Promovendo uma
trama permeada de mistérios e reviravoltas, Fritz Lang traz aqui um filme
regular, com alguns equívocos em seus direcionamentos, mas que trabalha com o
que há de mais positivo no gênero “noir”. ‘Um Retrato de Mulher’ misturará
romance, mistério e traição em uma história sobre o poder corruptivo de uma
femme fatale” na vida das pessoas ao seu redor.
Baseado no
romance de J. H. Wallis, a trama do filme se aloca na vida de um professor de
meia-idade, calmo e comedido em seu comportamento, que, em uma noite comum,
acaba por conhecer uma bela mulher, desenvolvendo uma atração rápida e
inexorável em sua figura. A história ganha sua força quando o professor é
envolvido em uma morte de um dos amantes da mulher, desnivelando consequências
irreversíveis em sua vida.

A reta
inicial do filme promove levemente uma aura de mistério acerca dos atos do
personagem central. Sempre de forma sutil, a trama opta por fazer esse
intercâmbio entre o romance e o mistério. Não fica exatamente claro os rumos
que o filme seguirá neste começo. Não sabemos se seguiremos o âmbito do romance
do professor com a atraente mulher que conheceu pelo simples acaso ou se
entraremos no campo do mistério.
No entanto,
conforme avançamos pela reta inicial da história, o filme rompe com esse
indefinição, nos apresentando os componentes que irão fazer a trama se alocar
completamente na aura misteriosa sobre tudo, elevando traições, mentiras,
mortes e, claro, toda a inocência contida a priori no personagem central.
O filme
sempre se move de forma cadenciada. Aqui, jamais teremos uma carga demasiada de
acontecimentos da trama eclodindo ao mesmo tempo. Tudo é muito calmo,
procurando destrinchar todo o compêndio comportamental dos personagens. Porém,
é neste ponto que se encontra o maior erro do filme.
Essa decisão
de levar a obra de forma lenta, tentando esmiuçar todos os nuances da trama,
acaba não se fazendo produtiva. O fracasso da tentativa se aloca no roteiro
superficial (adaptado por Nunnaly Johnson), que não consegue trazer a densidade
necessária aos personagens e situações. O erro acaba retirando muito do brilho
tradicional de um filme noir, limitando os desfechos da reta final.

Conforme nos
encaminhamos para a camada final da obra, ganharemos uma leve dose de
velocidade na forma de concluir determinadas situações. Passaremos a acompanhar
de forma mais abrangente todo o jogo de gato e rato trazidos, no qual todas as
decisões param sempre nos tradicionais clichês do gênero. A novidade aqui se
aloca nos trechos finais ousados, trabalhando por desconstruir toda a trama,
conseguindo surpreender o espectador.
A direção do
filme, conduzida por Fritz Lang, é positiva, conseguindo caminhar sobre vários
campos sem se fazer maçante. Lang, mesmo não dispensando uma qualidade
semelhante aos seus melhores trabalhos, apresenta um ótimo trabalho ao captar
as incertezas de seu protagonista, sabendo se aproveitar do talento do ator que
comanda o filme.
O ator
Edward G. Robinson comanda o filme. Robinson, sempre fazendo uso de olhares e
gestos calmos, além da forma comedida de se locomover pelos ambientes, entrega
uma atuação que eleva a qualidade da obra. Ao seu lado, interpretando a “femme
fatale”, temos Joan Bennett, que também consegue nos proporcionar uma boa atuação,
mesmo não chegando próxima ao nível de Robinson.
Não ausente
de erros, ‘Um Retrato de Mulher’ se notabiliza como um filme comum em seu
gênero. E isso é o bastante para que o filme seja recomendado. O que, sem
dúvidas, destaca o filme dos demais é o seu final pouco usual e ousado. Além
desses elementos, o filme também é a oportunidade de ter acesso a mais um
pequeno fragmento da filmografia do ótimo Fritz Lang.

Nota CI: 6,3 Nota IMDB: 7,8
Filmografia:

RETRATO de
Mulher, Um. Direção: Fritz Lang. 1944. 107 min. Título Original: The Woman in
the Window.