Obra-prima em
todos seus conceitos, ‘A Espada da Maldição’ é um deleite para seu espectador
do primeiro ao último minuto. Seu diretor, Kihachi Okamoto, promove aqui uma enorme variedade de métodos para captar a aura da
trama, entregando um trabalho magistral. Concomitante a isso, a trama vai nos
trazer um dos personagens mais interessantes do cinema oriental, em um misto de
psicopatia e loucura.
A trama nos
coloca para seguir os passos de Ryunosuke Tsukue,
um exímio samurai, temido por todos a sua volta, que promove por onde passa um
senso de destruição alarmante. A história ganhará força quando Ryunosuke acaba
por matar um rival em um combate de estilos, despertando a irá geral da
comunidade, iniciando um embate que durará anos até sua iminente derrocada.
Desde os
minutos iniciais teremos uma clara noção do que o filme irá nos apresentar. A
direção focará em uma grande ampliação de planos e suas formas de serem
captados para expor as nuances que vão reger o comportamento problemático de
Ryunosuke e o ambiente que o permeia. Veremos como o homem age sobre o mundo,
aniquilando tudo aquilo a que tem contato, seja no próprio âmbito físico ou na
questão psicológica.

O filme
jamais perde esse ritmo inicial, todos os seus 119 minutos de duração são
permeados de uma carga enérgica. Os momentos mais agitados, enumerados por
batalhas, até os mais calmos, regidos por diálogos serenos do protagonista, vão
sempre se pautar em um senso único, ambos reverberam no mesmo tom. E é aqui que
teremos a questão do silêncio relatado pelo filme.
Esse silêncio
atuará por transpor ao público toda a aura distante em relação ao ambiente que
cerca Ryunosuke. Teremos cenas onde a única coisa que se pode escutar é o som
ambiente do local, com planos que capturam a feição sempre fechada do samurai e
a nítida sensação de que a vida para ele se notabiliza como um peso. O silêncio
aqui é incômodo e só está inserido nas cenas onde o protagonista está presente
O sentimento
de distanciamento e refutação mediante a vida é evidenciado pela vestimenta
característica do personagem. Além das tradicionais roupas, o samurai possui um
chapéu que sempre esconde seu rosto. Como se ali tivesse um espectro, Ryunosuke
nega essa exposição ao ambiente que o cerca, escondendo-se desses estímulos. E,
como um animal, quando se sente ameaçado, ataca sem a menor piedade.

É aqui que
encontramos pequenos elementos que lhe trazem prazer na vida, matar e obter
poder. A questão do poder aqui não fica limitada a um campo do reconhecimento
social. Não. Como exposto acima, o homem despreza qualquer estímulo de um
possível intercâmbio social, a não ser que seja com fins sexuais. Diferente
disso, o conceito de poder para o homem é poder diminuir(e entenda isso na
forma da própria destruição) o outro.
Ryunosuke
diminui o outro sempre em um processo defensivo, nunca provocado. Seu próprio
estilo de luta é guiado pelo contra-ataque. Primeiro o oponente desfere seu
golpe, para, somente depois, Ryunosuke o punir por isso. E é dessa forma em
todas as esferas de sua vida. Porém, tão fascinante quanto acompanhar sua
maneira peculiar e destrutiva de levar sua vida é assistir sua épica derrocada.
Carregada de
sofrimento para os que convivem com ele, mais especificamente sua esposa, a
loucura aparece no samurai conforme seu método de guiar a vida começa lhe
trazer problemas financeiros. O homem não se encaixa em nada, e, quando o faz,
sempre trabalha por ofender e rivalizar com seus superiores. Ao passo que as
demandas financeiras aumentam, o homem passa projetar uma espécie de vida em
que se faz atuante, onde tem que procurar por algo e não mais simplesmente
esperar. É essa projeção que quebra o esboço de sanidade no samurai e faz com
que seus atos saiam completamente do normal para ele.

Neste ponto
se inicia um enorme emaranhado de mortes, sem nenhum tipo de concessão,
acarretando na fuga do samurai de diversos lugares, não formando um lugar fixo
para residir. O auge da insanidade surge no aparecimento de fantasmas de
indivíduos assassinados por ele. Adentraremos, durante alguns momentos, na pele
de Ryunosuke e seremos, assim como ele, acometidos pelas alucinações das
figuras dos mortos. O samurai perde completamente seu senso de realidade,
começando uma empreitada maluca, e final, contra tudo que vê pela frente.
Esses minutos
finais nos apresentam como aquele indivíduo nutria uma obsessão irrefutável
mediante suas ações. Uma vez traçado o perfil da conquista, o homem não pararia
até conquistá-lo. E o final do filme é uma homenagem a seu protagonista.
Exposto ao conceito da morte inelutável e inescapável, o filme tatua em seus
últimos frames a recusa em dar um fim ao seu personagem. O diretor deixa
evidente na última imagem o peso de dar um fim àquilo que estamos acompanhando.
E ele se nega a fazer isso com esse último elemento.
A direção de Kihachi Okamoto
é impecável. Okamoto trabalhará com uma alternância frequente de quadro para
quadro, tudo para dar agilidade às cenas e pegar a melhor feição e atribuição
dos atores e cenários escolhidos. Esse modo de trabalhar com cada quadro atuará
também por contar a história sem a necessidade de palavras ou composições
sonoras. O diretor também faz um uso preciso do “zoom in”, quando quer transpor
ao espectador o peso de cada personagem e seu discurso do momento, e “zoom
out”, usado aqui quando os personagens terminam suas falas, causando com esse
distanciamento de câmera a ideia de absorção ao que foi exposto no espectador.
Durante todo o filme Okamoto vai fazer uso desse estilo para as cenas mais
calmas, onde imperam unicamente os diálogos.
Vale também
pontuar as cenas de combate inseridas no filme. Algumas vão trabalhar com o
aspecto bem atuante da edição rápida do filme, conseguindo criar um ar
verossímil ao que está sendo mostrado. Nas outras, no entanto, veremos a
execução de planos-sequência, com cenas únicas, filmadas e trazidas ao público
como uma espécie de balé. Essa edição citada, realizada por Yoshitami Kuroiwa,
vai ser, inexoravelmente, inquieta. As cenas vão caminhar por uma edição que
sempre vai procurar a melhor forma de criar um todo ágil.

A
cinematografia também é algo que não destoa do resto da obra. Realizada por Hiroshi Murai,
cada fragmento de quadro vai ajudar o espectador a formalizar uma ideia do
constructo psíquico de cada personagem. Desde a primeira cena, onde vemos o
protagonista com seu tradicional chapéu e todo o ambiente natural a sua volta,
teremos a clara sensação do que constitui o personagem. E isso está inserido
durante todo o filme.
O elenco
conta com Tatsuya Nakadai como o protagonista. Nakadai vai
embasar sua atuação em expressões carregadas, falas pesadas e uma forma
arrastada de andar e agir em cada momento. Como o diretor caracteriza seu
estilo de captar o filme utilizando um senso contemplativo do protagonista,
Nakadai possui uma exposição limitada, apesar de dominar a tela. Também teremos
a participação do lendário Toshirô Mifune em participações menores, mas
bastante significantes para o desenrolar da história.
‘A Espada da
Maldição’ é uma obra impecável. Cada fragmento de cena, quando decidimos
analisar as partes, soam fantásticas por si só, com uma perfeita execução. No
entanto, quando decidimos analisar o todo, o resultado é uma obra-prima do
cinema japonês. Um filme que não faz concessões ou análises morais na hora de
contemplar seu protagonista pouco aprazível. São duas horas das mais belas já
filmadas do cinema oriental.
Nota CI: 8,0 Nota IMDB: 8,1
Filmografia:
ESPADA da
Maldição, A. Direção: Kihachi Okamoto. 1966. 119 min. Título Original: Dai-bosatsu tôge.