Neste top10, vamos trazer dez filmes com ótimas atuações que norteiam suas histórias. Suas atuações se fazem essenciais para o que os filmes trazem em sua essência. Uma junção de atrizes e atores no ápice de suas carreiras.

10º – Capitão Fantástico (Matt Ross, 2016) – Viggo Mortensen

Utilizando um
roteiro conciso e eficiente, ‘Capitão Fantástico’ consegue dar ao espectador um
Road Movie interessante e, por vezes, sensível. Matt Ross faz uma direção
regular (sem a mesma inspiração de seu roteiro), conseguindo criar em seu filme
uma atmosfera parecida com a de ‘Pequena Miss Sunshine’(2006).
A trama de
‘Capitão fantástico’ aborda a processo de luto de uma família que, acostumada a
viver sem um contato ativo com outros seres humanos ou a uma sociedade, é
obrigada a se inserir em um mundo diferente ao que estão acostumados. O roteiro
aqui é complexo. Temos um protagonista que aos poucos vai sendo sugado pelos
seus próprios ideais morais rígidos. Sua vida vai se degenerando gradualmente,
levando toda sua família com ele. Sua personalidade autodestrutiva acaba por,
assim no personagem de David Thewlis em Nu(1993), destruir a vida de todos que o cercam.

Apesar do
roteiro ser ótimo, o que desponta como o ponto alto do longa é a atuação de Viggo Mortensen. Nutrindo aqui seus maneirismos habituais de suas interpretações,
Mortensen ainda consegue dar mais substância ainda ao já complexo personagem.
Sua performance no filme é extremamente física. A direção é o que destoa um
pouco no filme, tomando decisões erradas na hora de executar determinadas
cenas, tornando-as demasiadamente cruas.
‘Capitão fantástico’
mostra a crueldade natural do mundo. Vemos aqui uma família que aos poucos vai
se dando conta do futuro penoso a que estão condenados. A vida fora de uma
sociedade, já completamente em desuso nos dias atuais, é incompatível neste
mundo a qual estamos inseridos. O filme acaba sendo regular, não alcançando uma
intensidade necessária para a trama. Matt Ross comanda apenas seu segundo filme
aqui, já realizando uma obra notável. Sem dúvida o filme merece uma atenção
especial.
9º – As Duas Inglesas e o Amor (François Truffaut, 1971) – Jean-Pierre Léaud
Contendo os
elementos que François Truffaut demonstrou ter pleno domínio durante
toda a sua carreira, ‘As Duas Inglesas e o Amor’ é um filme poético sobre um
triângulo amoroso condenado ao fracasso devido ao acaso. Um filme longo, não
por seus 130 minutos de duração, mas pelo conteúdo ali exposto, que segue a
linha de qualidade dos outros trabalhos do diretor.
O filme,
baseado no romance de Henri-Pierre Roché, se propõe a contar a vida de Claude Roc, um francês que acaba por
conhecer a figura de Ann Brown, uma inglesa de passagem por Paris. Claude e Ann
desenvolvem um laço de amizade e ela o convida para passar um tempo em sua
casa. Claude aceita o convite e após algum tempo vai conhecer a casa da moça,
onde conhece sua mãe e sua irmã Muriel, por quem desenvolve uma paixão
instantânea. Ann incentiva e apoia o relacionamento, mesmo se sentindo atraída
por Claude. A história ganha força quando Muriel finalmente se deixa levar por
seu romance e aceita se casar com Claude. 
Porém, as mães dos dois de opõem a ideia, somente aceitando o casamento
se os dois concordassem em passar um ano separados, para poderem assimilar todo
o contexto do relacionamento a qual estão inseridos. Ambos aceitam sem objeção,
sem saber que por este estariam condenando o futuro de ambos. A trama se passa
no início do século XX.
O caminho do
filme segue um infindável emaranhado de determinados fatos que ora afastam o
casal, ora os une. A personagem fundamental do filme se encontra em Ann Brown.
É a partir dela que todas as histórias avançam e se ligam, mesmo ela sendo a
personagem com menos tempo em tela. Ann é a figura com mais conteúdo da
história. É dela que vem as atitudes mais contundentes e assertivas no filme.

O roteiro
adaptado do filme é do próprio Truffaut, em parceria com Jean Gruault.
Truffaut e Gruault conseguem dar substância a história, alocando em 130 minutos
a parte relevante da vida dos personagens, sempre dando espaço para que cada
uma das histórias se desenvolva por si só, nem sempre contando com o
protagonista como elemento principal. A escolha também de colocar uma figura
narrativa independente dos personagens, ajuda a nortear o espectador.
A direção de
Truffaut segue sua linha tradicional de se fazer filmes, lembrando muito o
clima de filmes como ‘Um Só Pecado’(1964) e ‘Beijos Proibidos’(1968),
anteriores a este, e repetindo em ‘A História de Adèle H.(1975). O francês
escolhe por uma direção contemplativa, sempre deixando em evidência os cenários
a volta dos personagens e, assim como Ingmar Bergman imortalizava em seus
filmes, utilizando o ‘close-up’ em seus personagens, onde o ator fala
diretamente com o espectador.

O elenco
conta Kika Markham e Stacey Tendeter nos papeis das irmãs Ann e Muriel Brown, respectivamente. Tendeter tem
uma performance regular, já Markham consegue se destacar mais, tendo uma boa
atuação. No papel de Claude Roc temos o já conhecido ator dos filmes do diretor
francês Jean-Pierre Léaud. Léaud está muito bem, como sempre,
propiciando ao espectador uma atuação calma e concisa, pecando apenas na falta
de intensidade em alguns momentos.
‘As Duas
Inglesas e o Amor’ é um filme que consegue fugir um pouco dos tradicionais
clichês do gênero, não sendo, porém, imune a eles. Um filme com um ritmo bem
limitado, como vários outros filmes baseado em romances do século XX e XIX.
Entretanto, o que atrai o espectador é o modo de se contar a história proposto
por Truffaut. O diretor não ousa aqui, não veremos nenhum elemento que não
esteja presente em seus filmes anteriores, porém é exatamente isto que oferece
o charme do filme.
8º – Acima das Nuvens (Olivier Assayas, 2014) – Juliette Binoche

Uma atriz consagrada é confrontada com os dilemas do passar
do tempo quando é oferecido um papel de uma mulher em constante luta contra a
idade em um filme. Suas personas se unem, causando na protagonista conflitos
psicológicos difíceis de se lidar. ‘Acima das Nuvens’ é um filme regular, com
um roteiro um tanto quanto presunçoso, apesar de não ser ruim, uma direção que
varia de momentos bons e ruins e uma atuação ímpar da protagonista, Juliette
Binoche, que acaba por salvar a película.
O filme tenta contar a vida de determinadas pessoas por trás
das câmeras. Diretores, atrizes, sendo jovens promissores e experientes, e, até
mesmo, assistentes. Tudo acaba funcionando de maneira leve, principalmente a
personagem da assistente da protagonista, com a atuação competente de Kristen
Stewart. Entretanto, o destaque aqui é a relação das duas, com uma ótima
química presente, a relação aqui vai da admiração inocente até uma tensão sexual
latente no ar. Tudo mostrado de maneira sutil, talvez esta a grande virtude do
roteiro, e, principalmente, da direção. A protagonista parece sentir aqui algo
além de uma simples empatia com sua secretaria, dispensando a ela gestos,
palavras e olhares que fazem o espectador questionar a relação das duas. Já a
jovem assistente nutre pela protagonista nada mais do que uma admiração por uma
figura de tamanha importância que é a atriz. Sua admiração vai diminuindo no
decorrer do filme, quando esta vai, aos poucos, percebendo as alterações
emocionais e o crescente senso de egoísmo da protagonista. Sua vida é, quase
que completamente, devotada à atriz.
O elenco está muito bem no filme. Juliette Binoche tem uma
atuação quase que impecável, nos fazendo sentir em certo momento, não apenas
simpatia com a personagem, mas também uma certa repulsa. Seus atos são ausentes
de sentido, sua atuação intensa premia isso. A transformação da atriz no
decorrer do filme, não só psicológica, mas também física, consegue capturar o espectador
durante a execução do longa. Assim como toda a filmografia desta espetacular
atriz francesa, esta atuação não fica abaixo do melhor já feito da atriz.
Premiando uma nova etapa em sua carreira, não mais demonstrando sua sexualidade
jovial da década de 1990 e início dos anos 2000, mas agora nos dando uma
performance madura, não ausente de todo o seu charme clássico, é claro. Já
Kristen Stewart possui aqui seu ar melancólico característicos de suas
interpretações, adequando-se quase que a perfeição em sua personagem. Atuação
digna de uma atriz jovem com pouca capacidade de variações. Performance que só
é censurada, às vezes, por sua beleza que transpõe a todo momento sua
sexualidade. Melhor atuação da atriz até o momento.

O filme tem uma queda considerável com a introdução da
personagem de Chloe Grace Moretz. A direção se perde, não sabendo como
introduzir a personagem de maneira competente ao filme, trazendo cenas sem
sentido e longas que acabam por mutilar alguma substância do filme. Entretanto,
não o bastante para comprometer o longa. Atuações competentes que abafam, quase
que de maneira inexorável, qualquer irregularidade do filme. ‘Acima das Nuvens’
sem dúvidas merece ser visto.
7º – No Vale das Sombras (Paul Haggis, 2007) – Tommy Lee Jones
Baseado em
fatos, ‘No Vale das Sombras’ nos surpreende apresentando um thriller calmo,
utilizando-se de um roteiro feito com extrema inspiração e atuações
competentes. O cineasta Paul Haggis acerta o tom e nos brinda com um filmaço. São duas horas de uma
construção precisa da psique de um pai afogando-se em seus próprios conceitos.
Logo no
início do filme, após a apresentação da trama central, temos uma cena
fundamental para adentrar a síntese do personagem principal (protagonizado por
Tommy Lee Jones). Na cena, o personagem inicia uma viagem à procura de
respostas sobre o desaparecimento de seu filho, e acaba se deparando com uma
bandeira de seu país colocada de cabeça para baixo. O pai para seu carro e
orienta de forma calma e contundente um indivíduo, claramente ignorante sobre
os costumes locais. Cena que aparenta ter pouca importância para o filme, mas
eis aqui a chave central para a compreensão do que o personagem vive,  suas crenças e regras morais.
A procura do
pai é por esclarecimentos do porque seu filho, um militar que devia estar
voltando do Iraque recentemente, não se apresentou em sua base. Aqui,
diferentemente de Missing(Costa-Gravas), outro grande filme com temática
parecida, o pai sabe, após poucas conversas, que o caso é mais grave do
aparentava a priori.

No decorrer
do filme, vamos nos dando conta, assim como o personagem, do tamanho do fardo
que ele carrega. Temos aqui uma vida construída a partir de valores morais
rígidos. Patriotismo, senso de dever e integridade são construtos básicos do
personagem. A vida militar para ele é uma obrigação. Obrigação esta que ele
passa a seus filhos. Formados a partir destes ensinamentos, o caminho trágico
que ambas as vidas tomam acabam por refletir diretamente o que o pai causou em
seus caminhos. O personagem vive uma espécie de catarse durante a investigação,
dando-se conta no jornada de suas responsabilidades. Somos inundados com o
sofrimento e culpa que ele passa a expressar a cada olhar.
A ignorância
do pai se deve ao fato de acreditar que seu filho era um exemplo de moralidade.
No transcorrer da trama ele vai tomando ciência dos horrores que seu filho
viveu no Iraque e o quanto isto o mudou de maneira cruel. Seus atos agora eram
cruéis assim como a vida no Iraque. Somos apresentados a isto por intermédio de
vídeos presentes em um celular recuperado pelo pai.

O elenco aqui
está muito bem. Temos participações de Josh Brolin, Susan Sarandon, Jason
Patric e James Franco compondo seu núcleo. Charlize Theron interpreta uma policial
que se mostra disposta a esclarecer o caso do desaparecimento ao lado do
protagonista. Sua performance aqui é boa, nos apresentando uma mulher com uma
vida familiar complicada e no âmbito profissional limitada a subir em sua
carreira em virtude de casos com as pessoas certas. Entretanto, o destaque aqui
é para a atuação de Tommy Lee Jones. Uma atuação contida, demonstrando uma
sensibilidade ímpar para representar o pai obstinado. A cada cena sua, temos
uma aula de boa interpretação. Limitando-se a olhares, expressões faciais e
palavras calmas ele consegue nos introduzir a vida daquele homem.
Os aspectos
técnicos são discretos. Uma direção que tem como sua maior preocupação dar ao
protagonista a liberdade e conforto para guiar a trama, assim como a
fotografia. Já a trilha sonora pontua nos momentos certos seu tom nostálgico e
contemplativo.
‘No Vale das
Sombras’ é um relato fiel da vida de muitos americanos patriotas que se veem
presos a uma ideologia defasada, sem se dar conta do quão venenoso isso pode
ser as suas futuras gerações. O filme seria bom sem a presença de Tommy Lee
Jones como protagonista, porém sua presença aqui torna o longa-metragem único.
6º – O Agente da Estação (Tom McCarthy, 2003) – Peter Dinklage
Contando as
histórias de personagens que se fundem em sua própria solidão, ‘O Agente da
Estação’ acaba se definindo como uma obra suave, que mostra a tranquilidade com
que os personagens encaram os conflitos que permeiam suas vidas. Uma comédia
doce que acaba por transcender seu gênero, inserindo-se na dramaticidade de se
tentar viver alheio à sociedade.
O filme vai
contar a história de Fin, um homem que sofre de nanismo, que, após o dono do
lugar onde trabalha morrer e deixar uma propriedade em uma zona rural de Nova
Jersey, acaba deixando sua vida na cidade grande para trás em decorrência do
preconceito social exacerbado contra a patologia que o aflige. Nesta nova
cidade, Fin acaba por encontrar e começar um relacionamento de amizade com Joe,
um vendedor de cachorro-quente, e Olivia, uma mulher recentemente divorciada
que perdeu seu filho.
A trama do
filme vai se desenvolver exatamente no relacionamento improvável entre os três
personagens, revelando os motivos de eles residirem em um local tão longe do
tumulto social e o desmembramento de seus conflitos internos. Nos prolongaremos,
durante os curtos 89 minutos de duração do filme, neste relacionamento
catártico entre os três e as implicações que isso irá acarretar.

Toda a
história contada tem um desenvolvimento contínuo, explorando todos os três
personagens centrais da trama, sem deixar nenhum ficar sob as sombras do outro.
No entanto, a história procura adentrar ao cotidiano dos personagens sempre
pela visão de Fin. É o homem que faz essa ligação entre os três, acabando por
tornar toda essa junção de personas diferentes possíveis.
São debatidas
aqui as opressões a que os personagens são submetidos pela sociedade, e daí o
desejo de se desvincular dela. Cada um, por uma motivação diferente, anseia
pela solidão para poder ter um pouco de paz em suas vidas. A vida construída
longe do contato dos outros fica longe de se fazer satisfatória para eles, mas
pelo menos entrega um alívio necessário.
É importante
fazer um paralelo entre as diferentes vertentes que guiaram os personagens a buscar
o isolamento. O isolamento de Fin vem devido aos constantes preconceitos que as
pessoas despejam sobre o homem devido a sua patologia. Fin, em sua rotina
diária, é alvo de gozações, olhares assustados e perguntas ofensivas sobre seu
tamanho. Olivia anda por caminhos diferentes. A mulher buscou esse isolamento
de maneira proposital, sendo incapaz de se submeter às rotinas comuns após a
morte de seu filho. A vida inserida a um ambiente social turbulento, com
familiares e amigos, simplesmente passou a enojar a mulher. Já na figura de Joe
o isolamento foi uma coisa imposta pelo mundo ao seu redor. Falante demais, o
homem acaba por se tornar sociável em demasia, tornando seu convívio com os
outros inviável.

Em seu
primeiro trabalho a frente da direção, Tom McCarthy faz um trabalho mais conservador, se limitando a cenas com um trabalho
de câmera mais fixo, sempre explorando cenários bem delimitados. Toda essa
limitação passa longe de ser algo ruim para o filme, entregando para o roteiro,
também escrito por McCarthy, a responsabilidade de guiar completamente o filme.
O diretor também escolhe por dar um clima ultrapassado ao filme, parecendo, por
seus enquadramentos e composições de cenário, uma obra realizada 10 anos antes.
O elenco é
composto por atores esforçados. No papel dos três personagens centrais temos Peter Dinklage, Bobby Cannavale e Patricia Clarkson. Todos estão ótimos, tendo em suas atuações um ar melancólico que
norteia seus personagens. É impossível destacar uma atuação, todas seguem o
mesmo padrão.
A reta do
filme acaba ficando um pouco forçada demais em seus conflitos, sem, no entanto,
perder o foco. ‘O Agente da Estação’ acaba se destacando pela sutileza com que
trata de assuntos difíceis, como processo de luto e preconceito social. Um
filme que faz o espectador se perguntar sobre o modo de como um indivíduo em
uma sociedade moderna é ensinado a agir, desprezando qualquer coisa que fuja
aos seus ideais comuns.
5º – O Reencontro (Lawrence Kasdan, 1983) – Todo o Elenco
Lawrence
Kasdan opta por trazer, em seu primeiro filme a frente da direção, uma obra
leve e sensível sobre a vida em seus mais diversos âmbitos. Tratando de temas
como a morte, por exemplo, de uma sutil, aproveitando de sua trilha sonora
recheada de clássicos e um elenco fenomenal.
A trama do
filme contada é a de um grupo de vários amigos dos tempos de faculdade que se
reúne depois que um membro do grupo comete suicídio. O reencontro do grupo
acontece primeiro durante o funeral do tal amigo e, após isto, em uma casa de
um deles durante um final de semana. Durante este final de semana veremos
sentimentos aflorarem, velhos fantasmas do passado vindo à tona e várias histórias
de vida dos personagens ali inseridos.
O grupo tenta
desvendar as causas do que levara seu amigo a cometer o suicídio. Veremos os
personagens trabalhando o processo de luto, cada um de sua forma, de uma
maneira contínua. Uns tinham mais empatia pelo morto, outros já eram mais
distantes, no entanto todos nutriam um sentimento de carinho pelo indivíduo,
assim como por todos ali. A figura da morte presente no lugar e o processo de
luto é apenas uma das camadas do longa. Aqui temos indivíduos que se fizeram
pessoas juntos, mas que em algum momento de suas vidas acabaram se afastando
uns dos outros.  Temos presentes nos
personagens sentimentos de nostalgia, raiva, alívio e dúvida. Cada um dos
personagens encara de forma diferente o reencontro do final de semana.

O maior
acerto do filme é não revelar mais que o necessário sobre a natureza de cada
personagem. Conhecemos cada um o máximo que poderíamos em um único final de
semana, de uma maneira um tanto quanto superficial, como se estivéssemos
presentes juntos com os personagens naquela casa, lembrando muito a atmosfera
presente em ‘Setembro’(1987), de Woody Allen. Temos apenas um esboço do que
leva determinados personagens a agirem da forma que o fazem.
A direção de
Lawrence Kasdan é muito boa, sabendo explorar o ambiente quase que exclusivo
onde o filme se passa, utilizando cada objeto ali presente para dar uma tom
uniforme ao filme. Kasdan também trabalha muito bem com a trilha sonora,
distribuindo pelo longa diversas músicas consagradas que ajudam a digerir o
conteúdo que se está sendo passado.
O roteiro do
filme é escrito também por Kasdan, em parceria com Barbara Benedek. E, seguindo a linha de qualidade de sua direção, entrega um roteiro ótimo.
Acabamos por nos identificar com todos os personagens contidos na história. Os
diálogos são sempre simples, porém cheios de significados intrínsecos.

A parte de
destaque do filme sem dúvida é seu elenco. Temos aqui a presença de Tom Berenger, William Hurt, Kevin Kline, Glenn Close e Jeff Goldblum engrandecendo o filme. Todos muito bem no filme, distribuindo uma
química padrão, onde todos parecem muito a vontade para contracenar com as
peças presentes ali.
‘O
Reencontro’ é um filme único, conseguindo abordar temas complexos como morte,
traição e drogas de uma forma palatável. A escolha por atribuir à atmosfera do
filme uma trilha sonora com músicas memoráveis somente contribui para seu
sucesso. Ainda temos a junção de um diretor extremamente competente, em seu
início a frente da direção de filmes, com um elenco de alto nível.
4º – Big Jato (Cláudio Assis, 2016) – Matheus Nachtergaele

Cláudio Assis
realiza aqui o filme mais otimista de sua carreira, desprezando sua habitual
escolha pelo lado podre da humanidade e alterando levemente a estética de sua
direção. ‘Big Jato’ é uma obra um tanto quanto onírica que acaba conseguindo,
por meio do uso recorrente de seu lado poético e sua suavidade, encantar seu
espectador a cada minuto de sua duração.
O filme,
baseado no livro de Xico Sá, se propõe a contar sobre a vida em uma pequena
cidadezinha fictícia do interior de Pernambuco. Nada acontece na pequena
cidade, os dias se repetem e seus moradores acabam vivendo em uma espécie de
redoma, sem a possibilidade de vislumbrar uma forma de viver diferente daquela.
É neste clima de prisão que conhecemos Chico, um adolescente sonhador que, por
influencia do irmão de seu pai, um radialista da estação local, deseja um dia
viver de sua poesia. Chico vive com sua família em uma situação de limitações
financeiras, nutrindo uma relação conturbada com seu pai, um homem moralista que
tem como seu ganha-pão o trabalho de limpar as fossas dos habitantes locais com
seu caminhão, o possante “Big Jato”.
A história
ganha forma exatamente neste conflito de Chico com seu pai. Seu pai é um homem
honesto e trabalhador, mas que vê na bebida um escape para a realidade cruel
que o destino lhe ofereceu. O homem acaba por enraizar em seu âmago um ódio
inerente à figura de seu irmão, cuja persona se revela tudo aquilo que ele não
é. Chico vive nesta ambivalência de valores, não sabendo direito a quem seguir.

Teremos aqui
sempre a escolha de colocar, em curtos períodos de tempo, uma fuga da trama
principal, amenizando o impacto da história com versos poéticos entoados por um
residente da cidade local em conversas paralelas com Chico. E são exatamente
nestas conversas que Chico revela seus dilemas mais íntimos e suas indagações
sociais e materiais.
O ritmo
proposto por Claudio Assis é contundente, conseguindo criar uma atmosfera única
ao longa. No personagem de Chico temos expostos todos os conflitos presentes na
adolescência, como a afloração de sua sexualidade, a busca por uma
identificação interna e uma desvinculação das figuras familiares que o limitam.

É de suma
importância destacar também a figura da cidade no inconsciente coletivo
daqueles que ali residem. Peixe de Pedra é uma entidade em particular, com suas
histórias, clima e construtos de indivíduos únicos guiando a forma de como seus
habitantes levam suas vidas.
A direção do
Cláudio Assis é mais uma vez primorosa. O diretor desta vez escolhe por alterar
minimamente a estética de seu filme, dando a este uma atmosfera mais limpa e
tradicional do cinema nacional. Entretanto, estão presentes no filme alguns
elementos tradicionais do universo do cineasta, como a câmera aérea dando um
panorama visual pouco usado por outros diretores, a quebra da quarta parede,
onde os personagens falam diretamente com seu espectador, colocando o mesmo
dentro da história, e seus pequenos planos-sequência utilizados em alguns
momentos.
Vários outros
componentes da equipe do filme se destacam, como o roteiro de Hilton Lacerda
sabendo adaptar uma história com caminhos diferentes e pouco explorados, a
cinematografia de Marcelo Durst,
talvez a melhor de todos os filmes do diretor e a edição sempre precisa de
Karen Harley, responsável por outros dois trabalhos de Cláudio Assis.

Na ponta do
filme temos Rafael Nicácio no papel de Chico e Matheus Nachtergaele interpretando tanto o pai quanto o tio do protagonista.
Nicácio consegue propiciar ao filme uma interpretação muito positiva, dando
sempre um tom de ingenuidade e indecisão ao seu personagem. Já Nachtergaele é o
grande destaque do filme, tendo uma atuação extremamente intensa nos dois
personagens, conseguindo, no entanto, condensar seu ritmo para dar a impressão
ao espectador que ali realmente estão duas pessoas diferentes.
‘Big Jato’ é
um filme excelente que consegue entregar o que há de melhor no cinema
brasileiro. A sensibilidade para tratar de temas espinhosos como rejeição
social e pobreza dá a substância necessária ao filme. Porém, quando é para ser
mais cruel e visceral o filme também alcança sucesso. Mais um trabalho
impecável de Cláudio Assis, se consolidando de vez entre os melhores diretores
do país.
3º – Desaparecido – Um Grande Mistério (Costa-Gavras, 1982) – Jack Lemmon
Contando a história de um jovem ingênuo com aspirações
intelectuais que desaparece em meio a um golpe militar no Chile, o filme aborda
os aspectos políticos e familiares da questão. O filme aborda de maneira
delicada e sombria o drama de uma família em uma busca desesperada a procura do
jovem americano.
O filme tem seus primeiros 20 minutos calmos, contando a
vida de um jovem sem rumo, idealista, como o filme sugere, procurando por um
sentido para sua vida em um país em chamas, em meados da década de 1970. O
jovem, interpretado de maneira competente e discreta por John Shea, é casado
com uma mulher com contornos revolucionários(Sissy Spacek), que ignora o perigo
das ruas procurando, quase de que maneira suicida, por algo que simplesmente
não está ali. 
A atmosfera crua e angustiante do filme gera no espectador a
sensação de que algo espreita os jovens pelas sombras. O grande ponto de virada
do filme, após os primeiros 20 minutos, é no momento em que o roteiro engana o
espectador, dando a sensação de que o perigo vai atingir determinado
personagem, quando de fato o atingido foi outro. A edição contribui para isso,
deixando lacunas propositais na trama.
O segundo ato do filme se desenvolve após o desaparecimento
enigmático do jovem, fazendo com que seu pai saia dos Estados Unidos a procura
de seu filho. Jack Lemmon interpreta o pai do jovem de maneira grandiosa.
Lemmon traz, no início da apresentação de seu personagem, um homem
completamente ignorante em relação ao que estava acontecendo no Chile,
acostumado com uma vida tranquila e com muito dinheiro nos EUA, mostrando uma
postura superior com as pessoas a sua volta. No decorrer do filme o personagem
vai sucumbindo ao desespero, se dando conta que a situação é irreversível. O
roteiro é impecável com a formação de cada personagem, de suas personas, e
deixando latente o aspecto político de toda a situação.
 O elenco do filme está muito bem. Jack Lemmon, em talvez a
melhor atuação de sua carreira, ausente de exageros, não deixando o espectador
desenvolver empatia pelo seu personagem. O brilho de sua atuação não se dá em
virtude de uma ou duas cenas, mas quando se junta todos os 122 minutos do
filme. O personagem vai da confiança e prepotência iniciais até, no final, um
homem completamente desesperado, vítima das circunstâncias, de seu modelo de
vida, de sua falta de habilidade paterna. Lemmon nos conduz por todas essas
qualidades e fases que o protagonista passa de forma assombrosa; Sissy Spacek
realiza aqui a melhor atuação de sua vida. Intensa do começo ao fim, ela
consegue adentrar a psique de sua personagem, em um papel extremamente difícil
e; John Shea que tem uma performance competente, conseguindo envolver o
espectador com toda a inocência de seu personagem.
A parte final apenas pontua de forma precisa toda a
atmosfera decadente do filme. Contando com uma trilha sonora marcante e uma
direção competente, a película, mesmo sem contar com cenas fortes, é
extremamente impactante. Trata-se da inocência quebrada, tanto por parte do
jovem desaparecido, quanto de seu pai, acostumado com sua vida de conforto nos
Estados Unidos, da constatação inerente do óbvio. O clima de tensão, envolto em
um completo mistério faz sua conexão com ‘Zodíaco’(2007), de David Fincher, no
quesito de precisar apenas de um roteiro bem construído para deixar o
espectador apreensivo. Seu clima nostálgico, de um tempo inexistente passado,
nos remete à ‘O Silêncio do lago’(1988), de George Sluizer. O completo clima de
desespero que impera na segunda metade do filme aproxima os dois filmes, além
de sua fotografia fria, um pouco mais discreta em ‘Missing’.
2º – Zona de Risco (Chan-wook Park, 2000) – Kang-ho Song

Sendo talvez
o filme que mais deixe claro a passagem de estilos do cinema coreano do final
da década de 1990 para o início dos anos 2000, ‘Zona de Risco’ é uma obra quase
impecável. Teremos exploradas, nesta pérola do cinema oriental, a amizade, as
exacerbações políticas de dois países e o senso moral dos indivíduos ali
inseridos. Um roteiro conciso e atuações extremamente emocionais somente abrem
o caminho para o trabalho genial de Chan-wook Park na direção. Um filme que
pode enganar seu espectador, tendo em vista seus pôsteres e sinopses,
entregando muito mais do que este esperava.
O filme vai
trazer a seu espectador os desdobramentos e as motivações da eclosão de um
conflito surgido em uma parte da fronteira que divide a Coreia do Sul e a do
Norte, que resultou na morte de dois militares norte-coreanos. Embarcaremos no
desencadeamento de uma investigação que tentará trazer à tona tudo o que de
fato aconteceu naquela fatídica noite. Veremos a marca que aquilo causou nos
sobreviventes envolvidos diretamente no fato e como, às vezes, nem mesmo um
laço forte de amizade pode superar mágoas territoriais.

Toda a
estrutura do filme é dividida em fragmentos aleatórios dos fatos ocorridos e da
investigação. Teremos como personagens centrais para a história a Maj. Sophie
E. Jean, mulher responsável por comandar as investigações e impedir um
incidente diplomático ainda maior entre os países, Sgt. Lee Soo-hyeok, um militar sul-coreano em seus últimos meses de serviço, e Sgt. Oh
Kyeong-pil, um militar norte-coreano ciente das condições rigorosas que regem o
seu país. Essas estruturas citadas vão se basear nos três personagens, onde
Sophie terá o arco responsável por nortear o espectador no filme e os outros
dois terão as partes que dão substância à história.
Não
seguiremos aqui uma ordem cronológica tradicional. O filme vai aos poucos dando
o conteúdo ao espectador. Em um momento estamos no cenário da investigação, com Sophie
comandando os interrogatórios atrás das informações, no outro temos os meses
anteriores até chegar ao incidente esmiuçado para o espectador. O ritmo que o
filme empreende é muito sedutor, jamais deixando que o espectador se sinta
desmotivado por saber o que motivou tudo aquilo.
Teremos um
aprofundamento na questão do quanto o ser humano precisa do outro para poder se
desenvolver em um âmbito psicológico. A figura da amizade é forte durante os
110 minutos de duração do filme. O filme investiga como podemos chegar ao sentimento
de uma completude no que acaba por ser estranho a nós, como, no exemplo do
filme, as diferenças morais e éticas de um país. Toda essa figura do
companheirismo é mostrada de uma maneira carregada de um sentimentalismo
intenso no filme.

O roteiro do
filme consegue fazer com que toda a carga emocional do filme não fique
demasiada, mesclando isso com diálogos mais descontraídos e alguns escapes para
situações cômicas. Não vamos ter aqui também saídas típicas para histórias com
essa temática, conforme o filme avança vai ficando claro que todas as situações
jamais vão ser resolvidas da maneira mais comum e fácil. É claro que alguns
clichês acabam ficando presentes na obra, como, por exemplo, o personagem que
tem pouco tempo de exército faltando para ele antes do incidente ou do outro
que sabe das condições precárias as quais está submetido.
Existe ainda
um pequeno ponto que devemos destacar. Este é um filme feito na Coreia do Sul
que acaba obviamente trazendo um material conturbado sobre a outra Coreia.
Durante algum tempo do filme teremos questões colocadas que, de uma forma ou outra,
acabam questionando o modelo político e de vida do país vizinho. Porém,
diferente do que estamos acostumados com a visão norte americana de ofender
tudo aquilo que foge de seu padrão tido como normal, aqui teremos uma visão
realista. Nada do que é exposto foge da forma soturna que os norte-coreanos
tangem o seu país. E o filme trabalha por deixar isto bem claro.

A direção de
Chan-wook Park segue a risca o padrão do cineasta. Park utilizada pela única
vez em sua carreira um modo mais defasado de se fazer cinema em seu país. O
filme é do ano 2000, época em que o cinema coreano começava a conceber a grande
revolução em seu modo de se fazer uma obra. E aqui temos um filme que usa o
modelo presente até o final dos anos 1990, com uma câmera mais estática e
enquadramentos melodramáticos, mas também contamos, e é isto que aloca a obra
em outro patamar, o início do que se constituiria o cinema coreano, utilizando
sequências frenéticas, cenas dos mais diversos ângulos e uma exacerbação da
violência. ‘Zona de Risco’ conta com uma infinidade desses valores, como uma
cena no começo do filme na fronteira, filmada com uma câmera aérea(god’s point
of view), que é essencial para tudo o que trabalharemos na trama.
Outros detalhes
que valem a pena serem lembrados é a edição de Sang-beom Kim, atribuindo
ao filme sempre um dinamismo ao contar sua história, e a trilha sonora de Jun-seok Bang e
Yeong-wook Jo,
que sabe pontuar os momentos cruciais do filme e dando às cenas de ação um
olhar completamente deturpado do que a situação oferece. Essa trilha serviria
de um esboço para Jo colocar em prática o que Park tinha em mente para seus
filmes posteriores.

O elenco do
filme conta com Byung-hun Lee, Kang-ho Song e Yeong-ae Lee nos papéis de maior destaque. Yeong-ae Lee acaba tendo uma aparição mais limitada como Sophie, não convencendo
muito na personagem. Já Byung-hun e Kang-ho estão incríveis. A relação que os
dois acabam tendo no filme só consegue passar um grau de veracidade ao
espectador em detrimento da química entre os atores. Ambos escolhem por um tom
de atuações bem intenso, demonstrando sempre que os personagens estão em seus
limites.
‘Zona de
Risco’ é uma obra que, apesar do conteúdo rústico que aborda, consegue
emocionar o espectador com sua aura sensível para lidar com os relacionamentos
humanos. Durante o filme teremos várias cenas que a obra atinge seu auge da
carga dramática trabalhando por nos emocionar em todas elas. Um dos melhores
filmes de Chan-wook Park e um trabalho de direção que deixa o espectador
extasiado. Como se não fosse o bastante, contamos ainda com um dos filmes que
melhor consegue investigar a figura da amizade no ser humano.
1º – Noite de Estreia (John Cassavetes, 1977) – Gena Rowlands
Adentrar ao
universo que permeia os filmes de John Cassavetes é um maravilhoso caminho sem
volta. É cinema em sua mais pura essência. É o resgate da aura muito presente
nos anos 1940 em Hollywood, entregando o filme a seus atores, deixando-os guiar
as películas. Entretanto, Cassavetes vai a fundo em seus objetivos. Além de
entregar o comando de seus filmes para seus atores, ele investiga o que há de
mais íntimo nos personagens de seus filmes, destrinchando a psique de cada um
ali presente. Assistir a um filme de John Cassavetes é caminhar pelo que há de
mais bonito a respeito da sétima arte. E em ‘Noite de Estreia’ todos estes
elementos estão presentes.
O filme vai
relatar os dramas vividos pelos integrantes da equipe de uma peça de teatro
após sua atriz principal, e grande estrela da peça, sofrer um colapso emocional
após uma fã morrer na sua frente. Dali em diante, temos um verdadeiro caos
instalado da equipe de produção, toda uma luta para tentar executar os ensaios
até a noite de estreia, enquanto sua protagonista se afunda cada vez mais em
uma rotina de autodestruição inexorável.
A proposta do
filme é focar na personagem da protagonista da peça, Myrtle Gordon,
em primeiro lugar, destrinchando todos os detalhes surgidos após o trágico
incidente. Anterior ao acidente, Myrtle parece alheia a qualquer acontecimento
fora de sua vida profissional. Seu sucesso em sua vida profissional cria uma
persona diferente em Myrtle, subjugando a pessoa ali existente outrora. Em um
célebre diálogo com seu parceiro de cena, Maurice Aarons,
na casa do ator, destaca o quanto aquela personagem era norteada por suas
interpretações. Na cena, Maurice questiona Myrtle de forma acusadora, indagando
se ainda existia alguma emoção presente na atriz, algum resquício de humanidade
nela, nos remetendo diretamente a cena clássica entre Erland Josephson e Liv Ullmann, no arrebatador ‘Gritos e Sussurros’(1972).

A figura do
acidente, da vida desperdiçada, surge como uma espécie de sacrifício. A
mensagem é clara, seria preciso uma vida humana ser perdida para uma outra ser
recuperada. E nada mais simbólico do que o sacrifício de uma fã. Myrtle
finalmente sente algo. Ela sente a significância daquele incidente em sua vida,
o quanto aquilo estava diretamente ligado a ela. O que se segue então é uma
erupção catártica inigualável. Myrtle passa a questionar todo seu ser. Todo o
material recalcado em seu inconsciente de sua vida ressurge de uma maneira
cruel. Uma ebulição de sentimentos mal resolvidos em forma de sintomas. A atriz
agora passa a ser perseguida por um espectro da fã morta, como se essa evidenciasse,
com sua presença, o conteúdo latente da situação, da tragédia em si.
Myrtle agora
já não consegue atuar. Sua vida vai se encaminhando para um buraco de
autoflagelação e abusos na procura por uma cura de seus males. Procurando a
cura para a apatia inserida em sua vida. Procurando por um sentido em sua vida
vazia.

Toda a
instabilidade da atriz é transmitida a equipe de produção. Todos aqui parecem
se mobilizar para tentar colocar a atriz de volta aos eixos para que a peça
aconteça. O maior atingido parece ser o personagem Manny Victor,
que luta com todas as suas energias para que sua peça aconteça. Manny também
não é isento de problemas pessoais. Seu casamento parece estar em ruínas, em
uma inescapável rotina de aparências. Porém, Manny consegue deixar todos seus
problemas isolados de sua vida profissional.
A direção de
John Cassavetes é soberba. Aqui, Cassavetes não altera seu estilo e sua
estética, a única diferença de seus trabalhos característicos é a edição um
pouco mais presente. A câmera é entregue para seus atores fazerem seus
trabalhos. O diretor dedica os 144 minutos de filme para o talento de seus
protagonistas, abusando de ângulos que focam os rostos dos atores. Seu roteiro
também é outro ponto de destaque, examinando todos os nuances da situação em si
e se aprofundando na construção de seus personagens.

O elenco já
conhecido dos filmes do diretor, contém o próprio John Cassavetes(Maurice Aarons), Bem Gazzara(Manny Victor) e Gena Rowlands(Myrtle Gordon). Cassavetes tem aqui um papel mais discreto,
fazendo-se presente somente nas cenas do teatro em si e algumas em sua
residência. Gazzara está como sempre espetacular. A conhecida parceria com
Cassavetes jamais decepciona, sempre trazendo seu melhor para as telas. O
destaque do filme, entretanto, é para Rowlands, é claro. Aqui ela entrega uma
atuação extremamente física, sempre em estado frenético em tela, sendo intensa
até nas cenas mais suaves.
‘Noite de
Estreia’ segue o padrão de qualidade dos demais filmes de Cassavetes. Seria
leviano de minha parte colocar o filme em outra prateleira de qualidade. Um
retrato fiel das eventuais crises que surgem em nossa essência, e o quão
produtivas elas são. A junção de três monstros do cinema é digna de
contemplação. Um filme ímpar. Um filme que merece ser analisado, degustado,
sentido e revisto inúmeras vezes. ‘Noite de Estreia’ é único.