Utilizando do
tom teatral para reger a atmosfera do filme, Ingmar Bergman flerta aqui com
temas que viriam a dar substância a sua filmografia em anos posteriores.
‘Crise’ é um filme que tratará das diferenças que tangem a vida de cidades
pequenas e grandes, falará do senso do ser humano como algo unicamente inserido
no presente e adentrará também no caráter “deveniente” que rege nossa relação
com o mundo.
O filme,
baseado na peça de Leck Fischer, contará a vida de Nelly, uma jovem que acaba de completar 18 anos e
tem sua vida calma e tranquila alterada com o surgimento de sua mãe, a quem
jamais havia visto. A trama caminhará, durante os seus 93 minutos de duração,
sobre essa nova relação de Nelly com sua mãe e a consequência disso na vida de
sua mãe adotiva.
O início do
filme é regido por algo que Bergman utilizou muito em seu começo de carreira, a
figura de um narrador para preencher eventuais lacunas no roteiro e ambientar o
espectador na trama contada. Aqui esse narrador é mais discreto, fará sua
aparição nos minutos iniciais e em alguns raros momentos durante o
prosseguimento do filme. No entanto, diferente de filmes do próprio Bergman que
o narrador traz incômodo ao espectador, aqui sua presença é atenuada e leve,
cumprindo sua missão.

Essa primeira
parte do filme servirá para nos alocarmos na vida calma e pacata da pequena
cidade onde o filme se passa. Veremos todo o senso puritano que rege os
residentes do local. Porém, mais do que isso, veremos como há um senso de
camaradagem entre aqueles indivíduos. Todos ali parecem querer ajudar seus
companheiros. A ingenuidade é algo inerente ao local.
O contraponto
com tudo isso surge com a vinda da figura da mãe biológica de Nelly, oriunda de
uma cidade grande, uma mulher que trabalha unicamente por satisfazer seus
desejos, jamais levando em conta o interesse do outro. Essa personalidade da
mulher serve também para nos dar um esboço de como é levada a vida em uma
grande cidade e como esse intercâmbio social é guiado por um senso quase
patológico de satisfação de necessidades pessoais.
Essa figura
da mãe biológica emana em Nelly um sentimento de desconforto com sua vida
atual. Veremos surgir em Nelly um conceito de querer se elevar perante o mundo,
encontrar novas pessoas, novos trabalhos e, consequentemente, novos romances.
Essa sensação de inquietação faz com que Nelly decida ir com sua mãe para a
cidade grande, abandonando sua vida de outrora e sua mãe adotiva. Há nesse ponto
uma clara referência do roteiro, e na construção da personagem de Nelly, ao
romance de Gustave Flaubert, ‘Madame Bovary’. Nelly é um pequeno protótipo de
Emma Bovary no romance de Flaubert. Ambas possuem a mesma inconformidade diante
da vida e querem cada vez mais. Porém, a diferença aqui se concentra nas
resoluções para seus respectivos destinos.

Bergman
entrega, com alguns personagens centrais da trama, a noção de vida como o aqui
e agora. Passado e futuro não existem para os personagens, tudo que importa são
os estímulos inseridos no mundo na efêmera passagem do momento. Junto com essa
noção, imperam os discursos existencialistas nos personagens. Sentido e
predestinação são ignorados, dando importância unicamente para a
imprevisibilidade que impregna a vida humana e a inabilidade, em determinados
personagens, de conseguirem conviver com a inabalável certeza de que seus atos
e consequências se devem unicamente a suas próprias escolhas.
O indivíduo
aqui, mais precisamente Nelly, é estudado como algo em eterno processo de
mudança. Nelly não necessariamente evolui, mas segue um senso cambial de
mudanças. Em um momento a vida em uma cidade pequena não basta para a jovem,
ela quer mais. Em outros momentos, aquela vida parece o mais próximo da felicidade
que a jovem pode encontrar.

A reta final
do filme perde ligeiramente o brilho de sua primeira metade, se fazendo um
tanto quanto repetitiva e arrastada. O filme, facilmente, poderia ter terminado
sem a utilização de algumas cenas. Mas isso passa longe de comprometer o
inegável valor desta obra e todo o empenho dos realizadores, em especial
Bergman, em dar ao espectador um filme que traga algo substancial em sua
história.
A direção do
sueco é cautelosa. Bergman despreza qualquer tipo de recurso pretensioso ou que
fuja de seu controle. Apesar dessa limitação, teremos algumas aproximações e
movimentos de “zoom in/out” utilizados por sua câmera. O tom teatral é algo
natural aqui e também atua sobre as atuações dos atores.

O elenco está
regular no filme. Inexoravelmente, teremos atuações regidas pelo princípio da
tragédia em cada situação, com uma exasperação de cenas emocionais que
delimitam os campos trilhados pelos atores. Todos seguem um padrão de atuação,
sempre guiadas por expressões carregadas e discursos exasperados. No entanto,
há um nome que nos entrega uma interpretação diferente e se sobressai no filme.
Stig Olin entrega uma interpretação ausente de exageros. Sua
presença aqui se resulta unicamente em discursos serenos, mesmo quando o
roteiro propõe falas intensas, sem jamais alterar seu tom de voz. Suas feições
são tranquilas e trespassa a natureza conturbada do psicológico do personagem
que veremos aflorar nas últimas cenas.
Necessário
aos fãs do sueco, ‘Crise’ é um dos melhores filmes de Ingmar Bergman nesta fase
mais precoce do diretor. Uma obra doce, nutrindo seu inseparável tom teatral,
que consegue fazer com que o espectador se sinta parte da vida daqueles
personagens. Simples, o filme ainda não esquece de investigar conceitos
filosóficos presentes em nós e, consequentemente, nos personagens do filme.
Nota CI: 6,6 Nota IMDB: 6,5
Filmografia:
CRISE.
Direção: Ingmar Bergman. 1946. 93 min. Título Original: Kris.