Polêmico em
todo o seu longo processo de produção, ‘Chatô – O Rei do Brasil’ vale toda essa
espera. Utilizando uma história não cronológica, fazendo um estudo do
comportamento de seu protagonista e se valendo sempre do que há de mais
tradicional no âmbito cultural nacional, o filme é uma das maiores surpresas
dos últimos anos. Seu diretor estreante, Guilherme Fontes, proporciona aqui um trabalho irretocável do primeiro ao último minuto
de execução. O filme ainda se constituirá por pautar-se em vários momentos com
referências em ‘Scarface’(1983), ‘Bugsy’(1991) e, principalmente, em ‘O Show
Deve Continuar’(1979).
O filme,
baseado no livro de Fernando Morais,
vai acompanhar os passos de Assis Chateaubriand, uma figura polêmica e um dos
nomes mais influentes no Brasil entre as décadas de 1940 e 1960. Jamais
adquirindo uma substância biográfica, o filme nos traz toda a vida do
personagem, alternando entre diferentes esferas temporais e evidenciando seu
comportamento excêntrico e sua problemática relação com Getúlio Vargas.
Seguiremos
sempre um ritmo um tanto quanto onírico aqui. Desde as primeiras cenas, veremos
que o filme descarta uma linha temporal habitual, alternando entre diversos
fragmentos não ordenados da vida de Chateaubriand. Em um momento estamos
inseridos em sua juventude obcecada por conhecimento e, na cena seguinte, no
entanto, veremos o homem em sua vida adulta, depois de obter seu poder
financeiro e pessoal, nutrindo uma vida sexual bastante ativa. Durante todos os
102 minutos de projeção, ficaremos fazendo esse trajeto desordenado que acaba
por funcionar perfeitamente.

Ao longo do
filme, veremos diferentes nuances dos comportamentos dispostos pelo
protagonista. Sua personalidade obsessiva, controladora, excêntrica e, quase sempre,
assertiva é entregue aos olhos do espectador cena a cena, sem pressa ou
qualquer tipo de afobação no roteiro. Toda essa construção produtiva do filme
acerca do personagem acaba incutindo diretamente em sua natural leveza.
Apesar de
buscar diversas referências, de história ou estilo, americanas, o filme sempre
se preocupará em manter seus pés bem firmemente no cenário nacional. Costumes e
maneirismos, bem como toda uma atmosfera cultural, estão contidos aqui. Seu
protagonista, Chateaubriand, é um testemunho de amor a tudo isso que permeia o
agir do brasileiro no mundo. Seja dispondo gestos positivos ou, em sua maioria,
negativos, inabalavelmente, Chateaubriand é um espelho do brasileiro comum.

Conforme a
história avança, e principalmente em seu eixo final, teremos uma constante
exposição de cenas que só acontecem na cabeça de nosso protagonista. Como uma
espécie de julgamento moral, Chateaubriand é atingido por tudo aquilo que um
dia havia ferido. Antigas namoradas, parceiros de profissão e companheiros
políticos fazem sua aparição nesse julgamento para atirar a última pedra sobre
o homem. Um calvário inexistente, mas, não menos, danoso.
Durante toda
sua duração o filme faz bastante o uso de referências de obras americanas de
sucesso do mesmo nicho. A história épica da construção de um império, pautado
sempre no poder, pegará suas referências de ‘Scarface’. O constructo psíquico
exacerbado do protagonista, com uma exposição de seus comportamentos atípicos,
pegará diversos fragmentos do que já havia sido mostrado em ‘Bugsy’. No
entanto, o maior campo de referências usado pelo filme é de ‘O Show Deve
Continuar’. A história, construções de cenas, alguns dos comportamentos do
protagonista e toda a atmosfera onírica presentes aqui já haviam sido expostos no
clássico musical da década de 1970. Teremos planos praticamente idênticos,
principalmente aqueles condensados com Chateaubriand no hospital e os
fragmentos finais de seu julgamento moral inexistente. Todas essas referências,
mais necessariamente a última, somente dão mais brilho a toda completude do
filme.
A direção de Guilherme Fontes é o ponto de maior destaque em toda a obra. Fontes trabalha muito com
planos que não medem esforços para captar a melhor cena, com uma grande
variedade de ângulos, sempre tendo como foco uma absorção completa dos cenários
utilizados. Seu estilo direcional se guia, também, por uma câmera móvel, jamais
se pautando em quadros fixos, procurando sempre seguir a ação de cada cena. Se
a cena em questão, por exemplo, acontecer em uma sala e lá estiverem três
personagens, essa câmera trabalhará por expor todos na mesma medida e com uma
disposição de planos variados.

Vale também
destacar a edição e cinematografia do filme. A cinematografia, comandada por José Roberto Eliezer, vai se pautar no uso de cores bem contrastadas e saturadas, utilizando
tons fortes que trazem peso às cenas mais substanciais do filme. A edição,
feita por Felipe Lacerda,
vai aderir à proposta de Guilherme Fontes na direção e trabalhar por dar
dinamicidade a simplesmente todas as cenas, com uma infinidade de cortes que
jamais deixa que o filme perca ritmo.
O elenco não
destoa do resto do filme e também desempenha um papel impecável. Vamos ter
nomes como Andrea Beltrão, Leandra Leal e Paulo Betti formando as bases secundárias do filme. Todos regem
atuações mais alocadas no senso exagerado de cada situação. Esse exagero é
essencial para toda a proposta do filme. Como protagonista, veremos Marco Ricca dar um verdadeiro show no papel de Chateaubriand. Exagerado, como seus
companheiros, Ricca utiliza de uma atuação debochada, com falas contundentes,
um sotaque criado aceitável e expressões físicas ricas em movimentos. O ator
consegue criar uma aura única a seu personagem, deixando o espectador ansioso a
cada cena ultrapassada pela exposição do conflito seguinte. Atuação magistral
desse grande nome do cinema nacional e é sempre válido apontar e enaltecer
atores como este.
‘Chatô – O
Rei do Brasil’ é uma obra que merece atenção no cenário nacional. Atuações de
extrema qualidade, parte técnica irretocável e uma direção dedicada são apenas
alguns espectros do que rege esse grande filme. Guilherme Fontes, devido as
incontáveis polêmicas sobre o filme, algo que não é trabalho desta crítica
enumerar, dificilmente terá novas chances para dirigir obras em um campo
comercial mais expandido durante os próximos anos, mas seu trabalho exercido
aqui é digno de atenção. Um filme que passa muito rápido e acaba deixando o
espectador com o sentimento de querer ver mais da história de nosso protagonista.
Nota CI: 7,5 Nota IMDB: 6,2
Filmografia:
CHATÔ – O Rei
do Brasil. Direção: Guilherme Fontes. 2015. 102 min.
SCARFACE.
Direção: Brian De Palma. 1983. 170 min.
BUGSY.
Direção: Barry Levinson. 1991. 136 min.
SHOW Deve
Continuar, O. Direção: Bob Fosse.
1979. 123 min. Título Original: All That Jazz.