Contando sobre as exacerbações humanas mediante a vida,
‘Touro Indomável’ mostra a jornada de um personagem errático em seu dia a dia.
Relacionamentos sociais, pessoais e familiares são destrinchados, sempre com o
intuito de evidenciar o processo autodestrutivo inexorável ao qual está
submetido esse indivíduo. Uma obra-prima do cinema proposta por Martin Scorsese
que, ainda, entrega uma das maiores atuações já vistas por parte do ator Robert
De Niro.


Baseado na vida do boxeador Jake LaMotta, a trama traz ao
espectador vários fragmentos da jornada de um homem envolto em uma rotina de
comportamentos intensos e destrutivos. Ao ponto que consegue transbordar toda a
violência inerente à sua espécie para dentro dos ringues, obtendo sucesso e
vindo a tornar-se um dos maiores de sua época, o homem acaba vindo a sofrer os
efeitos colaterais disso em sua vida privada. Passaremos 129 minutos
acompanhando o processo degenerativo de Jake LaMotta, seus maiores prazeres e,
claro, sua inevitável ruína.
O filme inicia com uma abertura, com a música Intermezzo, de
Pietro Mascagni, mostrando toda a beleza que emana do boxe, com o homem
aparentemente se aquecendo em um ringue, fazendo o contraponto com o
comportamento extremo do personagem. Essa cena inicial, concebida com extrema
felicidade, serve para nos ambientarmos nas duas vertentes que regem a vida de
LaMotta.
Bastante dinâmico em seu ritmo, o filme consegue, desde seu
começo, substanciar uma grande parte da vida do personagem sem tornar-se longo
ou insosso. Cada cena tem a sua importância para a montagem do quebra-cabeça
sobre as atitudes do homem. E amparando-se nessa dinamicidade, começamos a ter
um panorama inicial sobre os desnivelamentos que o filme pretende aderir.
LaMotta segue, mesmo antes de ganhar evidência em sua
carreira no boxe, um padrão de comportamentos lesivos, seja para seu âmbito
familiar, como seu irmão e sua esposa, ou para si próprio, impedindo de obter
todos os avanços que seu talento lhe propiciara. Irascível, LaMotta se nega a
promover um intercâmbio social que, possivelmente, lhe ajudaria em sua trajetória
profissional, optando por escoltar-se em suas próprias forças, fazendo-se um
ser solitário e errante. Aqui, a única força que o homem permite que faça
alterações em sua vida é a de seu irmão.
Seu irmão serve como freio social para suas atitudes extremas.
Assim como um animal irracional, LaMotta é guiado por seu irmão em todas as
esferas de sua vida. No âmbito profissional, esse irmão vai gerenciar sua
carreira, escolhendo rivais e trabalhando nos bastidores para LaMotta conseguir
a oportunidade de disputar o cinturão de sua categoria. Já no âmbito pessoal,
esse irmão vai ser responsável por simplesmente tudo que o homem faz, servindo
para ponte, por exemplo, para LaMotta conhecer a segunda esposa exposta no
filme. No entanto, conforme avançamos pela vida do boxeador, veremos uma
degeneração de sua essência já errante.

Conforme os anos avançam, os comportamentos do homem em
relação ao seu meio vão ficando cada vez piores, mais extremos, provocando-lhe
mais sofrimento. LaMotta chega ao degrau mais alto de sua carreira,
conquistando o cinturão tão sonhado. Mas nem isso é capaz de atenuar sua
derrocada. Muito pelo contrário, faz o homem afundar ainda mais. Nada é capaz
de suprir suas necessidades, seu humor fica cada vez mais instável. E,
amparando-nos na figura desse processo degenerativo, as atitudes do homem
promovem a perda da única instância de sua vida que ainda impedia seu completo
declínio: seu irmão.
Movido, aparentemente, por amor à figura de LaMotta, esse
irmão segue seus passos no mundo unicamente visando o bem-estar do personagem.
Uma espécie de processo simbiótico entre os dois é trazida ao espectador
durante boa parte do filme. No entanto, a raiva, obsessão e paranoia do homem
acabam fazendo desse irmão um ponto de suspeita, servindo para corromper a
única coisa realmente positiva construída em sua vida.
A reta final do filme somente explicita as consequências de
uma vida guiada sempre no limite. Mas, veremos também, que a figura da
maturidade acaba atingindo o homem em certa etapa, fazendo-o recobrar
experiências passadas e reconhecer os erros que permearam sua vida. O tempo,
que também lhe retirara o boxe, dá a LaMotta uma nova vida, essa muito menos
grandiosa do que em outrora, que, no entanto, pode lhe oferecer uma “calma de
espírito” jamais alcançada antes.
Adentrando ao campo da direção, veremos Martin Scorsese
entregar um dos melhores trabalhos de sua carreira. Aqui, Scorsese opta por nos
colocar sempre no cerne da essência do personagem, transpondo, em cada cena, uma
aura exacerbada que atua sobre ele. Cada plano do filme expõe uma devoção
inerente ao personagem central. A fotografia de Michael
Chapman, simplesmente irretocável,
também ajuda a dar substância à proposta de Scorsese e do roteiro.
No elenco, com Robert De Niro e Joe Pesci
encabeçando o filme, teremos atuações soberbas. Ambos estão fantásticos,
conseguindo, com interpretações intensas, causar completamente a imersão do
espectador. Porém, apesar do destaque para ambos, é De Niro quem, certamente,
mais se destaca. Sua intensidade passa longe de ser apenas no campo dos
diálogos, promovendo uma atuação bastante física, inclusive, provocando
alterações consideráveis em seu corpo (algo bastante comum na filmografia do
ator) para viver todas as etapas do personagem.
Obra-prima, ‘Touro Indomável’ expõe o que há de melhor na
carreira de seu diretor. Um filme, em sua síntese, sobre o eterno processo de
mudança ao qual o ser humano e o mundo estão, inexoravelmente, inseridos. Aqui,
vários são os momentos brilhantes de cenas que ficam para a história do cinema,
mas vale destacar o fragmento final, com o personagem central, diante de um
espelho, recitando frases do clássico “Sindicato de Ladrões” (1954),
explicitando todas as angústias vividas por ele naquele momento.

Nota CI: 8,5 Nota IMDB: 8,2
Filmografia:
TOURO Indomável. Direção: Martin Scorsese. 1980. 129 min.
Título Original: Raging Bull.
SINDICATO de Ladrões. Direção: Elia Kazan. 1954. 108 min.
Título Original: On the Waterfront.