert está regular no filme, tendo uma atuação
inconstante, entretanto é ela a responsável pelos grandes momentos de atuação
no filme, em efêmeros minutos que mostravam um pouco do que fez da francesa uma
das melhores atrizes da história do cinema. McGovern tem a atuação mais sóbria
do elenco, conseguindo manter uma regularidade padrão durante todo o filme. Já
Guttenberg acaba sendo esforçado, ele é um bom ator, mas, talvez, o fato ter
feito seu nome em filmes de comédia da década atrapalhem um pouco na absorção
de sua atuação.
‘Uma Janela
Suspeita’ está longe de ser um bom filme, mas o fato de elencar uma atmosfera
atraente, junto com elementos característicos da época, faz com que este seja
um ótimo entretenimento. Junte isso a um diretor conceituado na indústria em
seu primeiros passos, atores competentes devotados a seus personagens e uma
temática de sucesso e você terá um filme que, sem dúvida, merece ser visto.
Confira a crítica com a nota
7º – A Teia de Chocolate (Claude Chabrol, 2000)
O ótimo
diretor francês, Claude Chabrol, demonstrou não estar em seus dias mais
inspirados quando realizou este filme. ‘A Teia de Chocolate’ falha em tentar
recriar a atmosfera de ‘Mulheres Diabólicas’(1995) em apresentar uma
protagonista sociopata. Aqui ele nos presenteia com um filme parado, utilizando
um roteiro batido e performances robotizadas(com exceção da espetacular
Isabelle Huppert).
A trama
desenvolve-se quando a personagem de Anna Mouglalis descobre que pode ser filha de um famoso pianista. A partir desta
possibilidade a história se desenvolve. Ou tenta. O que se segue é uma
infinidade de diálogos vazios que não vão para lugar algum. O filme,
relativamente curto, de intermináveis 101 minutos, parece só conseguir ficar
interessante nos 5 minutos finais, quando a trama para de se repetir e conclui
a ideia mal executada aqui. 

As tentativas
de alívio cômico são todas mal sucedidas. O clima de paranoia que o diretor
pretendia criar simplesmente não existe. Entretanto, o grande ponto negativo do
filme é seu clima novelesco que preza por “ludibriar” o espectador,
apresentando resoluções simples para temas complexos.
Infelizmente,
‘A Teia de Chocolate’ é uma grande decepção. A mistura entre Claude Chabrol e
Isabelle Huppert costuma render filmes mágicos. Porém, o que temos aqui, é um
verdadeiro desastre. O filme vale a pena para quem gosta de ver a competente
Huppert em tela. Mesmo em filmes fracos(como esse) ela consegue se diferenciar
do restante. Seu monólogo final aqui acaba valendo o sofrimento do espectador no
restante do filme. Confira a crítica com a nota
6º – Violette (Claude Chabrol, 1978)
Claude
Chabrol lança aqui um pequeno esboço do que faria a perfeição dez anos mais
tarde. Em ‘Violette’, somos introduzidos à vida de uma jovem desconexa da
realidade com a única projeção de viver o máximo cada momento. O filme abordará
as implicações familiares, sociais e morais das atitudes desmedidas da jovem,
sempre levando em conta o período histórico turbulento que permeava o local na
época.
Baseada no
livro de Jean-Marie Fitère,
a trama do filme vai nos trazer a vida de Violette, uma jovem mulher, alocada
na França pré-intervenção alemã na 2ª Guerra Mundial, que leva uma vida de
aparências, separando sua vida em família de suas incursões atrás de sexo pela
cidade. Ficaremos, nas mais de duas horas de filme, acompanhando os passos de
Violette e suas atitudes ausentes de sentido. Veremos sua derrocada em
diferentes fragmentos, sejam eles familiares ou psicológicos.
Os momentos
iniciais do filme servem para tatuar na cabeça do espectador a aura de camaleão
que rege o comportamento de Violette. Vemos a jovem primeiramente em um bar
tentando conquistar algum homem para levá-la a cama, vestindo-se com roupas
chamativas e uma maquiagem carregada. Quando retorna para sua casa, a jovem se
transforma em uma menina doce, com uma relação muito carinhosa com seus pais e
uma vida monótona e tranquila.

A jovem
ainda, quando defrontada com alguma acusação da família, consegue mentir da
maneira mais natural. Mesmo quando pega em flagrante pela mãe tirando dinheiro
da carteira de seu pai, a jovem consegue inventar uma desculpa para justificar
aquilo. Essas mentiras aos poucos vão ficando insustentáveis conforme o
comportamento da jovem vai fugindo ao controle.
Violette
sempre procura aproveitar ao máximo cada momento. Para a jovem, sair à procura
de homens para fazer sexo e ganhar certa quantia por isso não é prostituição.
E, mesmo sendo de uma classe social baixa, as quantias angariadas com seus
encontros com os homens parecem ser dispensáveis, a jovem não faz nada
importante com o dinheiro que justifique suas atitudes. Violette faz aquilo
porque gosta. E sua busca insaciável por prazer acaba refletindo em sua saúde
física.
Logo Violette
recebe a notícia que suas práticas sexuais exacerbadas lhe trouxeram uma doença
contagiosa. Quando seus pais ficam sabendo da notícia pelo médico, as
diferentes máscaras sociais que regem a personalidade da jovem começam a se
desfazer. Suas diferentes formas de viver acabam sofrendo uma junção patológica
e Violette direciona toda essa intensificação de seu comportamento contra seus
pais.

O filme ganha
muito de seu charme ao não revelar todos os desmembramentos passados daquela
família. Ele apenas nos dá algumas pistas. Talvez o comportamento de Violette
tenha chegado a essa etapa em detrimento de uma infância marcada por abusos por
parte de seu pai. Algo que é trazido à tona mediante a exposição de seus
sonhos. A verdade não nos é entregue pelo filme de uma forma muito inteligente,
porém há a certeza de que algo aconteceu em seu desenvolvimento que acabou
limitando sua capacidade de se tornar uma mulher normal.
Conforme o
filme vai chegando em seus momentos derradeiros, Violette começa a chegar em
uma fase de quebra com a realidade. Seus atos são fora de proporção e acabam
somente trazendo consequências negativas para a própria jovem. As cenas finais
fogem um pouco da atmosfera criada pelo filme durante toda sua duração, mas se
fazem necessárias.
A direção de
Claude Chabrol segue por um padrão cru de se fazer cinema, onde as cenas se
desenvolvem naturalmente, porém com um ritmo bem cadenciado. A utilização da
trilha sonora não propicia nenhum tipo de mudança na densidade ou, até mesmo,
na absorção da história. Chabrol ainda faz um interessante uso de uma câmera
mais ativa no filme, que acaba por se mover ou criar efeitos de aproximação e
afastamento que seguem a intensidade da protagonista em suas metamorfoses
iniciais, quando passa de uma mulher provocante para uma jovem inocente. O
ponto negativo de toda essa parte técnica vai para a edição um pouco abrupta em
algumas ocasiões. Comandada por Yves Langlois,
a edição acaba prejudicando o andamento natural algumas cenas, cortando para a
sequência seguinte sem que a última tenha se fechado por completo.

Chabrol, dez
anos mais tarde, iria fazer uma obra muito parecida em sua temática e com a
mesma atriz que protagoniza este filme, entregando, no entanto, algo muito mais
robusto. ‘Um Assunto de Mulheres’(1988) é uma espécie de sequência para este
filme aqui. Todos os conceitos utilizados em ‘Violette’ são intensificados e mais
bem construídos no filme de 1988. Esses dois filmes similares servem para
evidenciar o quanto um profissional pode evoluir em dez anos. E, neste caso,
como Chabrol pôde intensificar o seu já fabuloso modo de se fazer cinema.
O filme é
entregue a brilhante Isabelle Huppert. Huppert, ainda em processo de maturidade,
entrega aqui uma atuação concisa, sabendo trabalhar com as diferentes formas de
sua personagem. Seu ritmo de atuação se altera conforme a personagem demanda,
em alguns momentos utilizando de uma grande intensidade, em outros prezando por
gestos simples e frios. Essa facilidade em caminhar pelas diferentes personas
da protagonista é o que alavanca sua atuação e o próprio filme.
‘Violette’ é
um bom filme que não é ausente de erros em sua completude, mas que consegue
trazer em sua essência a exposição ausente de julgamentos de personagens
comumente trajados como uma espécie de escória social. Chabrol, como é comum em
sua filmografia, apresenta um olhar sensível sobre essa camada da sociedade
negligenciada, seus atos muitas vezes exacerbados e o preconceito que lhes
acomete em diversos momentos. Um filme que ainda marca a primeira contribuição
entre o diretor e Isabelle Huppert, uma parceria memorável da história do
cinema. Confira a crítica com a nota
5º – Mais Forte Que Bombas (Joachim Trier, 2015)
Um drama
complexo sobre um processo de luto incompleto em uma família. O diretor Joachim
Trier, em seu terceiro longa-metragem, leva ao espectador o quanto aspectos mal
resolvidos sobre determinado fato pode marcar a vida de todos ali envolvidos.
‘Mais Forte Que Bombas’ não é invulnerável a erros, mas sua bela direção e seu
elenco de qualidade fazem com que o filme consiga passar sua mensagem.
A trama do
filme gira em torno da tentativa de um pai em reestruturar sua família após a
morte de sua esposa. Seus dois filhos aparentam não ter superado o infeliz
incidente, tendo suas vidas moldadas a partir da mal formação deste processo de
luto da morte da mãe, que já dura mais de 2 anos. Os conflitos começam a vir à
tona quando um determinado artigo sobre sua esposa é escrito por um amigo dela,
revelando as verdadeiras causas da morte da mulher, que na realidade havia
cometido suicídio. O filho mais novo não sabe sobre o tema, achando que sua
morte havia sido apenas um trágico acidente de carro, o que leva a desencadear
fortes conflitos psicológicos em seu pai.
Tudo aqui é
apresentado com extrema sensibilidade pelo diretor. Temas pesados são
descaracterizados por uma edição poética e uma fotografia contemplativa. A
trilha sonora é outro fator de alívio para o peso do enredo, ajudando o
espectador a digerir as informações passadas.

O elenco é de
extrema qualidade, além de ser muito bem dirigido. Temos aqui Gabriel Byrne no
papel do pai, envolto em uma situação inexorável, nutrindo uma culpa mal
atribuída a ele; Isabelle Huppert interpreta falecida mãe, onde, por meio de
recordações dos personagens, obtemos as características de sua personalidade e
o que a motivou a fazer aquilo; Jesse Eisenberg está no papel do filho mais
velho, aparentando ter superado o ocorrido, em detrimento do sucesso familiar e
profissional, porém, na verdade, vemos um indivíduo vulnerável, tentando segurar-se
na investigação do trabalho da mãe e; Devin Druid no papel central do filme, fazendo
o filho mais novo. Aqui seu personagem demonstra ser o mais afetado pela morte
da mãe, descontando em si mesmo e em seu pai este sofrimento.
‘Mais Forte
Que Bombas’ é um bom filme. A sensibilidade poética em tratar de um assunto
complicado é o ponto alto do filme. Contando com um elenco de peso, o diretor
Joachim Trier consegue fazer com que cada um atue no seu melhor. Diferente de ‘Reencontrando
a Felicidade’(2010), que também conta com uma temática parecida, aqui temos um
filme que, apesar do seu contorno poético, não deixa que a trama se torne
melosa, dando um tom real ao pesar que aquela família vive. Confira a crítica com a nota
4º – Mulheres Diabólicas (Claude Chabrol, 1995)
Baseado no
romance de Ruth Rendell, ‘Mulheres Diabólicas’ traz todos os ingredientes
necessários para se construir um clássico. Temos aqui um diretor francês
fantástico, uma trilha sonora forte e notável, roteiro preciso e a junção de
três das maiores atrizes da história do cinema. Um filme para ser visto e
revisto periodicamente.
A história
gira em torno de Sophie la bonne,
uma empregada doméstica que é contratada por uma família rica para trabalhar
com eles. A história se passa em uma cidade pequena da França, e a casa em
questão se encontra isolada da cidade. A trama vai ganhar corpo a partir do
aparecimento de Jeanne la postière, uma funcionário dos correios, e o
desenvolvimento da perversa amizade que surge entre ela e La Bonne.

Vindo de um
passado turbulento, La Bonne revela logo nos primeiros minutos de filme que
estamos diante de uma mulher fria e com sérios problemas psicológicos. Recatada
e reclusa, a personagem consegue esconder seus graves distúrbios dos seus patrões,
parecendo, aos olhos deles, apenas uma mulher estranha, porém, muito
competente. Um pouco mais tarde na trama, a personagem de La Bonne acaba
revelando outra limitação, a mulher é analfabeta. Fato este que é extremamente
importante para o desenvolvimento da trama. Já a personagem de La Postiere
demora a aparecer no filme e quando finalmente é introduzida, esta parece ser
uma simples funcionária inocente dos correios que tem como entretenimento abrir
cartas de outras pessoas. O avançar da trama revela que, na verdade, La
Postiere é uma mulher idêntica à La Bonne, com o mesmo passado marcado, porém
com uma inteligência malévola mais aflorada.

É importante
nortear a trama usando como exemplo os clássicos que Chabrol utiliza aqui. A
atmosfera densa, utilizando uma fotografia fria e uma trilha sonora soturna,
nos leva diretamente ao clima usado nos filmes de Alfred Hitchcock em filmes
como ‘Pavor Nos Bastidores’(1950). A exploração de uma dupla mortal feminina já
tinha sido contada na década de 1950, quando Henri-Georges Clouzot resolveu adaptar outro romance para as telas, o clássico
‘As Diabólicas’(1955), onde o Chabrol aproveita vários elementos.
A construção
das personagens é um dos grandes acertos do filme. Vemos aqui, na figura das
duas mulheres, personagens desajustados demais para viver em uma sociedade
tradicional, sendo rejeitadas por ela. As personagens demonstram um ódio
exacerbado às circunstâncias que as cercam, demonstrando a cada atitude o
quanto a rejeição as machuca. La Bonne e La Postiere encontram uma na outra as
características para poderem ser o que realmente são, sem máscaras, sem amarras
sociais, sem nada que as impeçam de despejar todos seus impulsos instintuais. A
vida de La Bonne comove o espectador. Apesar de seus atos pouco amigáveis para
tratar de temas do dia a dia, a mulher parece sofrer para tentar parecer o mais
sociável possível. A inabilidade para com a vida desperta nela o desejo de
viver de forma passiva, sem inserir sua presença ao meio, não podendo
modificá-lo, se encontrando neste ponto seu importante relacionamento com a
televisão. La Bonne encontra ali algo perfeito, intocável, onde sua presença
jamais alteraria a ordem dos fatos que se sucedem.

Para dar vida
a essas duas mulheres foram escaladas Isabelle Huppert(La Postiere) e Sandrine Bonnaire(La Bonne). Suas atuações são arrebatadoras. Chabrol dedica cada cena ao
talento das duas, sempre focalizando nas expressões faciais das atrizes. A
química presente entre Huppert e Bonnaire é algo espetacular. Uma completa a
atuação da outra a cada cena juntas. Bonnaire consegue dar vida àquela figura
animalesca que vive, promovendo a cada cena seu olhar e gestos tímidos, quase
acuados, que dão substância à personagem. Já Huppert é o grande destaque do
filme. Aqui ela não está preocupada em gerar empatia por seus atos, muito pelo
contrário, não é difícil o espectador sentir repulsa em relação àquela mulher,
até certo nojo. Cada enquadramento em que Chabrol destaca o rosto de Huppert é
um espetáculo. O elenco conta ainda com Jacqueline Bisset, trazendo a trama em sua personagem todo aquele senso de moralidade
inserido naquele contexto familiar a qual está inserida, tendo uma atuação
discreta e precisa. Ainda temos Jean-Pierre Cassel e Virginie Ledoyen completando o time de forma
competente.
O filme
consegue adentrar de forma plausível ao estudo dessas ótimas personagens
criadas na trama. A escolha de um elenco estelar talvez seja o maior acerto da
equipe de produção do filme. Além de ser mais uma parceria brilhante entre
Chabrol e Huppert. ‘Mulheres Diabólicas’ é um clássico do cinema francês. Um
filme que deve ser contemplado durante seus 112 minutos de duração. A comédia
de erros e o acaso cruel que permeiam a trama apenas coroam o filme. Confira a crítica com a nota
3º – Um Assunto de Mulheres (Claude Chabrol, 1988)
Podemos estar
diante do maior filme do cineasta francês Claude Chabrol. Uma obra-prima do
cinema em todos os seus âmbitos. Um filme impactante, forte, bonito, poético e
exacerbadamente emocionante. Uma viagem arrebatadora pela psique feminina
presente na primeira metade do século XX. Contamos aqui com um filme que beira
a perfeição. Direção, fotografia, roteiro e, principalmente, uma protagonista
que nos brinda com uma das maiores atuações da história do cinema, todos
perfeitos. ‘Um Assunto de Mulheres’ é tudo, menos um filme comum.
O filme vai
trazer a vida de Marie, uma mulher atraente, com dois filhos pequenos, um
marido ausente e nenhum dinheiro no bolso. Morando em um pequeno apartamento,
Marie tenta de todas as formas sobreviver. Sim, sobreviver. A luta diária é
para conseguir determinada quantia em dinheiro para poder propiciar uma
alimentação, mínima para passar o dia, para ela e seus filhos. Sua vida é
permeada de sonhos, de uma inocência perversa e uma limitação intelectual que a
atrapalha em seu cotidiano. O filme se passa durante a segunda guerra mundial,
na França ocupada pelos nazistas.

A vida de
Marie começará a tomar um rumo diferente a partir do momento em que decide
ajudar uma colega do prédio em que vive a fazer um aborto. Marie ganha uma
vitrola como recompensa e um pedaço de sabão. O ato desperta algo jamais visto
em Marie. O fato de ganhar uma determinada recompensa pelo ato é o fator menos
importante, o que comove Marie é o poder que lhe fora dado naquele momento. A
partir deste momento, do afloramento dos sentimentos jamais atingidos outrora,
a vida de Marie ganha contornos deturpados.
Em meio à
exasperação de sentimentos em Marie, temos a figura de seu marido Paul, até
então completamente ausente, que retorna da guerra. Paul é um homem desprendido
da vida, acha já ter feito o bastante nela. Sofrido o bastante. Ele não tem
nenhuma culpa em deixar a encargo da esposa o sustento da casa. Por vezes até
consegue um emprego ou outro, mas a demissão parece algo inerente ao homem. Ao
voltar da guerra, Paul percebe a figura de sua mulher mudada, o homem já não
reconhecera a esposa de que estava diante. A mulher agora emanava uma confiança
demasiada para aquela figura passiva que Paul conheceu antes da guerra. Paul
jamais iria ter o controle sobre sua casa novamente, Marie era quem reinava em
absoluto agora.
É importante
traçar o perfil do marido em questão, ele irá nortear o destino cruel de sua
esposa. Paul fora um homem que, querendo ou não, certo ou errado, voltou
marcado da guerra que estivera. Seja quem ele fosse antes da guerra, agora já
não existia mais. Ele agora demonstra extremo carinho pelas figuras dos filhos,
fazendo o possível para estar sempre próximo deles, e uma atração demasiada
pela esposa. Apesar de suas investidas, Marie parece sentir repulsa do marido.
Sexo com sua esposa já não era mais uma realidade para Paul. Em determinado
momento, Paul aborda de surpresa a esposa em uma rua vazia no meio da noite,
tentando coagi-la a fazer sexo com ele. A mulher se desvencilha de seus braços,
entoando a palavra: “Jamais! Jamais!”.

Em
determinado momento em um bar, Marie conhece uma prostituta que a indaga sobre
sua vida cautelosa e sem emoções. Marie então diz que, apesar das aparências,
não é uma mulher comum, afirmando burlar as regras fazendo abortos esporádicos.
Logo as duas desenvolvem um laço de amizade, onde uma iria elevar a outra. Os
abortos, que Marie se gabara para a prostituta até então, na realidade, fora
apenas um caso único. Entretanto, a mentira contada virá uma realidade quando
começam a chegar mulheres desesperadas a sua porta pedindo a ajuda de Marie em
troca de uma quantia razoável de dinheiro. Marie não hesita e começa a dar vida
a uma persona extra em sua rotina, essa muito mais interessante. Marie começa a
ganhar quantias relevantes de dinheiro, mudando do casebre que estava alocada
para um lugar muito melhor e mais cômodo. Ela decide, também, começar a alugar
apartamentos para prostitutas e, inevitavelmente, dá início a uma rotina de
traição com um jovem elegante, cliente de sua amiga prostituta.
Veremos a
seguir a construção de uma mulher poderosa, demonstrando uma frieza incomum na
cerne de sua pessoa. Sua preocupação com as pessoas ao seu redor é praticamente
nula, com exceção do carinho com seus filhos. Em determinado momento, uma de
suas clientes acaba morrendo em detrimento do aborto. Marie é abordada por um
dos familiares, mas não demonstra maiores preocupações fora aquelas com a sua
própria liberdade, aceitando até o dinheiro do familiar.
A direção do
Chabrol é impecável. Aqui o francês escolhe por fazer algo mais sutil nas
escolhas de cenários, construindo bem as cenas em seus locais limitados. Assim
como todas as suas parcerias com Isabelle Huppert, ele escolhe por dar a câmera
a ela. São inúmeros os enquadramentos fixos no rosto da atriz. Chabrol sabe
como encantar o público. Já seu roteiro, baseado no livro de Francis Szpiner,
escrito com Colo Tavernier,
segue a mesma linha de qualidade. Não teremos aqui uma extensão de diálogos,
porém eles são precisos. A fotografia é outra coisa que desperta atenção no
filme. Os enquadramentos, não se aproveitando do cenário, mas, sim, de seus
atores, é deslumbrante. Podemos recortar pelo menos uns três momentos que
serviriam de aula para qualquer filme, um se resume ao pôster do filme. É
impossível não se arrepiar no momento da cena.

O longa ainda
conta com uma composição de elenco regular, destacando o ator François Cluzet, interpretando o marido de Marie. Mas o grande elemento do filme é a
atuação de Isabelle Huppert. É muito fácil categorizar a
interpretação de Huppert em três fases da personagem: Antes dos crimes; Seu
Auge; e sua derrocada. A atriz consegue internalizar os diferentes nuances na
vida de sua personagem, dando em cada fase uma atuação cheia de complexidade.
Aproveitando sua química com o diretor, ela sabe os momentos certos de
intensificar a atuação. Os últimos 20 minutos de filme sua atuação alcança uma
qualidade inacreditável. A francesa é incomparável.
‘Um Assunto
de Mulheres’ é um filme ímpar até mesmo para o cenário francês de se fazer cinema.
A abordagem do filme, semelhante à usada por Mike Leigh,
em ‘O Segredo de Vera Drake’(2004), consegue colocar em pauta o “zeitgeist”
presente na época, em que mulheres oprimidas pelo machismo impregnado na
sociedade encontravam uma forma de se destacar diante de atos que infringiam as
leis da época. Uma obra-prima no sentido mais literal da palavra. São 108
minutos que não voltam mais. Ou até voltam, mas jamais vão ser experimentados
da forma que foi visto pela primeira vez. Confira a crítica com a nota
2º – Elle (Paul Verhoeven, 2016)
Uma viagem
pela psique de uma sociopata imersa em um calvário inexorável. Um filme que não
vai te fazer sentir nenhuma empatia pela personagem principal. O melhor
trabalho da carreira de Paul Verhoeven e uma das maiores atuações da história
do cinema.
Logo no
início do filme somos introduzidos de maneira genial aos instantes finais de
uma mulher sendo estuprada por um estranho encapuzado em sua própria casa. Após
a cena, vamos percebendo que nada é o que aparenta. A frieza da protagonista
após ser violentada dá ao espectador um esboço do que está por vir.
A personagem
logo se revela uma mulher amoral, fria e perversa. Nutrindo um cargo importante
em determinada empresa e vindo de uma família aparentemente com bastante
dinheiro, ela demonstra ser odiada pela maioria de seus companheiros de
trabalho. Sua vida é repleta de casos amorosos com homens comprometidos, o que
parece excitá-la de alguma forma. A violência sofrida por ela é colocada de
lado pela própria personagem, que se preocupa mais em não divulgar o fato do
que procurar as medidas cabíveis. Ela aparenta não sofrer nenhum trauma após o
ocorrido. Muito pelo contrário, logo após o fato ela retoma sua vida normal.
Temos a icônica cena da personagem indo ao hospital para ver se havia sido
contaminada com alguma doença. O médico a avisa que não é possível descobrir em
tão pouco tempo e que ela poderia iniciar um tratamento para evitar o avanço da
possível doença. De maneira impassível ela anuncia ao médico que tal ato não
poderia ser completado em virtude de seu trabalho, completando com a célebre
frase: “Azar, veremos o que dá”.

No avançar da
trama, a personagem acaba descobrindo que agora está sendo perseguida por seu
algoz e que este não é um mero atacante desconhecido. Ela passa a receber
ameaças revelando que seu agressor está muito mais perto do que ela imaginava.
Ela não procura a polícia, ao invés disso adquire alguns objetos para a defesa.
Finalmente a personagem começa a sentir os efeitos da situação e passa a viver
uma vida paranoica.
A sociopatia
latente da personagem é explicada por uma infância marcada por eventos
surreais. A moça é filha simplesmente de um assassino em massa que aterrorizou
seu bairro na década de 1970. Ela então nutre um ódio inerente em relação ao
pai, evitando visitar o mesmo na prisão. E quando decide finalmente o fazê-lo,
após a morte de sua mãe, o pai recebendo a notícia de antemão resolve cometer o
suicídio.
O papel da
personagem foi dado a atriz francesa, Isabelle Huppert. E ela não decepciona
aqui. Cada expressão facial da atriz tira o fôlego do espectador. A atriz, com
63 anos na época do filme, convence como uma personagem talvez 10 anos mais
jovem, passando um charme e uma sexualidade exacerbados a cada cena. Ela é brilhante
do início ao fim do filme. A segunda maior atuação feminina da história do
cinema, ficando atrás somente de sua própria atuação em ‘A Professora de
Piano’(2001). A performance da atriz aqui merece ser vista e revista inúmeras
vezes. É algo de outro mundo. 

A direção de
Paul Verhoeven beira à perfeição aqui. Cada cena é realizada com extrema
sutileza. A câmera segue a atriz a cada segundo, tentando dar sempre o melhor
ângulo para ela desfilar seus olhares e gestos. A maior virtude da direção de
Verhoeven é reconhecer que tem uma atriz fabulosa em suas mãos. E aqui ele
dedica o filme a ela. O diretor já havia feito algo semelhante com Sharon
Stone, em Instinto Selvagem(1992). Melhor trabalho de direção e filme da
carreira do aclamado diretor holandês, superando Robocop(1987) e ‘O Vingador do
Futuro(1990).
A experiência
de assistir ‘Elle’ é única. Essa obra prima é muito mais do que um thriller
psicológico. O filme é um retrato cruel da vida de uma mulher vítima do acaso,
que a transformou em um ser humano decadente. Uma sociopata fria e calculista.
A figura do estupro, assim como o suspense inserido no filme, são apenas
camadas superficiais do longa-metragem. O mergulho no cérebro dessa mulher é um
processo sem volta. Uma viagem ao cerne do que consiste o ser humano, uma
espécie falida e maravilhosamente única. Isabelle Huppert não tem frescuras
aqui, ela se entrega completamente ao papel de Michele Leblanc. Um ato de amor
a sua profissão da maior atriz da história da sétima arte. Assistir a francesa
em ação traz sensações indescritíveis ao espectador. Uma obra indispensável
para qualquer público. Confira a crítica com a nota
1º – A Professora de Piano (Michael Haneke, 2001)
Explorando os
nuances que tangem o conceito de perversão, Michael Haneke entrega uma obra
contemplativa. Um estudo fiel sobre a vida de uma mulher perversa em completo
estado de desconexão com o mundo que a cerca. Teremos abordados temas como, por
exemplo, a relação perturbadora entre mãe/filha, falta de assertividade nas relações
interpessoais, a degeneração do aparato psíquico no perverso e o conceito de
sofrimento em perversão. Um filme cruel em suas investidas, assim como a
protagonista, desprezando os limites impostos pelo espectador. Como se tudo
isso não fosse o bastante, ‘A Professora de Piano’ ainda entrega a maior
atuação feminina da história do cinema.
O filme vai
contar a história de Erika, uma professora de piano, extremamente fria em suas
relações sociais, que acaba por viver uma vida dupla, entregando parte de seu
dia ao estranho hábito de frequentar cinemas pornôs. A frieza da mulher é
unicamente despejada na sua máscara social, já que na presença da mãe acaba por
se comportar como uma espécie de adolescente. E sendo tratada como tal. A trama
do filme ganhará sua substância com o surgimento de um aluno completamente
obcecado na figura da professora, desenvolvendo por ela uma paixão inescapável.
Os dois vão aos poucos desenvolvendo um estranho tipo de relacionamento, onde
os limites morais e éticos serão atingidos, desnivelando na professora toda a
sua fragilidade psíquica.
O início do
filme serve para alocar o espectador na vida de Erika, mostrando primeiro sua
relação com sua mãe, uma figura castradora responsável provavelmente por grande
parte dos problemas que afligem a mulher. Sua mãe a trata de uma maneira
adolescente, como se Erika tivesse 15 anos, não deixando a filha chegar mais
tarde do que deveria em casa, inspecionando todo o tipo de objetos da mulher e
regendo, até mesmo, a forma como a filha se veste.

Essa relação
passa longe de ser problemática unilateralmente, Erika também estimula esse
comportamento por parte da mãe, deixando com que ela dite sua vida
profissional. As duas ainda evidenciam esse laço praticamente inquebrável com o
ato de dormirem na mesma cama.
Nas cenas
seguintes somos inundados com a frieza com que Erika acaba levando sua vida em
meio ao convívio social. A mulher trata todos que a cercam de forma mecânica.
Todas as suas frases e esboços de expressões faciais parecem ser controladas,
uma espécie de roteiro ético e social. Seu relacionamento com seus alunos além
de ser frio também se faz cruel, punindo severamente com ameaças veladas
qualquer tipo de comportamento que lhe pareça ameaçador.
É em meio a
essa frieza, essa máscara social tangida pela normalidade, que haverá o grande
contraponto da obra. De forma abrupta somos introduzidos aos hábitos
completamente surreais da protagonista. Em um momento estamos inseridos na vida
tediosa e normal de Erika, no outro, estamos adentrando a um cinema
pornográfico onde a mulher assiste os filmes com um ar passivo, nutrindo
hábitos de cheirar lenços onde os homens vieram a ejacular.

Tudo que se
segue após essa cena, preponderante para as ambições do filme, acabam enojando
o espectador. Ficará claro, se até aqui nós ainda tenhamos alguma dúvida sobre
a natureza da mulher, o fator perverso que lhe acomete, atingindo atos de
parafilias, como voyeurismo, sadismo e, principalmente, o masoquismo.
Seria
importante, antes de nos inserirmos na questão conceitual da psicopatologia que
acomete Erika, ressaltar o esboço de trilha sonora que o filme nos propicia.
Fora as aulas e apresentações de piano, o único momento que temos a introdução
de um esquete de trilha sonora é exatamente neste corte abrupto citado acima
entre normalidade e o patológico. As composições musicais clássicas que são
entoadas no caminho da mulher para o cinema pornô delimitam o quão crucial é
esse momento para o filme, esse corte imediato entre uma realidade insossa e a
outra praticamente intragável. O diretor já havia usado esse modelo de corte
por meio de esboços de trilha sonora em ‘Violência Gratuita’(1997), quando a
música serve para tirar a realidade social e pacífica da família do filme, para
lhes apresentar o conceito cruel da violência instintual do mundo. Os modelos
usados são idênticos nos dois filmes e essenciais para essa quebra forçada no
espectador entre uma realidade e outra.
Essa
realidade bidimensional que Erika vive é sempre guiada por sua falta de
sentimentos em relação ao mundo que a cerca. Esses sentimentos ausentes é algo
que incomoda a própria protagonista, onde a mulher simplesmente anseia por algo
que lhe faça se sentir viva. E é neste momento que teremos uma cena magistral
que homenageia um clássico de Ingmar Bergman.

A cena em
questão é quando Erika se tranca no banheiro, pegando uma gilete e cortando sua
área genital. Essa cena encontra sua ligação histórica no filme ‘Gritos e
Sussuros’(1972), quando Karin, personagem interpretada por Ingrid Thulin, pega um pedaço de espelho quebrado e corta sua vagina. Os simbolismos
destes atos se encontram, onde ambas as personagens procuram com o ato imprimir
em si algum tipo de sentimento, nem mesmo que este seja de dor. Karin procura
algo que a faça acordar do pesadelo melancólico que sua vida se tornara. Já
Erika procura na dor algo mais ligado ao fetichismo, onde a busca por
sentimentos sempre se ligará nas pulsões sexuais da mulher.
Há nesses
pequenos comportamentos da protagonista uma sensação de distanciamento do real,
da realidade externa inerente a ela. Erika vai entrar em um emaranhado de
atitudes onde trata as pessoas a sua volta como meros objetos na busca por seus
objetivos. A mulher passa a ser cada vez mais ausente em seu trato social. Em
outro momento decide, como um animal encurralado, atacar uma aluna por
simplesmente despertar a atenção do jovem com quem desenvolveria sue
relacionamento.
O
desenvolvimento do romance atípico com o jovem é todo pautado nessa busca por
sentir algo em sua vida. E é neste momento que chegaremos no ponto derradeiro
do processo de evolução da perversão em Erika, quando finalmente atinge o
estado masoquista da patologia. O masoquismo vem como ponto final na busca
incansável da mulher por sentimentos reais.

Esse
masoquismo presente em Erika é colocado em forma de palavras na cena em que
escreve uma carta para o jovem com quem está se relacionando, pedindo para ele
seguir um série de regras, onde ela iria se sujeitar completamente a ele. O
momento em que ele lê a carta em voz alta para ela, com um ar de completa
consternação àquilo, é ímpar no cinema e extremamente perturbador.
O jovem
apenas queria vivenciar aquela paixão que nutria pela personagem da professora,
sem ter ideia do que consistia a essência da mulher. E no momento em que lê a
carta, ele é submetido a um choque de realidade onde essa paixão pela mulher
abre espaço para o completo enojamento por sua pessoa.
Para Erika o
jovem é apenas um objeto pelo qual ela pode alcançar a satisfação sexual. Ali
não está presente um ser humano, mas sim um falo, um objeto que pode lhe
afligir dor e etc. Já para o jovem, a priori, antes da carta, a mulher era uma
aventura romântica pela qual ele sempre ansiara. Esses contrapontos cruéis
acabam por levar a relação para lados opostos, causando a completa quebra do
aparelho psíquico que ainda sustentava o mínimo possível Erika no mundo e uma
completa perturbação no jovem um tanto quanto inocente, levando o mesmo a uma
confusão da forma em que pretende agir posterior ao descobrimento da carta com
a mulher.

A reta final
do filme vai se ater ao processo de degeneração do constructo psicológico de
Erika, até chegar ao estágio de completa loucura. É questionado pelo filme
também o conceito de sofrimento do perverso. De como aquela falta de
pertencimento ao mundo e ao meio social acaba marcando a vida dessas pessoas.
Erika quer mudar, quer se sujeitar a um processo de mutação em um ser social. A
cena que evidencia isso é quando ela implora pela reconsideração do jovem,
prometendo dar a ele tudo que ele queria a priori. Quando ele aceita a proposta
dela, a mulher acaba tendo uma reação física de repulsa que mostra a
impossibilidade de algo próximo ao desenvolvimento de sentimentos. Erika é
incapaz de mudar e sofre por isto.
O ato final é
interpretativo. Não sabemos bem o destino que Erika levara. O roteiro de
Haneke, baseado no romance de Elfriede Jelinek, deixa a encargo da imaginação do espectador projetar os passos tristes
de professora.
A direção de
Michael Haneke foge um pouco da forma como vinha se consumando em seus filmes
anteriores, se comparando mais ao estilo empreendido por ele posteriormente em
‘Amor’(2012), por exemplo. Esse estilo esquece a obsessão nos objetos que
permeiam os ambientes, dando um foco na completude da personagem protagonista,
com enquadramentos fechados, que sempre procuram preservar o estado psicológico
que se encontra a mulher. O brilho do trabalho de Haneke é se conscientizar que
possui em mãos uma atriz sem frescuras, disposta a ir ao limite do aceitável
para consumar sua atuação.

Isabelle Huppert está completamente genial no filme. A
atriz consegue dar uma intensidade presente na frieza da personagem,
aproveitando os enquadramentos fechados em sua face para dar ao espectador toda
a anomalia que tange aquela mulher. Huppert compadece o público em alguns
momentos, já em outros nos deixa completamente enojados. Ela é frenética em
cena, cada segundo projetado da atriz em tela trabalha por deixar o espectador
completamente extasiado. São vários os momentos onde a atriz ultrapassa sua
consistência padrão, atingindo níveis incríveis de atuação, como na cena onde
coloca em prática o lado voyeur da personagem, espiando um casal fazendo sexo
em um carro, quando, com a câmera fechada em seu rosto, vai às lágrimas pela
empolgação do momento. São 131 minutos de filme onde teremos mais de uma dezena
de momentos como este. A maior atuação feminina da história do cinema. O nível
que a francesa empreende em suas atuações, e mais específico nesta, atriz
nenhuma conseguiu chegar perto.
‘A Professora
de Piano’ é um estudo acurado sobre os construtos psicológicos de um perverso. Haneke
ainda questiona o senso comum e, até mesmo, alguns profissionais da área que
afirmam que os acometidos desta psicopatologia não possuem um sofrimento
intrínseco a seu ser. O diretor acaba por mostrar, com a personagem de Erika, o
quanto existe, sim, um sofrimento exacerbado na constituição do aparato
psíquico no perverso. Um filme difícil de ser digerido, que ainda relata o
quanto um vínculo demasiado com a família pode ser prejudicial no
desenvolvimento do ser humano. Confira a crítica com a nota