Seguindo o
padrão imposto pelos dois filmes anteriores da trilogia, ‘A Fraternidade é
Vermelha’ busca sempre usar da sensibilidade para guiar os passos dos
personagens principais e, por consequência, do filme. Sempre utilizando de uma
atmosfera fria, Krzysztof Kieslowski tenta contrastar isso com as caracterizações dos
personagens, no entanto, usando o vermelho como contraponto essencial para os
rumos da história. Uma obra que ainda analisará a possibilidade da invasão de
vidas alheias como escape para a própria e a figura do acaso como ordenamento
para fatores.
A história
nos coloca para acompanhar os passos de Valentine, uma
jovem modelo, com uma vida agitada, que, em uma noite chuvosa, acaba
atropelando um cachorro na rua. Valentine encontra na coleira do animal ferido
um endereço e se encaminha para o lugar para contatar seu dono. Esse é o ponto
que ligará a jovem na figura de um senhor de idade disperso da vida e seu
estranho hábito de espiar a vida de seus vizinhos por uma escuta telefônica. O
filme passará toda sua duração nos mostrando o vínculo inquebrável que acaba
por surgir entre os dois e como um acaba servindo de apoio para o outro.

Entraremos, a
priori, no cotidiano intenso de Valentine destrinchado diante de nós, com
sessões fotográficas, aulas de balé e conversas paralelas com um namorado
ausente pelo telefone. Esse cotidiano acaba impedindo que a jovem tenha um tempo
para si, para maturar, de alguma forma, seus passos em relação a tudo e suas
relações interpessoais. O filme ainda faz uma leve menção a um irmão viciado em
drogas da jovem que se encontra em outro país e como isso incomoda Valentine. E
é justamente em meio a esse turbilhão de eventos pessoais e profissionais que a
figura do acaso faz sua aparição para encaixar as peças da vida da jovem.
Esse acaso
surge na figura do cachorro atropelado que une dois indivíduos que tinham em
suas vidas lacunas aparentemente permanentes. Esse primeiro contato entre
Valentine e Joseph Kern, o
senhor dono do cão, um juiz aposentado, é permeado de melancolia e
desapontamento com a vida por parte de Joseph.

Conforme a
relação de amizade dos dois começa a se desenvolver, Joseph revela a Valentine
seu estranho costume de espiar conversas alheias. A jovem sente certa repulsa
pelos atos do homem, mas acaba desenvolvendo uma espécie de atração pela
intimidade invadida daquelas pessoas. Essa divisão de sentimentos em Valentine
lhe traz um incômodo consigo mesma. A figura fraca e patética daquele homem lhe
trazia similaridade com sua própria essência.
 Essa invasão
da vida alheia serve para os personagens, principalmente em Joseph, como uma forma
de fuga para suas próprias vidas. A inabilidade em lidar com as consequências
de atos anteriores faz com que essas duas pessoas encontrem na vida de outros
um conforto. Ambos não querem agir sobre o mundo, eles querem e são apenas
guiados por este. O incômodo surge apenas em Valentine, e ela trabalha por
mudar isso e fazer com que Joseph mude também.
O filme vai
utilizar de um ritmo cadenciado único durante todos os seus 99 minutos. A
adesão dos tons de vermelho, como dito no início, serve como uma diferenciação
de toda a frieza da atmosfera, porém também está ali para evidenciar toda a
intensidade presente em Valentine, toda sua força e impetuosidade para mudar
determinados fatos e eventos. E é nesse ponto que está à substância da trilha
sonora, a mais sutil da trilogia.

Comandada por
Zbigniew Preisner,
assim como nos outros dois filmes, essa trilha atua unicamente para seguir esse
clima frio imposto pelo filme. As composições, diferente de ‘A Liberdade é
Azul’(1993) e ‘A Igualdade é Branca’(1994), são simples e comedidas. Todo o
trabalho de acentuar os nuances psicológicos da protagonista já é feito pela
direção e a cinematografia que faz o uso contínuo do vermelho.
A direção
segue todo o trabalho realizado nos dois filmes anteriores, utilizando muito de
enquadramentos que mostrem os personagens despidos emocionalmente diante do
espectador, seja por um close no rosto, na colocação de um plano fechado ou na
apresentação de um embate moral. Kieslowski
ainda faz questão de adicionar em diversas tomadas a apresentação de, no mínimo,
um objeto em vermelho que ajuda a evidenciar o campo psicológico exacerbado da
protagonista mesmo diante daquele ambiente frio e melancólico que segue o
filme.

O elenco,
composto em seu eixo de relevância por Irène Jacob e Jean-Louis Trintignant, está muito bem no filme. Os dois
protagonistas revelam uma química inerente quando estão juntos em cena,
passando ao espectador toda aquela incerteza ao se comportarem. Tanto Jacob
quanto Trintignant utilizam muito da tranquilidade para guiar suas
interpretações. Não teremos espaço para gritos ou comportamentos exacerbados
dos atores, tudo aqui é feito de maneira calma e limitada. Isso apresenta um
papel preponderante para o sucesso do filme.

O término do
filme, e consequentemente da trilogia, traz de volta o acaso tão utilizado por Kieslowski
não só neste filme, mas também em obras como ‘Não Matarás’(1988),
‘Amador’(1979) e, principalmente, em ‘Sorte Cega’(1987). Esse acaso do final do
filme traz um verdadeiro emaranhado entre todos os personagens que compõem esta
trilogia. E, mais do que o simples acaso, a ideia de predestinação presente em
nossos atos. Uma ideia de destino como último conceito.
‘A
Fraternidade é Vermelha’ é o capítulo final que necessitávamos para uma
trilogia de tamanha qualidade. Um filme que não fará nenhum tipo de concessão
ao mostrar as vidas de dois indivíduos destrinchadas diante do espectador. Kieslowski
nos mostra como, às vezes, podemos encontrar segurança onde menos esperamos.
Nota CI: 7,3 Nota IMDB: 8,1
Filmografia:
FRATERNIDADE
é Vermelha, A. Direção: Krzysztof Kieslowski. 1994. 99 min. Título Original: Trois couleurs: Rouge.
IGUALDADE é
Branca, A. Direção: Krzysztof Kieslowski. 1994. 91 min. Título Original: Trois couleurs: Blanc.
LIBERDADE é
Azul. Direção: Krzysztof Kieslowski. 1993. 98 min. Título Original: Trois
couleurs: Bleu.
NÃO Matarás.
Direção: Krzysztof Kieslowski. 1988. 84 min. Título Original:
Krótki film o zabijaniu.
SORTE Cega.
Direção: Krzysztof Kieslowski. 1987. 114 min. Título Original:
Przypadek.
AMADOR.
Direção: Krzysztof Kieslowski. 1979. 117 min. Título Original:
Amator.