Dando início
à trilogia das cores, Krzysztof Kieslowski entrega aqui um filme sensível e silenciosamente intenso
sobre o processo de luto de uma mulher. ‘A Liberdade é Azul’ focará, durante os
seus 98 minutos de duração, em todas as etapas enfrentadas pela mulher nesse
tão doloroso processo. Para contar essa história, teremos uma direção quase
impecável do maior cineasta polonês do cinema, uma cinematografia estonteante e
uma trilha sonora que atua por transpor a confusão psicológica da protagonista.
A história
vai girar em torno de Julie Vignon, uma mulher de 33 anos, que vê sua vida
ganhar contornos cruéis após sofrer um acidente de carro e perder seu marido e
filha. O filme irá nos trazer os passos da mulher depois desse triste
acontecimento e sua luta para dar um novo sentido para sua vida.
O início do
filme trabalhará por entregar ao espectador uma visão completa de tudo que
permeia os ambientes explorados. Sempre prezando pela sensibilidade, teremos
enquadramentos que tentarão expor a dimensão da situação enfrentada pela
mulher, como a cena em que é informada que sua família havia falecido com a
câmera pegando exclusivamente seu olho. Uma cena simples, mas que acaba por
evidenciar todo o peso da notícia naquele exato momento.

O processo de
luto se iniciará quando Julie retorna para sua casa e percebe o peso insuportável
que sua vida ganhara. Julie vê que qualquer contato com os objetos e indivíduos
que compunham sua vida de outrora somente lhe traria mais dor. E é neste
momento que veremos uma espécie de morte simbólica da mulher refletida na sua
completa fuga desse mundo pré-tragédia.
Julie
demonstra uma repulsa inicial por simplesmente tudo que lhe faça relembrar do
passado. Ela trabalha por se desvencilhar de todos os bens físicos e qualquer
esboço de contraste humano que tinha, dando início a uma nova vida. O único
elemento que transpõe as duas vidas de Julie é um objeto decorativo azul que
evoca determinados sentimentos na mulher. Essa fuga passa longe de ser algo
patológico para Julie. Pelo contrário, essa tomada de decisão somente acelera
seu processo de luto. Novos contatos sociais surgem dali, novos sentimentos
emanam e o ódio pelos caminhos da vida é extinto. É importante salientar que a
ideia de sofrimento jamais é atenuada na mulher. O filme deixa claro que esse
sofrimento passará a ser parte integrante e inseparável de Julie. E cabe a ela
saber viver com isso.

O filme
também expõe as características da personalidade de Julie. A mulher sempre
passa segurança em suas decisões, uma assertividade preocupante para as
situações que estão lhe afligindo. A solidão é algo ansiado por ela durante
esse processo de luto. O único momento de incapacidade para lidar com a vida
surge quando exposta a uma situação que requer que ela tire uma forma de vida
contida na figura dos ratos que surgem em seu apartamento.
A reta final
do filme irá nos trazer os desmembramentos de todas as atitudes tomadas por
Julie e suas importâncias para o final(ou encaminhamento saudável) de seu
processo de luto. Aos poucos, Julie começa a se reconectar com sua vida que
deixara para trás. E Julie encontra segurança na figura mais improvável. É com
a oportunidade de gerar uma nova vida que a mulher finalmente consegue
encontrar forças para continuar sua vida. A possibilidade de saber lidar com a
figura da morte que tentara excluir há pouco tempo agora passa ser uma opção.

Já adentrando
ao campo da direção, teremos o fator que traz o brilho do filme. Como dito
acima, Krzysztof Kieslowski preza por enquadramentos variantes,
seja em objetos ou um ambiente por completo, que entreguem ao público toda a
carga emocional que rege a figura de Julie. Em outros momentos, teremos planos
que vão seguir alguns passos da mulher, como, por exemplo, um simples caminhar
pela rua, intensificado por um fragmento mostrando a mulher se autopunindo
ralando sua mão em uma parede. Kieslowski sempre vai trabalhar com essa
intensidade presente nas menores cenas. É exatamente isso que deixa o filme
mais dinâmico e traz um peso maior a cada cena.
Essa
intensidade é também exposta na trilha sonora de Zbigniew Preisner,
que sempre procura evidenciar determinado sentimento da protagonista. Ela é
regida por um ritmo crescente. A cada cena ultrapassada as composições
utilizadas acabam ficando mais frequentes.

Outro ponto
que certamente merece destaque é a cinematografia impecável do filme. Comandada
por Slawomir Idziak, ela também seguirá a linha da trilha sonora na questão da
exposição crescente nos tons azuis presentes no filme. Essa exposição começa
cautelosa nos minutos iniciais, porém começa a tomar conta do quadro
gradativamente conforme a obra avança.
Esse azul
serve para transpor ao público os nuances psicológicos que acabam por reger a
constituição de Julie. Tranquilidade, melancolia, serenidade e frieza são
atribuídas à cor e se adequam precisamente na fase que a mulher se encontra.

Toda essa
construção quase impecável do filme jamais se justificaria caso a protagonista
do filme não seguisse esse padrão de excelência. E ela segue. Juliette Binoche, na época com 29 anos, é um
emaranhado de emoções exacerbadas. Toda a construção de sua personagem e
atuação é feita através da utilização do silêncio nas cenas mais impactantes. A
mera expressão facial da atriz serve para elencar no espectador todo o
simbolismo presente nas cenas. Uma atuação simplesmente impecável e uma das
melhores de sua carreira.
‘A Liberdade
é Azul’ é uma obra-prima em todos os seus aspectos. Um filme que mostra de
maneira única as diferentes fases de um indivíduo inserido a um processo de
luto. Toda a sensibilidade presente na hora de mostrar fragmentos duros do
filme ajuda na absorção da obra pelo espectador. Seu diretor jamais apela por
cenas chamativas ou gratuitas para emitir emoções em quem assiste o filme. As
emoções emanadas no espectador são genuínas, fruto do roteiro e direção
competentes. Kieslowski nos mostra aqui toda a beleza contida na tragédia da
vida humana.
Nota CI: 7,7 Nota IMDB: 8,0
Filmografia:
LIBERDADE é
Azul, A. Direção: Krzysztof Kieslowski. 1993. 98 min. Título Original: Trois couleurs: Bleu.