No sétimo filme de sua carreira, Todd Solondz nos apresenta
uma obra mais descompromissada, cheia de exageros e pontos sem sentido,
abordando a vida errática de um indivíduo imaturo. ‘Dark Horse’ ainda traz
componentes tradicionais da filmografia do diretor, como a obsessão por
personagens estranhos ou fracassados, o lado trágico da comédia e a abordagem
simbólica para determinados encaminhamentos da história.

A trama, também escrita por Solondz, segue os passos de Abe,
um homem na faixa dos trinta anos de idade, completamente imaturo, que vive na
casa dos pais e possui um emprego (que não possui a menor capacidade de
executar) na empresa de seu pai. A história ganha sua dinâmica quando o homem
conhece uma mulher, na mesma faixa etária que ele, nutrindo um ar depressivo e
apático em seus atos, desenvolvendo um relacionamento improvável com ela.
O início do filme serve para alocar o espectador na
atmosfera que a obra pretende seguir, expondo uma trilha sonora regida por músicas
mais adolescentes, dando um panorama do que compreende a personalidade do
protagonista. E esse início trabalha por deixar evidente todas as
características da personalidade de Abe.
Abe, sempre trajando roupas espalhafatosas, possuindo um
carro chamativo, fisicamente fora de forma e nutrindo uma maneira nada
aprazível de se comunicar com outras pessoas, acaba mostrando uma ingenuidade
em seus atos. O homem comporta-se como um adolescente mimado, tendo sempre que
ser tratado com extrema cautela por seus pais, caso contrário acaba iniciando
pequenos surtos. Vale citar que tudo é regido por um senso assertivo de
comédia.
Esse senso de comédia, que propicia ao espectador uma maior
absorção das situações emanadas de cada cena, torna o filme leve. Não há aqui espaço
para fragmentos verossímeis de história, tudo é guiado levando em conta um
afrouxamento crítico de seu público. As construções de comédia são ousadas,
desafiam padrões morais do espectador, sem, no entanto, cair em armadilhas
comuns ao gênero, como a exposição demasiada de piadas repetidas ou cenas
grotescas.
Conforme avançamos sobre a trama, o filme começa a se
aprofundar cada vez mais nas desventuras do personagem. O desajuste social do
personagem, expondo sempre uma forma errática de se comportar em suas maneiras
de reger um intercâmbio social, é tratado mais pelo senso do ridículo, com
situações cada vez mais pautadas na falta de sentido, aderindo a um campo
simbólico alheio a trama, onde o homem tem conversas catárticas imaginárias com
a assistente de seu pai.
Esse uso de situações e cenas exacerbadas acaba perdendo seu
peso e tornando-se maçante em alguns pontos da reta final do filme. Reta final
que adere a lei da causa e efeito, tornando todos os atos que o personagem
dispensou em sua vida contra o aparato social e familiar esferas que voltarão
para assombrá-lo. O personagem passa por um pequeno, no entanto, doloroso
calvário, onde o filme brincará com o aspecto da tragédia na comédia.
Adentrando ao campo da direção, veremos Todd Solondz executar
um trabalho regular, guiando-se completamente por elementos concebidos durante
sua carreira. Solondz brincará com a moral social, fazendo com que cada cena
entregue algum fator de questionamento para o espectador. O diretor, diferente
de filmes anteriores, como ‘Felicidade’(1998) ou ‘A Vida Durante a
Guerra
’(2009), despreza aqui construções mais acuradas de cenas, pautando-se
por enquadramentos descuidados e pouco trabalhados, algo que não chega a
atrapalhar a experiência de assistir ao filme.
O elenco, talvez esfera mais produtiva do filme, possui
nomes como Selma Blair, Mia Farrow
e Christopher Walken. Os três atuam como componentes
secundários para o desenvolvimento da história, mas acabam tornando cada cena
mais aprazível e palatável ao espectador, valendo o destaque para a construção
estética feita para o personagem de Walken, com um penteado impagável.
Comandando o filme temos Jordan Gelber. Gelber, assim como o resto do elenco, possui uma interpretação
positiva, não fazendo nenhuma concessão na hora de se expor em um personagem
com comportamentos extremos e que beiram o ridículo.

Apesar de não
se alocar como uma das grandes obras de Todd Solondz, ‘Dark Horse’ consegue
chegar a sua proposta central de trazer uma trama leve e divertida ao público.
Um filme que não é ausente de erros, mas que entrega o prometido. A sua curta
duração (apenas 86 minutos) é outro fator que deixa o filme mais dinâmico e que
diminui eventuais inconformidades da história.
Nota CI: 6,4 Nota IMDB: 5,9
Filmografia:
DARK Horse.
Direção: Todd Solondz. 2011. 86 min.
FELICIDADE.
Direção: Todd Solondz. 1998. 134 min. Título Original: Happiness.
VIDA Durante a Guerra, A. Direção: Todd Solondz. 2009. 98
min. Título Original: Life During Wartime.