Utilizando de
uma aura poética inerente ao cinema francês, François Truffaut nos traz uma obra sobre a mumificação do passado na vida de dois
indivíduos. ‘A Mulher do Lado’ investiga o aspecto da imaturidade permanente
presente em algumas pessoas, o constructo de personalidade vai ser esmiuçado e,
ainda, teremos o filme nos apresentando à noção de tempo como uma instituição
efêmera e leve. O penúltimo filme da brilhante carreira do cineasta francês é
um deleite para seu público tradicional, onde coerência e concisão são apenas
alguns dos adjetivos que podem ser empregados aqui.
A trama nos
colocará em um pequeno bairro rural da França, onde Bernard Coudray vive
tranquilamente com sua esposa e filho. No entanto, toda essa tranquilidade
acaba quando uma antiga paixão de Bernard, a bela Mathilde Bauchard,
passa a morar na casa ao lado com seu marido. É neste momento que veremos uma
eclosão adormecida de sentimentos invadirem os dois, levando-os a questionarem
suas vidas atuais e determinados fatos incompletos do passado.
O ritmo
inicial do filme sempre trabalhará para emanar mistério de sua atmosfera. Não
sabemos o que rege os personagens e, quando expostos a situações em que ficam
desconfortáveis, não conseguimos identificar tais comportamentos. Todo esse
início servirá para elencar no espectador uma curiosidade quanto à figura do
passado, até então omitida pelo filme.

O grande
traquejo da obra é saber avançar por sua história sem necessidade de pressa.
Teremos todos os conflitos e situações que surgem durante o filme destrinchadas
calmamente, onde a possibilidade de avançar para a cena seguinte só irá se
concretizar quando a atual chegar plenamente ao seu desfecho. Tudo isso traz
peso ao roteiro(escrito por Suzanne Schiffman,
Jean Aurel e
François Truffaut).
Há também no
filme um uso demasiado da figura poética que tange os relacionamentos e falas
dos personagens. Este uso demasiado se faz necessário ao conteúdo que o roteiro
nos propõe, servindo para o espectador poder ter um esboço do conteúdo
psicológico exacerbado presente em toda aquela figura do romance proibido e do
passado insuperável.
Logo o filme
se pressupõe, conforme vamos tendo uma maior noção das personalidades dos dois
personagens centrais, a trazer um embate entre maturidade/imaturidade. Aqui
esses dois conceitos sofrerão um processo simbiótico, jamais podendo se
distinguir um do outro nas figuras de Bernard e Mathilde. Toda aquela aura
instintual e agressiva presente nos dois em um passado distante, retorna assim
que os dois se reveem pela primeira vez. O aspecto de maturidade adquirida
através do tempo, com os personagens construindo novas famílias e laços de
amizades, se destroem gradualmente quando os dois se veem na presença do outro.

O filme faz
questão de expor os traços incongruentes das personalidades de ambos. Bernard,
antes um homem calmo, gentil e preocupado, foge para um contorno obsessivo,
agressivo e dissimulado. Mathilde, antes assertiva e atenciosa, recorre a um
senso manipulador, patológico e irregular. E é das disparidades de
personalidades que teremos uma clara noção da figura estática do passado.
O passado é
retratado, por intermédio das vidas de Bernard e Mathilde, como algo de
significância única na vida do indivíduo. A vivência de algo único, forte e
definitivo se torna um fenômeno empedernido no ser humano. Não empedernido como
uma esquete isolada, mas uma junção de toda a vida do indivíduo. Este indivíduo
se vê incapaz de projetar um futuro ou, até mesmo, analisar e agir sobre o
presente. Tanto para os estoicos quanto na filosofia de Nietzsche, o passado é
visto como uma estrutura danosa na vida do ser humano. Tentar reviver
experiências de outrora nos fazem esquecer do aqui e agora, algo único e o mais
importante para essas duas correntes citadas. E aqui, com Bernard e Mathilde, é
exatamente isso que acontece. Os dois se fazem presos em um mundo inexistente,
vítimas de uma incapacidade, até mesmo, social de avançar sobre o constructo da
vida. Essa incapacidade determinará a derrocada de ambos os personagens.
A reta final
do filme acaba tendo uma leve perda de qualidade, mas não o bastante para
comprometer algo do que havia sido exposto até ali. As situações ganham uma
maior aceleração, e, às vezes, perdem o peso. Porém, é com essa aceleração que
o filme nos apresenta o tempo como uma unidade efêmera, quando cada ato dos
personagens sobre o mundo acaba tornando-se repetitivo e o momento parece durar
cada vez menos. Veremos os personagens avançarem através do tempo sem, no
entanto, evoluírem ou crescerem como indivíduos.

A direção de François Truffaut vai sempre priorizar expor as feições de seus personagens mediante os
conflitos que vão surgindo em tela. O francês utiliza muitas vezes planos
fechados e “close-ups” para caracterizar essa relação( e transposição) entre
público e espectador. Truffaut também lida muito bem com o tempo de filme, nos
entregando cenas que atingem o limite no quesito artístico ou no próprio tempo
corrido das mesmas. Os tropeços acabam acontecendo no campo da edição,
comandada por Martine Barraqué,
quando algumas cenas ficam soltas em meio ao conjunto total. Já a trilha sonora
Georges Delerue
vai ter uma atuação discreta sobre o filme, sempre presente apenas para pontuar
algum desfecho ou momento emocional dos personagens centrais.
O elenco,
formado em seu eixo principal por Gérard Depardieu e Fanny Ardant, possui aqui uma presença segura. Ambos conseguem
adentrar em toda a atmosfera instável e insegura que rege as atitudes de seus
personagens. Ardant sempre vai emanar em tela toda uma atração e beleza que age
sobre o resto do filme. Depardieu é mais calmo, dominando cada cena apenas com
sua postura.
‘A Mulher do
Lado’ segue todo aquele já solidificado padrão de qualidade ao qual François
Truffaut está introduzido. Truffaut expõe como a constante aura deveniente
presente no ser humano aqui é inexistente. O filme trata suas figuras
principais como sujeitos imutáveis, presos em uma realidade que já não mais
existe. Concomitante a isso, o francês ainda enumera itens tradicionais de sua
filmografia, como infidelidade matrimonial, a naturalidade da morte, a
incongruência do comportamento humano e a questão da tragédia, tão popular na
mitologia grega, como algo natural e um fator rígido.
Nota CI: 6,9 Nota IMDB: 7,4
Filmografia:
MULHER do
Lado, A. Direção: François Truffaut. 1981. 106 min. Título Original: La femme d’à cote.
http://amzn.to/2eGHyu0