Aproveitando-se de um estilo direcional frio e um roteiro
cadenciado, o filme nos apresenta a história de um homem sem escrúpulos, guiado
unicamente por seus impulsos mais primitivos. ‘Tony Manero’ é uma obra sobre as
exacerbações que uma sociedade vivendo em um período turbulento pode causar na
vida de todos os envolvidos. O filme ainda trabalhará com diversos conceitos,
como o sentido subjetivo de uma vida, a desconstrução da moralidade social, a
noção de criatividade inserida no ser humano e a apresentação da definição
psicanalítica sobre os instintos.


A trama conta a história de um homem, em meio à ditadura no
Chile
, no final da década de 1970, que se encontra completamente obcecado pelo
personagem principal do filme ‘Os Embalos de Sábado à Noite’. O homem se veste
como o personagem do filme, procura concursos de imitação e, em seus contatos
sociais comuns, procura sempre arquitetar um show em um pequeno bar para uma
apresentação. No geral, tudo vai bem, o personagem parece ser tranquilo e
basear-se em um senso altruísta. No entanto, o andamento da obra nos revelará o
oposto.

O início do filme é bastante cadenciado, explicando todos os
nuances do personagem central. Aqui, não teremos uma quantidade normal de
diálogos empreendidos pelo protagonista, ao contrário do resto dos personagens.
Tudo que teremos para decifrar os enigmas no homem são suas atitudes. Essa fase
inicial trabalha por, de certa forma, enganar o espectador, projetando uma
definição apenas provisória da personalidade do homem.

O homem parece não ter um bom nível de escolaridade,
recorrendo unicamente a resoluções empíricas para determinadas situações. Essa
limitação, no entanto, evoca algo a mais no homem, fazendo-o despertar seu
senso criativo que sempre nutre suas necessidades. Mas é por meio desse senso
criativo que começamos a ter um panorama geral do que compreende a
personalidade do homem.

Veremos o filme mudar sua forma, exposta nos 20 minutos
iniciais, trazendo um homem completamente sem escrúpulos, capaz de aderir ao
que for preciso para concluir seu objetivo. E, neste ponto, ficamos frente a um
questionamento do filme sobre os padrões morais inseridos em uma sociedade
tradicional que o personagem trabalha por desconstruir.

Novos modelos morais são exercidos pelo homem. Se matar,
roubar e chantagear outras pessoas são tidos como ruins ou ilegais para o senso
social, aqui o personagem apresenta seu próprio ponto de vista sobre o assunto.
Tudo é permitido para ele. O personagem encara o mundo como uma luta entre
diversas forças, querendo sempre o mesmo, onde o mais forte e adaptado
sobrevive. Essa visão funciona para o homem, e seus comportamentos são sempre
reforçados, criando, dessa forma, hábitos e rotinas solidificadas.

É importante trazer que esse novo padrão de moralidade dada
pelo personagem não implica somente no surgimento de características ruins.
Veremos, claramente, surgir um senso de subjetividade no indivíduo. O mundo e o
sentido da vida visto como algo pessoal, completamente alocado no cerne do
indivíduo, desprezando o consenso social que diz o que necessitamos para uma
vida de qualidade. E o “parto” de todas essas ideias e comportamentos do homem
parecem ser oriundos de um aparato psicológico desequilibrado.


Essa forma instintiva, puramente regida pelo princípio de
prazer, buscando de todas as formas satisfazer suas mais diversas pulsões, são
oriundas de um Id muito exacerbado, quando procuramos olhar o personagem pela
concepção psicanalítica. O ego do homem parece atender unicamente as demandas
desse Id, aparentando ter um superego precário e mal desenvolvido. Regras e
morais não parecem estar fixadas no construto psicológico do personagem,
promovendo uma completa alienação desse superego.

A reta final da obra ainda mostra uma degeneração mais
acentuada do comportamento do homem. Rivais em sua própria residência, a saída
de cartaz do filme em que é obcecado e os olhares, agora mais cuidadosos, das
pessoas com quem convive provocam no personagem uma dúvida e, assim como um
animal encurralado, ele ataca para consumar sua própria defesa.

A direção do chileno Pablo Larraín preza por sempre capturar
os atos do personagem de uma forma crua, quase voyeur. Assim como as pessoas
com quem convive, a câmera parece ter medo do que o personagem é capaz de
fazer, alocando-se sob as sombras para fazer seu trabalho. Larraín também faz
um bom uso do silêncio do personagem, trazendo cenas onde suas palavras somente
atrapalhariam a compreensão do que está acontecendo por parte do espectador.

Adentrando ao campo das atuações, temos na interpretação do
protagonista algo que influencia muito no sucesso da obra. Alfredo Castro consegue nos propiciar uma atuação de extrema qualidade. Aqui, o ator
irá pautar-se unicamente por gestos calmos e olhares agressivos para reger sua
interpretação. Dando substância ao seu personagem, Castro ainda consegue
impactar o espectador a cada cena ultrapassada.

Tony Manero
é uma pérola do cinema chileno. Um filme que consegue, à base de verdadeiras
marteladas, questionar um senso social que ignora a subjetividade do indivíduo.
Também teremos uma crítica a um espaço de tempo, no caso a ditadura chilena da
época, que trabalha por desconstruir a tudo e a todos. No entanto, a obra alça
voos maiores, entregando um personagem cheio de facetas, que encara o mundo
como seu próprio parque de diversões. A obra de Pablo Larraín não é algo para
ser vista somente por uma vez. Aqui, o espectador tem a necessidade de
revisitar o filme várias vezes para poder captar todo o compêndio de elementos
que o rege.

Nota CI: 7,0 Nota IMDB: 6,8
Filmografia:
TONY Manero.
Direção: Pablo Larraín. 2008. 97 min.
EMBALOS de
Sábado à Noite, OS. Direção: John Badham. 1977. 118 min. Título Original: Saturday Night Fever.