Seguindo a risca todos os elementos tradicionais de sua
filmografia
, Kar-Wai Wong nos presenteia com um filme envolvente sobre as
desilusões amorosas de um pequeno espaço de tempo das vidas de um casal de
namorados. Aqui, veremos as incongruências contidas na síntese do ser humano, o
conceito de ciúmes é estudado, rotinas e hábitos são desmembrados e ainda há
espaço para a obra tatear sobre a questão do tempo. E, como de praxe, o filme
chamará a atenção de seu espectador pela fotografia belíssima, edição bem
trabalhada e uma trilha sonora pontual.

O filme segue
as vidas de um casal de namorados, oriundos de Hong Kong, que decide passar um
tempo na Argentina. A trama do filme se concentrará inteiramente nas resoluções
do dia a dia conturbado, os momentos de prazer e a inabilidade de viver juntos
de dois indivíduos. Vale ressaltar que a trama em nenhum momento trata a figura
do homossexualismo inserido no relacionamento dos homens para comandar o ritmo
do filme.


Em sua reta
inicial, o filme trabalhará por deixar claro ao seu espectador os caminhos que
a trama pretender trilhar. Logo na cena inicial, somos inundados com uma cena
intensa de sexo entre os dois personagens centrais, explicitando a carga erótica
que seguiremos. O crucial aqui se faz pelo acerto em não resumir a obra
simplesmente em cenas de cunho sexual, conseguindo deixar em foco toda a trama
que permeia os personagens, evitando cometer erros que filmes como ‘Azul é a
Cor Mais Quente
’(2013) e ‘Último Tango em Paris’(1972), por exemplo, fizeram.
Conforme
avançamos sobre a história, aprenderemos os diversos nuances que regem as personalidades
dos dois homens. Os personagens servem de contraponto para os hábitos um do
outro. Enquanto um exacerba seu lado mais instintivo, pautando-se sempre no
prazer a qualquer custo, o outro é mais centrado nas atividades do cotidiano,
quase sempre optando pela saída mais racional para determinados conflitos. E
esse personagem mais centrado é o responsável por comandar a narrativa do
filme, que exerce papel preponderante para a dinamicidade da história.

Assim como a
grande parte da excelente filmografia do diretor, aqui a figura do narrador é a
responsável por “martelar” os conteúdos expostos por cada cena. Esse narrador
serve para evidenciar sentimentos, concluir cenas inacabadas, ponderar sobre os
conflitos da vida, falar sobre o amor e ambientar o espectador no presente e
passado dos indivíduos. E é neste ponto que a figura do tempo investigada.
O tempo é
tido pelo filme como uma estrutura efêmera, de curta duração, que torna o
indivíduo, os dois personagens em questão, em uma entidade empedernida, com
rotinas e hábitos solidificados. O tempo do indivíduo no mundo é visto como uma
sucessão de pequenos momentos significantes que ficarão “tatuados” em seu
construto psicológico, tornando os eventos subsequentes uma tentativa frustrada
de revivê-los.

Essa questão
do tempo como algo rápido e claudicante é evidenciada pelos atos de um
personagem, o homem regido por seus instintos, citado acima, já na reta final
do filme, agindo por “travar” seu desenvolvimento pelos caminhos da vida,
fazendo-o tentar recriar todos os elementos que outrora lhe fizeram feliz.
Os momentos
mais substanciais para os personagens são aqueles mais conturbados. Os
conflitos elevam o senso do aqui e agora, fazendo-os entrarem em um processo
simbiótico inegociável. Esse processo de junção do aparato psíquico de dois
indivíduos é amparado pela visão de ciúmes que o filme emprega, tornando a vida
longe da presença do outro, para ambos os personagens, algo dolorido demais,
exacerbando seus passos incongruentes pelo mundo.


Os trechos
finais da obra também fazem uma homenagem ao país onde a trama concentra sua
maior parte. A Argentina, adentrando em uma questão simbólica, serve como o
ponto fora da curva para toda a camada insossa das vidas dos personagens quando
separados. O país é a figura da comunhão por um pequeno fragmento de tempo pela
qual os homens passam. O processo simbiótico, citado acima, entre eles se faz
em virtude da figura do país sul-americano.
Caminhando
para o campo da direção, teremos um trabalho extremamente dedicado e produtível
do cineasta asiático. Kar-Wai Wong guia seu trabalho por trajetos já conhecidos, propiciando ao espectador
uma direção simplesmente impecável. O diretor vai utilizar bastante os planos velozes,
sempre se amparando em uma edição rápida, para dar dinamicidade ao que estamos
assistindo. Tanto planos estáticos quanto móveis são utilizados por Wong, onde
ambos trabalham por sempre nos inserir no âmago dos personagens, fazendo de
suas dúvidas, conflitos e anseios partes integrantes do pensamento do
espectador. E, por fim, outro recurso muito usado pelo diretor é o da já
tradicional câmera lenta. Assim como a figura narrativa, essa câmera lenta
atuará por dar o desfecho, no campo abstrato, para cada cena mais importante
para a história.

A fotografia,
comandada por Christopher Doyle,
também é parte preponderante para a plena execução das ideias do diretor. Aqui,
teremos enquadramentos que causam imersão, procurando ambientar o espectador no
interior de cada ambiente explorado. Também teremos uma grande conjunção de
tons extremamente fortes, que combinarão com o amarelado de algumas cenas, para
impregnar a ideia de estarmos vendo uma atmosfera turbulenta e nostálgica. O
filme também faz uso de uma variação de cenas coloridas e em preto e branco. O
preto e branco é utilizado em uma quantidade de tempo menor e em pontos
estratégicos do filme, servindo para emanar os únicos momentos de tranquilidade
que os personagens acabam vivendo.

Vale destacar
também a bela trilha sonora de Danny Chung,
que traz em sua síntese uma variação entre duas culturas para guiar o filme.
Essa trilha sonora, diferente do papel da fotografia e dos inúmeros planos
diferentes utilizados pela direção, está alocada no filme de forma inconstante,
aumentando e diminuindo seu ritmo conforme o momento dos personagens.
Já nos
guiando para as atuações, ambos os atores responsáveis pelos papéis centrais
entregam boas performances. No entanto, aqui o talento dos atores acaba sendo
subjugado pela qualidade estética na concepção de cada cena. Não há espaço para
eles se destacarem, a atmosfera do filme faz o trabalho por eles. Vale dizer
que isso não representa um erro do filme.

Intenso,
significante e impecável em sua concepção, ‘Felizes Juntos’ é um filme que atua
em comunhão com diversos conceitos e fases da vida humana. Kar-Wai Wong, seu diretor e roteirista, não entrega nada além do que o espectador
está acostumado em sua carreira, prezando em cada plano utilizado por uma ordem
inegociável de fatores distintos.

Nota CI: 7,6 Nota IMDB: 7,8
Filmografia:
FELIZES
Juntos. Direção: Kar-Wai Wong. 1997. 96 min. Título Original: Chun gwong cha sit.
AZUL é a Cor Mais Quente. Direção: Abdellatif Kechiche. 2013. 180 min. Título Original: La vie d’Adèle.
ÚLTIMO Tango em Paris. Direção: Bernardo Bertolucci. 1972. 129 min. Título Original: Ultimo tango a Parigi.