Escolhendo por transmitir ao espectador toda a grande
variedade de comportamentos inábeis de um personagem em uma jornada errática
pelo mundo, ‘Adaptação’ consegue obter êxito ao guiar seus objetivos. Seu
diretor, Spike Jonze, despreza a qualidade estética de suas cenas, a fim de
destrinchar os caminhos tortuosos que o filme decide seguir. O filme ainda
seguirá a noção de similaridade com o espectador na forma que o personagem
exibe seus comportamentos, vai transpor uma inabilidade social de diversos
indivíduos e fará um contraponto familiar sobre anseios que jamais podem ser
concluídos.


A trama segue
os passos de um roteirista que, após ser incumbido da missão de adaptar para o
cinema um livro de sucesso, encontra-se inserido em um misto de inabilidade
social ao lidar com as pessoas e uma inveja no contato familiar com seu irmão.
O filme ganhará sua dinamicidade quando o homem acaba por descobrir que a autora
do livro que ele tem que adaptar escondia alguns segredos.

O início do
filme atua por alocar o espectador em toda a estranheza e desconforto que guia
a vida psicológica do personagem principal. Aqui, teremos uma grande gama de
cenas aleatórias, de histórias diferentes e imagens reais, todas exacerbadas,
que fazem o paralelo com a intensidade errática que o homem passa em um simples
jantar com uma produtora de cinema. Essa inabilidade em lidar com fatores
comuns a vida em sociedade também é explicitada quando o personagem conversa
com uma mulher que gosta, sendo incapaz de demonstrar seus afetos de uma forma
palpável.

Todo o padrão
de comportamentos
demonstrados pelo homem na parte inicial serve, também, para
trazer similaridade ao espectador, fazendo este se sentir parte de algumas
situações empregadas. Essa similaridade é possível pela ótima decisão do
roteiro de utilizar uma figura narrativa do próprio personagem sobre seus
dramas, expondo de forma leve toda a forma do homem pensar. E é aqui que somos apresentados
à figura do irmão do protagonista.

Representando
tudo o que o personagem central não possui, o irmão em questão, também
roteirista, se move de uma forma fácil sobre o cotidiano. Dinheiro, ideias
criativas, desembaraço social e o fácil convívio com mulheres tornam o homem um
contraponto a tudo que seu irmão possui em sua vida. Esse irmão de “sucesso”,
nos amparando no âmbito simbólico, emana toda uma boa construção de seu aparato
psicológico
, com diferentes instâncias de seu pensamento agindo de forma
saudável, apesar de pender para o lado dos instintos primitivos.


O Id do
sujeito, aquela instância do construto psíquico responsável pelos atos e
vontades relacionados ao sexo, pulsões instintivas, violência e o desejo de
aqui e agora, é mais evidente, tendo um maior poder sobre seu Ego. Já no
personagem principal, esse Id é praticamente inexistente, mal desenvolvido,
fazendo com que seu Ego seja subjugado por um Superego, instância responsável
pelas construções morais e éticas do sujeito, patológico e irredutível. Essas
diferenças psicológicas dos irmãos são preponderantes para os desnivelamentos
finais do filme.

Os momentos
finais do filme servem para desconstruir as noções básicas construídas pelo
personagem central durante o filme. Cada consequência de determinados atos
servirão para afrouxar as amarras que tanto imputavam no homem uma sensação de
estar alheio a tudo. As cenas mais intensas do filme, apesar de trazerem dor ao
personagem, também se guiam como soluções catárticas encontradas pelo simples
acaso.

Adentrando ao
campo na direção, veremos um trabalho conciso de Spike Jonze. Jonze, muito
diferente do maior filme de sua carreira, o aclamado ‘Ela’(2013), descarta uma
construção mais estética de seus planos. Aqui, todas as cenas seguem um padrão
esquizofrênico, onde alterará entre ângulos pouco aprazíveis e uma conjectura
de cenários que prezam pela exposição de uma atmosfera suja e desconexa, sempre
se pautando na fotografia escura de Lance Acord.
Essas construções de cenas servem como uma espécie de mapa interno da psique em
completo estado de confusão do protagonista.

O elenco do
filme é positivo para a dinamicidade da história. Temos, nos papéis
secundários, as presenças de Meryl Streep e Chris Cooper, empregando atuações medianas, mais movimentadas
do que o habitual nas filmografias de ambos. Nos personagens principais teremos
Nicolas Cage, que se divide, interpretando os dois irmãos. Cage
propicia uma atuação soberba nos dois personagens, conseguindo evidenciar todas
as diferenças presentes nos irmãos, fazendo o espectador quase acreditar que
ali se encontram dois atores diferentes.

Diferente da
grande maioria dos filmes, ‘Adaptação’ escolhe por desmembrar, durante os seus
114 minutos, as construções psicológicas erráticas de seu protagonista,
mostrando um personagem único. A experiência de assistir a obra não traz ao
espectador um grande prazer, mas faz com que este reflita sobre os temas
expostos. Um bom filme em sua constituição integral, entregando uma direção
competente, atuações positivas e um roteiro conciso e pontual em suas
investidas.

Nota CI: 6,7 Nota IMDB: 7,7
 
Filmografia:
ADAPTAÇÃO.
Direção: Spike Jonze. 2002. 114 min. Título Original: Adaptation.
ELA. Direção: Spike Jonze. 2013. 126 min. Título Original:
Her.