Se valendo de
uma direção sem exageros ou recursos exacerbados para entreter seu espectador, Tom Ford
nos entrega uma obra de difícil trato, dura e demasiadamente complexa. ‘Animais
Noturnos’ vai investigar os inúmeros meandros que tangem a relação do ser
humano com o mundo e seu inabalável interesse pelo aspecto bizarro. Ainda
teremos expostos pelo filme a questão de violência como algo necessário e
natural à espécie, o conceito de vingança visto de uma forma expansiva e ficção
e realidade se embaraçando em um jogo cruel.
A trama do
filme, baseada no romance de Austin Wright, já é complexa por si só. A história vai nos trazer a personagem de Susan Morrow,
uma respeitava e bem-sucedida dona de uma galeria de arte, envolta em uma vida
de aparências com seu marido infiel. O filme ganhará força quando Susan recebe
um livro de seu ex-marido dedicado a ela. Conforme começa a ler o livro, Susan
acaba por se ver envolvida em um jogo de gato e rato ficcional, onde tudo é
construído e demolido a cada cena.
O ritmo
inicial do filme é cadenciado e tangido pelo aspecto misterioso que rege os
personagens apresentados. E isso é demonstrado bem cedo pelo filme, logo em sua
cena de abertura, com um grupo de mulheres obesas nuas dançando, sempre
combinado com uma trilha sonora um tanto quando mística. Esse começo serve para
nos inserirmos dentro da atmosfera que o filme nos propõe.

Os passos
seguintes dados pelo filme vão nos dar pequenos fragmentos da personalidade de
Susan. A mulher nutre uma melancolia inerente em seu comportamento, mas também
consegue ser assertiva e rústica em seu modo de agir, sempre com uma olhar
ausente e frio. Aos poucos essas construções impostas pelo mundo que
determinarão seu comportamento começam a se alterar, envolvendo Susan em uma
espécie de processo catártico atrás da busca do sentido de sua vida atual e uma
revisitação a eventos anteriores que talvez não tenham sido bem conduzidos.
Tudo é
contado para o espectador de uma maneira dosada. Todos os eventos do filme
parecem não se interligar, trazendo confusão em quem o assiste, chegando a se
tornar insosso em alguns momentos. E se encontra exatamente aí o maior acerto
da direção. Tom Ford descarta qualquer utilização mal feita do aspecto
direcional. Ele sabe que o roteiro lhe entrega uma diretriz e pretende
atingi-la sem qualquer elemento apelativo. E ele consegue isso.

Começaremos a
ganhar interesse no filme conforme a realidade de vida de Susan começa a se
confundir com os eventos ficcionais do livro que está lendo. Logo essa
separação se faz inexistente e Susan não mais consegue fugir do tom daquele
livro, que se norteia como uma espécie de ameaça velada para a mulher.
No momento
que a aspecto da ameaça velada ganha força na trama, começaremos também a
arquear pequenos passos no campo da violência e sua relação com o ser humano.
Aqui, como em diversos outras obras, é feita uma crítica à domesticação social
a que todos nós somos expostos. Somos bombardeados por estímulos irreais sobre
a violência no mundo através da televisão, internet e seus afins. No entanto,
jamais tomamos consciência real que aquilo é uma realidade e algo intrínseco a
nossa essência. E é neste ponto que o filme adentra, já que no momento que os
personagens do filme são expostos a esse conceito de violência, eles não sabem
como proceder, se tornando iscas fáceis para os estímulos danosos e cruéis
inseridos no mundo.

A reta final
do filme acaba sendo uma recompensa para todas as pequenas partes insossas de
seu começo. Tudo culmina ordenadamente para uma grande conjunção de fatores.
Não há aqui espaço para pontas soltas no roteiro, tudo é preenchido e dissecado
diante de nós. Qualquer tipo de mistério remanescente é desvendado e o filme
ainda dá espaço para uma cena final ambígua. Ou seja, o filme acaba continuando
em nossas cabeças mesmo após seu término. Ficamos conjecturando o futuro dos
personagens, suas motivações e possíveis significados para determinados atos. E
é isso que um bom filme deve sempre trazer em sua síntese, uma trama
questionadora, algo que deixe perguntas, ao invés de tentar respondê-las.

A direção e
todos os aspectos técnicos do filme trabalham por “sugar” o espectador até o
interior da história. A fotografia alternará suas camadas, ora sendo fria e
contemplativa, nas cenas ambientadas no aspecto real, ora sendo quente e
incômoda, quando exposta na ficção que Susan acaba por ler. A trilha sonora é
densa e pouco reveladora. Assim como o roteiro, suas composições trabalham
sempre por propor dúvidas no espectador, jamais revelando demais sobre a trama.
A edição é bem trabalhada, iremos sempre alternar entre presente, ficção e
fragmentos de um passado longínquo aos olhos da protagonista. A maquiagem do filme
é simplesmente fantástica, cada cena é de tirar o fôlego. Ver o trabalho que a
equipe pôde fazer ali é algo bastante recompensador. Sem essa maquiagem
fenomenal, todos os “close-ups” utilizados pelo diretor se fariam comprometidos
e não trariam tanto impacto. E, para completar, a direção procura sempre por
planos robustos, que sempre causem impacto.

O elenco do
filme está magistral aqui e se concentra em três grandes elementos para o
desenvolvimento da história. Apesar de protagonizar teoricamente o filme, Amy Adams
possui a interpretação mais comedida. As aparições da protagonista se resumem
especificamente em explorar a completude física da atriz, sempre focando em seu
rosto e seu olhar duro. Jake Gyllenhaal nos propicia um verdadeiro show, utilizando de um senso de inocência na
realização de seus atos e se adaptando ao que o personagem demanda a cada
momento. Porém, o destaque do filme vai para Michael Shannon. Abrupto em todas suas aparições em tela, Shannon causa impacto a cada
exposição de seu rosto. Sempre demonstrando um incômodo com a existência, o
ator é persuasivo em seus discursos e sabe lidar com a atmosfera que lhe foi
dada pelo filme. Sem dúvidas, a melhor atuação da carreira de Shannon.
‘Animais
Noturnos’ é um filme necessário, cruel em suas investidas e honesto em seus
desdobramentos. Seu roteiro guiado pela pluralidade de seus rumos nos remete
diretamente às obras do holandês Alex van Warmerdam, mais precisamente em ‘Ober’(2006), com um embate entre ficção e
realidade delimitando os caminhos seguidos pelos personagens. Todos os aspectos
técnicos do filme estão impecáveis. Uma obra realizada com extremo carinho e
empenho.
Nota CI: 7,5 Nota IMDB: 7,5
Filmografia:
ANIMAIS
Noturnos. Direção: Tom Ford.
2016. 116 min. Título Original: Nocturnal Animals.

 
OBER. Direção: Alex van Warmerdam. 2006. 97 min.