Construindo
uma comédia sobre os laços matrimoniais e seus eventuais problemas, Billy
Wilder
nos entrega um filme leve e dinâmico que cumpre sua proposta. Longe de
alocar-se entre as grandes obras do diretor, ‘O Pecado Mora ao Lado’, no
entanto, traz o que há de mais comum na filmografia de Wilder, trabalhando com
ambientes limitados, personagens erráticos e a figura feminina como força
propulsora para as atitudes emanadas da trama.
A história
do filme se concentra no período de férias de uma família tradicional americana.
Neste período, Richard Sherman decide não viajar com sua família, tendo como
desculpas seu trabalho, ficando sozinho em sua casa enquanto sua mulher e filho
curtem o período de calor. A trama do filme ganha sua força quando Sherman
acaba por conhecer uma jovem e atraente vizinha, dando início a uma batalha
pela preservação de sua fidelidade ao casamento.

O início da
trama apresenta uma figura narrativa, presente somente neste começo, que
trabalhará por alocar o espectador nos nuances da história. Essa figura de um
narrador poupa tempo para o filme, conseguindo rapidamente e de forma
bem-sucedida nos introduzir todos os personagens centrais, assim como o
ambiente onde a obra se desenvolverá.
Apesar da
velocidade concebida pelo narrador na história, logo após esse fragmento, o
filme perde sua dinamicidade, explorando lentamente seus personagens e
situações. Aqui, teremos toda a síntese do comportamento de Sherman, tateando
sobre seus prazeres e dúvidas. E encontra-se neste momento o ponto mais fraco
de todo o filme.
Existe uma
deslocação do centro da história, na qual o filme passa a utilizar construções
fictícias da cabeça do personagem central, cenas ilusórias, tentando evidenciar toda a densidade do pensamento do homem e a importância de cada decisão
tomada por ele. O problema é que esse recurso acaba se tornando muito
repetitivo, ficando maçante para o espectador.
No entanto,
conforme avançamos sobre a trama, esses recursos acabam ficando cada vez menores,
se encaixando na história e passando, até mesmo, a fazerem-se divertidos. E,
por intermédio desses recursos e pelo modo confuso de agir do personagem, o
filme traz a constituição moral impregnada na sociedade americana do século XX.

O conceito
central de moralidade no personagem aparece desde questões pequenas, como
fumar ou não um cigarro, ou em maiores, como a possibilidade de trair sua
esposa. Veremos como o homem age abaixo desses preceitos básicos impostos pelo
âmbito social, sendo completamente conduzido por eles, internalizando seus
próprios desejos e decisões.
A reta final
continua o bom prosseguimento da obra. Piadas e situações cômicas acabam por
cumprir seu objetivo. Teremos os eventuais clichês de obras da época seguidos à
risca, sem, no entanto, significar algo ruim para o filme. Tudo regido pela
forma simples e leve mencionada acima.
Entrando ao
campo da direção, veremos Billy Wilder conduzir um trabalho extremamente
produtivo. O diretor, assim como em outros filmes de sua carreira, como ‘Se Meu
Apartamento Falasse
’(1960) e ‘Cupido Não tem Bandeira’(1961), por exemplo,
utiliza poucos ambientes para reger a história. Aqui, toda a camada substancial
do filme acontece no apartamento de Richard Sherman. Poucas são as cenas fora
deste ambiente. Neste apartamento, Wilder consegue fazer com que o filme não
fique insosso, sabendo sempre alternar na construção de seus planos, jamais
ficando preso por muito tempo em alguma esfera do cenário.
No elenco,
comandado por Marilyn Monroe e Tom Ewell, veremos uma parceria positiva. Tanto
Ewell quanto Monroe conseguem entregar atuações de qualidade e entreter o
espectador nas cenas mais importantes do filme. Todo o resto do elenco acaba
tendo posições muito pequenas na trama, não simbolizando o bastante para se
destacarem de forma positiva ou negativa.
O Pecado
Mora ao Lado
’ consegue trazer uma qualidade a qual estamos acostumados quando
falamos no nome de Billy Wilder. Um filme que consegue combinar boas situações
de humor com uma visão acerca da sociedade americana da época. Até mesmo os
erros do filme acabam sendo sobrepujados no decorrer da trama. Não adentra aos
melhores filmes do diretor, como falamos no começo, mas, sem dúvidas, merece um
lugar de destaque na enorme filmografia do cineasta.

Nota CI: 6,9 Nota IMDB: 7,2
Filmografia:
PECADO Mora
ao Lado, O. Direção: Billy Wilder. 1955. 105 min. Título
Original: The Seven Year Itch.
SE Meu Apartamento Falasse. Direção: Billy Wilder.
1960. 125 min. Título Original: The Apartment.
CUPIDO Não Tem Bandeira. Direção: Billy Wilder. 1961.
115 min. Título Original: One, Two, Three.