Em um dos filmes mais impactantes de sua carreira, David
Cronenberg nos entrega uma obra que trabalha por incomodar o espectador. ‘A
Mosca
’ é uma obra cheia de substância, extremamente criativa e que rege sua
atmosfera em um ritmo crescente de tensão. O filme ainda irá transpor toda uma
degeneração psicológica e física de seu protagonista, caminhará sobre os
anseios humanos e seus limites e questionará os princípios éticos tidos como
básicos em uma sociedade tradicional. Como se tudo isso não fosse o bastante, o
filme ainda entrega uma parte técnica, como maquiagem e efeitos especiais,
simplesmente impecável.


A trama do filme trabalha sobre a vida de um cientista
extremamente talentoso que nutre uma vontade inexorável em obter um feito sem
igual em sua área. Egocêntrico e excêntrico, o homem ainda conhece a figura de
uma jornalista interessada em seus objetivos, desenvolvendo com esta um
romance. Ganharemos força na trama quando um de seus experimentos dá errado,
transformando toda a realidade que o homem tinha como definitiva.

O início do filme, como em algumas obras do diretor, deixa o
espectador meio por fora dos elementos da trama. O passado dos personagens
centrais é completamente suprimido, mostrando indivíduos se movendo sem nenhum tipo
de predição por parte do público. Toda a natureza do porque desses indivíduos
agirem da forma que o fazem é mantida em segredo por essa parte inicial.
O avançar pela trama, mesmo o filme possuindo apenas 96
minutos de duração, é simples e cadenciado, sem se fazer apressado em nenhum
momento. Se o passado dos personagens foi suprimido antes, o mesmo não acontece
com toda a gama de comportamentos e suas resoluções que os personagens
distribuem ao decorrer da história. Passamos a entender perfeitamente como cada
item da trama pensa e projetamos, até mesmo, alguns passos que eles podem dar.

Conforme a trama vai ganhando sua dinamicidade, teremos
evidenciado todo o processo de degeneração ao qual o personagem principal é
submetido. Esse processo não se faz unicamente em virtude de seu aparato
biológico corrompido, mas, também, pela figura da loucura que adentra a sua
psique quando este acaba se deparando com o fracasso. E, ao adentrar a reta
final da obra, somos inundados com o fator que mais dá visibilidade para tudo
que foi projetado.
Adentraremos em um mundo onde o grotesco dá as ordens. Veremos
uma grande variedade de cenas desconfortáveis para o espectador, que trabalham
por “tatuar” toda a proposta que o filme trilhou calmamente durante cada cena.
Isso sem jamais perder o foco principal, que é contar sua história. Tudo
caminha em um completo estado simbiótico para os desnivelamentos finais de cada
elemento, seja da instância dos personagens ou, até mesmo, da parte estética do
filme. E tudo isso jamais seria possível sem a grande conjunção de talentos que
se uniram para fazer este filme possível.


No âmbito da direção, David Cronenberg conduz o filme da
forma que se acostumou durante toda a sua filmografia. O diretor não necessita
de muitos cenários para fazer a história ganhar peso, se valendo, praticamente,
de dois únicos locais para tocar a história, assim como o fez em ‘Os Filhos do
Medo
’(1979). Também teremos uma grande variedade de cenas que aderem ao “gore”
e, como dito acima, assumem a função de incomodar, lembrando trabalhos do
diretor a frente de filmes como ‘Scanners – Sua Mente Pode Destruir’(1981) e
Videodrome(1983).
Essas cenas que fazem o filme se destacar se devem ao
trabalho espetacular dos departamentos de maquiagem e efeitos especiais. A
economia na questão de locais e cenários passa longe de chegar à área dos
efeitos e maquiagem. Tudo aqui é bem feito, emanando um senso de realidade
surreal. Exacerbadas, essas cenas ganham mais substância quando juntamos toda a
trajetória dos personagens até os momentos preponderantes para a obra.
Diferente de filmes que também se destacaram neste setor em especial, ‘A Mosca’
utiliza esses elementos para propiciar algo a mais para a história, e, não,
para subjugá-la.

Já no campo nas atuações, veremos o filme debruçar-se sobre
três componentes centrais. Teremos John Getz,
como o componente menos efetivo para a trama, entregando uma atuação
competente, sabendo pontuar com talento os momentos onde seu personagem é
requisitado. No papel da jornalista atrás de um furo, teremos a ótima Geena Davis, guiando sua atuação com uma sexualidade exacerbada e dispensando
intensidade nas cenas mais impactantes. O trabalho de dar toda a dinamicidade à
trama é de responsabilidade da ótima atuação da atriz. No entanto, o destaque,
claro, vai para Jeff Goldblum como o personagem principal do cientista. Goldblum nos propicia uma
atuação sem igual, iniciando o filme calmamente, empregando toda uma estranha
doçura no modo de ser do personagem e, conforme avançamos, começando a empregar
uma intensidade em cada comportamento, olhar e gesto do errático cientista. Uma
das melhores interpretações da carreira desse ótimo ator.
Vale também pontuar
o sempre ótimo trabalho da trilha sonora. Comandada pelo genial Howard Shore, a
trilha sonora é completamente pautada no que a história e direção oferecem,
aumentando e diminuindo sua força conforme o filme necessita.

Impecável do
começo ao fim, ‘A Mosca’ é uma obra para ser revisitada diversas vezes. Um
filme que, mesmo com as inúmeras cenas fortes, se move de maneira suave,
hipnotizando o espectador, fazendo com que este se sinta parte integrante da
história. Um dos melhores filmes da carreira de David Cronenberg e, talvez, sua
última obra que se ampara completamente no gênero do horror.

Nota CI: 7,2 Nota IMDB: 7,5
Filmografia:
MOSCA, A.
Direção: David Cronenberg. 1986. 96 min. Título Original: The Fly.
FILHOS do Medo, Os. Direção: David Cronenberg. 1979. 92 min.
Título Original: The Brood.
SCANNERS – Sua Mente Pode Destruir. Direção: David
Cronenberg. 1918. 103 min. Título Original: Scanners.
VIDEODROME – A Síndrome do Vídeo. Direção: David Cronenberg.
1983. 87 min. Título Original: Videodrome.