O filme mais
surtado da carreira de David Cronenberg traz ao público uma história onde a
conotação de sentido é descartada. Um filme incômodo do primeiro ao último
minuto, que se utiliza muito de uma maquiagem de extrema qualidade para emitir
um certo enojamento no espectador. ‘Mistérios e Paixões’ acaba valendo a pena
ser assistido muito mais pelo completo senso de confusão transmitido pela
atmosfera do filme do que pela história em si.
Baseado no
romance de William S. Burroughs, a trama do filme nos coloca para seguir os passos de Bill Lee, um
exterminador de insetos, na década de 1950, que se vê preso a um enorme
emaranhado de conspirações mirabolantes após sua esposa adquirir um estranho
vício pelo pó que o homem utiliza como arma em seu serviço. O filme ganha força
quando Bill é informado por um inseto gigante(sim, isso mesmo) sobre um plano
secreto que colocaria sua vida em risco.
O ritmo
inicial do filme transmite certa confusão ao espectador quando, de repente,
somos inundados com insetos antropomórficos que convivem normalmente ao meio
social. Cronenberg nos dá o indício que, aos poucos, iremos conseguir absorver
a ideia da história. O personagem principal passa a seguir uma linha
investigativa coesa e que, aos poucos, vai chegando a algum lugar. No entanto,
essa ordem e resquício de sentido logo são extintas do filme e uma ordem
caótica logo começa a imperar.

Vamos nos
pautar em um misto de alucinação e loucura. Não temos a mínima ideia do que
está acontecendo na história. Em um momento veremos um conflito entre máquinas
de escrever com vida, em outros teremos uma conversa entre o protagonista e uma
espécie de inseto em forma de homem em um bar. Nada aqui faz sentido. Em alguns
momentos nos sentimos em um filme de David Lynch, onde o quesito sonho é
substituído por alucinações.
Toda essa
questão da falta de um norteamento para a história não é ruim, mas acaba
causando um distanciamento no espectador. O cinema de Cronenberg, mesmo com uma
exacerbação da realidade, sempre costuma fazer o espectador se sentir parte do
filme e aqui isso não existe. Deixamos de nos importar com os caminhos
trilhados pelos personagens centrais. E isso passa longe de ser culpa da bela
direção do filme.
Cronenberg
entrega uma construção de ambientes que fazem essa ponte entre a década
corrente do filme e o que o diretor costuma inserir em suas obras. Essa
construção possui toda sua estrutura atmosférica concentrada na cinematografia
com tons pastel. Peter Suschitzky
utiliza essas cores mais puxadas para o verde para emanar um ar defasado ao
ambiente e personagens explorados e é, sem dúvida, o maior ponto positivo do
filme. Outro ponto positivo é a trilha sonora de Howard Shore
que preza sempre por acentuar o clima de confusão do filme.

Já no elenco
contamos com nomes como Judy Davis,
Ian Holm e Roy Scheider para compor o filme. Todos muito bem. No entanto, é na figura do
protagonista que vem o maior destaque. Peter Weller surpreende e acaba adentrando completamente a aura alucinógena do
filme, sempre com um olhar perdido e desconexo que caracterizam sua atuação.
‘Mistérios e
Paixões’ acaba se fazendo um filme regular, infelizmente muito longe de ser uma
das melhores obras do diretor. Porém, o empenho em trazer uma obra atraente por
parte de David Cronenberg traz brilho ao filme. Junte isso às inúmeras
bizarrices contidas durante os 115 minutos de filme e você terá uma obra que
merece ser vista.
Nota CI: 6,4 Nota IMDB: 7,1
Filmografia:
MISTÉRIOS e
Paixões. Direção: David Cronenberg. 1991. 115 min. Título Original: Naked
Lunch.