Seguindo uma atmosfera cadenciada para guiar sua obra,
Adrian Lyne traz aqui um filme ousado sobre a síntese da sexualidade humana e
suas incoerências. ‘Lolita’ traz em sua substância inúmeros conceitos, como a
noção de passado como uma estrutura enraizada no homem, a flexibilidade da
moralidade e a nocividade da obsessão, sempre prezando por expor como a vida
humana e o acaso caminham juntos.
Baseado no romance de Vladimir Nabokov, a trama se concentra em um homem de meia-idade que casa-se com a
mulher de onde alugara a casa, somente para poder ficar mais perto de sua filha
adolescente, da qual desenvolvera uma obsessão inexorável. O filme passará os
seus 137 minutos de duração investigando os diversos nuances surgidos nas vidas
desses diferentes personagens.

O início do
filme, apesar de suprimir alguns eventos das vidas dos personagens que poderiam
ser levantados, adere a um ritmo bem lento para guiar sua trama. Veremos alguns
fragmentos da infância e adolescência do personagem central, expondo seus
prazeres e ambições, e já pularemos para sua chegada a casa onde pretendia
morar, vindo a conhecer a mulher, dona da casa, chamada Charlotte, e sua filha
Dolores, uma garota no início da fase da adolescência.
Aqueles
fragmentos expostos sobre a juventude do personagem são extremamente
importantes para o prosseguimento da história. Esse passado, outrora prazeroso,
com as exacerbações das alegrias de um indivíduo, atua como uma estrutura
solidificada na construção psíquica do personagem. O homem aparenta, antes de
conhecer e substanciar sua paixão pela adolescente, viver às sombras dessas
experiências prazerosas de sua juventude. E encontra-se neste ponto o encaixe
da figura da adolescente no ressurgimento de empolgação pela vida por parte do
personagem.
Dolores acaba
fazendo o homem novamente sentir-se vivo, fazendo-o poder vislumbrar o brilho
de felicidade que tivera em um passado já distante. Em vista dessa
oportunidade, o homem acaba colocando para fora um lado mais instintual, sem se
importar com as consequências, vindo a desenvolver uma relação com a figura da
adolescente inocente. E a figura que poderia atrapalhar esse relacionamento se
constitui pela personagem de Charlotte.
Parecendo ser
ainda mais ingênua que sua filha, Charlotte se deixa levar por uma sociedade
machista, onde as mulheres sem um parceiro fixo eram vistas como uma camada
inferior do aparato social, caindo no jogo de enganações propiciadas pelo
homem. A mulher, é válido salientar, traz sempre uma sensação de repulsa para
os outros integrantes da residência (o homem e sua filha), se fazendo, em
determinado momento, ausente dos desnivelamentos ocorridos sob seu teto. E,
para tirar o objeto que impede o relacionamento do homem com a adolescente, o
acaso se faz mais atuante do que nunca na obra, evidenciando a beleza de uma
tragédia. No entanto, a ausência de Charlotte para atrapalhar, acaba possuindo
uma vertente que corrompe o homem, fazendo-o sucumbir em meio às suas pulsões
mais primitivas.
A construção
de moralidade
intrínseca ao homem, com normas e deveres impostos durante toda
sua vida para um bom convívio com seu meio, acaba nem mesmo surgindo como ponto
de questionamento para ele. Em virtude da completa devoção a figura da jovem, o
personagem simplesmente se esquece dessas construções. Em sua cabeça, naquele
momento, é absolutamente normal manter uma relação amorosa com uma adolescente,
mesmo que ele saiba que o âmbito social não possa tomar ciência disso.

Conforme
avançamos, começamos a encontrar uma maior dinamicidade no desenrolar das
situações da trama. Agora concentrado em apenas dois personagens, o filme se
preocupa em investigar a figura da degeneração psicológica inserida em ambos.
Envoltos, agora, em um estado simbiótico, Dolores e o homem adentram a uma
rotina autodestrutiva. E, neste ponto, temos a característica central do filme,
mostrando como a obsessão se engendra no personagem central.
Seu passado
empedernido, cheio de substância, e sua fase adulta insossa, fazem do agora,
junto à Dolores, o maior “espasmo” de felicidade que ele cortejara em seus
momentos na terra. Essa possibilidade deixa o personagem completamente obcecado
pela adolescente, vindo a corromper a essência da garota em prol da satisfação
de suas vontades. Essa completa obsessão, claro, acarreta em danos para todas
as partes envolvidas.
A reta final
explicita o custo de cada atitude tomada. O homem e a adolescente pagam preços
altos. O arrependimento atua unicamente por parte da adolescente, que vê como
sua ingenuidade lhe condenara. O personagem central, no entanto, jamais parece
arrepender-se por suas atitudes, desejando unicamente poder ter tirado mais
tempo na companhia da jovem.
Adentrando ao
campo da direção, teremos um trabalho positivo de Adrian Lyne, apesar de perder
o encanto concebido no início. Lyne opta, na reta inicial do filme, por trazer
planos bem trabalhados, expondo a carga dramática inserida em cada consequência
do roteiro. No entanto, conforme ganhamos dinamicidade, Lyne parece descuidar
dessa tentativa de encantar seu espectador, entregando cenas ainda bem
construídas, mas que não emitem a mesma qualidade do começo. Outro ponto positivo
para a direção de Lyne se faz por ele aproveitar bem a figura narrativa proposta
pelo roteiro (o próprio personagem central apresenta a história), sabendo dar a
ela papel preponderante para o sucesso do filme.
A trilha
sonora, também valendo o destaque, segue o bom trabalho da direção,
inserindo-se nas cenas mais intensas, servindo para dar um panorama geral sobre
a exacerbação contida em cada personagem, em especial no central. Concebida por
Ennio Morricone,
essa trilha sonora é um dos pontos altos da obra.
O elenco do
filme, composto em sua camada principal por Jeremy Irons, Dominique Swain e Melanie Griffith, consegue propiciar ao espectador
atuações competentes. Griffith, no papel de Charlotte, emana um senso de
irritação ao espectador, fazendo-nos repensar sobre a reprovação sobre o papel
de enojamento que a mulher causa a sua volta. Swain, no papel da adolescente,
exibe uma atuação mais física e pautada na camada provocadora que o filme
emite. Mas o destaque, é claro, vai para Jeremy Irons. Irons, irretocável como
sempre, pondera sua atuação no senso básico que consumou sua filmografia, com
um ar de tranquilidade emanando de seus gestos e olhares, fazendo de suas
restritas explosões em cena mais pesadas aos olhos do espectador.
‘Lolita’ não é uma obra-prima, está muito longe disso, mas
acaba se fazendo um filme interessante sobre as pulsões primitivas do ser
humano e a impossibilidade de controlá-las. Um filme que traz nomes consagrados
do cinema, todos unidos e em seu melhor para propiciar ao espectador a melhor
experiência.

Nota CI: 7,2 Nota IMDB: 6,9
Filmografia:
LOLITA. Direção: Adrian Lyne. 1997. 137 min.