Crítica: ‘O Caçador’(2011), de Daniel Nettheim

Contando com uma grande atuação de seu protagonista, ‘O Caçador’ tinha tudo para conseguir trilhar um caminho tranquilo, oferecendo a seu público um bom filme. Entretanto, com um roteiro fraco, uma direção que preza pela utilização de cenas sem nenhum impacto e uma trilha sonora inconstante, o filme acaba por perder de vista qualquer ideia consistente que tentou colocar em tela. Um filme que, apesar de seus erros, não se faz insosso durante seus 102 minutos de duração, mesmo com sua trama monótona.

A trama contada aqui é a de um homem chamado Martin que ganha sua vida fazendo trabalhos ilegais para homens poderosos. Em seu trabalho atual, Martin recebe a missão de encontrar um animal aparentemente extinto na floresta de uma pequena cidade. Nesta cidade, Martin acaba por se envolver em um relacionamento de amizade com uma família composta por uma mãe e seus dois filhos. A história ficará limitada a essa relação do protagonista com a família e sua caça pelo animal.

Desde o início o filme trabalha por deixar claro ao espectador que contará uma história norteada pelo ritmo extremamente cadenciado. Tudo é trazido à tela de uma forma calma, explorando cada construção de cena em sua completude. Isso não é ruim a princípio. Toda essa calma é positiva para observarmos a maneira do personagem de Martin se comportar.

Essa abordagem do protagonista é feita através do silêncio. E não apenas do protagonista, mas, sim, de toda a atmosfera do filme. Tudo é mostrado, trazido à tela, por meio da natureza que emana na cidade. Esse silêncio acaba evidenciando, nas cenas na floresta, um suspense crescente a cada minuto. A sensação é que começaremos a ser introduzidos a uma obra de suspense. E é neste momento que os erros do filme se iniciam.

A obra entrega em sua premissa ser um filme de suspense, mas com o avançar e os desmembramentos da história, estes acabam por sobrepujar completamente essa ideia inicial. Caminhamos alternando, de uma forma negativa, entre um drama limitado e um suspense incompleto. Essa indecisão acaba delimitando os caminhos que o próprio espectador vai traçar sobre o filme.

Os problemas do roteiro começam a ficar claros exatamente no ponto em que o filme quebra um pouco sua atmosfera silenciosa. No surgimento dos diálogos, fica tatuado na tela a ineficiência de criar algo denso. Escrito por Alice Addison, baseado no romance de Julia Leigh, o roteiro também peca na construção após a apresentação dos personagens. Quase todos os conflitos surgidos são ausentes de um sentido real. A história também constantemente foge de seu foco principal da caça do animal, alterando seu rumo. Nenhum problema nisto, porém, quando o rumo do filme se altera novamente após poucos minutos, voltando para a trama com o animal, isso se torna um problema grave.

A direção de Daniel Nettheim acaba tendo seus momentos positivos no filme, sem jamais se tornar ruim no filme. Aliás, é o trabalho de Nettheim, junto com a boa atuação do protagonista, que consegue segurar a atenção do espectador na primeira parte. Entretanto, vale ressaltar um uso vazio de diversas cenas da natureza no filme. Entre o corte de um evento para outro, o diretor coloca pequenos fragmentos da floresta explorada no filme. Esses fragmentos acabam não tendo nenhum significado para o que a história se dispõe a contar, ficando ali simplesmente para preencher conteúdo. Esse uso de pequenas tomadas ambientais é muito usado em séries, servindo para ligar um núcleo ao outro e Nettheim passou sua carreira fazendo direções para a televisão, talvez, se encontrando aí o problema de separar os estilos.

Um ponto crucial que atrapalha muito o desenvolvimento do filme é a sua trilha sonora completamente confusa. Inicialmente se fazendo ausente do filme, aparecendo apenas para pontuar pequenos trechos, deixando com que a trama se desenvolva por si só. Porém, depois da metade do filme, há uma completa quebra com o que havia sido construído até aqui, onde, de repente, a trilha fica muito chamativa, tentando evidenciar um clima de suspense que o filme falha em trazer.

O maior destaque de todo o filme é a atuação de Willem Dafoe no papel do caçador. Desde o primeiro minutos Dafoe consegue criar uma aura melancólica e misteriosa sobre seu personagem. Tudo com a utilização de um modo de atuar intenso nos pequenos gestos e olhares. Diferente do filme que alterna entre o silêncio e os diálogos, Dafoe se mantém sempre no mesmo ritmo, fazendo pouco uso de falas e sabendo aproveitar-se do silêncio. E, mesmo quando o roteiro lhe entrega uma maior concentração de diálogos ao seu personagem, Dafoe consegue quebrar o silêncio sem que isto venha a ter qualquer problema para seu desenvolvimento em tela. O elenco ainda conta com Frances O’Connor e Sam Neill desempenhando papéis menores.

‘O Caçador’ não é um filme que se faça completamente dispensável. O diretor acaba fazendo um trabalho esforçado e obteria mais êxito de tivesse em mãos um roteiro de maior qualidade. O filme é todo voltado para as percepções do personagem principal, sem espaço para outros destaques, e ter escalado um ator experiente e devotado à obra é o grande acerto dos produtores.

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Renato Rodrigues

Estudante de psicologia e, o mais importante, apaixonado por cinema. Tenho como diretores favoritos Ingmar Bergman, Michael Haneke, Woody Allen e Martin Scorsese.

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