Propondo uma atmosfera fria e misteriosa para o desenrolar
da trama contada, Ole Christian Madsen traz um filme cruel e sem concessões
sobre a derrocada às ruínas de um casal. ‘Praga’ fará o paralelo de espectros
do passado que ganham vida para atormentar os personagens, trabalhará por
desconstruir conceitos trilhados cena após cena e tateará sob os meandros que
tangem um casamento. O filme ainda entrega atuações precisas e positivas que
tornam a experiência de assisti-lo muito mais aprazível e substancial.

A trama se
desenvolve na viagem a Praga de Christoffer e Maja, um casal na faixa dos trinta anos de
idade, que devem buscar no local o corpo do pai falecido de um deles
(Christoffer) e levá-lo de volta para a Dinamarca. Após chegarem ao local e
ficar ciente das obrigações necessárias para levar o corpo para a Dinamarca, o
casal sofrerá com a eclosão de segredos que abalarão as estruturas de seu
casamento e fará ambos questionarem tudo aquilo que tinham como certo em suas
vidas.
O início do filme é lento, bastante cadenciado, explorando o
dia a dia do casal logo após chegarem a Praga. Vamos nos concentrar em seus
hábitos e costumes, tudo de uma maneira superficial, a fim de podermos
compreender todos os nuances que regem os comportamentos dos dois quando
juntos. E toda essa abordagem inicial é conduzida abaixo de uma atmosfera fria
proposta.
Tudo aqui é construído para expor o distanciamento entre os
dois personagens e, até mesmo, fazer o espectador se sentir alheio ao que está
acontecendo. A atmosfera fria, o ritmo cadenciado de contar a história e a
falta da apresentação de sentimentos reais pelos personagens são pontos
centrais para tudo o que a obra irá trazer em seus desnivelamentos. E é aqui
que o filme desconstrói todos os parâmetros explicitados em seu começo para
elevar uma realidade muito mais dura sobre a síntese dos personagens, em
especial do homem.
As máscaras construídas pelo filme são destruídas. Traições
são descobertas pelo homem, fazendo o casal quebrar com o padrão de
superficialidade outrora tanto repetido. Em contraponto com a descoberta dos
segredos de sua esposa, o homem ainda tem que lidar com a eclosão de memórias
de um passado doído sobre seu pai por tanto tempo ausente de sua vida. Esse
passado age por desorientar o personagem, fazendo-o agir de forma confusa e sem
coerência.
A figura de seu casamento em ruínas e as lembranças de seu
pai, acabam sofrendo um processo simbiótico aos olhos do personagem. Nada em
sua vida se mantém intocável. Tudo aqui é desconstruído. Acusações são feitas,
comportamentos são recriminados e as esferas que ainda seguram o casal juntos
são rompidas. Tudo isso com a figura de Praga ao fundo.

Aqui, é importante fazermos um paralelo dos rumos do filme,
muito parecidos com os construídos décadas antes, no perturbador ‘Possessão’(1981).
Os trajetos dos personagens, a atmosfera fria e inóspita proposta pelo filme, a
degeneração latente do aparato psicológico dos envolvidos e a figura inexorável
do matrimônio são idênticas em ambos os filmes. A diferença aqui é a de ‘Praga’
seguir uma linha mais aprazível, seja gráfica ou, propriamente, na forma do
roteiro, enquanto ‘Possessão’ adere às formas mais exacerbadas de conduzir sua
história.
A reta final do filme evidencia como o homem segue
demonstrando um comportamento distante em meio a tudo, frio, mesmo quando
defrontado com situações extremas. Ele opta por internalizar qualquer forma de
sentimento, jamais exteriorizando suas emoções. Em contrapartida, a mulher,
agora não tão destacada na trama, segue um padrão mais abrangente acerca de
seus sentimentos, onde acusa o marido, justamente, de ser ausente no passado.
Não temos concessões. Aqui não há sinais de melhora para ambos em nenhum
momento da obra, mesmo em seu final, explicitando como certas estruturas de
nossa personalidade são, simplesmente, inexoráveis.
Adentrando ao campo da direção, teremos um excelente
trabalho efetuado por Ole Christian Madsen. O dinamarquês faz questão de
utilizar o clima atmosférico, seja o da própria cidade ou o proposto pelo
filme, para dar dinamicidade à obra. Como dito antes, o começo é cadenciado,
lento, porém sem jamais se tornar insosso ao espectador. Conforme há a
separação e destruição de parte da trama, aí, sim, ganharemos a dinamicidade
trilhada pelo diretor. Os planos utilizados são sempre duros, conseguindo expor
o compêndio de exacerbações que rege os personagens. E, claro, é aqui que
vislumbramos a importância da camada central do elenco para o sucesso do filme.
Teremos Mads Mikkelsen e Stine Stengade à frente da camada
frontal de personagens. Stengade, interpretando a personagem de Maja, segue um
padrão único de atuação, promovendo sempre a exposição da densidade das
situações enfrentadas ao espectador. Já Mikkelsen nos propicia uma atuação
simplesmente fantástica. O ator, ajudado com os recorrentes planos fechados,
focando em suas expressões diante de determinadas situações, evidencia todo o
sentimento de confusão que rege seu personagem, se fazendo sempre alheio ao que
acontece e nutrindo incertezas em seus comportamentos.
Praga’ acaba, de fato, se fazendo uma ótima opção no
prolífero cinema dinamarquês. Um filme denso, que nutre como síntese de sua
atmosfera a emanação de mistério acerca de seus desnivelamentos, expondo toda
uma forma errática de agir de duas pessoas atingidas de forma danosa pela
simples passagem do tempo. Apesar de curto (apenas 92 minutos de duração), o
filme consegue trazer ao espectador uma trama concisa, ausente de clichês do
gênero e um cerco de atuações impecáveis.

Nota CI: 7,1 Nota IMDB: 6,8
Filmografia:
PRAGA. Direção: Ole Christian Madsen. 2006. 92 min. Título
Original: Prag.
POSSESSÃO. Direção: Andrzej Zulawski. 1981. 124 min. Título
Original: Possession.