Evidenciando
em sua temática dois conceitos básicos que regem a relação do ser humano com o
mundo, a vingança e o amor, Krzysztof Kieslowski nos apresenta uma obra potente. Um filme que mostra como
vida é feita de escolhas e um sentido subjetivo intrínseco a cada indivíduo.
Segundo filme da magistral trilogia das cores, ‘A Igualdade é Branca’ é
impecável do começo ao fim. Seja na demonstração de simbolismos para passar
determinada mensagem ou construção viva de cada aspecto da trama, o filme logra
sucesso em todas as suas investidas.
A trama conta
a história de Karol Karol, um imigrante polonês que vive na França com sua
esposa Dominique. Após Dominique pedir o divórcio e deixar o homem sem nenhum
dinheiro para viver no país, Karol decide tentar retornar para seu país natal
de qualquer forma. O filme se concentrará na volta de Karol à Polônia e seu
ressurgimento emocional e financeiro.

O início do
filme mostra todos os desnivelamentos essenciais para entender os motivos de
Dominique para pedir o divórcio e agir de uma forma tão fria com as
necessidades básicas de Karol. Assim como veremos em Karol um homem diminuído
pelo ambiente a sua volta. Aquele país não traz consigo nenhum senso de
familiaridade ao homem, a única ponta que o ligava naquele lugar era sua paixão
por Dominique que agora já não lhe pertencia. E é em meio ao sentimento de
desamparo que Karol acaba conhecendo um compatriota, Mikolaj, tão desolado
quanto ele, por diferentes motivos, e começa a desenvolver um laço de amizade
que acabaria por mudar de alguma fora a vida de ambos.
Esse homem,
nutrindo sempre um ar melancólico e triste, acaba trazendo um contraponto à
vida de Karol, lhe entregando uma visão de mundo diferente. Karol acaba se
segurando nesse indivíduo para ajudá-lo a regressar ao seu país. Porém, antes,
veremos Karol se envolver em uma discussão por causa de dois francos. Esses
dois francos servirão para o filme nortear os caminhos seguidos pelo
personagem.
O segundo
terço do filme foca no retorno de Karol ao seu país natal e a tentativa de se
reabilitar por lá. Toda aquela indiferença social encontrada na França é algo
que não existe ali. Na Polônia, Karol encontra a sensação de segurança. Ele
acaba por encontrar velhos companheiros e tem a possibilidade de obter um novo
emprego e projetar sua nova vida. O homem acaba desenvolvendo certo enojamento
por sua vida de outrora, tentando a cada ato se desvencilhar de tudo que um tempo
atrás lhe pertencia. E é neste momento que teremos talvez a cena mais
impactante do filme.

Em uma cena,
Karol aparece se livrando de alguns pertences e percebe os dois francos, o
único objeto remanescente da época na França. Apesar de querer excluir aquele
objeto de sua vida, Karol se vê incapaz de fazê-lo. Esses dois francos
suscitavam no homem uma eclosão de diferentes sensações, sejam ela boas ou, em
sua maioria, ruins. E é na figura da impotência de se livrar dos dois francos
que Karol baseará sua nova vida e suas ambições.
O filme ainda
vai explorar, por meio da relação entre Karol e Mikolaj, o conceito de
sofrimento no ser humano. Veremos com a sensibilidade que tange os diálogos
entre os dois como o ser humano encara e despreza o sofrimento. Ambos sofrem,
porém lidam de maneiras diferentes com esse sofrimento. Karol expõe esse
sofrimento e o compartilha com o mundo, encontrando forças neste para reagir.
Na outra ponta, Mikolaj acaba internalizando toda a ideia de sofrimento, vendo
este crescer e não sabendo lidar com ele. Essa inabilidade em lidar com o
sofrimento leva Mikolaj a procurar e ansiar pela morte. Mas é em Karol que o
homem encontra uma força propulsora que lhe ajuda a expelir esses sentimentos
para o mundo.

O último
terço do filme adentra ao campo exacerbado da vingança. Veremos Karol alavancar
sua vida e crescer. Porém, todo o dinheiro e respeito obtidos pelo homem
somente procuram satisfazer o desejo de dar o troco em Dominique. É nessa parte
do filme que veremos vingança e amor sofrerem um processo simbiótico, onde um
acaba por depender do outro para agir de forma efetiva. Os dois francos
nostálgicos de Karol finalmente podem ser separados dele enquanto este
arquiteta seus planos. O homem agora pode, de vez, se livrar de todas as
agressões psicológicas sofridas em um passado recente.
A direção de Krzysztof Kieslowski segue seu modelo tradicional contemplativo de se fazer cinema, sempre
prezando por enquadramentos que nos propiciem uma forma de adentrar na cabeça dos
personagens. Aqui sensibilidade e melancolia se dividem no momento de filmar
cada cena. Porém, aqui o diretor dá algum lugar também a momentos mais
descontraídos, algo que não acontece nos outros dois filmes da trilogia.
A trilha
sonora, seguindo o padrão de ‘A Liberdade é Azul’(1993), está aqui para
evidenciar ao público os diferentes nuances que regem a vida do protagonista.
Cada composição vai seguir com precisão cada momento emocional de Karol, indo
do mais intenso ao mais tranquilo.

Os três
atores que acabam tendo os personagens centrais da história estão muito bem. Zbigniew Zamachowski, Julie Delpy e Janusz Gajos se enquadram precisamente na composição de cada
personagem. Zamachowski e Gajos, como Karol e Mikolaj, baseiam suas atuações em
um modo mais sutil e frio de caracterizar os personagens. Já Delpy é a mais
intensa, entrando em uma personagem mais temperamental.
É até
redundância falar em obra-prima quando se fala de um filme de Krzysztof Kieslowski. Todos os trabalhos do cineasta são impecáveis. Aqui sua
maior virtude é conseguir nos trazer determinados impulsos do ser humano sem
aderir a uma conotação de certo ou errado. Um filme que, apesar de basear sua
construção em um modo frio e melancólico de contar sua história, propicia ao
seu término uma sensação prazerosa no espectador. ‘A Igualdade é Branca’ é
cinema em sua mais pura essência.
Nota CI: 7,8 Nota IMDB: 7,7
Filmografia:
IGUALDADE é
Branca, A. Direção: Krzysztof Kieslowski. 1994. 91 min. Título Original: Trois couleurs: Blanc.
LIBERDADE é
Azul, A. Direção: Krzysztof Kieslowski. 1993. 98 min. Título Original: Trois couleurs: Bleu.