No seu penúltimo trabalho à frente da direção, Bob Fosse nos
traz um filme impecável. Um musical que foge ao habitual, empregando suas
forças em construções tangíveis para cada resolução de cena. ‘O Show Deve
Continuar’ ainda mostra a deterioração física de um personagem consumido pelo
seu prazer pela vida. Obsessão, falta de limites e ciúmes são apenas alguns dos
elementos que a obra investiga, sempre se pautando por uma variação entre o
campo do real e simbólico.

O filme destrincha a vida de Joe Gideon, um famoso
coreógrafo e diretor de cinema, que, após assinar um contrato para a produção
de uma nova peça musical, encontra um emaranhado de problemas, pessoais e
profissionais, quando sua saúde física começa a se deteriorar. A trama ainda
mostrará todos os excessos de Gideon em sua rotina diária, consumindo sempre
doses altas de remédios e cigarros para manter o pique e mantendo várias
relações com mulheres diferentes. Como se tudo isso não fosse o bastante, o
homem ainda tem que lidar com sua filha adolescente e sua ex-mulher em seu dia
a dia.
A reta inicial do filme servirá para ambientar o espectador
em toda a agitação do dia a dia do personagem, mostrando sua inerente obsessão
pela figura de seu trabalho, sua admiração pelo sexo feminino e os nuances
pessoais de sua relação com a filha, prestes a adentrar a adolescência, e sua
ex-mulher, que serve como ponto de controle para ele. E é na figura dessa
agitação que o filme começa a apresentar os exageros de Gideon em relação ao
meio social.
Gideon não quer apenas ter a possibilidade de frequentar
diversos campos, como trabalho, mulher e a paternidade, ele quer sempre o
máximo que essas instâncias podem lhe oferecer. Essa “sede” pelos prazeres
mundanos faz o homem encontrar uma limitação física, que, no entanto, é
facilmente corrompida com algumas doses de remédios que mascaram seus
problemas. Problemas que são expostos ao próprio personagem pelo campo
simbólico.
Em conversas permeadas por sinceridade, Gideon conta para
uma jovem e atraente mulher suas histórias, seus prazeres e desprazeres, sempre
demonstrando total conhecimento de suas atitudes erráticas. Tudo, vale
ressaltar, amparado em uma espécie de campo onírico. A mulher com quem o
personagem compartilha sua vida, expondo fisicamente características que ele
sempre adorou, é uma representação da própria morte. O filme fará sempre esse
contraponto entre as atitudes do homem em sua rotina e suas conversas
aleatórias com essa figura da morte.
Conforme avançamos sobre a trama, veremos como Gideon opta
por queimar sua vela nas duas pontas, como dizia o verso da poetisa Edna St
Vincent Millay, não se preocupando com a longevidade de sua vida, mas, sim, por
sua intensidade. Logo, o homem começa a enfrentar as consequências de uma vida
levada sempre no extremo. O filme começa a investigar toda a degeneração de seu
aparato físico e a recusa do personagem em diminuir o ritmo.
Cada etapa da decadência de Gideon é calmamente mostrada.
Apesar dos apelos de amigos, familiares e colegas de trabalho, o homem recusa a
opção de uma vida guiada pela mediocridade. E, já na reta final da obra, sua
queda é tão intensa e brilhante quanto cada dia de sua vida. Teremos uma versão
alternativa da música ‘Bye Bye Love’ (escrita por Felice e Boudleaux Bryant e eternizada com a versão de ‘The Everly Brothers’),
sincronizando um dos momentos em musicais mais célebres da história do cinema.
Adentrando ao campo da direção, veremos um trabalho
primoroso de Bob Fosse. Fosse escolhe sempre pela cautela ao captar cada cena,
preservando cada detalhe que venha a ser importante para o espectador entender
o que rege o personagem e o mundo ao seu redor. Ponto que revela todo esse
cuidado é a repetição intermitente, sempre com ângulos difusos em cada
fragmento, mostrando o processo de Gideon para “ganhar” a motivação para sua
rotina, e, assim como outros grandes diretores costumam fazer, como, por exemplo,
Michael Haneke, Quentin Tarantino e Martin Scorsese, Fosse dá vida para objetos
da composição de cenário, merecendo, alguns deles, planos focados completamente
em si. Outro fator positivo da direção é saber tatear entre o campo real e
simbólico, jamais trazendo confusão e ambientando o espectador em cada
alteração.
O elenco do filme também emite um show à parte. Temos Jessica Lange, Leland Palmer e Ann Reinking nos papéis
centrais das mulheres que afetam a vida de Gideon. Palmer e Reinking embasam
suas interpretações mais em construções propriamente físicas, já que ambas
passam algum tempo fazendo performances em tela. Lange, no entanto, tem uma
personagem (a representação da morte) mais estática, se guiando sempre por uma
simplicidade em seus gestos e falas, conforme o roteiro determina. No papel de
protagonista, vamos ter o fantástico Roy Scheider. Scheider
nos entrega aqui a melhor atuação de sua carreira, regendo seu tempo em tela
por uma intensidade intrínseca à sua interpretação.
‘O Show Deve Continuar’, sem
dúvidas, se aloca entre os maiores musicais já feitos no cinema. Um filme que
sabe dar substância aos personagens investigados sem se fazer pesado demais em
seus desnivelamentos. São 123 minutos guiados por um ritmo único e extremamente
prazeroso, sem jamais perder em dinamicidade.
Nota CI: 7,6 Nota IMDB: 7,8
Filmografia:

SHOW Deve Continuar, O. Direção:
Bob Fosse. 1979. 123 min. Título Original: All That Jazz.