Partindo do
pressuposto básico do dinheiro como o reforçador universal mais influente nas
relações interpessoais, Robert Bresson nos traz todos os desdobramentos dessa relação patológica entre o ser
humano e esse elemento. Teremos analisadas diante de nós várias construções
que, conforme a evolução do ser humano através do tempo, foram ficando cada vez
mais egoístas e voltados unicamente para o ganho pessoal. O filme traz o
contato social como uma forma do indivíduo obter vantagens, e não para um bem
comum a todos. Como último fator, ainda veremos o filme nos apresentar a teoria
do acaso como uma conjunção de fatores preponderantes para nossa atividade no
mundo e ainda fazer uma crítica ao sistema social e econômico que imperou no
século XX e continua comandando as ações até hoje.
A história do
filme segue, inicialmente, a trajetória de uma nota de dinheiro falsa. Essa
nota vai caminhar de mão em mão, até, finalmente, ter seu destino final que
norteará os caminhos da trama. O filme trabalhará, durante os seus curtos 85
minutos de duração, por esmiuçar como essa nota falsa e toda a contextualização
no inconsciente coletivo do ser humano sobre o dinheiro pode influenciar em
vidas alheias, deixando-as marcadas e condenadas, sem a oportunidade de nenhum
tipo de reviravolta.
Os minutos
iniciais da obra nos apresentarão toda uma noção do dinheiro como um item
presente em todos os tipos de intercâmbio social. Esse dinheiro vai reger as
relações de uma rica família, atuar sobre uma pequena loja de fotografias e
guiar os passos de um trabalhador inocente. É importante ressaltar que esta
figura do dinheiro atuará como uma espécie de divindade nas relações sociais,
onde cada conversa emanada no filme sempre terá o dinheiro como primeira ou
última motivação.
O filme
também apresenta todas essas relações sociais expostas como uma coisa utilizada
unicamente para um ganho pessoal. Todos os diálogos sempre terão o benefício
pessoal como substância. O problema, entretanto, aqui, é que por mais danosa
que essa atitude já seja, ela ainda visará não somente o ganho pessoal, mas,
também, o prejuízo do outro indivíduo. E esse benefício próprio sempre será
regido pelo dinheiro.

O dinheiro é
definido, tendo em vista uma perspectiva behaviorista sobre o ser humano, como
o reforçador universal mais influente nessa relação indivíduo e mundo. Essa
perspectiva de dinheiro como um reforçador universal é simples e embasada na
forma de que sempre, quando expostos a este reforçador, teremos nossos
comportamentos repetidos e solidificados, aumentando enormemente a
probabilidade de estes se repetirem. Ou seja, um indivíduo, como no exemplo do
filme, que sempre quando inicia uma conversa com sua mãe ganha, ao seu término,
uma quantia em dinheiro, terá essa atitude de iniciar uma conversa com essa mãe
fixada e repetida sempre.
É neste
momento que temos uma clara noção de como o dinheiro irá agir sobre as relações
interpessoais e aumentará a probabilidade de elas se repetirem. Esse dinheiro
também terá um efeito punitivo muito forte, onde a sua ausência poderá servir
para construir novos comportamentos ou extinguir outros. É o dinheiro usado
como ferramenta de controle e previsibilidade do comportamento humano.
A reta final
do filme nos apresentará, finalmente, a figura de acaso como cruel e
definitivo. Os personagens centrais acabam adentrando em um emaranhado de
situações adversas que atuarão para determinar e destruir toda uma construção
de personalidade de outrora. Cada espectro de cena evidenciará uma conjunção
aterradora do conceito de acaso eclodir em tela, onde uma simples nota de
dinheiro poderá destruir dezenas de vidas.
Esses últimos
minutos também irão fazer uma crítica a um sistema social que atua por destruir
indivíduos, ao invés de recuperá-los. Seja no âmbito prisional, familiar ou
empregatício, todas essas relações vão, inexoravelmente, fazer um trabalho
contra o ser humano, e, apesar de esse modo de agir seja algo inerente ao
sujeito, estando presente no mundo desde sempre, as críticas jamais vão se
fazer inúteis, apesar de apresentarem um contorno niilista sobre a vida.

A direção de Robert Bresson focará em nos mostrar determinados objetos, sempre utilizando planos
fechados, deixando tatuado na cabeça do espectador a importância daquilo para o
desenvolvimento do filme. Bresson também escolhe por criar uma atmosfera crua,
onde cada diálogo reverbera em um tom maior mediante as cenas. Vale salientar
que Bresson também escreve o roteiro, baseado num conto de Leo Tolstoy, e
consegue essa maior flexibilidade na adequação de cada cena. Porém, talvez o
maior erro do filme seja o de escolher não utilizar uma trilha sonora, deixando
algumas cenas mais pesadas do que deveriam.
O elenco
surge como uma ferramenta de segunda importância para o filme. Os atores acabam
tendo uma exposição baseada mais em suas completudes físicas do que,
propriamente, em suas atuações. Os diálogos do roteiro são mais enxutos,
contribuindo para esse distanciamento entre ator e espectador.
‘O Dinheiro’
acaba se notabilizando como um filme regular em sua execução, mas brilhante em
sua proposta. A decisão de trazer para as telas uma questão tão difundida no
mundo, entretanto, ignorada pela grande maioria, é de uma sutileza e
pontualidade precisas. Um filme atemporal, que acaba por se enquadrar nos dias
atuais e, muito provavelmente, permanecerá em voga em um futuro próximo.

Nota CI: 6,6 Nota IMDB: 7,5
Filmografia:
DINHEIRO, O.
Direção: Robert Bresson. 1983. 85 min. Título Original:
L’argent.