No filme mais popular de sua carreira, Rob Zombie entrega ao
espectador uma história interessante sobre alguns fragmentos das vidas de uma
família de serial killers. Alocando-se mais no gênero de ação e crime do que,
propriamente, no terror, o filme, apesar da superficialidade de algumas partes
do roteiro, acaba elevando conceitos interessantes, como a noção de violência
como algo natural na vida humana, o homem visto como algo primitivo, o senso de
humanização de personagens erráticos e ainda teremos os limites morais do
espectador sendo testados. ‘Rejeitados Pelo Diabo’, que bebe muito da fonte de
alguns ícones do gênero da década de 1990, acaba se fazendo um bom filme.
Servindo de sequência para o filme ‘A Casa dos 1000
Corpos
’(2003), a trama nos traz os membros de uma família de serial killers
que, após serem descobertos pela polícia, iniciam uma fuga incessante, saindo
da residência onde fizeram várias vítimas. O filme concentra os seus 107
minutos de duração explorando os passos de alguns membros dessa família na
tentativa de manter suas liberdades, mesmo que tenham que exterminar qualquer
coisa que veem pela frente.
O filme inicia com a proposta de ambientar o espectador
sobre sua dinâmica. Aqui, veremos sempre a utilização de uma atmosfera
movimentada para seguir cada conflito da trama. Assim como seus personagens, o
filme tenta emanar a cada cena uma loucura e incongruência acerca de cada
decisão. E, logo de início, teremos uma obra que não esconde seu material fonte
para guiar a história.
Seguiremos muito do que ‘Um Drink no Inferno’ utilizou quase
dez anos antes, evidenciando uma atmosfera bastante quente, um humor latente em
cada cena mais exacerbada, mesmo que essa tenha um grau de violência demasiado,
e explorando a ingenuidade das partes inseridas, seja as vítimas ou, até mesmo,
os criminosos. No entanto, o grande material utilizado aqui é o de ‘Assassinos
Por Natureza
’. Rob Zombie utiliza-se de praticamente tudo o que Oliver Stone se
valeu em seu filme. Personagens espalhafatosos, a utilização do cerco midiático
para ambientar o espectador sobre a história dos envolvidos, a utilização de
planos frenéticos, o senso quase documental e a figura de um contraponto que
deseja, a qualquer custo, encerrar a trilha de sangue dos bandidos são
idênticas às concebidas por Stone em seu filme. Vale, no entanto, ressaltar que
essa quase cópia do material do filme de Oliver Stone passa longe de ser algo
prejudicial.
Toda a violência em demasia trazida pelo filme a cada cena
acaba servindo para impregnar o tema como algo natural e banal para os
envolvidos. Tão comum quanto ir a um restaurante ou fazer um compra num
supermercado, aqui a violência adentra ao campo da simplicidade ou, até mesmo,
da necessidade de ser empreendida para a sobrevivência do indivíduo, expondo
uma visão arcaica de homem. Em seu estado mais primitivo, ausente de qualquer
aparato social, o ser humano é visto como um animal em sua síntese, reagindo de
forma exacerbada a qualquer estímulo minimamente desconhecido, sempre amparado
em comportamentos conhecidos.
Existe, também, uma provocação emitida pelo filme ao
espectador, questionando até onde vão os seus limites morais para cada
desnivelamento da trama. Em cenas pesadas, seja na questão gráfica ou, propriamente,
por seu conteúdo implícito, o filme, sempre atenuando cada situação com o uso
do lado cômico, investiga as construções morais e éticas tidas por seu público.
Conforme avançamos, as resoluções do roteiro acabam ficando
cada vez mais simples e previsíveis. Já na reta final, temos o conceito de
vingança desmembrado. Os personagens acabam trocando de lugar, mesmo que seja
por poucos minutos, dando uma falsa e forçada sensação de justiça a indivíduos
antes subjugados. Claro que essa vingança explorada é efêmera e logo as
posições na trama voltam para o seu habitual.
Adentrando ao campo da direção, Rob Zombie apresenta um
trabalho mediano, pecando, às vezes, em construções rasas de algumas cenas onde
uma maior habilidade é requerida. O diretor também opta pela utilização de
planos onde os personagens são capturados de uma maneira extremamente próxima,
promovendo tomadas quase documentais (como já citado antes). Zombie tem o
auxílio de uma fotografia positiva (trabalho de Phil Parmet),
utilizando cores quentes, evidenciando a aura escaldante que rege aquele lugar,
e dando um panorama mais bizarro para cada personagem, com enquadramentos pouco
usuais.
O elenco do
filme está surpreendentemente bem, consumando-se como algo fundamental para o
sucesso de cada fragmento de cena. Temos Sid Haig,
Bill Moseley, Sheri Moon Zombie e William Forsythe nos papéis centrais, conseguindo
transmitir ao espectador todo o ar de loucura que rege o filme. Todos entregam
atuações exageradas, sempre gritando e gesticulando de forma intensa em cada
cena, dando um panorama da personalidade de cada personagem e de suas
motivações.
‘Rejeitados
Pelo Diabo’, mesmo com algumas limitações do roteiro e direção, é, de fato, um
bom filme. Apesar de elencar vários conceitos interessantes ao decorrer de sua
história, Rob Zombie jamais tenta levar o filme a sério, dando leveza às cenas
extremamente pesadas com o uso do humor. O filme termina, em sua cena
derradeira, com a execução da música “Free Bird”, criando um senso de
humanidade em personagens até então vistos como monstros, consumando todas as
ideias propostas durante todo o seu enredo.
Nota CI: 6,7 Nota IMDB: 6,9
Filmografia:
REJEITADOS
Pelo Diabo. Direção: Rob Zombie. 2005. 107 min. Título Original: The
Devil’s Rejects.
CASA dos 1000 Corpos, A. Direção: Rob Zombie. 2003. 89 min.
Título Original: House of 1000 Corpses.
DRINK no Inferno, UM. Direção: Robert Rodriguez. 1996. 108 min. Título Original: From Dusk Till Dawn.

ASSASSINOS Por Natureza. Direção: Oliver Stone. 1994. 118
min. Título Original: Natural Born Killers.