Explorando diversos períodos da vida de um indivíduo,
Moonlight’ destrincha valores sociais erráticos, o preconceito impregnado em
uma sociedade norte-americana e os caminhos trilhados pela espécie humana em meio
a um mundo exacerbado. O filme ainda nos traz uma direção irretocável de Barry
Jenkins
, um roteiro bem trabalhado, uma fotografia positiva e ótimas atuações
de seu eixo central.
A trama adentra em três períodos distintos da vida de
Chiron
, mostrando desde o final de sua infância até o início de sua vida
adulta, expondo os nuances de sua jornada, seus prazeres e suas dores. Os 111
minutos de duração do filme vão trabalhar na construção do personagem, fazendo
sempre o contraponto com o âmbito social que acaba servindo para atrapalhar o
pleno desenvolvimento do indivíduo.

Os desnivelamentos iniciais do filme são muito cadenciados, focando mais na exposição da beleza nas construções das cenas do
que, propriamente, na história em si. Aqui, tudo é concebido de forma bastante
trabalhada. Cada plano tem como foco fazer com que o espectador se sinta
completamente atraído pela atmosfera do filme.
Conforme avançamos pela história, o filme começa a entregar
os caminhos da trama, mostrando as características da personalidade do personagem
central, sem que, no entanto, o todo seja subjugado, trabalhando por trazer,
também, como o ambiente ao seu redor é constituído. Logo, com essas pequenas
introduções de maior substância para a história, é possível verificar como o
ambiente acaba atuando de maneira corrosiva ao indivíduo (falando de uma
maneira geral, não apenas no personagem). Preconceito, drogas e o espírito
social (bem como suas construções através do tempo) são alguns dos elementos
problemáticos introduzidos pelo filme.
Vale citar a decisão do filme de fragmentar a história em
três partes, na qual cada uma irá trazer uma parte da juventude do personagem,
sempre optando por um ator diferente para viver os períodos. Essa fragmentação
atua de forma única na experiência do espectador ao captar o filme e gera a
substância “deveniente” do personagem explicitada pela simples troca de nomes
para reconhecê-lo.
O personagem é tratado como Chiron na primeira história,
Little na segunda e Black na terceira. O fator que propicia toda a substância
para as três frentes é o fato do roteiro não se prender na tentativa de expor
cada detalhe da vida do jovem. Aqui, muito é deixado para o campo perceptivo do
espectador. É exatamente o espectador que termina as construções para cada
história, cada situação enfrentada. Essa decisão deixa o filme mais dinâmico e
aprazível.

É importante nos introduzirmos aos temas que o filme
trabalha. Exposto na figura da homossexualidade do personagem, há um estudo
sobre os caminhos do preconceito e suas mais diversas formas de atingir o
indivíduo. São estudados, também, os rumos aleatórios de uma vida, como dito
anteriormente. Mas o ponto chave são os questionamentos sobre como um indivíduo
se desenvolve em uma concepção social tradicional. Aqui, toda aquela camada
sobre estigmas está presente. O indivíduo de determinada parte social da
sociedade será, ao passo que sua vida se desenvolve, levado a agir exatamente
da mesma forma que os diversos estigmas apontam. Algo que torna a questão bem
evidente e mais simples de ser entendida se aloca na profissão escolhida pelo
personagem central no início de sua vida adulta. A subjetividade do ser humano
é completamente ignorada.
Os desfechos da obra somente vão se aprofundar no que o
resto do filme já mostrou antes. Não há espaços para surpresas ou reviravoltas.
Tudo acontece da forma mais clara e simples. O que sobra é campo para o
espectador ponderar sobre o futuro do personagem, seus caminhos possíveis e eventuais instâncias transformadoras. No entanto, a verdade é que, pautado em
uma visão realista, os trajetos do personagem talvez não seja os mais
satisfatórios, os mais assertivos. Porém, como o filme expôs em todo o resto,
fica a encargo do espectador definir os rumos da trama após a subida dos
créditos.
Caminhando para o campo da direção, veremos Barry Jenkins
executar um belo trabalho. O diretor vai se utilizar muito da beleza natural
dos ambientes onde a trama se desenvolve para dar substância às suas cenas.
Sempre com o auxílio da fotografia excelente de James Laxton, norteada por tons
quentes e enquadramentos precisos, o filme foca em planos que evidenciem as
feições dos personagens ou, em camadas mais abertas, no ambiente como ponto
secundário para os personagens.
Em relação às atuações, teremos espaço para vários atores
consumarem posições importantes para o filme. Naomie Harris, como a mãe do
protagonista, tem uma atuação exacerbada, mostrando os efeitos que as drogas
podem ter no aparato emocional de uma pessoa. Vivendo o personagem central,
vamos ter três atores. Ashton Sanders, Alex R. Hibbert e Trevante Rhodes acabam
tendo atuações bastante similares, todas ótimas. No entanto, quem mais se
destaca é Sanders, na segunda parte da história, trazendo a jornada mais
intensa da vida do personagem. Mas, sem dúvidas, o destaque do filme vai para a
curta atuação de Mahershala Ali. É Ali o pilar onde o filme pode conduzir sua
história. O ator consegue, sempre com uma atuação calma e simples, expor um
personagem experiente na tentativa de passar algo produtivo para uma geração em
desenvolvimento, refletida em Chiron.
Moonlight’ acaba não se caracterizando como uma obra-prima,
mas toda a densidade de sua trama, a qualidade do roteiro, direção e atuações
elevam o filme em relação a outras obras. Um filme que não precisa de uma
enorme duração para consumar a efetividade dos temas mostrados. Obra sobre a
vida, a inexorabilidade da mudança e sobre a luta entre forças presentes no
mundo.

Nota CI: 7,3 Nota IMDB: 7,5
Filmografia:
MOONLIGHT. Direção: Barry Jenkins. 2016. 111 min.